A bandeira nacional e o hino nos representam?

vcreporterprotestospfabricio-carvalhoO crescimento das manifestações trouxe um conjunto novo de pessoas às ruas. Se compararmos com as passeatas que movimentos sociais, partidos e sindicatos organizam nos últimos anos, uma das mudanças mais intrigantes na aparência da multidão foi o uso de bandeiras do Brasil e o coro do hino nacional que entraram em cena principalmente na quinta-feira. Esse sentimento patriótico, longe de ser uma natural ou neutra expressão simbólica, emite algumas mensagens a que devemos estar atentos. 

O que significa esse nacionalismo? A resposta com certeza não é uma só. O sentido que parece mais imediato é que o nacionalismo reflete, muito genericamente, uma identidade de povo, de pertencimento, de compartilhamento de definições culturais e sociais e um espírito de união. A evocação da pátria também soa sempre mobilizadora: por exemplo, se alguém diz “eu sou patriota” isso nos faz pensar que ele não é um individualista mas faz algo que entende como para o bem do conjunto da população, como trabalhar muito ou ir à guerra para a defesa. Tomados de forma descontextualizada, esses elementos parecem ser bastante consensuais e adequados ao “bom senso”. No entanto, devemos tomá-los em um outro quadro, onde observaremos uma nova faceta: o patriotismo obscurece concepções políticas fundamentais para aqueles que pretendem avançar nas lutas por direitos e justiça. Por quê?

Uma das mensagens fundamentais do patriotismo é a suposição de uma unidade interior. Esse discurso, que não necessariamente está explícito ou consciente por parte dos que carregam bandeiras e cantam hinos, nos diz que a nação comunga de interesses comuns. Dessa forma seriam confluentes a sorte do rico e do pobre, do patrão e do empregado, do presidente e do eleitor, da televisão e do telespectador. É um discurso articulado principalmente por governos e por grupos empresariais (como a Globo). A mistificação ideológica aqui é justamente apagar as contradições reais de interesses no interior das sociedades. O nosso momento atual dá belas amostras dessa problemática com a organização da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Esses eventos foram trazidos ao país sob o argumento de benefícios ao Brasil e são impulsionados por um sentimento de auto-estima nacional e orgulho diante do mundo. Mas hoje não restam dúvidas de que o dinheiro tem gerado o enriquecimento de grandes empresas ao invés do suprimento de carências básicas e urgentes, e que bilhões tem sido gastos em coisas em que apenas uma parcela pequena da população irá desfrutar (estádios, hotéis, etc.). Quem então é o Brasil? Com isso, não pretendo dizer que todo patriota é a favor da Copa e das Olimpíadas: com certeza muitos dos que empunharam a bandeira nos atos são contra essa situação absurda. Entretanto, é essencial que combatamos essas possibilidades negativas do nacionalismo, que com certeza tem influência enorme sobre o conjunto da população brasileira ainda à reboque dos discursos oficiais e da tv.capa_pequena

No caso mais específico das manifestações que estamos vivendo, as suposições de unidade do nacionalismo nos impedem de fazer uma leitura mais apropriada da estrutura de poder que gerou a nossa insatisfação. Como a “corrupção” passou a ser a principal pauta, estamos sob o risco de deixar sair ilesos aqueles cujo próprio sucesso dizem ser o sucesso da nação: os empresários e seu conluio com o Estado. Isso se tornou um importante problema depois do anúncio da redução da tarifa de ônibus. Ora, nas palavras de Paes e Haddad a redução seria bancada pelos cofres públicos: ou seja, por nós mesmos!! Parecia então ter chegado o momento de nós discutirmos os esquemas e contratos do poder público com as empresas de ônibus e começarmos a pautar a diminuição da margem de lucro delas. Esta seria a única forma de realmente não pagarmos a mais pelas passagens e evidenciar que nessa briga não ganham os dois lados: ou somos nós ou são os empresários. Mas aí foi quando chegou a multidão com suas bandeiras do Brasil… É claro que esse breque não está todo na conta do nacionalismo, e é normal que em um movimento grande os leques se ampliem e as coisas fiquem difusas. Mas o saldo geral (pelo menos por enquanto) é que não ficou patente para o próprio movimento as contradições na sociedade e na estrutura de poder do Estado. Nós acabamos perdendo uma certa dimensão de conflito mais do que necessária para o avanço das nossas pautas.

Ainda sobre isso, foi muito sintomático a forma como governadores e a presidenta se pronunciaram na sexta-feira (21) sobre as manifestações: eles a saudaram como se os anseios da população fossem também os anseios deles. Não são: ou é Copa ou é hospital pros que estão morrendo, ou é museu do índio ou é estacionamento, ou se financia R$ 190 milhões no hotel do Eike  ou nas escolas que caem aos pedaços. Essa mensagem de ruptura deve estar clara não porque somos briguentos radicais mas porque as coisas são dadas dessa forma. E se não podemos nos conciliar, não pode haver bandeira que nos abrace a todos.

Nossos argumentos nesse texto não pretendem estigmatizar o patriotismo das manifestações. Isto porque sabemos que as pessoas das passeatas de hoje pensam de diversas formas e também porque as pessoas das passeatas de ontem tiveram suas árduas lutas embaladas pelo verde e amarelo. No entanto, não podemos deixar de ficar atentos às possibilidades conservadoras ou reacionárias da evocação nacional. A humanidade já pagou caro por isso, como nas guerras mundiais que se originaram na disputa por mercados e terras das burguesias e estados nacionais mas que envolveram os povos com o sentimento de defesa da pátria mãe. No caso da história recente do Brasil, o nacionalismo foi mobilizado pela ditadura militar-empresarial para perseguir e destruir aqueles que tinham projetos divergentes (“Brasil: ame-o ou deixe-o”). Em nome do bem da coletividade, acabava-se com o pluralismo e com a divergência e não deixa de haver um paralelo perigoso quando nas manifestações de hoje as pessoas mandam agressivamente baixar as bandeiras de partido.

Em uma prisão do fascismo italiano, um homem de belos cabelos entendeu que há algo essencial para o grupo que está no poder: apresentar seus projetos particulares como um projeto geral da sociedade. Para passar essa mensagem, hoje e ontem os símbolos principais são os da nação: bandeira, hino, seleção de futebol. Estejamos atentos.

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Sobre Wesley Carvalho

Professor e historiador.
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5 respostas para A bandeira nacional e o hino nos representam?

  1. Já tava gostando muito do texto, aí terminou falando do italiano de belos cabelos. <3

  2. Giancarlo Sanguinetti disse:

    O pior é que é um patriotismo manso… antes fosse expressão de um nacionalismo anti-imperialista, com bandeiras contra o pagamento da dívida externa, contra a desnacionalização que vem ocorrendo em amplos setores da economia (no campo, na educação, saúde, etc…). Não seria radical mas mereceria o apoio da esquerda, um apoio crítica, claro!
    O problema principal é que não há só o patriotismo, mas este vem atrelado com a negação dos partidos políticos e das organizações típicas dos trabalhadores (sindicatos, centrais, etc.). Isto somado à bandeira do combate à corrupção (moralização da “política”) coloca estas tendência do movimento com um pé no fascismo…

  3. Pingback: A bandeira nacional e o hino nos representam? – Wesley Carvalho | Massa Partida

  4. Mendes disse:

    Será que se em vez de verde e amarelo, esse clamor de ares patrióticos clamasse pelo vermelho, falasse em Cuba, foice, martelo e tocasse a Internacional Comunista, a esquerda brasileira estaria assim tão preocupada com ideias unificantes?

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