É por centavos, é por direitos, é por poder.

Graúna e o poder popular

Graúna e o poder popular

Nós sabemos onde estamos: Estamos no país dos mega-eventos, onde a cifra dos gastos contrasta com a efemeridade dos seus objetivos. No país dos mega-projetos energéticos, que se incrustam nas regiões longíquas onde seus mega-danos ecológicos e humanos se escondem melhor. No país, também, onde a desigualdade social é um monumento colossal, reverenciado todos os dias pelo leiloamento e depredação do espaço e das instituições públicas. Estamos num país no qual a democracia é um mega-evento, um espetáculo de cifras espetaculares onde adversários competem pelo monopólio de excluir o povo brasileiro de qualquer debate público e participação política por mais quatro anos.

Mas é também este o cenário no qual nós lembramos a nós mesmos: Aqui estamos! Não que tivéssemos de fato esquecido, não era possível. Mas faltava confiança de que compartilhávamos a mesma sensação. Esta confiança nós reconquistamos da única forma possível, com a coragem de lançar convocações, com a coragem de comparecer. As recentes manifestações marcam o ínicio do processo de reconquista da nossa vontade coletiva de reivindicar o país em que vivemos, de reivindicá-lo como coisa nossa. Cada manifestação é um exercício de coragem, de ousadia e de imaginação pelo qual lutamos para retomar nossa existência coletiva. E por meio delas nos damos provas de que ela existe, vemos nosso próprio rosto refletido. E cada novo ato é uma convocação para novos companheiros, para o crescimento dessa experiência e para a sua difusão.

Para quem vê de fora um protesto se define pela sua medida. Se é um grupo de poucas dezenas ou centenas, um protesto é uma reivindicação particular feita por um grupo particular. De acordo com a causa ou o seu método, se escolhe se merece simpatia ou rejeição. Entretanto, se o ato é realizado por milhares, se demonstra força e ameaça limites da ordem rotineira, o ato deixa de ser visto como um ato. Passa a aparecer como a irrupção de algo pré-subjetivo, uma insatisfação disforme e difusa. Desta forma, protestos aparecem como meras “confusões”, puros conflitos, ou, se é reconhecido a sua forma de ato político, ainda assim é como expressão de uma indignação pré-subjetiva que o ato é de fato interpretado. Dessa maneira, protestos e revoltas são vistos como sintomas de uma situação social, e não como uma ação política em pleno direito.

Com os movimentos de contestação do aumento das tarifas do transporte público urbano não foi diferente. Uma vez que os protagonistas do movimento parecem ser principalmente estudantes, em grande parte de classe média, utilizando meios tradicionais de protesto reconhecidos formalmente como parte de uma democracia, as manifestações foram reconhecidas como políticas, mas não como ato consciente coletivo. A imprensa comercial deu o tom para que os protestos fossem vistos como coleção de ações individuais, unidas pela vaga cola de uma miríade de insatisfações que formam, assim, a realidade mais profunda do movimento. A proporção que tomou o movimento, diz a imprensa, não pode ser explicada por um aumento de R$ 0,20 (o tamanho do aumento em São Paulo e também no Rio de Janeiro). O aumento só teria catalizado a reação e fornecido um objetivo para canalizar essa revolta sem face própria. Dessa forma, claro, torna-se a demanda concreta e articulada pela redução das tarifas uma questão lateral, e o importante torna-se entender a sociopsicologia dessa multidão. O caráter explicitamente político das manifestações tornam-se o seu aspecto menos real. Uma vez que não se explica por sua organização nem por suas demandas explícitas, a sua condução política deve ser não só superficial, mas disputada pelas organizações da esquerda radical, em busca de arregimentar força política para suas agendas privadas.

A imagem assim composta para representar o movimento encontraria seu elemento decisivo na caracterização de atos como pixações e destruição (extremamente limitada, diga-se de passagem) de propriedade privada e pública como atos de violência sem sentido, “vandalismo” que deixaria claro o caráter de revolta puramente libidinal do movimento. Ao mesmo tempo que estes atos provariam ser o movimento uma expressão no fundo acéfala de uma insatisfação multiforme, eles também marcariam a ilegitimidade da sua forma política. O movimento, irracional no seu fundo, seria, portanto, também irracional nos seus atos, de uma irracionalidade criminosa que determinaria o fim de qualquer possível legitimidade sua. O editorial do jornal Estado de São Paulo de 13 de junho (Chegou a hora do basta) é exemplar nesta caracterização, concluindo com uma brutal invocação para que o poder público esmagasse o movimento. O texto não só requer uma repressão física imediata nas manifestações (que são comparadas com um incêndio), como aponta os culpados por atear o fogo (toda a esquerda “radical”) e defende a inteira responsabilidade destes por suas consequências (criminosas, subentende-se). Portanto, ainda que se trate de atos de violência aleatória de uma turba sem direção, estes atos são um desastre de origem criminosa, causado pela ação disparadora, esta sim política, dos grupos da esquerda organizada. Os manifestantes, portanto, são baderneiros úteis, ingênuos marginais juvenis manipulados com dificuldade por terríveis forças radicais.

Dessa maneira, a imprensa se esforçou por articular conjuntamente com os governos municipais, estaduais e federal uma estratégia comum de solução policial para a questão. As cenas de horror da repressão ao quarto ato pela redução das tarifas em São Paulo mostrou a que ponto se acreditou que esta estratégia era infalível. Mas ela falhou fragorosamente. Falhou não somente porque a carta branca à repressão pôs por demais às caras a monstruosa brutalidade das forças repressivas do Estado, mas também e principalmente porque o movimento mostrou-se capaz de aceitar o desafio do bloco dominante e impor-lhe uma derrota claramente política. Preocupados em preparar um consenso sobre o movimento como a explosão libidinal de atos de vandalismo, portanto como movimento diretamente criminalizável, autoridades e veículos de informação tornaram o movimento um objeto de reflexão geral da nossa sociedade. O movimento, por sua vez, com a espontaneidade que é marca sua tão forte, deu o passo decisivo de reivindicar como legítima a violência que lhe era atribuída, como um direito de exigir, se necessário, na marra os seus direitos. Dessa forma, o movimento foi capaz de manter uma posição ofensiva em discurso e em ação, enquanto multiplicava na prática (para uma mídia mobilizada em massa para capturar momentos de uma turba ensandecida) os exemplos de seu verdadeiro caráter. Isto, claro, enquanto as PMs mostravam sem embaraço o seu.

A posição ofensiva do movimento, disposto a não somente denunciar a violência recebida, mas a resistir a ela e prosseguir na busca dos seus objetivos, facultou a ele o crescimento do apoio na sociedade, só conquistado quando um movimento é capaz de por sua autoconfiança despertar simpatia. Esta posição, tão rara, só está sendo possível porque o movimento se converteu num poder político real na atual dinâmica de forças. As razões para como o movimento pôde chegar a se expandir tanto tão rapidamente ainda terão que se investigadas amplamente, mas qualquer análise perderá o ponto se não reconhecer a responsabilidade do próprio movimento neste processo. A tese conservadora quer fazer-nos crer que a explosão recente de protestos é a expressão de uma indignação geral, mas disforme, encontrando no aumento nacional das passagens pouco mais do que a oportunidade de fazer-se ouvir por alguém. Contra essa imagem, é fundamental que se reconheça que o objetivo imediato do movimento não é uma demanda qualquer, mero foco de insatisfação. Ao se construir em torno da rejeição dos aumentos de tarifa, o movimento se pôs uma tarefa determinada e um objetivo político evidentemente factível, um objetivo que, por sua vez, ataca o entrecruzamento mais direto do compromisso de nossos governantes com o asseguramento do lucro dos empresários do transporte privatizado, com a transferência de renda do público em geral para os bolsos de pequenos grupos (garantido nos preços diretos pagos pela população nas catracas e nos bilhões de reais pagos como “subsídio” às empresas – na verdade, garantindo um preço maior do serviço do que seria possível praticar no mercado diretamente). Dessa maneira, o movimento se ligou e se comprometeu com os interesses da classe trabalhadora, formalizada e mais ainda a informalizada, para a qual o impacto do alto custo e da péssima qualidade do transporte é mais sensível e mais insuportável. O movimento não elegeu este alvo a partir de um cálculo político, mas se formou em torno dele, justamente porque ele é central na experiência coletiva de milhões de brasileiros, e conecta na experiência da deterioração do espaço público setores de renda média, especialmente sua juventude, com os setores mais pauperizados.

Por isso, não devemos nos enganar quando se entoa o grito “Não é por vinte centavos, é por direitos”. É através da luta pela redução das tarifas que nos articulamos para exigir direitos mais amplos. É como movimento com um clara reivindicação que tomamos as ruas, não como grandes pedidos por atenção. Antes de tudo, se luta pela constituição de uma capacidade de decisão coletiva sobre os destinos de nossa sociedade, capacidade essa permanente e instituída pela própria ação política daqueles que se reúnem para isto. Certos comentaristas políticos prescrevem como solução política para dissolver o movimento criar “canais de participação” em que os protestos e a busca por intervir nas decisões transcorram sem mais perturbar o funcionamento da rotina urbana. Dessa forma, tratam a política de base como um fenômeno gasoso: para evitar explosões, é preciso criar vias de escape. O movimento, entretanto, já deu consistentes provas de saber-se o que é: A constituição de um poder diretamente exercido nas ruas, na constituição de laços de solidariedade e no enfrentamento de um consenso político que sacramenta como limite inviolável o direito ao lucro privado sobre as costas de quem trabalha. Portanto, a força desse movimento é reivindicar a constituição de um poder popular sendo já um poder popular. Reconhecido deste modo, vamos lutar para desenvolvê-lo como tal, na luta pela redução das tarifas, na luta pelo fim da PM e nas lutas por uma redemocratização profunda de nossa sociedade.

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4 respostas para É por centavos, é por direitos, é por poder.

  1. Paulo Cabral disse:

    O povo é quem mais ordena.
    A força é o Povo.
    Viva a Democracia.

  2. Wesley Carvalho disse:

    Ivan, acho que esse texto é a melhor síntese até agora produzida sobre o movimento. Me chamou a atenção uma ideia: a de que o movimento reivindicou como legítima a violência que lhe foi atribuída. Dizê-lo é correto porque o movimento (considerado como a soma de tudo) de fato está radicalizando na violência, e em todos os aspectos ele é ofensivo. Por outro lado, como ele é múltiplo, também tem se colocado muito uma mentalidade, digamos, pacifista. O discurso da mídia de ontem foi separar essas duas tendências, inclusive legitimando a passeata ao colocar que o “vandalismo” seria fruto de pequenos radicais que estariam fora do espírito geral.Vê-se então que há uma nova fronteira, mais larga, colocada pelo próprio movimento, e cuja disputa acontece dentro dele, não fora. Me parece que será essa a definição mais importante dos próximos dias.

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