O Rap de Marcelo D2 e a Indústria Cultural

A primeira vez que ouvi falar de Marcelo D2 foi em 1997, quando os membros do Planet Hemp foram presos em Brasília, acusados de fazerem apologia às drogas e de associação para o tráfico (o antigo “12 com 18”). Logo depois disso, meu irmão começou a ouvir os CD’s Usuário (1994) e Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Para (1997) e, com o tempo, eu comecei a curtir o som dos caras. BNegão e Black Alien já participavam da banda, nessa época, para compensar a falta do Skunk (morto de 1994, justamente quando a banda começava a fazer sucesso para além da cena underground). Os dois álbuns traziam músicas com forte conteúdo crítico, que abordavam alguns temas polêmicos como a desigualdade social, a violência policial, a censura, a opressão de classe e a legalização da maconha.Nesse vídeo do Programa Livre eles debateram essas questões, mas se apresentaram sem cantar qualquer palavra relacionada à maconha, por medo de serem presos novamente.


 Duas características marcam a obra do D2 (e do Planet) nessa época: um discurso bastante radical (e, por vezes, um tanto juvenil, como em “Porcos fardados/ Seus dias estão contados”), mas bastante interessante; e a tendência de misturar o rap com outros ritmos populares, como o samba (“Futuro do País” e “Nega do Cabelo Duro”), o funk (de James Brown), o rock (de diversos estilos) e até a bossa nova (“Bossa”, aquela introduçãozinha de “100% Hardcore”).

Capa do Usuário

Usuário (1994)

Logo após Os Cães Ladram (que ganhou Disco de Platina), Marcelo D2 viajou para os Estados Unidos para mixar as músicas de Eu Tiro É Onda (1998), um disco solo, que contou com a participação de diversos rappers (como BNegão, SpeedFreaks e Shabazz) e com João Donato (grande nome da MPB). Nesse disco (gravado em seu estúdio caseiro) D2 avançou com sua proposta de misturar rap com samba. No rap autobigráfico “1967” ele procurou falar um pouco mais sobre seu passado suburbano e proletário, cantando “Nascido em São Cristóvão/Morador de Madureira/ Desde pequeno acostumado a/subir ladeira”. Já em “Eu Tiro é Onda”, “Mantenha o Respeito 2” e “O Império Contra Ataca”, combinam-se a clássica gastação de onda das letras de rap (com provocações e tiradas irônicas, como em “Com dinheiro é muito fácil, todo mundo é feliz/Eu quero ver tirar onda sem dinheiro, como eu fiz”) e a crítica social (“Atenção terráqueos, levem-me ao seu líder/Aquele que toma a sua casa e salário/E você fica parado, otário”). As batidas de samba só aparecem com mais clareza em “Samba de Primeira”, “Encontro com Nogueira” e “Batucada”, mostrando que os ritmos ainda não tinham entrado totalmente em sintonia, apesar do bom resultado produzido.

Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Para

Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Para (1998)

As características que revelaram o potencial apresentado pela banda desde o início ressurgiram ainda mais apuradas no álbum A Invasão do Sagaz Homem Fumaça (2000). Esse foi o terceiro e último CD de inéditas da banda. É um disco que manteve um conteúdo fortemente comprometido com a crítica política e social – como se percebe em “Stab” ou na letra de “12 com Dezoito”, que problematiza o episódio da prisão, com os dizeres “Código penal ultrapassado/Ditadura cultural, hipocrisia, pura mediocridade/12 com dezoito, 12 com dezoito é o caralho!” -, mas com um discurso bem mais maduro e mais consistente e menos voltado para o debate sobre a legalização da maconha (embora esse tema também seja abordado de maneira descontraída em “Quem tem Seda?”). A letra de “Procedência”, por exemplo, levanta questões profundas sobre as estruturas sociais, ao sugerir que as pessoas procurem saber a procedência do dinheiro do patrão, das concessões de rádio e televisão, das armas e das munições etc. Musicalmente, o disco é predominantemente voltado para o rap e para o hardcore, mas possui influências de soul e reggae.

A Invasão do Sagaz Homem Fumaça

A Invasão do Sagaz Homem Fumaça (2000)

Em 2001, a finada Rádio Cidade organizou um festival de rock na Apoteose, do qual o Planet fazia parte. No entanto, mais uma vez, a apresentação da banda foi marcada pela censura – dessa vez, imposta pelo juiz Siro Darlan, que tentou proibir a entrada de menores de idade no show. Marcelo respondeu muito bem, ao lembrar que menores de idade (de 16 anos) podiam votar, mas estavam sendo proibidos de ir a um show de rock. Ainda assim, pouco tempo depois disso, a banda chegou ao seu fim, por conta de divergências internas (diz-se que o D2 e o BNegão tiveram “umas tretas”).

Em 2003, D2 lançou o segundo CD de sua carreira solo: À Procura da Batida Perfeita. Disco de grande sucesso, que marcou o início de uma longa fase mais pop em sua carreira, com músicas mais voltadas para o circuito comercial (“CB–Sangue Bom”, “Vai vendo” e “Qual é?”, por exemplo) e menos comprometidas com a crítica social. Foi nesse álbum, aliás, que D2 iniciou seu filho no mundo artístico, cantando com ele o pop “Loadeando”. Mas, para mim, a música que melhor simboliza esse disco é “A Maldição do Samba”, na qual o batuque e o sampler – finalmente! – entraram numa sintonia verdadeiramente orgânica e cuja letra revela, ao mesmo tempo, um pragmatismo para com os padrões artísticos impostos pela indústria cultural e uma preocupação em debater a originalidade e a pureza de tradições musicais, como o samba: “Sobre o poder da criação força nenhuma no mundo interfere/E fabricado em série é o coringa do baralho/Resistência cultural casa do caralho/E passo a passo foi tomando conta de mim/É coisa fina, DJ com tamborim”.

Eu Tiro É Onda

Eu Tiro É Onda (1998)

Depois disso, não acompanhei mais com tanto interesse a carreira de D2. Na verdade, nessa época eu ainda estava conhecendo mais profundamente o Planet, que me parecia muito mais cativante do que os outros discos que ele fez depois: Meu Samba É Assim (2006) – que manteve o mesmo nível musical de À Procura da Batida Perfeita, embora as letras fossem menos expressivas e sem apresentar grandes novidades – e A Arte do Barulho (2008) – com muitas influências pop e ainda com letras muito pouco expressivas, com exceção de “Desabafo”. Desse período, me lembro mais dos shows do Planet que fui no Circo Voador: um em 2004 e outro em 2005. Num desses shows, gritei da plateia pedindo para eles cantarem “Porcos Fardados” (do Usuário), mas quando o Formigão tocou no baixo os primeiros acordes da música, Marcelo D2 interrompeu logo, afirmando que nem se lembrava mais dessa época…

À Procura da Batida Perfeita

À Procura da Batida Perfeita (2003)

Em 2010, com o lançamento do CD Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva após uma fase de poucos sucessos, D2 parece ter tentado se reconectar com suas influências musicais mais tradicionais, – processo do qual o novo álbum Nada Pode Me Parar (2013) faz parte. Esse último disco, inclusive, foi lançado logo após uma breve reunião do Planet Hemp (Pedrinho, Rafael, Formigão, BNegão e D2) em 2012, com shows dedicados aos maiores sucessos dos três discos da banda. No show de abertura da turnê (no Circo Voador, é claro), eles não tocaram “Porcos Fardados” (apesar dos pedidos da plateia), mas durante as quase três horas de show eles mostraram muita energia e conseguiram recuperar muito daquele aspecto underground de suas apresentações de fins da década de 1990. A turnê também parece ter marcado uma reaproximação entre D2 e BNegão, após um período de troca de críticas mútuas. Não deixa de ser irônico, no entanto, o fato de que justamente no momento em que D2 buscou fazer uma releitura de suas influências originais, BNegão tenha despertado o interesse do mercado cultural mainstream, como prova sua apresentação na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.

Nada Pode Me Parar é um disco que dialoga com todas as fases da carreira de Marcelo D2: começando pela época do Planet (em Danger Zone”, A Cara do Povo” e no próprio título do disco), passando pela fase pop (Está Chegando a Hora”), pela fase de troca de experiências com uma galera mais jovem (Eu Já Sabia e Fella), até chegar a um estilo próprio bem amadurecido, pois como ele mesmo disse na primeira faixa – “MD2” –, aos 46 anos já não se é mais nenhum moleque. Além de fazer referências às diversas fases por que passou, D2 também procurou responder às críticas que sofreu em sua carreira pós-Planet. Aos que o classificaram como vendido (por ganhar dinheiro cantando rap), ele mandou o seguinte, na letra de “MD2”: “No pulso um Rolex, admiro o artigo caro/E agora que tenho não vou mudar o que falo”. Em Livre”, além de se dizer livre para ganhar o seu “qualquer” (“me diz quem não quer?”), D2 reafirmou seus valores de outrora, ao dizer que “2012 é 95 pra mim”. Nessa mesma faixa, ao falar sobre sua liberdade criativa, ele lembra que isso só foi possível porque não tem ninguém “pra chamar de patrão”, ou seja, porque hoje – depois ter alcançado uma posição de destaque na crítica musical e uma situação de vida confortável –, ele pode dizer o que quiser. Tudo isso, no entanto, usando “a esperteza de quem tá cansado de apanhar”. Em “Está Chegando a Hora (abre alas)”, ele tentou justificar o conteúdo das letras da fase pop, explicando que a inspiração possui nuances, já que a vida dá “Às vezes palavras nobres, às vezes laiá laiá”.

Nada Pode Me Parar

Nada Pode Me Parar (2013)

Já a letra de Você diz que o amor não dói parece ser uma resposta bastante direta ao rapper Black Alien, que, recentemente, procurou afastar sua imagem dos tempos do Planet Hemp, quando cantava músicas favoráveis à legalização da maconha. Em entrevista de 2012, o rapper fez muitas críticas às letras do Planet, disse que foi muito prejudicado por ter sido preso e explicou que não pode mais passar por isso, por ter se tornado um pai de família. D2 respondeu às críticas, dizendo que, assim como Black Alien, ele também é um pai de família (“Sei que cê tá e todos estamos na luta”), mas lembrou que é preciso ser persistente na luta pelo que se acredita, apesar das dificuldades impostas pela vida (“A coisa aperta e cê já quer meter o pé”). Sobre a questão da maconha, D2 foi direto: “O legal agora é tirar onda de careta/Diz que não fuma maconha mas se junta com os picaretas/Julgando os outros, metendo o pau”. Em “A cara do povo” D2 não só respondeu a essa questão (“Enquanto eu fumo maconha, eles falam dela de novo”), como recuperou a importância do Planet, ao cantar: “Vou loadeando, chapinha, que é pra limpar minha imagem/Eu digo ‘legalize já’ e aí é que a chapa esquenta/Eu canto dig dig dig Planet Hemp”. A maconha também foi abordada na letra de “4:20” (que tem um beat fantástico!), cuja letra lembra o tom polêmico dos tempos do Usuário.

Eu já sabia” e “Fella” são faixas que contam com a participação de rappers de uma geração mais nova, como Sain (Stephan Peixoto, filho do D2, que canta no grupo Start), Shock (também do Start), Batoré (da Cone Crew Diretoria) e Akira Presidente. São músicas que lembram as provocações juvenis de “Hemp Family” ou de “Rappers Reais”, mas que trazem batidas mais modernas – o que mostra uma capacidade de se renovar, mantendo suas características mais tradicionais. Aliás, isso também pode ser percebido no rap/samba Falo Nada, que ele gravou com a Cone, no segundo CD do grupo – Com os Neurônios Evoluindo (2011). Já em “A cara do Povo” (uma bossa de qualidade) e Vou por aí, D2 procurou definir seu estilo próprio. Em ambas as letras, ele se apresentou como um artista que circula por diversos estilos musicais, diferentes universos sociais (“do underground ao mainstream”) e diversas cidades do mundo (“São 23 países por esse mundão afora”). Se reconhece como vanguarda por ter ajudado a abrir (junto com o Planet) a discussão sobre a legalização da maconha no Brasil (“Amo green no pipe, acompanhou uma Redstrip/Em nove pouco era crime e hoje é tão hype”). Ele também reforça sua proposta estética de transformação do rap (“Eu quero ideias novas, a maldição já era/O samba é de primeira e o papo é sempre à vera”), que ele tenta levar adiante “espalhando beats pelo mundo”.

Minha música preferida nesse disco é Feeling Good, um rap romântico que tem uma batida excelente e que fala sobre a aquela cumplicidade que desejamos alcançar quando gostamos de alguém (“Quero dividir com você o que penso/ E se penso, pode ser pensamento sem que o clima fique tenso”). Essa música é bacana porque, ao mesmo tempo que fala de amor de forma madura, ele faz isso sem deixar de lado a visceralidade de quem está apaixonado e que valoriza cada momento (“Gosto de te ver dichavando e apertando os meus becks/Mas quando é preciso regulando minha bag/(…)Adoro o jeito que cê fala o meu nome/E de formar uma dupla a la Cheech and Chong”).

Nada Pode Me Parar é um disco que comprova a qualidade da produção artística de Marcelo D2, por trazer renovadas as melhores características de sua carreira. É um disco com uma sonoridade muito superior a de Usuário, por exemplo, e que deixa evidente sua capacidade de transitar com maior naturalidade por influências musicais diversas (destaque para o sambinha “Na Veia”). Aquelas tendências da década de 1990 aparecem mais refinadas nesse disco novo e isso é, certamente, resultado de sua inserção no mercado mainstream, que lhe garantiu o acesso a melhores condições de produção artística e a um universo de referências culturais muito mais amplo. Mas ao contrário do que ele pensa, isso não o torna livre para fazer o que quiser. Prova disso é o fato de que ele aceitou o padrão estético do mercado e fez músicas de qualidade e conteúdos duvidosos (“Vai Vendo”, “Qual é?” e “Sou Ronaldo” são exemplos que mais me incomodaram).

É inegável que, hoje, ele dialoga com um público muito mais amplo e, por isso, seu discurso e seu projeto estético chegam muito mais longe, mas não podemos ignorar que, ao aproveitar essas novas possibilidades, D2 também contribuiu para reproduzir as estruturas da indústria cultural. Mais do que isso: o uso dessas estruturas tiveram, sim, impactos na sua produção e na sua visão de mundo (participação no Programa Jô e no Huck). Eu imagino que, para um artista, deve ser mesmo muito difícil saber identificar com clareza os limites entre usar as estruturas da indústria cultural e ser usado por elas, já que a ideia de se fazer ouvir cada vez mais longe é, de fato, muito sedutora.

Por fim, gostaria de lembrar o que o filósofo Walter Benjamin disse, em 1931, sobre a capacidade da indústria cultural de se apropriar de produções de caráter revolucionário. Ele atentou para a necessidade de modificar as estruturas da indústria cultural, responsável pela criação e pela divulgação das obras de arte, uma vez que abastecer esse aparelho reprodutivo sem criticar as relações socais que o sustentam seria um procedimento socialmente questionável. Creio que Marcelo D2, apesar de manifestar o potencial revolucionário de que fala Benjamin, não tenha atuado (até o momento presente) no sentido de renovar as estruturas da indústria cultural. Contudo, acredito que estimular a politização da arte também seja papel dos intelectuais comprometidos com a criação de uma consciência social/cultural renovada. E é assim que eu finalizo, jogando no ar a mesma pergunta incômoda feita em “Danger Zone”: “É isso que você quer, fazer tudo por dinheiro?”.

Sobre Juliana Lessa

Professora, doutoranda em História, flamenguista, feminista, socialista e apaixonada por arte (especialmente por música).
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19 respostas para O Rap de Marcelo D2 e a Indústria Cultural

  1. Arthur Moura disse:

    O que eu penso sobre isso é que cada vez mais que a gente se aprofunda no debate sobre indústria cultural nossos olhos necessariamente devem estar voltados para a atual configuração das relações de força e do papel do capitalismo nessa conjuntura. A indústria cultural é uma estrutura extremamente complexa e eu também fico me perguntando e questionando sobre o caráter desse limite entre uma coisa e outra. Entre o underground ou o independente e o mainstream. Entre o público e o privado. Entre a liberdade e a coerção. Entre a arte e o produto. Entre o mercado e o apoio mútuo. Entre a emancipação e a alienação. Bom, podemos estender essa coisa toda até o infinito, pois as relações de poder se configuram também acompanhando todo esse movimento. Mas, voltando. É muito difícil para o artista identificar qual caminho tomar mesmo. Veja bem, o cara começa fazendo uma musica com os amigos e aos poucos ele vai se inserindo numa cena e essa cena é movimentada por cada vez mais gente e se torna um mercado em potencial. Mas ao mesmo tempo para transformar uma cultura de resistência em mercado as relações internas dessa cultura devem dialogar com a necessidade para tal. O rap aos poucos foi se tornando mercado, ou seja, direcionado para esse público cada vez maior, mais abrangente, mais sedutor. O mercado é aquele que no seu discurso finge democratizar a cultura. Finge apoiar trazendo novas formas de organização, relação, valor, estética e conteúdo político. Marcelo D2 não tem dúvida alguma desses limites. Assim como muitos outros, veja bem. Assim como muitos outros produtos de mercado que se travestem de independentes, politicamente combativos, críticos, libertários. O mercado oferece exatamente isso: mais estrutura, maior alcance, popularidade, poder. Mas oferece para poucos. Tanto é que a grande referência sempre é Marcelo D2. Como se todo um paradigma de música, estética e seja lá o que for tivesse que necessariamente dialogar com tal. Não tiramos aqui a importância de Marcelo para ete processo. Seria canalhice da minha parte. Discutamos aqui este encurralamento das vozes. Dessa construção mitológica, e aí sim canalha em seus meandros, pois este serve ao capital. E aí ainda assim cabe o discurso da democracia, burguesa é claro, que diz ser este um importante canalizador para novos artistas que surgem. Quais artistas? Cone Crew? Seu filho? Ora, veja bem. Falamos aqui então de um exemplo prático das estruturas de poder mais elementares que existe. A velha panela. Não é de interesse do capital incluir. É interesse perpetuar suas formas de poder. Seus mercados. Marcelo D2 é um produto.

    • Juliana Lessa disse:

      Arthur, concordo quando você diz que o D2 é um produto (assim como todos os outros rappers, já que tudo aquilo que nasce das entranhas da Indústria Cultural é necessariamente produto dela), mas, pra mim, o importante é entender quais são as possibilidades de renovação trazidas por esse produto. No caso do D2, creio que ele tenha um grande potencial renovador, embora nem sempre ele mobilize todo esse potencial em suas criações artísticas. Ou seja, sabendo-se que ele não é um “produto passivo” (feito unilateralmente pelo/para o mercado), acho que devemos tentar recuperar esse potencial, para começar a pensar em relações que transformem as estruturas dessa mesma Indústria que possibilitou o sucesso dele.

  2. Arthur Moura disse:

    Eu nunca afirmei que todos os rappers são produtos. Produto é tudo aquilo que se vincula ao mercado. É tudo aquilo que está a serviço de um mercado e que em sua dinâmica nega uma série de relações contra tal ordenamento. Existe uma série de MC´s, DJ´s, escritores que estão na contra-mão dessa lógica mesquinha. Dessa lógica que em sua última instância serve a manutenção do estado de coisas. Não existe possibilidade de renovação dentro dessa lógica. Não entendo como transformar a indústria cultural. Transformar em que sentido? Isso me cheira a “reformar o capitalismo”. Marcelo D2 é apenas um exemplo concreto de transformação da arte em produto de mercado. D2 serve agora ao capital, serve às hierarquias internas de poder, sustenta um modus operandi que nega em sua prática a cultura hip hop. É uma incoerência acreditar em qualquer tipo de transformação em relação a D2 ou a qualquer outro produto. D2 é empresário e dentro dessa lógica preza pelo lucro, pela ascensão social através do que propõe como arte. A questão aqui é acreditar nas resistências. Acreditar naqueles que não querem depender da mesma lógica de rappers como D2.

  3. Arthur Moura disse:

    “A associação de imagem de um grupo para com o outro, ou uma ideia ser atrelada diretamente a um grupo legitima e abre as possibilidades de se conquistar uma fatia do mercado que a cada dia cresce. O crescimento desse mercado gera espaço para discursos combativos, mas que não passem de um determinado ponto e não ofereça grandes preocupações. O discurso libertário nesse caso abre a possibilidade para mil coisas, mas não te assegura de nada. Ele é vazio de perspectiva e inserção política; ele é ousado, mas não oferece perigo à ordem. A ideia do rap combativo dentro da perspectiva da indústria fonográfica é sensual, tem uma postura séria e sóbria. Ele é político, estando muitas vezes inserido em programas sociais do governo ou tendo algum tipo de relação beneficiente imediatista com aquilo que propõe interferir. A pós-modernidade é um paradigma que transforma as contradições do passado em novas possibilidades, onde cabe ao indivíduo a criação, a liberdade e, é claro, o empreendedorismo. A modernidade e todas as suas formas rígidas de controle são reformuladas e estas formas de controle ganham novas validades com o poder do mercado capitalista apoiando suas perspectivas políticas. São formas complementares que afirmam o projeto político democrático liberal burguês. (…) A construção da ideia de um mercado emancipado, reformado, livre da competitividade cruel do capitalismo está longe de ser uma alternativa segura para superação das contradições de uma sociedade que necessita se afirmar junto a uma política de exclusão social. O rap criou uma nova forma de se fazer mercado, cheio de mecanismos, mas que mantém, porque necessita de manter, as principais contradições que tenta contestar em sua poesia. É muito comum um MC que afirma valores libertários, mas que em sua prática mantém as instâncias hierárquicas entre suas próprias relações artísticas. Estes constroem uma ideia de liberdade calcada na construção ideológica do controle, que visa à legitimação de suas verdades e posturas cínicas. A emancipação política do rap primeiramente deve permear o debate sobre arte engajada e o que vem a ser isso. A arte que se pretende engajada é incompatível com a arte espetaculosa e industrial, atrelada a construção de imagens que se encerram em si mesma. Uma relação de sustentabilidade também passa longe de reproduzir velhas práticas da indústria capitalista fonográfica. A concepção mercadológica já traz consigo toda uma postura liberal e muito atrativa para aqueles preocupados com a construção de carreiras e não de ideias políticos de resistência.”

    • Juliana Lessa disse:

      Arthur,
      Acho que partimos de concepções distintas de produto cultural aqui. Na verdade, acho que isso se deve ao fato anterior de discordarmos quanto ao alcance das estruturas da indústria cultural em relação à arte. Quando eu afirmei que todos os rappers e mc’s são produtos culturais, eu não quis dizer que todos eles sejam “vendidos”, porque aceitam as relações mercadológicas da indústria fonográfica. O que eu quis dizer, na verdade, é que o fato de todos eles terem se firmado como artistas numa sociedade em que todas as relações sociais são pautadas pela lógica do capital – e, dessa forma, a criatividade artística também –, faz com que suas criações reforcem, em certo sentido, as estruturas da indústria cultura porque todos eles utilizam – em alguma medida – os mecanismos de difusão oferecidos por ela (especialmente se for um cara que sobreviva de música) e, dessa forma, acabam por contribuiu para a valorização do capital de alguém. E para afirmar isso, estou me baseando na concepção de Adorno sobre indústria cultural, que, para ele, se caracteriza pela combinação da capacidade técnica de reprodução massificada das produções culturais (que passam a obedecer a um padrão pré-definido) e da concentração de poder econômico e administrativo nas mãos de algumas poucas empresas, que atuam no sentido de integrar os consumidores a partir do alto. Assim, a “arte superior” e a “arte inferior” são forçadas a se unirem, tornando-se, ambas, produções mercantilizadas e adaptadas “ao consumo das massas e que em grande medida determinam esse consumo”. O resultado disso é o prejuízo para ambas, já que “a arte superior se vê frustrada de sua seriedade” e “a arte inferior perde, através de sua domesticação civilizadora, o elemento de natureza resistente e rude”. Como resultado, a obra de arte e as manifestações culturais deixam de se orientar por seus próprios motivos e princípios razoavelmente autônomos, para se submeterem à lógica industrial da comercialização e do lucro.
      Nesse sentido, a possibilidade de que seus autores se mantenham com os ganhos comerciais da venda de suas produções, faz com que se intensifique a transformação da arte e da cultura em mercadorias, posto que, a partir daí, o objetivo da criação artística seja comercial. O processo de transformação das criações artísticas em mercadorias é assim definido por Adorno:
      “A cultura que, de acordo com seu próprio sentido, não somente obedecia aos homens, mas também sempre protestava contra a condição esclerosada na qual eles viviam, e nisso lhes fazia honra; essa cultura, por sua assimilação total aos homens, torna-se integrada a essa condição esclerosada; assim, ela avilta os homens ainda uma vez. As produções do espírito no estilo da indústria cultural não são mais também mercadorias, mas o são integralmente.”
      Impulsionados pelos ganhos materiais e pressionados pela tendência da indústria de bens culturais em apresentar, constantemente, novidades, os criadores contribuem para que suas produções assumam um caráter cada vez mais semelhante entre si, de modo que as diferenças são muito pouco significativas porque preservam “o esqueleto no qual houve tão poucas mudanças como na própria motivação do lucro”. É então que começam a surgir os padrões estandardizados que vão nortear as criações futuras. A base técnica de tais criações, embora permaneça artística, passa a ser influenciada pela técnica industrial de reprodução mecânica, a qual, segundo Adorno, atua como um parasita da técnica artística, agindo “sem se preocupar com a determinação que a objetividade (…) implica para a forma intra-artística” e que resulta na perda de sua autonomia estética.
      Com base na concepção de Adorno, pode-se afirmar que a emergência da indústria cultural significa, em algum sentido, a vitória do capitalismo sobre aqueles que buscavam consolidar relações sociais alternativas, já que ele não concebe nenhum caminho que leve à superação do domínio cultural capitalista. Ao contrário, Adorno entende que todas as formas de resistência acabam, em algum momento, sendo englobadas pela indústria cultural tornando-se, por isso, mais um de seus elementos que servem à alienação decorrente da imposição de um padrão cultural estandardizado. Tudo isso pra dizer que acho que é ingenuidade acreditar que exista alguma produção artística intocada pela indústria cultural. Ou seja, mesmo aquelas produções que são movidas pela resistência às relações culturais mercantilizadas acabam sendo englobadas, em algum momento, pela indústria cultural.

      Pra ser sincera, eu concordo com toda essa caracterização feita pelo Adorno, mas não acho, assim como ele, que o poder da indústria cultural seja invencível – o que nos condenaria à perpetuação da ideologia dominante. Acho que a indústria cultural tenha, sim, o poder de se apropriar de tudo que é feito, mas não acredito que ela seja indestrutível. E para agir nesse sentido existem estratégias diversas e que podem atuar (simultaneamente) por dentro e por fora das estruturas dessa indústria. Como o próprio conceito já diz, trata-se de uma indústria, que, portanto, valoriza o capital de algumas pessoas e reforça o domínio da burguesia. Nesse sentido, a luta de classes já me parece uma via razoavelmente óbvia para a superação da mercantilização da cultura, por propor o fim da lógica capitalista. Mas eu também acho que a luta de classes possa ser complementada por uma atuação “por dentro” das estruturas da indústria cultural. Seria um tipo de atuação consciente de que – em alguma medida – se está contribuindo para as estruturas dessa indústria, mas que, apesar disso, se pauta pelo conhecimento dessas estruturas, pela identificação de seus nós e de suas estratégias de convencimento de massas para que, no momento em que a correlação de forças políticas esteja favorável às propostas de transformação social (o que seria proporcionado pela luta de classes), essas mesmas estruturas possam ser utilizadas em favor das ideias revolucionárias. E pra dizer tudo isso dessa vez, estou me baseando no Benjamin que entende que massificação das obras de arte não é necessariamente ruim, pois, a obra de arte replicada, através dos mecanismos técnicos de cópia introduzidos pela indústria cultural, se torna mais próxima do indivíduo. Para ele, portanto, a aura não é uma característica que deva ser obrigatoriamente preservada, como parece ser para Adorno, para quem a manutenção da autenticidade parece ser uma via para evitar que a obra de arte seja transformada em mercadoria, a partir de sua reprodutibilidade técnica. Para Benjamin, a autenticidade de uma obra de arte é “sua existência única”, seu “aqui e agora” ou sua “autoridade”, do que se depreendem seu “testemunho histórico” e seu “peso tradicional”. A aura é o que mantém a distância entre a obra de arte e o indivíduo. Sua autoridade decorre justamente de tal distanciamento. Dessa maneira, Benjamin acredita que a destruição da autenticidade durante a reprodução técnica permite não só a aproximação entre obra e indivíduo (já que a cópia é colocada em situações inimagináveis para o original), mas também a atualização do próprio objeto que é reproduzido, já que sua tradição – decorrente de sua existência única – é abalada por sua existência serial.
      A reprodutibilidade técnica possui, para Benjamin, um papel revolucionário para a arte, uma vez que o atrofiamento de sua autenticidade é o que a permite emancipar-se de seu fundamento teológico – que emana tanto de seu uso secularizado quanto das “formas mais profanas de culto ao Belo”. A reprodução técnica faz com que a arte seja, cada vez mais, “criada para ser reproduzida”. Assim, sua função social transforma-se totalmente, deixando de “fundar-se no ritual” para “fundar-se em outra práxis: a política”. A politização da arte na era de sua reprodutibilidade técnica é um dos caminhos identificados por Benjamim para que as massas passem a exercer o controle social sobre as produções artísticas, libertando-se, então, da dominação cultural exercida por aqueles que atualmente possuem o controle dos meios de produção (artística, inclusive) e que difundem um tipo de consciência corrupta. Nesse sentido, retirar a obra de arte de sua existência única e tradicional e aproximá-la do indivíduo, dando-lhe um uso político – a partir do controle social exercido pelas massas – pode ser uma via para que a arte venha a ser um estímulo à consciência de classe e, dessa forma, à superação das relações de produção de propriedade.
      É por isso, portanto, que eu defendo que a gente tente dialogar com todos aqueles que, de alguma forma, manifestem algum grau de resistência às relações artísticas mercantilizadas, ainda que seja só no discurso – como é o caso do D2. Eu sei que a estética de suas criações não é única no rap (e também não é das mais resistentes do ponto de vista político, embora seja muito inovadora, do ponto de vista artístico) e eu sei que ele é empresário, mas acho que não dá pra ignorar que ele consegue dialogar com um público extremamente amplo. Acho que cabe a todos aqueles comprometidos com o fim da dominação capitalista buscar entender o porquê de seu discurso resistente ser tão aceito pelas massas, enquanto que o discurso de muitos outros não tem a mesma visibilidade. É preciso tentar entender de que forma esse discurso dele é interpretado pelo público, ainda que ele reproduza conscientemente a lógica do capital em suas relações pessoais e de trabalho. Aliás, cabe se perguntar o por quê dessa consciência paradoxal, que ora manifesta resistência às relações capitalistas, ora pareça aceitar a lógica do capital. Apostar apenas em algo que acreditamos ser “puro” ou completamente “outsider” me parece uma estratégia sectária.

      • Arthur Moura disse:

        Existem duas leituras possíveis acerca do caráter da cultura de massa. A primeira é entendê-la dentro do processo de fundamentação do capitalismo através de meios como livros, mas, sobretudo jornais em processo que se deu ao final do século XVIII. Dentro dessa leitura constatamos que em sua gênese a elite crioula, como foi o caso da América Latina neste período, apropriou-se de tais meios juntamente com o conhecimento que provinha do Iluminismo para fortalecer suas independências com relação às metrópoles. Adiante, a cultura de massa também ganhou o caráter global tornando-se o principal disseminador do modo de produção capitalista. Por fim, este processo nos mostra o direcionamento pertinente dessa indústria com a finalidade de assegurar a permanência de um pequeno segmento da elite como forma a garantir suas posições de privilégio numa sociedade dividida em classes. Acompanhando essa leitura entendemos que existe um antagonismo de interesses entre as classes na construção de canais de comunicação ao longo da história. Uma segunda leitura acredita que é possível apropriar-se de tal estrutura propondo para isso a construção de novos valores, mesmo que seja preciso manter parte da estrutura da indústria. Dentro dessa perspectiva não seria preciso superar a burocratização, as institucionalidades e principalmente as estruturas de mercado. Antes mesmo de opinarmos sobre qual seria a possível saída, pensemos sobre a atual configuração da indústria cultural e suas possíveis resistências.
        Para Edgar Morin, a cultura de massas, ou a terceira cultura, como define o autor, “oriunda da imprensa, do cinema, do rádio, da televisão, que surge, desenvolve-se, projeta-se, ao lado das culturas clássicas – religiosa ou humanista – e nacionais”. Mesmo tendo o caráter global, tal processo fundamenta-se por estar atrelado às nacionalidades, pois estas representam poder de dominação sobre outras culturas (basta, para isso, pensarmos o papel dos Estados Unidos com relação à imposição de seus valores ao restante do mundo). Por isso, é importante problematizar o conceito de nação, nacionalismo e nacionalidade para entender o que eles representam. Para Benedict Anderson, “as comunidades não devem ser distinguidas por sua falsidade/autenticidade, mas pelo estilo em que são imaginadas.” Para o autor, as comunidades são imaginadas como implicitamente limitada e soberana. O conceito de nação fundamenta-se pela necessidade da concretização dos Estados modernos. Dentro dessa nova organização social as tensões de classe vão se dar num contexto onde os Estados sobrepõem-se aos trabalhadores através de um contrato social sustentado pela jurisdição. Esse acordo camufla as tensões em uma suposta harmonia garantida pelo direito e todo aparato jurídico. Em “A Formação do Estado Burguês no Brasil”, Décio Saes explica que sem a jurisdição não há sequer a possibilidade do advento do capitalismo como sistema econômico hegemônico e mundial. Ou seja, para que o capitalismo seja uma economia global, este há de se atrelar diretamente aos Estados-nação e em contrapartida temos a formação do povo-nação que, por sua vez, “é a forma de coletividade que o Estado burguês impõe aos agentes da produção antagonicamente relacionados no processo de extorsão da mais-valia”, afirma Décio Saes. No entanto, “o Estado é visto como um elemento neutro e a serviço da sociedade, mas, ao mesmo tempo, a sua relação com o capital revela outros interesses que permeiam a ação estatal”. (Leila Silva de Moura, p.19, revista Enfrentamento, “O Estado Moderno e a Propriedade Privada”)
        A vida política do século XIX foi influenciada pelas lutas em torno do princípio das nacionalidades, frequentemente invocado e nem sempre obedecido. Dentro disso, a nacionalidade significou ao longo desse processo o vínculo jurídico pessoal que prende um indivíduo a um Estado. E por nacionalismo entende-se uma forma de consciência de grupo, isto é, a consciência de pertencer ou estar ligado a uma nação. Como consciência de grupo, nacionalismo implica uma coesão, um senso de unidade ou de comunidade que identifica o indivíduo com um Estado político existente ou com uma aspiração ao mesmo. A partir disso, abrem-se as possibilidades da concretização do Estado burguês como aquele que rege as relações sociais a partir da necessidade constante de exploração da classe trabalhadora. A forma de dominação econômica garante as relações desiguais dentro da lógica produtiva do capitalismo assegurado pelo Estado. Para Décio Saes, “o Estado burguês cria as condições ideológicas necessárias à reprodução das relações de produção capitalistas. E o faz, na medida em que desempenha uma dupla função.
        a) Individualiza os agentes de produção (produtores diretos e proprietários dos meios de produção) mediante a sua conversão em pessoas jurídicas: isto é, sujeitos individuais aos quais se atribuem direitos e uma vontade subjetiva. Essa individualização confere à troca desigual entre o uso da força de trabalho e o salário a forma de uma ato de vontade realizado por iguais: isto é, um contrato de compra e venda de força de trabalho.
        b) Neutraliza, no produtor direto, a tendência à ação coletiva, decorrente do caráter socializado do processo de trabalho, e determina, por esse modo, a predominância, no produtor direto, da tendência ao isolamento, decorrente do caráter privado assumido pelos trabalhos nesse processo”.
        Esse viés apresenta uma problemática contemporânea no que diz respeito às novas relações entre capital e trabalho. O processo produtivo do capitalismo acompanhou também as novas categorias que se firmaram os Estados modernos. Neste caso a problemática reside no fato do suporte jurídico abarcar de forma impositiva os interesses de classe para a manutenção do status quo. Em suma, os Estados, através da construção de um ideário nacional legitimado pela jurisdição, homogeneíza um complexo social com interesses antagônicos através de construções de poder que visam neutralizar disfunções sociais possuindo forças armadas para garantir tal ordenamento.
        “Do lado da defesa da indústria cultural está inicialmente a tese de que não é fator de alienação na medida em que sua própria dinâmica interior a levar a produção que acabam por beneficiar o desenvolvimento do homem.” (Coelho, Teixeira. O que é Indústria Cultural. São Paulo, Brasiliense, 2000. Pág.: 24) Neste caso, não basta pensar uma espécie de reforma ou reparo sobre as mecânicas que não só produz, mas gerencia o modo e aplicação de seus produtos, pois a isso já se vale o modelo atual onde a livre competição de mercado estimula e estipula os caminhos e limites estabelecido sob caráter flexível. Os meios de comunicação de massa encontram-se em intensas disputas por trazer todo um espectro de poder útil nesse caso às premissas do capital e do Estado e de suas políticas de controle. São por isso investidos de toda uma construção política que por não conseguirem separar-se da realidade material, dá a esse um caráter fetichista e obtuso relacionando-se com a realidade de forma utilitária e tecnicista. Esta comunicação serve, por fim, à sociedade do espetáculo onde seu reflexo finaliza-se em sua própria imagem. O uso de meios de comunicação com alcance de massas é perfeitamente possível de se realizar dentro de outra configuração de sociedade. Esta nova comunicação não atenderia às flexíveis mudanças de mercado por não haver mais a demanda por tal flexibilização, tendo sido esta transformada em seu caráter mais profundo.
        O monopólio de redes e os acordos políticos firmados entre setores privados e o Estado serve entre si como base para a construção e desconstrução dos conflitos sociais de acordo com suas necessidades e interesses políticos. Nesse processo é de fundamental importância estimular a construção de uma arte livre, interessada no aprimoramento e desenvolvimento de suas linguagens como forma de produzir novas relações e organizações. Para essa liberdade de criação ser possível, aquele que cria e comunica deve se entender em meio a essa complexa relação social como um ser coletivo. As próprias relações vão estimular este indivíduo em seus propósitos de criação. Pensar o uso dessa máquina comunicacional em contexto libertário e sem classes é algo absolutamente diferente, pois não são somente os meios materiais que serão apropriados. Tem-se aí a construção de outro ethos que não proporcionará a antigas formas de dominação e poder. Em relação a que se pretende livre? Poderíamos aqui encerrar o debate afirmando que a liberdade já fora conquistada ao longo do processo revolucionário burguês onde nasce o proeminente cidadão. Dentro de um contexto de disputa e competição por mercados estimulados pelo crescente desenvolvimento da indústria cultural a liberdade é uma mercadoria como outra qualquer. Adiante, a liberdade é garantida pelo Estado, desde que não se transgridam as leis, criadas ao bom ordenamento social. São as mesmas leis que por sua vez estimulam e facilitam a existência da liberdade como mercadoria de consumo. E essa é a mesma lei que imputa a culpa em nossos desejos, por estes estarem na contramão do ordenamento que a lei permite. Por isso, para a manutenção do conceito de liberdade em sociedade ordenada pelo estado democrático de direitos e pela economia de mercado é preciso a manutenção do entendimento de tal conceito a partir da tutela imposta por relações de poder e domínio trazendo como consequência a servidão voluntária. Por isso, entendemos que é livre todo aquele que não é constrangido de forma coercitiva através de dispositivos de domínio sobre as vontades individuais e coletivas. Neste ponto, convergimos com Teixeira Coelho, quando este diz que
        “na verdade, nenhuma sociedade existente, e que queira dar início a um processo de profundas alterações sociais em seu interior, pode dar-se ao luxo de dispensar um meio como a TV e os produtos culturais por ela gerados. Por outro lado, esse enfoque não permite esquecer que, de fato, todo produto traz em si os germes do sistema que o gerou; diminuir a importância dessa constatação pode resultar em graves danos para uma sociedade em processo de transformação.” (Coelho, Teixeira. O que é Indústria Cultural. São Paulo, Brasiliense, 2000. Pág.: 37)

      • Arthur Moura disse:

        Posto esta reflexão que escrevi pois ela dialoga diretamente com a sua exposição (apesar de não se referir diretamente ao caso dos rappers). No entanto, não acredito em qualquer diálogo ou apoio de empresários como D2 ou outros rappers que carregam em si toda uma relação direta com o capital. D2 nunca vai lutar pela liberdade ou democracia. É um escravo do capital.

      • Juliana Lessa disse:

        Arthur,

        Não tenho grandes discordâncias em relação a sua exposição sobre nação, Estado e sociedade de classes, mas acho que, às vezes, você trata cultura de massas e indústria cultural como se fossem a mesma coisa, como nessa parte aqui:

        “Adiante, a cultura de massa também ganhou o caráter global tornando-se o principal disseminador do modo de produção capitalista. Por fim, este processo nos mostra o direcionamento pertinente dessa indústria com a finalidade de assegurar a permanência de um pequeno segmento da elite como forma a garantir suas posições de privilégio numa sociedade dividida em classes.”

        Eu sei que a cultura de massa é produzida pela indústria cultural, mas se a gente quiser identificar as potencialidades e os limites de ambas (e penso que concordamos quanto à existência de potencialidades e limites, mas me corrija se eu estiver errada), temos que analisá-las separadamente.

        É claro que o D2, como empresário – e mesmo como artista – atua no sentido de perpetuar as estruturas da indústria cultural, mas se a gente tiver um pouquinho de boa vontade, não vai ser difícil perceber que a produção dele manifesta, sim, um discurso político diferente daquele veiculado por outros artistas. Não dá pra dizer que a música dele propaga as mesmas ideias das músicas do Michel Teló ou da Anitta, por exemplo. É claro que esse discurso pode ser mera aparência e pode não ser tão revolucionário quanto o discurso de rappers menos inseridos nas estruturas da indústria cultural – pois, como eu te disse, mesmo o mais resistente de todos participa dessa indústria e contribui, em alguma medida, para a sua reprodução -, mas é um discurso que é minimamente crítico e que possui grande aceitação. Nesse sentido, acho que simplesmente ignorar esse discurso por considerá-lo contaminado demais pelas relações da indústria cultural seja o mesmo que renunciar à compreensão das estratégias estéticas que possibilitam sua aceitação pelas massas. E, para mim, é impossível tomar as estruturas da indústria cultural sem entender essas estratégias.

        PS: Apesar de considerar o Michel Teló e a Anitta produtos mais estantartizados da indústria cultural, eu não defendo que suas produções sejam simplesmente ignoradas. Também não acho que dê pra dialogar com as produções deles da mesma forma como eu acho que dá pra dialogar com a produção do D2, mas é que eu tenho um leve fetiche pela tosqueira!

      • Arthur Moura disse:

        Juliana, debate muito importante este. É uma pena ele não estar inserido no bojo da cultura hip hop por haver a necessidade de não se falar em tais problemáticas, ou seja, este tema não entra de fato na pauta do rap por haver interesses políticos interessados na perpetuação da lógica do capital. Veja, estive ouvindo um dos discos que vc se referiu do Marcelo, “A Arte do Barulho”, até mesmo como forma de me inteirar mais sobre tais produções. O que se percebe num disco como este? Se percebe primeiramente a preocupação em se afirmar, e aí me refiro ao D2, é claro, em se afirmar como um vencedor. E que tipo de vencedor seria D2? Um vencedor que hoje possui o que muitos desejam. Em outras palavras, acesso a meios materiais muito visados na sociedade de consumo. O disco é um produto que anuncia, ou melhor, vende a ideia de sucesso. Primeiro: rap é para poucos e se vc não tiver o tal proceder tá fora. Segundo, é preciso reservar sempre um espaço para propagandas (seja ela de marcas de tênis, visuais, estéticas, mas eu diria que existe uma preocupação sempre presente em anunciar nas músicas as marcas que sustentam D2. Terceiro, as músicas sao sempre abordando temas políticos de forma muito superficial, quando existe algum tipo de abordagem política, sempre cheio de chavões e uma poesia óbvia, pobre e tosca. Quarto, sempre produções de altíssimo nível, bases sinistras, samples, gravação perfeita, produção mainstream. Enfim, um disco extremamente pobre e que não traz nenhuma perspectiva para a emancipação do hip hop enquanto cultura de resistência, classista e combativa. Nossa discordância reside no fato de entender que a Indústria cultural não serve para os mesmos caminhos que um artista como D2 ou um grupo que esteja agora a começar as suas primeiras produções. São caminhos totalmente diferentes. Indústria e mercado é uma coisa. Apoio mútuo é outra totalmente diferente. E nisso, as estruturas flexíveis as quais vc se refere não passam de alegorias criadas pelo próprio capital.

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  5. Gael K disse:

    Gostei do texto e tema abordado. Mas discordo de algumas colocações. Vejo uma caminhada do D2 rumo ao mercado mesmo, cada vez mais suas letras num campo “descompromissado”. Duvido dele ainda mais quando vejo com ele no rap ele se associa. Essa nova cena dominada por COneCrew, Ret, Start, Cacife Clandestino e etc é TOTALMENTE deprimente. Enquanto Bnegão faz um trabalho mt mais concreto, e o BlackAlien, mesmo com as atuais contradições, escreve mt bem, o Marcelo continua num discurso raso. Pra fechar deixo uma viagem minha que penso que dos 3 ex-Planet, dois gravaram com Sabotage, e tem qualidade “comprovada” hahaha, o que sobra, é curiosamente o mais famoso e disseminado… “Rap é compromisso, não é viagem”

    • Juliana Lessa disse:

      Gael, concordo com tudo isso que você disse (especialmente sobre a produção do BNegão e sobre a atual cena do rap), mas, como eu procurei explicar no minha resposta pro Arthur ali em cima, eu acho que a gente não deve ignorar a produção dele, porque ainda existe um discurso minimamente interessante e politizado. Esse último CD é bem legal.

  6. MdC Suingue disse:

    um horror essa mania que artista tem de querer comer, querer morar, querer fazer filho, querer ter futuro…

    Agora sério: É justo jogar apenas nas costas do artista o ônus de revolucionar a indústria cultural? O produtor, o dono da casa de show, a gravadora, a distribuidora,o dono da mídia por onde ele propaga sua mensagem não são muito mais responsáveis por essa mudança de paradigma? O próprio público não tem também sua responsabilidade?

    Até o capitalismo entrar em total desencanto, o rap, o rock, o samba, o gospel, e seus artistas vão ter que circular a sua arte dentro dessas estruturas que, infelizmente, por mais que a gente tente mudar, ainda são definidas como e pelo ‘mercado’.

    E olhe, se levarmos em conta tudo o que já mudou em relação à quando o Planet surgiu, em termos de pulverização do modo de produção e divulgação, a coisa até que já andou bastante.

    Mas a discussão procede e é saudável.

    • Juliana Lessa disse:

      Suingue,
      Não creio que o produtor, o dono da casa de show, a gravadora, a distribuidora e o dono da mídia queiram assumir essa responsabilidade, porque as estruturas da indústria cultural beneficiam diretamente a eles (pela geração de lucro) e, dessa reforma, reproduzem a posição dominante da burguesia. Na sociedade capitalista, a função deles é justamente difundir a lógica das relações sociais capitalistas.

      • MdC Suingue disse:

        Concordo Juliana, mas o mesmo pode ser dito dos artistas. Tirando as honrosas exceções.

        E a pergunta que fica é: como criar um ambiente não-capitalista para a arte em que tanto artista quanto os outros protagonistas da cadeia não fiquem reféns de outros vícios, tais como a duvidosa curadoria do estado ou a manipulação do conteúdo pelo grupo dominante?

        Por vezes vejo a teimosa sobrevivência de manifestações culturais à margem do mercado (folia de Reis, coco, siriri e cururu, maracatu e outras tantas) como uma luz sobre o assunto, mas não vejo como quebrar a barreira da precariedade sem acabar entrando na seara da lógica burguesa que ao mesmo tempo que alimenta, acaba por engessar e/ou institucionalizar a cena.

        Abs.

        PS. adorei descobrir o Capitalismo em Desencanto. Parabéns a todos aí.

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  9. Rods disse:

    Gostei muito do texto. Bom mesmo! E percebendo o quanto você entende das músicas novas do D2, sabe me dizer de onde eles tiraram o diálogo da música 4:20 ?
    Grato

  10. elton disse:

    oi marcelo d2 é porque eu fiz uma letra de música pra você deve estar bom. risos nome da letra. assim. é tipo assim eu pego o microfone e começo a falar o que eu quero dizer assim do meu jeito assim. e que na vida eu aprendi que é cada um por si. e se não ter o que argumentar o bicho pega sem você esperar e solução é amar. manter a mente aberta pra esperar o que pode chegar e quando chegar eu vou estar esperando alguém me explicar: o que eu quero falar. eu vou tentar te explicar que a vida não é um simples pedacinho de vida. e que a vida precisa ser pensada de qualquer jeito e maneira. porque sem a vida não podemos fazer nada e não posso te desagradar. e você tem que acreditar que um dia a vida vai melhorar pode acreditar.

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