Homeland: ideologia da Guerra ao Terror em tempos de Obama

Homeland é uma série de espionagem e política com bastante suspense que já tem duas temporadas. Sendo assim, eu camaradamente não vou fazer muitas referências aos fatos do enredo (à exceção da sinopse), o que poderia frustrar os que pretendem assisti-la. Em conseqüência, alguns comentários desse texto ficaram meio soltos em relação aos encaminhamentos da trama mas, espero, nada abstrato ou ininteligível.

A história começa com uma agente da CIA, Carrie Mathinson, que obtém a informação de que há um plano de ataque aos EUA com participação de um soldado americano convertido ao Islã. Meses depois, o exército resgata um fuzileiro, Nicholas Brody, que estava dado como morto em combate há 8 anos. Ele se torna um acontecimento político-midiático como um herói de guerra, e imediatamente a agente Mathinson desconfia que ele seja um recrutado da Al-Qaeda. Ela começa a investiga-lo e neste quadro esses dois protagonistas travam contato e constroem com outros personagens familiares e políticos uma série de relações que vão envolvendo dramas pessoais e a assim chamada Guerra ao Terror.

Sábio, compreensivo e emotivo, o agente Saul Berenson é a “face humana” da CIA na Guerra ao Terror.

Conservadores se queixam de que a série é crítica à ~política de segurança~ dos EUA. Não estão errados: fazem parte do enredo bombardeios que matam crianças inocentes no Oriente Médio, políticos hipócritas e perversos, ação policial em mesquita dos EUA que termina com inocente morto, além de empáticos retratos humanizados de terroristas islâmicos. Homeland portanto, além de não combinar, é contrária ao ímpeto fundamentalista e idiota que governou os EUA assim que se deu o 11/9. Mas é justamente isso que a torna uma interessante peça da ideologia imperialista americana em tempos de Obama.

Se em Homeland a (assim chamada, claro esteja) Guerra ao Terror tem os seus dois lados, americano e terrorista, representados com suas razões, afetos e defeitos, nela também está fundamentada a própria Guerra ao Terror como algo intransponível a qual nenhum dos personagens procura transcender. Ou seja, há, por um lado, a “complexidade da realidade” duplamente facetada, o que agrada o gosto “sofisticado” que rejeita leituras maniqueístas (essa é mais uma das séries de tv aclamadas como “inteligentes”). Mas por outro, uma realidade imposta e naturalizada, a da Guerra, na qual todos desempenham seus papéis e que permanece inquestionável para os personagens e para o espectador. Se a série resulta conservadora, não é (apenas) porque mostra corações na CIA (aliás, isso é uma das coisas que a torna mais legal), mas por causa dessa operação reificadora.

O atual presidente declarou-se um fã da história (uma pequena nota: talvez uma bela forma de julgar politicamente uma obra seja com a pergunta “o quanto ela perturba os dominantes?”). Isso me parece bastante sintomático: Obama emergiu como resultado simbólico do, entre outras coisas, esgotamento da paranóia fascista e belicosa de George Bush, e como um político equilibrado, sensível aos direitos humanos, aberto a diálogos e pacificações. Simbólico, eu disse, porque efetivamente o Nobel da Paz radicalizou o aparato autoritário e repressivo de Bush e realizou 20.000 bombardeios em 4 anos, enquanto o texano fez “apenas” 24.000 em 7 primaveras .

No livro “Extinção” (Boitempo, 2007),  Paulo Arantes observou como o atual sistema de controle e exploração autonomizou a guerra, que passa a funcionar como uma “segunda natureza”, e “a sensação de que a administração Bush perdeu o contato com a realidade se explica em grande parte por essa circunstância. Num certo sentido, a paranóia que a impulsiona é objetiva, pois obedece a uma tal necessidade de segundo grau. No entanto, não é menos verdadeiro que se trata de um guerra por escolha, e não por necessidade. A analogia com o etos guerreiro do cowboy tem sua razão de ser: numa guerra preventiva, em princípio também vence quem saca primeiro, porém na segunda ou terceira guerra não se poderá mais ignorar o aberrante automatismo do gesto.”. Em um primeiro momento (Bush) a Guerra foi uma escolha, e para a sua construção foram usados mentiras, ódio, pânico e burrice. Homeland é um produto de um desenvolvido segundo momento: a Guerra como natureza. É essa condição que permite à série rejeitar valores toscos, reconhecer os horrores da política e dos ataques e, com o mesmo movimento, fazer a Guerra triunfar sobre a vida social.

O supostamente republicano vice-presidente dos EUA é um vilão.

A nossa pequena e não lá muito segura hipótese é, então, a de que o universo ficcional de Homeland acompanha um câmbio simbólico que viveu os EUA quando brilhou a estrela do democrata: o espectador encontrará na série uma rejeição do dogmatismo unilateral republicano, mas sem que haja uma outra coisa efetiva, uma alternativa, um rompimento. Entre culpa e erro, amor e perdão, em Homeland a Guerra é menos objeto que pano de fundo. Disto não decorre que os personagens sejam meros vetores de forças maiores. Pelo contrário, vão tentando construir liberdade em uma obra dramática de valor. Mas, me parece, que é justamente por assim ser que Homeland contrabandeia uma mensagem conservadora poderosa. A série nos passa uma atmosfera de inteligência e sensibilidade enquanto nos deixa quietos e vendidos a uma estrutura insana de violência e domínio.

Sobre Wesley Carvalho

Professor e historiador.
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2 respostas para Homeland: ideologia da Guerra ao Terror em tempos de Obama

  1. Rodrigo Silva disse:

    Petrificar nas massas a mensagem de que a Oceania sempre esteve em guerra com a Eurásia…

  2. Pingback: Homeland: ideologia da Guerra ao Terror em tempos de Obama | Foguetes Contra o Infinito

Comentários

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