A necessária liberdade para as identidades minoritárias – debatendo o Multiculturalismo

Os dados estatísticos das eleições presidenciais de 2010 mostraram que as regiões Norte e Nordeste foram os principais redutos eleitorais do PT, tendo garantido mais uma vitória a esse partido. Nas redes sociais, essa constatação gerou uma onda de comentários ofensivos aos habitantes dessas duas regiões, feitos, principalmente, por jovens paulistas, que, insatisfeitos com o resultado final das eleições, resolveram “xingar muito no Twitter”. Aqueles usuários que fizeram comentários com conteúdos mais explicitamente preconceituosos chegaram a ser investigados pela Polícia Federal, mas apenas a autora da frase “faça um favor a SP: mate um nordestino afogado” foi condenada pela Justiça Federal.

Gráfico que mostra a vitória dos candidatos por estado.

Gráfico que mostra a vitória dos candidatos por estado.

A maior participação de paulistas nesse lamentável episódio se deve, talvez, ao avanço das políticas de afirmação e de valorização da cultura nordestina nesse estado, promovidas pela Secretaria de Relações Institucionais e pelo Conselho Estadual de Participação e Desenvolvimento da Cultura Nordestina. A proposta de criar uma disciplina escolar sobre movimentos migratórios e a cultura nordestina causou grande desconforto entre alguns jovens da classe média paulista, que decidiram organizar um abaixo-assinado online contra o projeto. O abaixo-assinado acabou assumindo ares de manifesto e resultou no movimento “São Paulo para os Paulistas”, cujo principal objetivo é a defesa da “cultura paulista” contra os ataques de “culturas estrangeiras”. Segundo seus organizadores, os migrantes agiriam de forma predatória, ao imporem seus hábitos de vida e suas preferências ideológicas, quando, na verdade, eles – os “estrangeiros” – é que deveriam se adaptar ao modo de vida da cidade de São Paulo.

Imagem produzida pelo movimento "São Paulo para os paulistas"

Imagem produzida pelo movimento “São Paulo para os paulistas”

Não pretendo analisar, nesse texto, o preconceito e a opressão manifestados por esse movimento e suas possíveis consequências desastrosas para as pessoas que sofrem com esse tipo de discriminação cotidianamente. Mas esse episódio me fez pensar sobre como a atual tendência de fragmentação da sociedade em grupos cada vez menores – com base em suas características culturais – tem servido de justificativa para atitudes intolerantes como essa, que reforçam – dentre outros tipos de opressão – a opressão de classe. Meu objetivo, portanto, é fazer um breve comentário sobre a falsa sensação de libertação trazida pelas teorias que supervalorizam as especificidades culturais e as identidades múltiplas de cada grupo – o multiculturalismo – sem atentarem para a dominação de classes. Comecemos, então, entendendo de que forma a cultura se tornou um conceito importante para a legitimação de tais relações de dominação capitalista.

Antes de se consolidar como um conceito chave para as ciências humanas e para os formuladores de políticas públicas, a palavra cultura passou por inúmeras transformações ao longo da história da humanidade. Seu sentido original referia-se às relações entre os homens e a natureza, tal como os atos de cultivar e habitar a terra. A partir daí, a palavra ganhou um sentido mais abstrato, servido de medida para se avaliar ao grau de civilidade e de desenvolvimento de determinada sociedade – sendo a sociedade europeia a mais civilizada e desenvolvida.

Entre os séculos XIX e XX, os autores marxistas também participaram desse debate. Em 1859, Marx escreveu (no prefácio de “Para a Crítica da Economia Política”) a seguinte frase a respeito da determinação da consciência dos homens: “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência”. Essa frase foi interpretada pelo russo Plekhanov de uma forma que influenciou os estudos culturais por muito tempo. Em 1901, ele afirmou, em “A Concepção Marxista da História”, que “é o estado econômico de um povo que determina seu estado social, e o estado social de um povo determina, por sua vez, seu estado político religioso”. Isso levou muitos intelectuais a entenderem a cultura como uma relação social determinada unicamente pelas estruturas econômicas sendo, por isso, uma relação secundária na análise social.

Felizmente, essa não foi a única perspectiva dentro do marxismo. No século XX, muitos autores ligados à tradição do materialismo histórico desenvolveram teorias que em muito se distanciaram dessa visão mecanicista de cultura. Dentre eles, destaco, por exemplo, Antonio Gramsci, Walter Benjamin, Georg Luckács, Mikhail Bakhtin, Theodor Adorno, Raymond Williams e Edward Thompson, que se esforçaram para mostrar que as relações culturais também são determinantes para o todo social e, manifestando, por isso, as contradições de classes.

A partir da segunda metade do século XX, à prosperidade do desenvolvimento capitalista (que teve seu auge na década de 1950) seguiu-se um momento de grandes transformações nas relações sociais, com a explosão das lutas de libertação colonial na África e na Ásia, dos movimentos de renovação cultural (como Maio de 1968, na França) e de luta pelos direitos civis (das mulheres, dos negros e dos homossexuais, principalmente), sem falar na crise econômica dos anos 1970 que atingiu o mundo capitalista, na queda do Muro de Berlim e na ruína da União Soviética (representando o fim do “socialismo realmente existente”). Esses acontecimentos fizeram com que muitos intelectuais passassem a criticar as teorias que buscavam interpretar o mundo de maneira totalizante (como as teorias marxistas) e que se baseavam no Iluminismo. Além disso, a derrocada da União Soviética e a onda neoliberal das décadas de 1980 e 1990 deixaram um sabor de derrota para aqueles que acreditavam nos ideais de transformação social, que passaram, então, a acreditar na vitória inescapável do capitalismo sobre as outras opções de organização social, como texto do Lucas já explicou.

Ao tentar compreender o (novo) mundo em que viviam, esses intelectuais interpretaram a vitória dos movimentos de libertação colonial e a emergência das identidades que reivindicavam seus direitos civis como uma estratégia possível para tornar o capitalismo um sistema mais humano e mais palatável. A valorização das culturas nacionais e das identidades de minorias sociais apareceu como solução para romper o absolutismo étnico e social do sistema capitalista – que, a essa altura, era visto apenas como passível de reformas pontuais, de modo a acomodar os diversos (e, por vezes, divergentes) fragmentos da sociedade.

Os teóricos da nova era passaram a rejeitar praticamente quaisquer análises que apontavam o capitalismo como um sistema universal ou que buscassem propor estratégias igualmente universais para sua superação. A própria crítica ao capitalismo foi jogada para segundo plano, com base na ideia de que a nova sociedade (pós-industrial, pós-colonial, pós-estruturalista e pós-iluminista) seria demasiadamente complexa para ser pensada dentro de categorias que não davam conta das necessidades específicas de identidades culturais múltiplas.

Nos estudos culturais, houve um grande movimento de crítica às interpretações mecanicistas (que consideravam a cultura como mero desdobramento das relações econômicas). Jean-François Lyotard foi um dos primeiros a propor que a cultura e as identidades culturais seriam livres de qualquer tipo de determinação, sendo que cada identidade seria um tipo de totalidade em si mesma. O papel dos estudos culturais não seria mais o de compreender as origens históricas das identidades culturais, mas se limitaria à simples tarefa de “dar voz” as suas demandas. Nessa lógica, os estudos culturais ligados ao marxismo foram automaticamente associados ao mecanicismo, por se tratar de uma teoria social universalista, que propõe a superação da dominação de classes como condição primordial para o estabelecimento de relações sociais libertárias.

É preciso reconhecer que essas novas teorias contribuíram para que se ampliasse o campo da análise social, propiciando a abordagem de questões importantes, que eram praticamente ignoradas, como o ambientalismo ou as diversas formas de opressão (de gênero, étnica e de orientação sexual), por exemplo. O estudo das identidades culturais permitiu que se percebesse de maneira mais concreta os efeitos particulares (para cada grupo identitário) da socialização capitalista. Dessa forma, a luta de classes ganhou matizes que antes eram, de fato, obliterados e que permitiram entender de forma mais complexa e totalizante (que irônico!) a dominação classista.

No entanto, os problemas começam quando se aponta a fragmentação do multiculturalismo como saída para a globalização capitalista, pois a valorização acrítica do multiculturalismo – ou seja, sem a preocupação de se investigar o contexto das relações que o produziram – é o que leva à falsa sensação de libertação das identidades culturais minoritárias. Ora, se o objetivo é acabar com a opressão (provocada pelas relações capitalistas) aos diversos grupos da sociedade, entendo que seja necessário pensar numa cultura contra-hegemônica que seja tão universal quanto a dominação capitalista. Valorizar uma soma de fragmentos culturais – que são, por vezes, contraditórios entre si – seria aceitar as regras do jogo impostas por aqueles que desejam manter o funcionamento das relações sociais pautadas pela opressão e pela dominação. Reflitamos: é mais fácil lidar (ou reprimir) as necessidades de grupos sociais estanques – e que, às vezes, concorrem entre si – do que lidar com questionamentos que colocam em xeque a lógica do funcionamento de todo o sistema.

O universal e o particular.

O universal e o particular.

A luta cultural contra-hegemônica, nesse sentido, deve ser universal e não fragmentada. E isso não significa subordinar as múltiplas identidades a uma nova identidade hegemônica e homogênea; significa que para que estas identidades múltiplas sejam realmente livres, é preciso que elas se unam em escala universal – já que a lógica capitalista também é universal – em torno do que têm em comum: a condição de subalternidade dentro das relações capitalistas. Do contrário, corremos o risco de cair em novos movimentos “São Paulo para os Paulistas”, que usam e abusam do conceito de identidades culturais para justificar seu preconceito. Definitivamente, não é esse tipo de multiculturalismo que eu quero.

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Sobre Juliana Lessa

Professora, doutoranda em História, flamenguista, feminista, socialista e apaixonada por arte (especialmente por música).
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4 respostas para A necessária liberdade para as identidades minoritárias – debatendo o Multiculturalismo

  1. Ju, o texto ficou ótimo! Fez um bom diálogo com os textos do dossiê que, de uma maneira geral, apontam pra necessidade de pensar a subalternidade das ditas minorias de uma maneira universal, entendendo-a historicamente. Interessante é que essa necessidade também se apresenta de certa forma dentro dos estudos culturais não marxistas, através da questão de como lidar com a relação entre igualdade e diferença. Quando a gente fala da questão das identidades, que precisa ser urgentemente complexificada dentro do marxismo, muitas vezes nos posicionamos contra uma visão pós-moderna supostamente unívoca – a que fragmenta tudo, que que operacionaliza as identidades dentro da lógica do capitalismo e as mistifica. Mas mesmo nas análises pós-modernas não existe um consenso sobre igualdade x diferença – como se definir pelas diferenças e ao mesmo tempo defender igualdade? Pra mim (e pra alguns pós-modernos bem radicais), as diferenças subjetivas são individuais, não têm a ver com os grupos, e por isso o objetivo último dos movimentos de minorias deveria ser alcançar o fim da auto-referenciação por raça, gênero, orientação sexual, etc., numa multiplicidade tão variada de comportamentos que só um conjunto daria conta: o de seres humanos). Mas, na realidade como existe hoje, a experiência da discriminação une esses grupos e cria um sentimento de identidade político, que dá a essas pessoas força, coragem e vontade de lutar contra a condição de subalternidade em que se encontram, o que é muito interessante.
    Enfim, tô viajando. Fica aí minha viagem como contribuição pro dossiê, rs.

  2. Mariana Bedran Lesche disse:

    Ju, ótimo texto!
    Esse debate é obviamente infinito – pelo menos infinito até que tenho um final feliz ;) – e a unidade dos movimentos de resistência, de minorias ou não, parece estar sempre no horizonte, mas dificilmente se estabelecem sequer inícios de diálogos. Gosto de pensar que nossa contribuição vai servir pra alguma coisa…
    Nesse sentido, acho que vale pensar em um conceito de identidade capaz de não só explicar as diversas identidades, mas também de distiguí-las em suas posições de pro ou contra-hegemõnicas. É evidente que a fronteira não é nem nunca será rígida, mas alguma distinção parece possível. Aquilo que nos identifica é tudo o que diz quem somos, a que pertencemos, é o que nos define. Definir, contudo, é também (de)limitar, é dizer o que não é. O processo subjetivo de criação de identidade me parece ser um constante afirmar e negar predicados e pertencimentos a respeito de nós mesmos. Uma pura afirmação do tipo “eu (não) sou” perante a sociedade parece uma atitude absolutamente sem razão de ser, se não como uma resposta a uma indagação. O bom e velho “alguém te perguntou alguma coisa?” tem lá um conteúdo sociológico mais profundo do que parece. A necessidade de se afirmar diante outros, o “chamar atenção”, a ostentação de uma identidade qualquer me parece uma tentativa de imposição de poder. É uma identidade, ou um uso dela, de tentativa de dominação. Não é o mesmo que ter orgulho de si e do que se faz, não é o mesmo que o simples ressaltar de uma diferença em um contexto de contato com um outro. A auto-afirmação num contexto em que ela não é necessária costuma ser ato de força. Há uma diferença profunda entre isto e a afirmação de uma identidade surgida numa luta, num processo de resistência, num contexto de segregação. O texto do Lucas aponta muito bem pra isso. Talvez a questão seja nem tanto de reconhecer e valorizar identidades e diferenças, mas de fazê-lo com uma identidade maior dos que lutam, a identidade da própria resistência, da vontade de organização. Talvez pensar a identidade não como um “eu sou”, mas como um “sim, somos!”.
    Enfim, não disse nada de novo, mas gosto de organizar a questão nesses termos. Faz algum sentido pra vocês?

  3. Juliana Lessa disse:

    Bárbara e Mari,
    Acho que a questão é tentar resolver as coisas de forma dialética, de modo que o particular não seja obliterado pelo universal ou que o universal não seja inviabilizado pelo particular. Ainda que sejamos todos seres humanos, não podemos negar que temos, sim, características próprias, que nos tornam indivíduos únicos. Isso pode até ser uma forma de limitação de nossas possibilidades, Mari, mas não vejo isso como um problema, já que uma das belezas mais instigantes da humanidade é a existência de múltiplas potencialidades e habilidades. Acho que o problema é encarar essas diferenças como aberrações ou como obstáculos intransponíveis para a convivência universal.

  4. Pingback: Um marxismo interseccional é possível? Pontapé inicial para um debate. | Capitalismo em desencanto

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