A matemática da escadinha não fecha: “O sistema entrega a mão para salvar o braço”

Atenção: este texto NÃO IRÁ DEFENDER BANDIDO. Assim mesmo, em caixa alta, negrito sublinhado, itálico. Para ficar claríssimo a eventuais visitantes, desavisados, incautos ou leitores maldosos que irão ver chifre em cabeça de burro, ou apenas “mais um texto de intelectualzinho maconheiro policiofóbico defensor de bandido”.

A divulgação do vídeo (e do modus operandi, a forma de agir) da ação da Policia Civil que resultou na execução do traficante conhecido como “Matemático” no Fantástico do ultimo domingo teve enorme repercussão, em especial nas redes sociais. A “caçada”, como mostrada pelo programa semanal, contou com a apresentação de diversos e avançados aparelhos de guerra.

Com o risco da fuga do tal traficante, o helicóptero da Policia Civil optou por avançar mesmo sem o apoio da equipe de terra e, ao identificar o suspeito pelo biotipo (palavras do próprio Adonis) a partir de aparelhos de visão noturna iniciou-se o show que a esta altura acredito que todos já tenham visto.

Começando pelos tais “tiros de advertência”, expressão e realidade de difícil compreensão que correm o seríssimo risco de serem popularizadas.  Não demorou muito para começar a chover chumbo sobre a casa dos moradores, em uma sobreposição de acesso a direitos e dignidade ao CEP que até mesmo a Globo não apenas não consegue mais ignorar como explicita.

Esse é um dos principais pontos questionados pelos grupos de Direitos Humanos.  Esse foi o tom da intervenção de Marcelo Freixo, automaticamente lida como “defesa de bandido”. Não é. O material foi entregue por agentes da própria policia civil, que exigem que o Estado assuma responsabilidade pelos atos perpetrados pelos seus representantes. O que se questiona juntamente a isso é a qualidade da policia (não há serviço de inteligência? É necessário atingir vidas e/ou patrimônios de não-suspeitos sempre? ), e a absurda afirmação de que é necessário que ela aja fora da lei para… proteger a lei.

A charge é de 2010. Olha o quanto as coisas mudaram de lá para cá! Não estamos todos mais seguros?

A charge é de 2010. Olha o quanto as coisas mudaram de lá para cá! Não estamos todos mais seguros?

Rapidamente no facebook  iniciou-se a campanha “Quero Marcelo Freixo longe do Rio”, a partir da tenebrosa identificação “defender diretos humanos = defender bandido”. Coloca-se inclusive que se não chove chumbo na zona nobre da cidade é porque “Traficante perigoso não fica passeando pela Zona Sul”. Até o fechamento e publicação deste texto a imagem contava com mais de 12 mil compartilhamentos a partir do perfil linkado.

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Perguntam sempre “onde estava o Freixo quando inocentes foram mortos por estas pessoas?” ou “Onde estava o Freixo na hora de defender os policiais?” E cabe aqui relembrar coisas óbvias: Freixo esteve do lado das Polícias e dos Bombeiros nas últimas manifestações que estes fizeram (muito embora a colega de partido, Janira, tenha sido uma presença ainda mais forte), ao contrário da maior parte da base do governo. Marcelo Freixo também é um homem marcado por morrer. A esta altura todos devem lembrar que ele é o homem conhecido (e potencialmente assassinado) por conta da sua atuação na CPI das milícias, atuando contra (OOOOOOHHHHH!) a  violência indiscriminada contra a população (se você preferir preferir, os tais “cidadãos de bem”) por parte destes grupos. Também atuou quando delegados, promotores, juízes e oficiais de justiça foram assassinados, especialmente por aderirem ao combate a este tipo de quadrilha. O parlamentar esteve do lado da população em todas estas questões. Se isso não aparece na mídia, é porque esta está sob um concentradíssimo monopólio, tornando o acesso a informação (e a formação da opinião publica) uma decisão privada, e escolhem dar voz ao parlamentar justamente quando este pode ser confundido com defensor de bandido.

Os que aplaudem a execução de Matemático não percebem que ela acarreta mais problemas do que soluções. Como é, infelizmente, comum no RJ, os bandidos estavam armados com fuzis e armamentos pesados diversos. Creio que a recorrência da frase “estavam munidos com armamentos de uso exclusive das Forcas Armadas” tenha tornado as pessoas quase imunes a mesma, como se ela pouco quisesse dizer. E ela é eloquente, porque coloca claramente que há grupos dentro destas instituições que as repassam ao tráfico. E aí está um dos “x da questão”: manter estes traficantes vivos é fundamental para que os policiais sérios (sim, gente, isso existe!) possam rastrear quais grupos dentro da própria policia (ou FA) vendem este tipo de armamento aos traficantes destas áreas.  Além disso, também é através destes traficantes que seria possível rastrear de onde vem e por onde chegam as armas importadas, as drogas não produzidas no Brasil etc etc. Em síntese, matar um traficante do porte do Matemático é também uma queima de arquivo com garantia de amplo apoio societário.

Já foi o Escadinha, agora é o Matemático. Já foram milhares cujas alcunhas não conhecemos, e há de vir outros mais, porque para cada um que cai, há outros desejando seu posto. Nem mesmo a pobre retórica do “um a menos” resiste a um escrutínio um pouco mais sério. Mais uma vez: não se trata de achar que não se deva combater este fenômeno, mas a forma adotada pelo governo para lidar com ele está mais do que falida. Ou alguém se sentiu mais seguro de andar na rua porque o Matemático morreu?

Outra coisa em comum nas manchetes é a recalcitrante caracterização destas pessoas como “um dos maiores traficante do Rio de Janeiro”, expressão sempre repetida, sempre mentirosa. Ao ouvir a história do que acontecera a Matemático, lembrei da prisão de Elias Maluco, também na época identificado como um dos maiores e mais perigosos traficantes. Ao ser preso, o riquíssimo e megapoderoso traficante estava munido de bermuda, havaianas e a expressão “Perdi.” Os homens mais perigosos do Rio de Janeiro, segundo a mídia, são todos favelados. Mais uma vez, não estou dizendo que estes homens não sejam perigosos ou que não deveria haver punição alguma a eles; o questionado aqui é que a própria fortuna pessoal e os bens agregados por estas pessoas impedem a própria caracterização dos mesmos como megatraficantes.

O que se vê na mídia são os peixes pequenos. Estes são oferecidos a todo instante. Mas há de se subir degraus nesta escada, há de se ir além do óbvio. Há a imperante urgência de se chegar aos traficantes que não atuem no varejo, que usem terno e gravata, que não morem na favela mas se beneficiem da existência da mesma. E isso não é possível sem um serviço de inteligência eficaz, sem a garantia aos direitos fundamentais ao conjunto da população e a simples noção de que a vida de quem vive em zona de conflito é tão valiosa quanto qualquer outra. Sem que se fuja do “matar ou morrer”, “se critica polícia é a favor de bandido” e estes toscos e irresponsáveis binarismos. Do contrário, continuaremos a tomar as vítimas por culpados (obviamente não estou falando dos traficantes), e parte da população a aplaudir as pontas de unha que são entregues para que o resto da dinâmica sócio-metabólica do sistema se reproduza, e a nos assombrar quando ela bate em nossa janela com o bico do fuzil.

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Sobre Renato Silva

nao fica ninguem. Professor de Historia, Flamenguista e suburbano.
Esse post foi publicado em Política, Seguranca Pública. Bookmark o link permanente.

4 respostas para A matemática da escadinha não fecha: “O sistema entrega a mão para salvar o braço”

  1. leonardo lusitano disse:

    Renato, por incrível que pareça, olha o que publicou o meia-hora:

  2. Vanessa disse:

    Renato, parabéns, maravilhoso seu texto. Esses últimos acontecimentos – a caçada ao Matemático e o “debate” acerca da redução da maioridade penal – me fazem quase perder a fé na humanidade. É cada vez mais difícil estabelecer um debate sério sobre a questão da violência urbana no Rio de Janeiro, pois a histeria coletiva coloca tudo sempre nos termos do conflito absoluto do bem contra o mal. Em qualquer lugar que estive nestas últimas semanas, quando este assunto surge (e surgiu muitas vezes), é muito difícil tentar ver as nuances do problema, sair um pouco da luta do bem contra o mal que norteia essa discussão. As pessoas ficam com muita raiva e te relegam rapidamente às categorias do “defende bandido”, “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos”, “e se fosse na sua família” etc. Os ânimos estão cada vez mais acirrados, e a cegueira cada vez maior. Tá foda…

  3. Miriam disse:

    Perfeito. A lógica é essa mesmo: vidas de periferia valem menos, e se os engravatados e perigosos – sim, perigosíssimos – traficantes estão a salvo destas “caçadas”, é porque moram nos metros quadrados mais caros do país. Aqui no Rio, em especial, Delfim, Moreira, Vieira Souto, Atlântica. Será que uma polícia ensandecida daria rasantes atirando a esmo nesses locais? Óbvio que não, em primeiro lugar, porque aí eles têm “juízo” (manda quem pode, obedece…), e o poder está com eles, e depois, como justificar que pessoas “de bem”, com RG, certidão de nascimento, frequentadoras das prais, sejam postas em risco? Mas arrastar uma criatura morta para forjar auto de resistência, e fazer isso rindo, lá nos morros da periferia… normal, né? Me dá vontade de vomitar tudo isso. Como bem disse o autor: alguém está se sentindo mais seguro com a morte do cara? Só se for alienado a tal ponto de já estar doente.

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