A pobreza no fundo do MAR

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Devo confessar uma coisa a você, caro leitor: não entendo nada de arte. Mas, aí, como falar do novo Museu de Arte menina-dos-olhos-ai-que-lindo-e-moderno-e-vintage do Rio de Janeiro? Sinceramente, não acho que isso possa me atrapalhar muito no assunto que quero tratar, porque esse texto não é uma análise sobre arte, mas sobre o seu papel dentro de um projeto político muito bem definido de exposição dos feitos do prefeito Eduardo Pereira Passos Paes.

Numa tentativa de apresentar todas as minhas impressões a partir da visita, leitura de artigos da internet e conversa com amigos, vou tentar fazer uma visita guiada com você, desde a primeira olhada na arquitetura do museu até o último andar de visitação, que na verdade é o primeiro andar do museu. Espero que a gente não se perca!

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Apenas em ver o museu, assim, de fora mesmo, é possível ter um estranhamento: por que um prédio que mais parece uma filial do Shopping Leblon, está aqui, bem no meio da Praça Mauá? De maneira nenhuma vou dizer que a região portuária da cidade não merece a mesma atenção, principalmente do poder público, que o bairro mais caro da cidade. Mas essa atenção, essa aproximação arquitetônica, pode ser uma forma de mostrar quem são as pessoas que devem frequentar o museu. Ele está lá: lindo, novo e tão-tão branco, mas, ainda que seja de graça para moradores do Santo Cristo, Gamboa e Saúde, será que este museu é convidativo para estas mesmas pessoas que estão com medo de serem removidas? Todo esse branco, toda essa limpeza, toda essa elitização, você jura que a prefeitura fez, de verdade, para as mesmas pessoas que agora tem até no serviço de limpeza urbana uma privatização? Sim, todos os serviços públicos da região portuária são feitas pela concessionária Porto Novo, desde a coleta de lixo até os agentes de trânsito.

Como tantos museus e centro culturais cariocas, este também não foi feito para a população pobre. É sempre bom lembrar que abrir as portas não é sinônimo de convidar. Por sinal, falando em “abrir portas”, engraçado ver que em nenhuma imagem vinculada do museu há qualquer forma de grades ou separações entre o espaço e a praça à frente. Mas, ao chegar lá, vemos uma grande divisão de vidro, linda, quase imperceptível, mas presente, separando o ideal-Maravilha, do velho porto, da Praça Mauá dos prostíbulos e bares decadentes. Quem sabe quando a obra acabar, quando todos os rejeitados forem expulsos, as grades também não percam o seu valor segregacionista, como aconteceu com a Praça Tiradentes há pouco tempo?

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Do lado de dentro do vidro vemos uma reforma tão brutal que mal conseguimos entender que o prédio modernista que antes era o Hospital da Polícia Civil não foi demolido, apenas reformado. Sim, um prédio cinza, pesado, sério demais, que teve apenas sua estrutura aproveitada e nada mais daquela arquitetura da década de 1940 ficou. Ele se tornou, adivinhem, branco! Com vidros e ventilação de vidro! Segundo o curador, é uma forma de todos verem o movimento das pessoas, do prédio ter um ar menos sisudo. A verdade é que ninguém gosta dos prédios-caixotes da década de 1940, e por isso reformaram, destruíram sem destruir completamente, e jogaram fora o que não queriam e construíram por cima. Metáfora de uma cidade? Que nada!

No prédio modernista da década de 2010 pegamos um elevador que sobe até o sexto ou quinto andar. É obrigatório que todos os visitantes façam este percurso, pois a única forma de entrar no museu, no prédio antigo, é através da passarela que está no quinto andar do prédio novo. Se formos até o sexto, para ver o mirante, poderemos ter uma bela imagem da modernização do porto carioca. À esquerda as obras do Museu do Amanhã, também patrocinado e gerido pela Fundação Roberto Martinho. Futuramente, poderemos ver a demolição da Perimetral e a construção das vias subterrâneas; a frente, vemos a abertura de um enorme buraco no chão, que confesso, ainda não sei ao certo para qual objetivo, já que no projeto toda aquela área vai ser uma praça; à direita, a entrada do Morro da Conceição pelo Largo de São Francisco da Prainha. Se você ainda não se convenceu dos argumentos anteriores do branco/novo em contraste/expulsando o velho, olha para o Largo de São Francisco da Prainha, onde temos lixeiras metálicas e modernas exatamente em frente a um sobrado desmoronado!

Por sinal, este Largo é um belo exemplo da “revitalização” de algo já vivo. Desde o início da década de 1990 que o espaço abriga uma das rodas de samba mais famosas da cidade: a roda de samba dos Escravos da Mauá, um bloco de carnaval feito no mesmo ano. Em 2006 foram 20 mil foliões atrás do bloco, sem contar as rodas sempre cheias nas sextas-feiras de samba. Também, ali perto, na Pedra do Sal, existem rodas em plena segunda e quarta-feiras. Estes são apenas os exemplos mais famosos da vida não vista pelo poder público, sem falar dos vários bares que encontramos ao longo de toda a Rua Sacadura Cabral. Uma visão básica de capitalismo diz que se não tem lucro, o negócio entra em falência. Se o negócio está aberto, podemos supor que existe algum lucro? Se existe lucro, será que têm mesmo pessoas que visitam o comércio, no caso, os bares? Oh, Deus, será que já existia vida e a gente não sabia?

Voltando ao MAR, todo o resto do prédio modernista vai ser usado para a Escola do Olhar, que ainda não entrou em funcionamento. Sabemos apenas do plano de que seja uma escola voltada para jovens estudantes e professores da educação básica pública, com cursos de artes que usem o espaço do Morro da Conceição e da Praça Mauá como laboratório.

Vamos pegar a passarela e ir direto para o terceiro andar do prédio antigo. Nela está a exposição “Rio de imagens: uma paisagem em construção”, que tem por objetivo mostrar um olhar sobre a representação da cidade ao longo dos quatro séculos. A primeira imagem que vemos da exposição é um vídeo pequeno mostrando a chegada de pessoas, possivelmente trabalhadores ao Rio, seja através das barcas Rio-Niterói, seja através do porto, com os imigrantes. Também vemos um painel com vários cartazes de propaganda do Rio de Janeiro para turistas, feitos por várias companhias aéreas. Já podemos imaginar o tom da exposição: belezas cariocas para “inglês” ou qualquer turista ver.

Dois períodos são mais enfocados nesta amostra: o século XIX, mais especificamente da época das missões francesas no Rio, junto com a chegada de Dom João VI, e o período da reforma Pereira Passos. No primeiro período aparecem pinturas das belezas naturais da cidade, como era comum na época, mostrando principalmente as praias. Depois passamos por uma parte com vários mapas da cidade e suas modificações ao longo dos anos. A seguir chegamos ao período Pereira Passos, que começa com um telão enorme mostrando como ficou a cidade depois da reforma, os prédios neoclássicos, as ruas largas e sem pobres, uma belezura! No outro lado da sala estão as várias plantas dos prédios construídos a época, tanto os que se tornaram bens públicos como os prédios privados. E ali do ladinho uma bela maquete do Teatro Municipal. Claro que as casas destruídas, as famílias desabrigadas e a ocupação do morro da Providência, ali atrás da Central, não foram enfocados nesta seção. Essa violência toda, essa brutalidade, não precisa ser lembrado, certo? Mais a frente, claro que tem um busto do Pereira Passos! E daí começa uma amostra de várias idades sobre a imagem da cidade do Rio de Janeiro. De fato, interessante!

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Ói que lindo o Paes ao lado de seu ego-Pereirístico na inauguração de uma das etapas do Porto Maravilha!!

O segundo andar é a cota de arte que o museu tem que ter pra ser chamado de Museu de Arte, com as coleções particulares de Jean Boghici e de Sérgio Fadel. Como já disse antes, e pra evitar falar muita besteira, prefiro indicar pra vocês esta outra resenha que encontrei, feita por quem entende de arte e desse mundo artístico. Por sinal, esta resenha foi bastante elucidativa em relação a várias questões do museu. Recomento muito!

Vamos então ao térreo, onde está a mostra “O abrigo e o terreno: arte e sociedade no Brasil I”. Essa mostra ocupa as duas salas do andar, tomando um grande espaço do museu. Antes de mais nada, vemos uma quantidade enorme de informação em ambas as salas, com vários coletivos de artistas, vários lugares do Brasil e várias formas de ver o problema da habitação urbana nos dias atuais face a processos de gentrificações. Penso que seria um pouco de prepotência fazer juízos de quão revolucionária é ou não uma arte ou um coletivo artístico, principalmente estes, que parecem ter nascidos de algum movimento social, inclusive de movimentos relacionados à habitação.

Não podemos negar que estes coletivos terem sido convidados para fazer exposições relacionadas a política habitacional é uma oportunidade de exposição de um outro lado das remoções e gentrificações urbanas. Porém, é necessário atentarmos para a forma como esta exposição é percebida pelos visitantes do museu. Depois de passar por exposições que exaltem a beleza natural da cidade ou uma reforma urbana extremamente violenta – que, lembrando, não teve esta face exposta – com o objetivo de trazer o progresso para a cidade, ver a favela ou ocupações de prédios abandonados aparece como um último passo a ser dado para que a cidade finalmente alcance a glória que promete desde os tempos de Dom João VI. Além disso, uma exposição tão cheia de fragmentos, ao mesmo tempo que concede a oportunidade a vários coletivos, os limita a pequenos espaços, como a própria parte sobre a Ocupação Prestes Maia, com muitas fotos interessantes e combativas, de repressões policiais, mas também com vários cachimbos de crack, que pode mostrar para que era usado o prédio antes de ter um valor social, ou como era usado o prédio durante a ocupação. Por falta de espaço, não fica claro ao visitante qual o objetivo daqueles instrumentos, o que muda consideravelmente a interpretação.

O Morrinho, ocupa o fundo de uma das salas, com um resumo bastante interessante das favelas cariocas. Vale a pena ler cada letreiro da maquete e prestar atenção nos detalhes tão bem feitos. Mas o que mais é destacado pelos estudantes é o colorido que o morrinho trás a sala e menos a proposta de uma nova visão da favela, para além da violência e das drogas.

Na outra sala, três coisas me chamaram a atenção: a primeira é uma reprodução das ruelas de uma favela, estreitas, com subidas e descidas, tudo isso em um espaço bastante limitado. A segunda é uma instalação de uma empilhadeira com uma cama de solteiro suspensa, feita pelo mesmo artista que fez o manual de como fazer o seu próprio barraco, com os materiais ao lado. Ambos são uma crítica interessante da forma como os processos de remoções compulsórias estão sendo feitos em todo o Brasil.

Infelizmente, tanto por falta de memória quanto por falta de espaço, não me permitem falar de cada coletivo ou instalação desta exposição, mas a questão é que todas estas instalações, individualmente, pretendem criticar e problematizar a política habitacional do país, porém, todas bagunçadas em apenas duas salas, não conseguem fazer muito mais do que ilustrar, aos que já sabem, o que está acontecendo, e estabelecer aos que não sabem, uma cota de pobreza para o museu elitista. Os coletivos que fizeram a mostra pensam, e provavelmente estão certos, que ir para o museu é uma forma de mostrar sua arte e sua indignação em um espaço que será visitado por estudantes e pessoas de todas as classes sociais. As pessoas que não estão familiarizadas com esta luta social, depois do mirante expositor de obras, depois das exposições de Dom João VI e Pereira Passos, vê como uma idealização da pobreza e da favela, colorida, montada em um morro, e, se tudo der certo nos objetivos especulativos da dupla Paes/Cabral e capital privado, apenas uma peça de museu.

Vale lembrar o que disse a presidenta Dilma no conturbado dia da inauguração do museu: “Estamos nos transformando num país de classe média que valoriza a superação da miséria, a ciência e a valorização da cultura” Ao som de manifestações de centenas de militantes, a presidente e o museu não abriram espaço para qualquer diálogo com a população. Os movimentos sociais que realizaram a mostra “O abrigo e o terreno” foram convidados a visitar o espaço apenas no sábado, dia 2 de março, no dia seguinte da inauguração e da visita da ilustríssima presidenta. O coletivo Opavivará!, que foi convidado para fazer uma intervenção artística, 1 hora antes da apresentação, foi impedido pela Guarda Municipal de sair do barracão em que estavam concentrados. Mais uma vez, argumentos que reafirmam os anteriores, de que a pobreza e a arte vinda dela só serve aos espaços públicos institucionais sem voz, calados e sem diálogos. De preferência no canto escuro, ou no fundo, do museu.

Se você quiser saber mais sobre o assunto, leia também:

MAR à vista

Em campanha, Paes tenta vincular sua imagem às transformações feitas por Pereira Passos

Museu de Arte do Rio (MAR)

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Sobre Giovanna Antonaci

Foliã, historiadora, professora e italiana quando CANNOT KEEP CALM.
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5 respostas para A pobreza no fundo do MAR

  1. Morgana disse:

    É muito importante que se tenha essa visão crítica do museu e seu contexto. Só uma correção boba, a exposição “O colecionador” com a coleção de Boghici é no segundo andar e a “Vontade construtiva” com a coleção de Fadel é no primeiro.

  2. Ih, Morgana, obrigada!! Na verdade, quando escrevi já tinha imaginado que poderia cometer um equívoco de andares. Esse negócio de passarelas e escadas me confundiu bastante! hehe

  3. Pedro disse:

    Sua analise sobre este museu esta muito boa. Uma das grandes funções do historiador é entender quer um museu não é um espaço neutro nele se concentram interesses e visões de mundo da elites. O que exite dentro de suas paredes nunca pode ser visto como a “pura” representação das artes ou da história. neste quesito este post tem uma grande importância para quem visitou ou ainda visitará o MAR.

  4. Pingback: a higienização das grandes metrópoles continua ou… sob as necessidades do capital. | geovest

  5. Julia Resende disse:

    Giovanna, maravilhoso o texto! Só faltou comentar que o fluxo de visita copia o projeto do Guggenheim de NY que, por sinal, é um museu lindo e caríssimo no bairro mais caro de Manhattan. Acho que não foi à toa.

Comentários

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