A contradição entre gritar “sem partido” e “sem violência”.

Manifestantes queimam bandeiras em protestos em São Paulo.

Este texto foi escrito em parceria com Lucas Hippólito e Ivan Martins.

Nesta quinta, militantes e partidos foram espancados e expulsos da rua. Do Rio de Janeiro, São Paulo, e de outras cidades do país. Estamos em tamanha efervescência política no Brasil, tanta gente se dispôs a sair de casa, deixando todos perplexos. Os partidos, sindicatos e movimentos sociais, que há anos estão nas ruas em lutas defendendo bandeiras como Saúde, Educação e Transporte públicos, se viram cercados e política e fisicamente linchados. (Veja mais um exemplo aqui.

O que está por trás disso? Quem foram os agressores? De fato, o grupo dos partidos, nesses diferentes lugares, foram hostilizados, sob vaias e gritos incessantes de “sem partido”, que literalmente desviaram as atenções dos reais alvos das manifestações: altas tarifas, baixa qualidade do transporte, repressão policial, verbas para a Copa etc. No entanto, a agressão direta, que, pelo menos no Rio, deixou mais de quinze militantes hospitalizados, partiu de grupos organizados, pagos ou não, que visivelmente estavam ali para fazer exatamente aquilo.

Mas será que isso seria possível sem participação de uma massa inflamada, que gritava contra a presença de bandeira partidárias ou sindicais, fazendo coro aos agressores, sem pesar consequências?

De fato, não é difícil sabermos os motivos pela rejeição a forma como certos partidos políticos atuam. Que é necessário pensar a inserção deles – inclusive os de esquerda – no cotidiano da sociedade, é indiscutível. Que o sistema político, como um todo, merece atenção, merece mudanças, também é um fato. Porém, será que a solução é mesmo o fim de todos os partidos? Será que mesmo a ausência das bandeiras partidárias em manifestações tão grandes como as de quinta-feira é alguma solução?

Como a mídia e os governantes insistem em anunciar, estamos todos indo às ruas por democracia, por direitos. Há duas semanas, era o direito de ir e vir, com tarifas de transportes a preços aceitáveis – e mesmo pela “tarifa zero” reivindicada por movimentos que estão há muito nesse debate – agora é por direito de saber das contas públicas, não apenas dos transportes, mas também da famigerada Copa. Vimos muito cartazes contra a corrupção, a PEC 37, pelos direitos das minorias, enfim, o que não falta é reinvindicação. E, claro, as velhas reinvindicações ainda não atendidas: Educação e Saúde de qualidade.

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Mais uma imagem de agressão na manifestação paulistana.

A mídia, e os governantes, estão batendo muito na tecla da paz, da manifestação pacífica, ordeira, da necessidade de conter os ânimos e os “malditos vândalos”. Nas ruas, as pessoas compram essa ideia, indo de branco, gritando “sem violência”, apoiando qualquer denúncia ao quebra-quebra, que se tornou, dia a dia, mais generalizado. Mas, por que será que essas mesmas pessoas são as que gritaram, na última noite de quinta-feira “sem partido”,  “baixa a bandeira”, “o povo unido não precisa de partido”? Por que essas pessoas, que estavam vendo uma atitude tão agressiva, tão brutal, tão covarde, não fizeram nada para impedir que outros, que estavam ao seu lado, lutando por direitos, participando da manifestação, de forma até então pacífica, fossem violentadas? Pois a resposta a essa pergunta, infelizmente, já temos: alguns manifestantes, que estavam de branco, cara pintada, a mostra, com a bandeira do Brasil nos ombros, não fizeram nada contra aquela violência – embora estivessem dispostos a fazer contra a própria violência policial! – porque aquela violência era contra pessoas de partidos. Apenas por causa disso: por causa de bandeiras estendidas.

Como também foi dito antes, partidos, inserção política, organizações em sindicatos ou partidárias, ocupam um privilegiado espaço no ódio da população. Mas será que cantar “sem partidos”, “abaixem as bandeiras”, é apenas uma forma de dizer que as manifestações atuais são para além de partidos, são manifestações organizadas por toda a população, e ponto final?

(Nem vamos entrar aqui no argumento óbvio de que boa parte das pessoas que fundaram os odiosos partidos de esquerda, foram as mesmas que há anos lutaram pelo direito de se organizar, e há tanto tempo quanto, estão nas ruas, fazendo manifestações pequenas, gritando para pessoas simplesmente desinteressadas, mas que na quinta-feira estavam em protesto também. Lembremos, por favor, que o que não falta são exemplos de ditaduras que repudiavam, e mesmo impediam, a presença de partidos. No Brasil, já foi dito, tivemos o Estado Novo, de 1937-1945, que foi implementado depois de proibir qualquer organização de esquerda, e depois, em 1938, proibiu também o partido de extrema-direita. Tivemos também a Ditadura Militar, que durante anos existiu com apenas uma forma de oposição legalizada, mas, mesmo assim, bastante limitada e reprimida.)

Infelizmente, mesmo sem saber, esses gritos não são apenas uma discordância dos partidos. São gritos autoritários, mesmo que não sejam pronunciados por pessoas autoritárias – afinal, mais pra frente, essas pessoas gritam alto “sem violência”. Não, não podemos dizer que são todos fascistas e que devem ser violentados tanto quando foram os militantes de esquerda. Estamos, isso sim, afirmando que, enquanto a maioria gritava “sem partido”, na tentativa de congregar todos em torno de um mesmo objetivo, de juntar todos sob uma mesma bandeira verde e amarela, alguns aproveitam essa onda de repúdio para comentar perseguições políticas e linchamentos aos militantes.

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Imagem veiculada no Facebook.

Se o grupo que – literalmente – meteu a porrada em cima dos militantes pôde fazer isso, na frente de tantas pessoas, em plena Avenida Presidente Vargas fechada e com tanta gente, isso aconteceu porque, sem saber, pessoas em volta estavam fechando os olhos para aquela violência. Depois dessa cena lamentável, o quão fácil não seriam as perseguições no IFCS, FND, no Hospital Souza Aguiar, na Lapa e em Santa Teresa? Estamos aceitando os discursos autoritários de fim dos partidos que se repeita nas mídias, tradicionais e sociais, nas conversas de bar, e nas manifestações.

Muitos dizem ter medo do oportunismo do partido nessas manifestações, dizem que esse ou aquele não os representam, e por isso não querem organizações desse tipo nos protestos. Pois bem, a manifestação deveria representar todos que lá estão – esse também é um dos princípios da democracia – e se lá estão membros de partidos, porque não eles mostrarem que estão lá, que seu partido está se integrando ao movimento? Veja bem, o partido está se integrando, às vezes organizando, mas acredite!, não está, necessariamente, expropriando, toda aquela manifestação, todas aquelas pessoas. Provavelmente nem todos os manifestantes fossem gays, e com certeza não eram todos negros. Pois bem: tinham bandeiras e cartazes pelo direito gay e representativos do movimento negro. Isso não significa que todo o movimento era gay, ou negro. Significa apenas que lá estavam, juntos com os héteros, os brancos, as várias classes, as várias lutas contra a corrupção, pela Educação, pela Saúde, os gays e os negros. E deveriam estar os partidos e os sindicatos. ISSO é democracia.

Se você é uma das pessoas que gritou “sem partidos”, “povo unido é povo sem partido”, “abaixem as bandeiras”, por favor, pare e reflita sobre como esses gritos, que você proferiu na melhor das intenções, por motivos que não podemos listar de tão vários, podem ser faíscas para movimentos e atitudes tão autoritárias quanto as que aconteceram ontem em várias cidades do país. Pense bem se TODAS as pessoas, de partidos, sindicalistas ou militantes de esquerda que você conhece merecem ser espancados em plena praça pública, sem segurança nenhuma, sem ajuda dos policiais, que viam militantes correndo de homens encapuzados e não faziam nada. Reflita, com calma, se esses militantes merecem passar a noite de uma manifestação que eles ajudaram a construir no hospital, na maca, sofrendo risco de vida, ou na sala de espera, torcendo pelo companheiro ensanguentado. Pode ser que você não conheça as pessoas que passaram por essa violência, mas, de certa forma, na quinta-feira, em várias partes do Brasil, todos os militantes foram violentados, porque ela doeu, e muito, no corpo de alguns. Mas doeu bastante na alma de todos.

Observação: Infelizmente, até a hora da publicação do texto, não conseguimos achar o link para fotos e vídeos que estão rolando sobre as agressões no Rio de Janeiro. Como somos, um blog prioritariamente de moradores dessa cidade, temos apenas relatos e memórias assustadas. Se você souber/tiver alguma coisa, fale com a gente!

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Sobre Giovanna Antonaci

Foliã, historiadora, professora e italiana quando CANNOT KEEP CALM.
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3 respostas para A contradição entre gritar “sem partido” e “sem violência”.

  1. Pingback: A contradição entre gritar “sem partido” e “sem violência” – Giovanna Antonaci, Lucas Hippólito e Ivan Martins | Massa Partida

  2. Mendes disse:

    Concordo. Regimes totalitários como os do Laos, China, Coréia do Norte, Cuba e da antiga URSS. Todos unipartidários. Concordo que é errado violentar manifestantes de partidos diferentes. Se algum esquerdista ainda acredita no sonho da ditadura do proletariado, deve tomar isso como lição.

  3. Pingback: Reforma Política, Eleitoral ou do Estado? | Capitalismo em desencanto

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