Por que os recentes protestos de massa no Brasil não devem se transformar em movimentos contra a corrupção?

“Rema, rema, remador,
Vai tomar no cu, governador,
Se o governador é vigarista,
Pau no cu do Eike Batista.
Se essa porra não abaixar, ole ole olá,
Se essa porra não abaixar, ole ole olá,
A roleta eu vou pular”.
Manifestantes no Rio de Janeiro
em 17/06/2013

O companheiro Zé Knust, em texto publicado ontem nesse blog, já mostrou como a quinta-feira passada, 13/06/2013, constitui um marco na mudança da postura da mídia de mercado em relação aos recentes protestos de massa ocorridos em diversas cidades do Brasil. Naquela noite, o grito raivoso que clamava por repressão aos “baderneiros” começou a ceder passagem à indignação em relação à truculência policial, que atingira, além de manifestantes, diversos empregados da própria mídia de mercado, como a jornalista da Folha de São Paulo, alvejada no olho por uma bala de borracha. A partir da transmissão dos protestos dessa segunda-feira, 17/06/2013, tudo indica que essa cobertura alcançou sua terceira etapa.

No Rio de Janeiro, o pretexto para tal virada foi a ação de um grupo de ativistas defensores do enfrentamento direto e imediato com as forças policiais, o qual investiu contra os guardas localizados nas cercanias da Assembleia Legislativa do Estado, tendo também pichado esse e outros prédios públicos próximos, além de quebrarem janelas e iniciarem pequenos focos de incêndio (em outras cidades, ações similares ocorreram, como foi o caso em São Paulo, onde parcela dos manifestantes tentou invadir o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual). A partir daí, a tônica da mídia de mercado foi a de “separar o joio do trigo”, contrastando as dezenas de milhares de manifestantes pacíficos com os “pequenos grupos que apelam à violência”.

Essa mudança, no entanto, não deve obscurecer a percepção de que um importante elemento discursivo permeia toda a atividade da mídia de mercado desde o início dos protestos e mesmo antes. Trata-se, evidentemente, do clamor para que os protestos tomem a corrupção como seu alvo prioritário. Uma demonstração singularmente eloquente dessa continuidade nos foi dada por um dos mais ativos e fieis cães de guarda ideológicos da burguesia nacional, Arnaldo Jabor. Os vídeos em que Jabor desanca os manifestantes, ironizando sua reação a um aumento de “módicos” 20 centavos nas tarifas de ônibus, bem como o subsequente, em que faz sua autocrítica, passando a louvar a disposição com que ocupam as ruas, já circularam bastante pela internet, além de terem sido transmitidos em rede nacional. O que tem sido menos ressaltado é que em ambos os vídeos há um chamado à luta contra a corrupção: no primeiro, como evidência e censura da/à miopia dos jovens que lutavam contra o aumento das passagens; no segundo, como uma contribuição ao movimento, vinda de alguém passava a se colocar ao lado do mesmo.

Associados esses dois aspectos – alteração do discurso com nova ênfase na oposição pacíficos X violentos, e continuidade do chamado anticorrupção –, o que se busca é uma esterilização do movimento em termos de seu potencial de obter transformações efetivas da realidade social. De um lado, a bandeira do combate à corrupção, por seu caráter extremamente amplo e genérico, desloca as atenções de reivindicações palpáveis e passíveis de impactarem de forma imediata o cotidiano de milhões de pessoas, como a redução das tarifas dos ônibus. De outro, o antagonismo insuflado em relação a parcelas do próprio movimento aponta um inimigo claro – os manifestantes “violentos” –, fornecendo um alvo óbvio à indignação difusa de amplas parcelas dos que foram às ruas. A macro e a microescala se encontram, nesse processo, sem qualquer mediação crítica. Não se trata de perceber a articulação sistêmica entre o que se passa ao nosso lado e o os processos e estruturas sociais, mas de reagir com grande força ao que ocorre ao lado, precisamente porque não se pode divisar com precisão o que ocorre num plano mais amplo.

Evidentemente, o discurso que articula luta contra a corrupção e crítica aos “vândalos” não é evocado unicamente por empresas do ramo midiático, tendo sido reivindicado por amplos setores dos partícipes das manifestações já na própria segunda-feira. É preciso, no entanto, compreender quem são essas pessoas e perscrutar as origens de seu discurso. De forma sintética, é possível dizer que as manifestações de forma geral são compostas por uma geração de jovens estudantes (de nível básico ou superior), além de outros jovens trabalhadores ou membros do que convencionalmente se conhece por classe média (e que se distingue significativamente da agora chamada, de forma absolutamente equivocada, de “nova classe média”). Tendo o grosso dos manifestantes em comum o vínculo geracional, conformam um grupo que não presenciou grandes mobilizações de rua – e, em muitos casos, não se empolgou com as pequenas e médias verificadas nas últimas décadas; e que cresceu ouvindo um discurso desqualificador da ação política – constantemente reduzida à ação da tecnocracia empoderada com o advento do neoliberalismo – e, especialmente, da ação coletiva e organizada em termos partidários, sindicais, de movimentos sociais, etc. Diante desse quadro, não é à toa que na segunda-feira, quando muitos dessa geração ganharam as ruas pela primeira vez, alguns tenham proposto a expulsão dos protestos dos militantes organizados em partidos políticos, ignorando – de forma irônica para um movimento que teve como um de seus detonadores a violência policial contra o direito democrático de manifestação – o direito democrático básico que se refere à liberdade de organização politica (tolhida pelo nazismo, pelo fascismo italiano, pelo Estado Novo varguista e pela Ditadura Empresarial-Militar instalada no Brasil em 1964, entre outros regimes autoritários).

A despeito dessa experiência, essa mesma geração tem vivenciado nos últimos anos um intenso processo de expropriação que se expressa pelo sucateamento dos serviços públicos, pela espiral ascendente da especulação imobiliária, pelo aumento do custo de vida, pela crescente precarização dos vínculos e condições de trabalho e pela perspectiva pouco animadora de inserção num mundo do trabalho marcado pela voraz competitividade e pela insegurança estrutural. Há, portanto, um substrato de experiências concretas pronto a se tornar o material para uma combustão ainda mais forte. O grande risco ao ativismo dessa geração, da qual faço parte, reside no salto analítico que busquei descrever acima, uma vez que ao passar diretamente da bruma onipresente da corrupção para a crítica ao “vandalismo” localizado, a baldeação que se perde é, precisamente, a que deveria ser feita na estação da política. Que fique bem claro, no entanto, que a política não é entendida aqui da forma como a nossa geração foi majoritariamente acostumada a vê-la, isto é, como a mera disputa pela posição de operador dos circuitos do sistema político-social. Trata-se de algo bastante distinto: a atividade de partir da reflexão acerca de nossas experiências cotidianas para construir uma compreensão da realidade histórico-social mais ampla – a mesma realidade que torna possíveis aquelas experiências –, a qual possa lastrear nossa organização e atuação para a transformação dessa realidade e do cotidiano dela impregnado.

Nesse registro, colocar-se por fora da política é precisamente abdicar da possibilidade de efetivar esse tipo de transformação. Forçar o maquinista a parar o trem na estação da política implica abrir a porta e saltar em um espaço amplo de construção coletiva, cujos resultados são imprevisíveis e, por isso mesmo, recolocam no centro da ação a capacidade de ação dos homens. O desembarque, entretanto, não deve ser conduzido de forma individual, em que cada passageiro porta uma valise na qual estejam trancafiadas suas convicções, experiências e reflexões. Como atividade coletiva transformadora, a política não pode se reduzir à mera agregação de demandas estanques e extravasamento de insatisfações pessoais. Para ultrapassar essa dimensão catártica, é preciso que o movimento crie e fortaleça espaços em que seus participantes possam reunir-se não apenas para extravasar, mas também para raciocinarem em conjunto, para formularem novas táticas de atuação, para constituírem plataformas concretas. Esses espaços podem, e devem, assumir a forma de plenárias, assembleias, encontros, ou quaisquer outros que a imensa capacidade inventiva, já demonstrada nas manifestações, seja capaz de elaborar. Se temos uma geração com parca experiência em termos da política de massa, é preciso que transformemos o próprio movimento na escola dos militantes – sem claro, jamais desprezarmos a bagagem daqueles que conduziram importantes lutas nas últimas décadas, mesmo que nesse período tenham sido compelidos a viajar dependurados no trem, de forma um pouco clandestina. É preciso que ativemos sua dimensão pedagógica, conflitiva e criadora. É preciso que seja reavivado a reflexão sobre táticas de ação, colocando em um debate franco partidários do enfrentamento e de ações de “vandalismo” e defensores do pacifismo. É preciso, sobretudo, que dessa articulação múltipla emerjam linhas de ação minimamente comuns e elementos programáticos capazes de conferir maior poder de pressão ao movimento.

Se essas linhas de ação se mantiveram restritas em torno da corrupção – complementada, ou não, pela condenação de parcelas do próprio movimento por suas formas de atuação –, os prognósticos não serão dos melhores. A tendência é que um protesto contra um alvo amorfo e virtualmente inatingível, cujas raízes sistêmicas não são compreendidas por aqueles que a ele se opõem, se dissolva paulatinamente sem maiores consequências a médio e longo prazos. Por outro lado, um movimento que tome reivindicações pontuais para impulsionar suas ações pode não só obter conquistas significativas – o que já ocorre com a luta pela redução das tarifas em diversas cidades –, como também abrir a porta para a elaboração de novas pautas e o avanço rumo ao questionamento da totalidade do sistema social que gera aberrações violentíssimas como a impossibilidade de se usufruir dos transportes públicos com a frequência necessária vivenciada por 37 milhões de brasileiros. Nesse processo, até mesmo a corrupção poderá ser tematizada, quiçá, sendo compreendida como o que de fato é: apenas um dos mecanismos, e não o mais voraz ou o mais eficaz, de contínua apropriação privada de recursos públicos (subtraídos dos serviços utilizados pela maioria trabalhadora) por uma reduzida parcela da população composta por políticos profissionais e empresários dos mais diversos ramos.

No momento, com a reivindicação da redução das tarifas esta porta encontra-se apenas entreaberta. Para que a fresta já existente se expanda permitindo a passagem do processo descrito no parágrafo acima, basta que tenhamos a sensatez de cumprimentar a porta, não com a indignação estéril e a reprovação moralista, mas com as solas dos nossos pés.

Sobre Marco M. Pestana

Doutorando em História pela UFF. Professor do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Cinéfilo frustrado, flamenguista e visceralmente socialista.
Esse post foi publicado em Dossiê Retomada das Ruas e marcado , , . Guardar link permanente.

18 respostas para Por que os recentes protestos de massa no Brasil não devem se transformar em movimentos contra a corrupção?

  1. Loscar disse:

    Muito bom, Marco!
    A oportunidade é ímpar e a transição de um bios midiatizado para um bios politikos é fundamental; fomentar na rede e fermentar fora dela. Agradecido por pontuar de maneira tão precisa o locus da questão. Um cordial abraço, Loscar

  2. Eu até entendo o repúdio aos manifestantes partidários, imagina se aparece uma bandeira do PP no meio da multidão. O risco de apropriação da manifestação existe, ainda mais para quem não procura conhecer as motivações dos partidos existentes.

    • Lucas, acho que o seu comentário já aponta para um elemento fundamental que tem escapado à galera que tem feito a crítica aos partidos: o PP não é o PSOL, nem o PSTU, nem PCB. Eu não sou filiado a nenhum desses partidos – aliás, não sou filiado a nenhum partido -, mas não posso concordar com a colocação de todos partidos em um mesmo saco, o que muitos têm feito. Existem aqueles partidos que historicamente sempre se colocaram ao lado das reivindicações que defendo – como a redução da passagem -, existem outros que agora se aproximam oportunisticamente dos protestos e ainda terceiros, que mantém-se contra qualquer reivindicação e protestos populares. É preciso, portanto, diferenciar os partidos.
      Fazer isso, no entanto, não acaba com o risco de cooptação do movimento. Dado o primeiro passo, ou seja, separar os partidos que queremos dentro do movimento e os que defendem um programa incompatível com a mobilização popular, é preciso passar para a etapa seguinte: justamente, evitar que os partidos a quem queremos nos aliar assumam a direção absoluta do movimento, já que este deve ser plural. Enfim, defender a autonomia do movimento frente aos partidos não significa nem expulsar todos os partidos, nem aceitar acriticamente a participação de qualquer partido. Também não significa tolerar qualquer comportamento dos partidos que se identificam com o movimento. É preciso que esses se submetam às deliberações coletivas.

      • Concordo com você, ainda mais em relação ao PSTU que não acredita na representação eleitoral atual. Achei estranho a juventude PTista participar, mas faz parte da dialética não? Afinal o PSOL foi criado mais ou menos assim. Infelizmente, no dia que escrevo essa resposta, parece que a apropriação dos movimentos já está se dando por outros, que não necessariamente, fazem parte de partidos políticos. Acho inclusive, que a lavagem cerebral de décadas faz parte da formação de alguns manifestantes que ainda acreditam que comunistas comem criancinhas no café da manhã.

  3. Achei brilhante o texto e, em especial , o momento em que seu autor defende a ideia de transformar o próprio movimento em uma escola para os militantes. E percebo, nesse sentido, a criação de uma escola de politização, para que tamanho esforço não se perca em lutas abstratas e possa conduzir a maiores mudanças da sociedade, Ampla, crítica e plural me parece que deva ser essa politização a ser desenhada. É importante recordar a eficiente e infeliz produção de um grande descrédito em relação à política que foi produzida nas novas gerações pela mídia e pelo próprio sistema político nos últimos tempos. É preciso uma reconstrução do sentido e da importância da política para garantir a possibilidade de transformação para uma sociedade mais justa e de dignificação da vida.

  4. Osmário disse:

    Que toda a discussão seja pacifica, mas discordo em vários pontos colegas, acho que a complexidade das coisas é muito maior do que parece. Muita coisa vai rolar, teremos anos de protestos pela frente, não tenho dúvidas disso! Acho importantes analisarmos tudo levando em conta que o positivismo, que ajudou a construir o mundo como conhecemos, caiu totalmente enquanto filosofia social, se limitando apenas a parte metodológica. Ou seja, construimos um sistema sobre a areia e logo tudo irá desmoronar. Temos que rachar a cuca e discutir novos sistemas que respeitem as individualidades e que evitem a opressão, muito comum em todos os partidos. Agora sim os intelectuais terão coisas pra fazer. Como construir um mundo sem grandes líderes e grandes partidos? Terá que ser assim agora! Os únicos “ismos” que levo a sério são “ecologismo e pacifismo”! Bem vindos ao admirável mundo novo

  5. Muito bom o texto, Marcos!

  6. Luciana Andrade disse:

    Marco M. Pestana. Virei sua fã…
    Você foi quem melhor racionalizou para mim o motivo d’eu, que procurei me aproximar ao máximo da Alerj no momento da catarse do dia 17, não ter repudiado aquela violência.
    Seu texto tá lindo… vou repassar para muita gente, especialmente para a garotada que convivo.
    Mas vou fazer uma ressalva: é quanto à sua epígrafe. Machista, heim? Sei que xingar nos alivia, mas é importante também pensar no seu conteúdo, especialmente em tempos de aprovação da “cura gay”.
    Vida longa para a sua capacidade crítico-analítica e propositiva!!!

    • Luciana,

      Que bom que você gostou do texto! Se puder compartilhá-lo com mais gente, será muito legal mesmo. Aliás, todo o material que temos colocado aqui no blog é para isso, fomentar o debate, aguçar o senso crítico e ajudar na construção coletiva.
      Concordo com a sua crítica à epígrafe. Eu mesmo já tinha atentado para esse aspecto, mas resolvi mantê-la por sua capacidade de ressaltar dois pontos que, no meu entendimento, são essenciais: de um lado, a ligação entre o governo estadual – e também o municipal e o federal – com o empresariado. Com isso, fica claro que não devemos nos manifestar apenas como um povo indiviso contra seus governos de modo genérico. A crítica e o combate político devem ser dirigidos, também, contra aqueles que sustentam e se beneficiam desses governos, como os empresários, no caso, simbolizados pelo Eike Batista. De outro lado, a epígrafe aponta para a centralidade da luta em torno da questão das tarifas de transportes, que, como argumentei no texto, é capaz de dar unidade e direção para a luta, evitando desgaste improdutivo de energias.
      Enfim, concordo com a sua crítica e se pudermos arranjar uma palavra de ordem que abarque os aspectos que eu mencionei e ainda escape do machismo e da homofobia, melhor ainda!
      Abraços!

  7. Pingback: CONVERGÊNCIA

  8. Taiana Machado disse:

    Marcos,
    Excelente texto!
    Espero que nossa geração possa sim transformar esse alvo amorfo em um movimento político concreto que transcenda esse entendimento do ‘senso-comum’ que foi inculcado em nós. Pensemos em uma pauta concreta e nos organizemos em volta delas!
    Muito bom, parabéns pela ótima reflexão!

    Abraços ‘são vicentinos’
    Taiana

  9. andreia costa disse:

    Republicou isso em Andeirae comentado:
    para quem já estava nas ruas antes das manifestações destas últimas semanas, com BAixo BAhia, Fora Lacerda, Comitê dos Atingidos pela COPA, Dandara, Eliana Silva, Corredor Cultural, Moradores de Ruas, Vadias … esse e só mais um passo que daremos juntos com quem chega agora. Vamos juntos construir novos caminhos, mesmo que eles separem mais a frente. O aprendizado do coletivo a gente aprende junto.

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  13. Rodrigo Araújo disse:

    uma análise convergente em vários aspectos: http://passapalavra.info/2013/07/80587

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