Aldeia Maracanã Resiste: Uma luta que é muitas lutas

Este texto foi escrito por André Basséres e Lorena Ardito Aldana.            

Charge Latuff Aldeia Resiste Cabral

Charge de Carlos Latuff

O que representa a Aldeia Maracanã? Por que existem indígenas que não estão dispostos a negociar com o governo estadual a não ser que se acolha a demanda de restituir o prédio para que ali seja construído um Museu Vivo do Índio, uma Universidade Cultural Indígena? O objetivo deste texto é abordar essas questões, e tentar fazer algumas considerações acerca da importância política da luta da Aldeia Maracanã no Brasil, e mais especificamente no contexto das lutas que vêm se articulando no Rio de Janeiro.

A luta da Aldeia Maracanã é muitas lutas. Em primeiro lugar, ela desempenha um papel importante na reivindicação do espaço urbano como um espaço também indígena, onde suas lutas (mais do que nunca) devem ser travadas. Como lembrou Carlos Walter Porto-Gonçalves, geógrafo e professor da UFF, em uma audiência pública organizada na Associação Brasileira de Imprensa por apoiadores da Aldeia no dia do índio, 19 de Abril, existem hoje 307 grupos étnicos no Brasil, dos quais 37% vivem em contextos urbanos em precárias condições sociais e culturais. Nesse sentido, a luta da Aldeia pelos direitos dos indígenas não-aldeados é fundamental e, mais do que nunca, a sua reivindicação por um espaço que serviria também como uma espécie de embaixada indígena que pudesse alojar índios em trânsito tem um lugar claro.

O senso comum, marcado pela intolerância e o preconceito, concebe apenas o indígena na “selva”, inocente e sem a “mácula” da civilização. Nosso governador ajudou a perpetuar essa imagem com suas sucessivas declarações infelizes sobre os indígenas da Aldeia. O combate a esta imagem “exotizante” do indígena como um ser puro, mas que deve ser “tutelado” pelo Estado (que também é aquele que decide a demarcação de terras indígenas e que, com tanta frequência, autoriza a grilagem de terras ancestrais, em sua cumplicidade com o agronegócio), tem sido uma das maiores contribuições dos indígenas da Aldeia e dos seus apoiadores, ajudando a construir socialmente uma imagem dos índios não mais como “exótica espécie em extinção”, mas como povos numerosos, oprimidos e explorados há séculos. Populações inteiras aterrorizadas cotidianamente por latifundiários e os seus pistoleiros (não em um passado remoto, mas hoje, todos os dias). Em ressonância com outros movimentos indígenas que temos testemunhado, como a luta dos Guarani-Kaiowá, as recentes ações em Brasília, a luta do povo Munduruku contra o complexo hidrelétrico dos Tapajós, vemos surgir um “índio” que nada tem em comum com aquela imagem uniforme e pacífica das antigas aulas de história, mas multiplicidade de povos, em uma vasta variedade de etnias e idiomas (maior do que a diversidade étnica presente na Bolívia, por exemplo), engajados em lutas reais, no campo e na cidade, pela sua sobrevivência e pelas suas terras de direito. Neste sentido, a luta da Aldeia Maracanã é uma luta contra a invisibilidade secular imposta às populações originárias, que vem ajudando a divulgar a violência sofrida por inúmeras etnias indígenas brasileiras, violência esta que avança em sintonia com um processo cada vez maior de destruição de uma cidadania e de uma identidade indígenas.

Uma luta propriamente contra a desterritorialização sofrida pelas populações indígenas, não só do Brasil, mas de toda América, como também ressaltou Carlos Walter no mesmo evento, lembrando o movimento Mapuche no Chile, e a investida neoliberal que têm sofrido diversos povos indígenas na Bolívia (seguindo um projeto de “integração regional” capitaneado pelo governo brasileiro e suas multinacionais protegidas como Petrobras, Odebrecht e BNDES), apesar de seu governo supostamente de esquerda e indígena. Um processo, aliás, que também estaria ocorrendo na Venezuela chavista. A luta indígena, portanto, está longe de ter encontrado nos movimentos institucionalizados do continente, um lugar à altura.

Mas não só isso, a luta da Aldeia Maracanã também se encontra irmanada com toda a luta urbana que tem se dado no Rio de Janeiro de resistência às privatizações e remoções impostas pelo governo Cabral. Em realidade, e esta compreensão parece estar bem clara nos grupos que compõe a resistência da Aldeia, esta é uma luta muito mais ampla de enfrentamento contra o grande capital e seu projeto neoliberal de uma cidade-mercadoria, sem espaço para a diferença e para o público no seu sentido original (o único que importa): o de bem comum. O Rio de Janeiro de Cabral, Paes e Eike Batista se transformou em um verdadeiro laboratório (certamente um dos mais eficientes do mundo) de um projeto de cidade como espaço não de uma vivência coletiva e política, mas como um espaço mercantilizado onde, cada vez mais, serviços de todos os tipos serão administrados por empresas privadas, e onde o papel do Estado se resumiria basicamente a defender os interesses dessas empresas, removendo comunidades, impedindo manifestações, etc.

Neste sentido, a luta da Aldeia busca recuperar em uma miríade de saberes ancestrais alguns caminhos para uma política baseada em uma experiência comunal de troca e companheirismo, contra a propriedade privada, e que busca no enfrentamento ao mundo monolítico, frio e violentamente excludente do capital, um mundo (como dizem os “parentes” zapatistas) onde caibam muitos mundos. Este projeto comum da Aldeia com os outros setores é facilmente percebido na luta conjunta deste movimento com o restante dos assim chamados “impactados” pela política do Cabral. Mais do que apenas “parceria” o que se percebe é de fato uma luta cada vez mais próxima, cada vez mais uma, entre os diversos movimentos que no Rio de Janeiro se opõe a este projeto de cidade. A Aldeia tem estado presente em diferentes lutas de resistência no Rio de Janeiro, como a luta na comunidade de Manguinhos (onde um jovem foi assassinado pelos policiais da Unidade de Polícia Pacificadora da região com o uso de uma “arma não letal”).

Ato das comunidades ameaçadas em Manguinhos

Ato das comunidades ameaçadas em Manguinhos

A Aldeia tem estado presente também na maioria dos atos mais expressivos que ocorreram nos últimos meses na cidade (em especial podemos mencionar o ato em frente ao Palácio das Laranjeiras contra a privatização do estádio Maracanã). Podemos também mencionar o apoio de diferentes movimentos de resistência nos espaços da Aldeia, como a presença e a fala de representantes da comunidade Indiana, da comunidade de Manguinhos, das ocupações sem-teto do centro do Rio de Janeiro, bem como de outras comunidades, no já mencionado ato na ABI.

Em nenhum outro ponto, no entanto, esse elemento se torna mais emblemático do que na repressão realizada pelo Estado, de maneira uniforme, aos diferentes movimentos de resistência na cidade. Vejamos, por exemplo, o ato que ocorreu na noite de Sábado, dia 27 de Abril, em protesto a todo esse processo de privatização da cidade e, mais especificamente, de destruição do entorno do Maracanã, onde estavam reunidos o movimento da Aldeia Maracanã, jovens atletas afetados pela destruição do estádio atlético Célio de Barros, crianças e seus pais da escola Friedenreich (escola modelo que também está prevista para ser demolida) e diversas outras pessoas de movimentos distintos ou simplesmente solidários às diferentes causas. O que era uma pacífica manifestação, alegre e bela, onde as crianças se divertiam com as danças indígenas, brincando com os maracás, se transformou numa verdadeira batalha campal quando a polícia passou a atirar balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo a esmo contra a multidão, que incluía crianças, idosos, e inúmeras pessoas que, pacificamente, demonstravam a sua indignação através de cantos e danças indígenas. Ameaças de morte, demonstrações estúpidas de machismo contra as mulheres presentes, agressões gratuitas e desproporcionais e prisões arbitrárias (dois jovens permaneceram por horas desaparecidos sem poder entrar em contato com ninguém – podemos apenas imaginar a angústia por que passaram seus entes queridos nesse tempo): estas foram as marcas da ação policial neste sábado.

Já no dia anterior, sexta-feira, em uma ação realizada por um pequeno número de mulheres indígenas (por volta de quatro mulheres) que reocuparam brevemente o espaço da Aldeia Maracanã em protesto, a polícia respondeu com um contingente de dezenas de policiais do batalhão de choque que fecharam um dos sentidos da Radial Oeste e agrediram dois apoiadores com práticas de tortura (um dos jovens, após ser agredido com um soco no rosto foi preso em um camburão onde, por três vezes, os policiais abriram a porta apenas para despejar spray de pimenta nele). A resposta dos comandantes às duas operações: um sucesso absoluto. O que estamos vendo é claro: o Estado tende a cada vez mais unificar todos os movimentos como um só processo de perturbação da ordem com o qual se deve lidar sempre da mesma maneira, com violência. Não importando se se trata de estudantes de uma escola primária, moradores de comunidades como Indiana, Manguinhos e Providência, indígenas e apoiadores da Aldeia, etc., a resposta, parecem nos dizer nossos “governantes”, será sempre a mesma: criminalização e repressão. Assim, a estúpida resposta do Estado aos recentes atos e manifestações tem algo mais do que “acidental”, do que uma postura equivocada de policiais “despreparados”, muito pelo contrário: parece tratar-se aqui de treinamento e de preparação para um novo contexto repressivo justificado pelos mega-eventos (mas que ninguém pense que isso cessará depois de 2016), onde qualquer movimento de protesto é instantaneamente criminalizado. Neste contexto, onde a própria repressão agrega todas as lutas sob a sola do seu coturno, a bandeira de uma unificação dos diferentes movimentos de luta pela cidade (e, talvez, de outros movimentos sociais) se torna cada vez mais urgente e imprescindível. A luta da Aldeia Maracanã já vem de alguma maneira desempenhando este papel, servindo como um símbolo de uma opressão antiga, muito anterior a este Cabral e com a qual cada indígena, negro, favelado e trabalhador explorado pode se relacionar.

O sonho não está a venda

Latuff sobre a Aldeia Maracanã

Charge do cartunista Carlos Latuff

Consciente da importância daquele espaço para as lutas e resistências do Rio de Janeiro, o Estado procurou rapidamente apagar os traços da ocupação indígena. Os muros externos foram todos, imediatamente, pintados de branco. Os mesmos muros que ainda há pouco estavam ricamente coloridos com belas pinturas indígenas e dizeres que assinalavam de maneira tão distinta, para todos aqueles que cruzavam a grande Radial Oeste, que ali se encontrava uma aldeia indígena, um território diferente dos demais espaços urbanos, onde o tempo era outro. Um espaço raro cravado no meio de uma grande metrópole.

Hoje, a Aldeia Maracanã está desocupada, ainda que progressivamente o megaempreendimento da reforma do Maracanã vá destruindo com seus tratores e marretas o espaço que, até pouco tempo, celebrava a diversidade e a vida.

Prédio da Aldeia destruído após invasão da polícia.

Prédio da Aldeia destruído após invasão da polícia.

O sonho, no entanto, não está à venda. Assim respondeu Urutau Guajajara durante a ação de sexta-feira, dia 26, no espaço da Aldeia a um policial que indagava como ele havia entrado naquele terreno: “Eu estou sempre aqui. Meus antepassados estão por aqui. Você não pode ver? Minha filha, aqui foi gerada. Está vendo o nosso coração aceso pulsando no meio da Aldeia? Vocês não podem nos tirar daqui. Vocês podem até levar este corpo físico pra DP, mas nossa alma é impalpável, imaterial, intangível. Nós sempre estaremos aqui. Morreremos por isto. Por que abandonar a resistência também seria uma forma, indigna, de morte, e, se eu me rendesse, não seria digno do meu povo, que é um povo guerreiro.” O Museu Vivo do Índio, entendido como a Universidade Intercultural Indígena, não pode ser concebido fora deste território que carrega a sua ancestralidade, deste solo que carrega nele mesmo as marcas da história indígena. É desta forma que compreendem os indígenas que seguem na luta: a territorialidade está longe de ser apenas um patrimônio material, ela é antes de tudo um patrimônio imaterial que contém a memória viva de um povo, o que, no caso da Aldeia Maracanã, é a memória viva das lutas indígenas no Brasil, e ainda mais: hoje é a memória viva pela defesa do espaço público em um Rio de Janeiro cada vez mais privatizado, cada vez mais excludente e violento com àqueles que lutam.

Aldeia Resiste!

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