Pachamama e Marxismo

Whipala

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O texto que se segue é um amontoado de rabisco pretensioso extraído de um estudo mais amplo. Meu esforço é compreender a síntese inusitada que ocorre nos Andes entre a cosmologia dos povos originários da Bolívia, em especial do povo Aymara, e a razão marxista em sua crítica sempre atual à barbárie capitalista. As wiphalas multicoloridas das marchas multitudinárias dos quéchuas, aymarás, guaranis apontam a necessidade de pensar o marxismo com as cores de nossa terra sem a recusa do vermelho revolucionário que nos inspira. Tal encontro tornou-se a condição para os originários na construção de um novo mundo, na superação sistêmica deste, na crítica à economia-política que o sustenta, e na recusa do paradigma universalista da civilização moderna. Tratemos de entender as suas ideias, afinal de contas, elas só tomam vulto pela sua utilidade prática. Os índios na Bolívia com seu modo de enxergar as coisas estão em revolução com o socialismo sob as pálpebras. Atentemos para isso.

Esforcemo-nos para compreender a relação da cosmologia dos povos originários e a filosofia mais poderosa que a Europa criara – o marxismo. Refiro-me aqui aos escritos originais de Marx isento das múltiplas interpretações – necessárias, diga-se de passagem – que sofreara ao longo do tempo. Voltemos a eles, sobretudo aos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844 que intui uma ontologia liberta das ficções dogmáticas do pensamento moderno, o que servirá de anteparo para a construção de uma imagem do pensamento absolutamente imanentista: O materialismo histórico.

Espasmos do Iluminismo, as ideias de Marx resvalam num certo otimismo positivado pela ideia de “progresso” que a sociedade burguesa no bojo de seu desenvolvimento criara. Como revela em seu manifesto, não há solidez que resista aos fluxos disjuntivos que a burguesia no seu afã criador desvelara. “Tudo o que era estável e sólido desmancha no ar[1]”. As velhas tradições soçobram no mar das transformações inexoráveis, e diante das ruínas feudais “maravilhas superiores às pirâmides egípcias, aos aquedutos romanos e às catedrais góticas[2]”. Um mundo de quinquilharias esplendorosas trazidas pelo desenvolvimento técnico. A abolição definitiva das necessidades orgânicas que amedrontam o homem, até então, prisioneiro de um meio natural hostil e aterrador. Marx faz o elogio ao devir-burguês, a erupção de forças sociais que erodem as relações sociais baseadas na crença de sua eternidade. Contudo, seu sorriso é desconfiado, crê-se filho bastardo do movimento que o engendrara, o que muito nos alegra. A sua luz não é a dos filósofos racionalistas que conformam o mundo ao homem fazendo da vida um dispositivo passivo sob a determinação humana. A luz que alumia incide sobre um horizonte revolucionário onde homem e natureza são restituídos em sua unidade insolúvel.

O homem vive da natureza significa: a natureza é o seu corpo, com o qual ele tem que ficar num processo contínuo para não morrer. Que a vida física e mental do homem está interconectada com a natureza não tem outro sentido senão que a natureza está interconectada consigo mesma, pois o homem é (parte da) natureza[3]”.

O “eu e o “outro” se integram na perspectiva ôntica de Marx, inutilizando a dicotomia da linguagem para expressar o fenômeno imanente do “ser”. O que explica o abismo que separa o sujeito do objeto, o eu do outro, a realidade cindida em dualidades antagônicas e hostis a qual insiste na dicotomia “natureza” e “cultura[4]”? Sabemos que Marx se afastara do idealismo de Hegel, portanto, não poderia responder a questão no âmbito da dialética das idéias que se encarnariam nos processos históricos dirigindo o “devir” do mundo. Não. A alienação se dá no interior do processo de produção capitalista na medida em que o “trabalho”, ao invés de efetivar o homem nas coisas (os produtos do trabalho), exterioriza-o dos objetos que cria, da atividade criadora, de si mesmo e dos outros homens[5]. Diante disso, só nos resta o solipsismo subjetivista cartesiano. O sujeito apartado a espera da restituição do mundo. O reduto último de todas as filosofias que se encerram na hipervalorização do EU sobre os objetos na produção do conhecimento verdadeiro. Impossibilitados de gozarmos à vida sem distinções redutoras, contentamo-nos com a pobre e fria verdade subjetiva, que em certas versões epistemológicas, se macaqueia de objetiva.

Marx, no interior da economia-política, trouxe a tona às razões sociais que explicam a constituição da sociedade burguesa e as premissas responsáveis por todo o mal da alienação: A divisão social do trabalho e a propriedade privada. Portanto, não é somente no interior do debate de ideias que ocorrerá a superação da cisão com a vida. Esta não será restituída em todas as suas dimensões para o deleite estético se as condições concretas que geram a sociedade capitalista não forem radicalmente modificadas. Chegamos com Marx à possibilidade cabal de extinção da alienação. Chegamos à Revolução.

Os povos originários da Bolívia, acusados de tradicionais por desconfiarem com razão do “progresso” ocidental, recusam os axiomas modernos oferecidos como amparos para os retirarem do “atraso” civilizacional que se encontram [6]. A Revolução “democrática e cultural” em curso na Bolívia traz consigo a novidade de romper os esteios da dominação burguesa a partir de transformações estruturais profundas que não ficam restritas à economia. Todo paradigma da filosofia moderna, que os índios chamam de “cosmologia ocidental [7]”, está na mira dos seus punhos cerrados. O esforço é remover os entraves colonialistas ocidentais em todos os seus aspectos (políticos, econômicos e culturais) que emperram o pleno desabrochar de sua estética holística que preza por relações satisfatórias com o meio circundante e os homens que os habita fazendo-os uno em sua totalização “cósmica [8]”.

“Nuestra cultura andina y amazónica es fundamentalmente simbiótica y de total equilibrio con la naturaleza. Para nuestras raíces culturales el hombre no es el señor, ni el gerente ni el amo del planeta tierra. Somos parte del, somos parte del todo, somos colaboradores conscientes, somos seres que ayudamos a parir la TIERRA, somos comunarios que ayudamos a criar la vida.
Para nosotros el planeta tierra tiene vida. Es inteligente y autorregulado. A este principio nuestros antepasados le han denominado Pachamama, es decir madre tierra y a ella, a la madre tierra no podemos violarla a titulo de dominarla no podemos venderla ni comprarla porque somos parte de ella y en ella criamos la vida, Pachamama quiere decir que el ser humano con y para la tierra y es lo contrario de la cultura occidental que viven de la tierra y sobre la tierra. Para nuestra cultura la tierra es vida y por eso le rendimos nuestro tributo. Le agradecemos a la Pachamama porque es el espacio habitado por los hombres. Es nuestra protectora y cuidadora por excelencia. Es una madre que ampara a sus hijos y que les da los alimentos que necesitan para vivir[9]”.

Pachamama, eis o sentido imanente dos aymarás, a mãe que protege e alimenta os seus filhos. Não lhes importa as ideias ocidentais da supremacia do individual sobre o coletivo, da supremacia dos humanos sobre os não-humanos, da conversão da natureza como um mero instrumento a serviço dos homens, nem lhes toca a ideia de universalidade das criações europeias. Contra o projeto modernizador que se expressa de forma coercitiva em sua fase neoliberal, o oferecimento de seus princípios milenares: “Ama Sua, Ama Llulla, Aman Quella[10]”. Ou seja, “não sejas ladrão, não sejas mentiroso, não sejas ocioso”. Novamente uma ética inquebrantável, tal qual o estoicismo guevarista de outros tempos, para sacudir as esquerdas da América Latina e do mundo, sobreviventes da avalanche neoliberal, que com suas inércias pragmáticas comprometeram-se demasiadamente com o “politicismo ordinário”. Atados pela conservadora ideia do “refluxo histórico” esperaram (esperam?) valentes a grande virada histórica.

Orientemo-nos para entender as relações entre o pensamento andino e o marxismo. Sabemos da recusa dos originários aos valores modernos que os fizeram cativos em suas próprias terras. Porém, como já dito, o esforço de superação do paradigma ocidental não exclui interseções com imagens de pensamentos heterogêneas desta mesma modernidade. O marxismo foge as dicotomias dilacerantes, ao idealismo conservador, ao racionalismo antropomórfico. O marxismo oferece respostas, e, sobretudo, meios de intervir na realidade social. A leitura de K.Marx inserida no contexto andino seria de valia para nós, não obstante o grau de idiossincrasia a fomentar incompatibilidades. Na verdade, tal esforço já está se operando, especialmente, através da caneta de Álvaro Garcia Linera.[11]

Não obstante os traços mecanicistas de Karl Marx, expostos em diversos trechos de sua vasta obra como em Grundrisse e Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política, justificados como expressão cientificista do século XIX cuja influência o filósofo alemão não se furtara, seguiremos a orientação de outro filósofo, mais próximo das razões que nos toca. Gilles Deleuze, em O pensamento nômade[12] aplicara a idéia de exterioridade da leitura para enfatizar a multiplicidade de composições possíveis na apreensão dos sentidos da obra de F. Nietzsche. Mais do que seguir a ordem unívoca das razões para extrair a verdade objetiva e irretocável requerida de qualquer texto, procedimento este tão caro ao modus operandi da episteme moderna, os aforismos nietzschianos conectam o pensamento ao exterior recusando as epistemologias da dissecação interior mediadas por uma metodolatria do sujeito cognoscente a construir pontes na apreensão desesperada da verdade objetiva do ser cognoscível, encontro este que funda a ciência moderna. O problema não se reduz a questão da objetividade posta como garantia de inteligibilidade na leitura de um texto. Ler não é um ato asséptico, um estado de “epoché” fenomenológica onde a vida é colocada em parênteses à espera do conhecimento que a explique. Qualquer ato da razão supõe necessariamente afetos vindos de “fora”[13]. Não temos compassos no lugar dos olhos. Antes d’ O Capital ou do AntiCristo, o sol e suas afecções sobre as nossas retinas. Nas palavras de G. Deleuze,

(…) quando se abre ao acaso um texto de Nietzsche, é uma das primeiras vezes que não passamos mais por uma interioridade, seja a interioridade da alma ou da consciência, a interioridade da essência ou do conceito, ou seja, daquilo que sempre fez o princípio da filosofia[14]”.

O que faz o estilo da filosofia é o fato de que a relação com o exterior sempre é mediada e dissolvida por uma interioridade, numa interioridade[15].

  Estilo caduco tão apreciado pelos mecanicistas de ontem e de hoje. Do mesmo modo, a leitura extrativista de K. Marx, que pressupõe uma verdade recôndita no seio das mais de três mil páginas escritos pelo filósofo, funda-se em tal estilo, cristão por excelência, pois o “ser” de Marx será julgado no tribunal da epistemologia segundo o sentido que queiram dar a sua obra, expressa como um juízo transcendental. Os detratores, positivistas inconscientes, dirão: “Marx não serve, é mecanicista demais”. Os apologistas, por sua vez, o absolveram circunscrevendo todos os problemas da vida à leitura de Marx. Da ontologia às trivialidades de bar. Qualquer esforço de composição de pensamentos outros com o marxismo é visto como heresia. Acusarão: “Pós-modernos!”. Um e outro – detratores e apologistas – com as mãos dadas rezando o credo científico que tudo reduz a interioridade das coisas.

Os povos que estão no exterior dessas polêmicas vazias, dos falsos problemas que obscurecem os problemas concretos, eles mesmos fazem valer na práxis social a assertiva revolucionária de K. Marx:

Os filósofos só interpretaram o mundo de diferentes maneiras; do que se trata é de transformá-lo[16]”.

Um povo em revolução, cuja filosofia não é mais uma atividade especulativa, e sim um sentido ético, marca em seu corpo o princípio da exterioridade acima citado, e torna factível a compreensão da interação das razões marxianas com as razões de uma cosmologia aymará pautada por um esteticismo que fere os puristas da racionalidade prática. Na Bolívia, o princípio simpático da composição entre tais razões se expressa na aliança entre teoria e práxis. Álvaro Garcia Linera e Evo Morales. O primeiro, intelectual marxista, experimentado no Exército Guerrilheiro Tupac katari (EGTK), empenhado na renovação crítica do pensamento de esquerda na América Latina. Evo Morales, por sua vez, aymará, plantador de coca da região de Chapare, formado politicamente nos sindicatos cocaleros que lutavam contra a política pró-estadunidense de erradicação da folha sagrada nos anos de 1980. Ambos, conduzidos pelos povos da Bolívia ao novo governo, parido pelas grandes mobilizações[17] contra o neoliberalismo dos anos precedentes. Sinais do tempo: Marxismo e Pachamama. O encontro induzido pela necessidade indígena e revolucionária desmascarando a ideologia burguesa da inexorabilidade do neoliberalismo, e suas premissas modernas.

Por fim, ressaltemos o caráter inaudito dos eventos que se precipitam na Bolívia após os levantes massivos dos povos originários nos últimos anos. Em 2006, pela primeira vez na história do continente latino-americano, é eleito um indígena para presidir uma nação (ou várias?). Para fazer valer a vontade das maiorias étnicas que se encaminham novamente para a difícil tarefa de construção do socialismo ou qualquer outro nome que queiram dar a utopia revolucionária da bonança para todos. Kollasuyo[18] para sermos mais sensíveis ao gosto andino.  Está em curso políticas de nacionalização dos recursos energéticos, de construção do “Estado Plurinacional” a partir da aprovação de uma nova Constituição (2008), de “desamericanização” do Exército nacional, e de reformulações do projeto educacional do país com objetivos de valorar os hábitos, costumes e línguas nativas.

O processo em curso na Bolívia está em aberto a despeito do juízo que façamos dos métodos escolhidos. Vemos um povo que se experimenta revolucionariamente a favor daquilo que se descobriu que se é, e se quer ser: Índio! A remoção dos entraves para tal afirmação, é claro, gera os conflitos étnicos e classista, pois os abastados – minoria branca e racista – não estão dispostos a abandonar os seus privilégios seculares. Tampouco sua visão bastarda de mundo. Aprendamos com os índios dos Andes a relevar a questão étnica em nossas proposições políticas e no processo de subjetivação coletiva. Aqui, em nossa famigerada Pindorama ante os mandos e desmandos do Capital, os índios da Aldeia Maracanã em seu esforço titânico para serem apontam para o mesmo caminho. Aprendamos com eles!

Luiz Antônio Andrade Oliveira (Professor de Filosofia e História).

[1] MARX, Karl. ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista (1848). L&PM. Pág. 29.

[2] Idem. Pág. 28.

[3] MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. Boitempo Editorial, Pág. 2004. Pág 84.

[4] Para uma apreciação mais detalhada abeirando a questão “natureza-cultura” a partir de reflexões do assim denominado “marxismo-espinosano”, ver em: VIERA, Maurício. Marx com Espinosa: Em busca de uma teoria da emergência. In:__  Crítica Marxista. Nº 22, 2006.

[5] MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos… Op.Cit. Pág. 81.

[6] Tal generalização é excessiva. Referimos-nos aqui aos aymarás do altiplano boliviano, e não a todas as etnias que conformam a Bolívia.

[7] Programa del Gobierno del MAS, “V CONGRESO NACIONAL ORDINÁRIO EN ORURO, 2003”. Nuestros Princípios ideológicos.

[8] Idem.

[9] Idem.

[10] Idem.

[11] Álvaro Garcia Linera, ex-integrante do Exército Guerrilheiro Tupak Katari (EGTK), economista e vice-presidente da Bolívia.

[12] DELEUZE, Gilles. O pensamento nômade. In: __ Nietzsche Hoje? São Paulo: Brasiliense, 1985.

[13] Sobre a Teoria da afetividade, ver em: ESPINOSA, Baruch de. Ética. Áutêntica, 2007

[14] Ibdem. Pág. 61

[15] Ibdem, pág 61.

[16] MARX, Karl. ENGELS, Friedrich. Anexo: Teses sobre Feuerbach. In: __ A Ideologia Alemã. Martins Fontes, 1989.

[17] Refiro-me especificamente aos levantes de Cochabamba (2000), de La Paz (2003) e El Alto (2003) conhecido respectivamente como a “Guerra da Água”, o “Impostazo” e a “Guerra do gás”.

[18] Nome indígena (originário) do atual território da Bolívia.

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3 respostas para Pachamama e Marxismo

  1. Juliana Lessa disse:

    Luizinho, acho que seu texto levanta questões muito relevantes e que são especialmente caras pra mim – como a tentativa de conjugar o pensamento marxista a outros que tentam, partindo de outras bases, subverter a ordem estabelecida. Só acho que é complicado afirmar que o debate em torno do marxismo se reduz à polêmica de ser este mecanicista ou perfeito, como se só existissem os acusadores de que o marxismo é mecanicista ou os apologistas, que dele tudo absorveram acriticamente (até porque marxismo não é sinônimo de mecanicismo, embora existam posições mecanicistas dentro do marxismo). Em primeiro lugar, acho que existem, dentro e fora do marxismo, boas tentativas de pensar em teorias sociais revolucionárias que não sejam mecanicistas. Gramsci, pra mim, é um dos maiores exemplos disso. Além disso, discordo quando você afirma que esta é uma polêmica vazia ou que seja algum tipo de masturbação intelectual discutir esse assunto, enquanto os povos indígenas da Bolívia já vivem essa revolução na prática… Primeiro porque creio que essa discussão se faz mais urgente do que nunca, para que possamos pensar, por exemplo, em caminhos que apontem para a superação da dicotomia entre o universal e o particular (como eu e o Lucas discutimos em nossos textos) e que nos levem a uma resposta que seja capaz de transformar a ordem das coisas; por último, não acho que exista uma revolução social em curso na Bolívia, ainda que o atual governo boliviano seja de origem popular e indígena. É só observar o apoio que o governo deu para a entrada de multinacionais brasileiras lá, por exemplo.

    • Luiz Antônio Andrade Oliveira disse:

      Oi Juliana! Valeu pelo comentário. Não sou muito vertido na literatura marxista, embora goste de dar os meus pitacos a partir da leitura de Marx e Mariátegui. O texto é um esforço de entendimento e paixão dos processos sociais em curso na Bolívia. Mais pitaco do que ciência! Enquanto processo acho que não cabe um julgamento tão categórico de sua natureza revolucionária. Não há fórmulas, e os índios estão em experimentação. É capitalismo ainda, (Garcia Linera fala de um “capitalismo andino”), mas já saindo da selvageria neoliberal. A radicalização do processo depende essencialmente dos movimentos sociais. Acho que estamos bem distantes do “assalto aos céus” de Lenin. Acredito que há polêmicas mais relevantes dentro e fora do marxismo, mas a lógica binária do ser e não-ser é bem recorrente entre nós, dialéticos. No caso específico, há uma polêmica entre movimentos indígenas originários como Pachakuti que recusam toda e qualquer influência moderna-ocidental (inclusive o marxismo),e aqueles que ficam enjaulados na literatura marxista cuspindo nos que comem fora. Os românticos querem um retorno idílico ao período pré-incaico. Se dizem racialmente indígenas. Já os puristas da COB gostam mesmo do marxismo mecânico. Esses são camponeses saudosos da Revolução de 1952. Concordo contigo. Tosco esse dualismo, mas existente.O MAS, ao meu ver, tem uma disposição de compor no plano simbólico e político as duas razões (e quantas mais couber), e as contradições são inevitáveis. Um abraço procê! Luizim.

  2. rodrigosilvadoo disse:

    Luizinho,

    cara, gostei muito do que tu escreveu. Como cara que te conheceu escrevendo poesia, a primeira coisa que me chamou atenção foi que o teu estilo tá ficando cava vez mais maneiro de ser ler.

    Quanto ao conteúdo, eu senti falta de tu falar um pouco mais do Mariátegui, mas como você me disse que esse texto faz parte de um maior, em que pega mais pesado no Mariátegui, então fiquei foi com vontade de ler o restante.

    Como você sabe, eu não acho que esteja acontecendo uma revolução na Bolívia, mas é fato que a experimentação social de novas formas de luta e organização tá comendo solta por lá, e isso tem que ser registrado, porque nem o melhor marxismo pode ter a resposta para tudo.

    A minha discordância maior, como tu já deve saber, é sobre a questão do Iluminismo. Do meu ponto de vista, a destruição que o capitalismo fez (incompleta) das tradições europeias deve ser levada até o final e estendida até as culturas não-europeias: o Iluminismo tem que ser radicalizado. Principalmente no caso da relação humanidade-natureza. Nunca existiu harmonia entre humanidade e natureza, as culturas tradicionais, com os seus ritos, estavam é expressando medo e submissão em relação a ela.

    Um abração, cara! Vou colocar o link desse blog no meu blog.

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