“Maggie Maggie Maggie, dead dead dead”. Não ainda.

Chego em casa após vir de um pub do centro de Leicester (Inglaterra), mais cheio do que o de costume. Na verdade, não é o pub que costumo frequentar, mas o que fui uma vez e que me pareceu mais pé-sujo, ou, nos termos dos colegas que me acompanhavam então: “working class indeed!” (“classe trabalhadora, de fato!”). Tomei rumos incomuns para chegar até ele, para testemunhar o que eu esperava ver e de fato aconteceu: um pub anormalmente cheio para uma segunda-feira. E os frequentadores do Shakespeare’s Head comentavam a morte mais famosa da semana: a ex-primeira ministra britânica Margareth Thatcher. Não vi nenhum elogio sequer à defunta, apenas os seus contrários.

Fico genuinamente feliz de ver a rejeição popular àquela que é a cabeça do projeto neoliberal por aqui. E Leicester está longe de ser um grande pólo ou historicamente conhecida pela revolta contra o que vem da parte nobre do sul da ilha – como é o caso de Brixton (seja à época de Thatcher, com suas duas revoltas , seja nas últimas explosões de 2011) ou do Norte (tanto a Escócia quanto Liverpool). O dominio de Londres encontra resistência tanto no interior da própria cidade quanto fora dela, mais especificamene no Norte, principalmente porque grande parte do orçamento é aplicado na capital. Como o mapa mostra, a onda de saques e revoltas de 2011 só atingiu Leicester no quarto dos cinco dias.

A torcida do Liverpool demonstrando todo o carinho do norte pela finada.

Este texto não tem a intenção de comemorar a morte da ex-primeira ministra. O único potencial avanço político significativo que a mesma conseguiu foi ter sido a primeira e única mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra britânica, e também a primeira mulher a ser líder de um partido político de grande expressão  (isso pode parecer coisa pequena, mas os xingamentos de caráter claramente sexista que têm imperado demonstram que não). Um avanço apenas potencial, entretanto. A época de Thatcher foi seguida de uma era de privatizações que marcou os anos 80 britânicos (e que chegaram ao Brasil nos anos 90). No início de seu primeiro mandato, a popularidade da Primeira Ministra estava longe de ser alta, principalmente pela recessão e alto desemprego, resultados diretos de suas políticas econômicas. O cenário de apoio mudou a partir da Guerra das Malvinas.

Quando posicionamento politico se torna turistico.

Quando posicionamento politico se torna turistico.

Repito, contudo, que a intenção do texto não é celebrar o óbito de Thatcher.  Afinal, política séria não é personalizada. Oposição e apoio devem ser políticos. A morte de Thatcher é a morte de uma velhinha, pelo desgaste de seu corpo. Não se tratou de uma revolução que tornou o Reino Unido auto-gestionado e cuja efervescência agora se espalha pelo mundo.  Uma velhinha que vilipendiou e mutilou direitos de trabalhadores, decerto, mas uma senhora que é líder de um movimento que não se esgotou e não se esgotará com seu corpo. Se sua obra e seu legado vivem, são eles que temos que combater politicamente. Personalizar o debate culmina na celebração de uma vitória inexistente, produzindo manifestantes orgulhosos de finalmente terem um (justo) gostinho de vingança; porém inócuo se não for utilizado para catalisar a mobilização contra um legado cujas profundas marcas sentimos até hoje.

O Neoliberalismo também foi uma resposta do Capital à crise econômica que teve seu ponto alto no choque do petróleo. Uma violenta resposta a uma grande crise, da qual o mundo não se recuperou até agora, mas que talvez seja pequena perto da que hoje vivemos (ou um ciclo médio dentro de um dos grandes ciclos). E aí que mora o perigo, e aí que está o intuito deste texto. Festejem os que devem, podem, querem e merecem, mas que a oposição e resistência sejam políticas, para que não nos confrontemos com investidas potencialmente piores que o neoliberalismo (e que têm rondado a Europa ) e para que tampouco tenhamos que guardar a cidra apenas para o esgotamento natural dos nossos adversários.

Sobre Renato Silva

nao fica ninguem. Professor de Historia, Flamenguista e suburbano.
Esse post foi publicado em Política e marcado , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para “Maggie Maggie Maggie, dead dead dead”. Não ainda.

  1. Ding Dong! The witch is dead!!!
    Adorei a homenagem dos ingleses!

  2. Pingback: A pussy e o poder: Valeska Popozuda, cultura popular e marxismo | Capitalismo em desencanto

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s