As classes sociais ainda importam? (parte 1 de 2)

Quando crianças, todos nós fomos orientados por familiares, professores, governantes e adultos de maneira geral a nos dedicarmos com afinco aos estudos, porque, dessa forma, conseguiríamos um bom emprego que nos garantiria o mínimo de tranquilidade financeira para nossas vidas. Passada essa fase e alcançado o mercado de trabalho, começamos a ouvir de patrões e “especialistas” escolhidos a dedo pela mídia de mercado que, com qualificação e trabalho duro, em suma, “vestindo a camisa da empresa”, poderíamos ascender na hierarquia dos empregos e galgar os postos melhor remunerados.

Trabalho infantil

Trabalho infantil

Entretanto, o que quase nunca nos é dito é que alguns não precisam estudar nem trabalhar muito para alcançar posições que nem os mais dedicados estudantes e mais disciplinados trabalhadores chegam sequer a vislumbrar. Um ótimo exemplo disso pode ser conferido na trajetória do já famigerado Thor Batista. Ora, se um rapaz que se orgulha de nunca ter lido um livro inteiro na vida dispunha, aos 19 anos, de dinheiro suficiente para cogitar se envolver em um negócio que foi estimado em mais de 11 milhões de reais, há algo errado com a fábula que relaciona sucesso financeiro a esforço, autossacrifício e tenacidade. A fábula fica ainda mais esquisita se considerarmos que, atualmente, um professor que defender seu doutorado (ou seja, com pelo menos dez anos de escolaridade a mais do que o jovem Thor) receberá na rede estadual de educação do Rio de Janeiro cerca de R$ 1.500,00 mensais, por 16 horas semanais de trabalho (que, na prática, sempre se estendem para além desse período). Isso para não entrarmos na seara de todos aqueles que sequer podem ter muitos anos de escolarização, por terem que se arranjar desde cedo no mercado informal de trabalho como forma de contribuir para a subsistência de suas famílias, ou por diversas outras dificuldades. Complementando esse quadro, há ainda quem se dedique a muitos anos de estudos em nível elevado, sem conseguir encontrar qualquer emprego, ou, na melhor das hipóteses, aceitando vagas cuja exigência fica muito aquém da formação obtida.

A razão para tamanhas discrepâncias reside no fato de que independentemente do esforço que coloquemos em nossas trajetórias pessoais, não partimos todos do mesmo ponto inicial. Ao nascermos, encontramos uma sociedade já organizada de determinada maneira e, desde então, o ponto que ocupamos nessa organização condiciona – ao lado de outros fatores, como etnia, gênero, etc – de forma significativa os percursos posteriores de cada um. Então, se quisermos compreender como operam esses condicionantes, precisamos, antes, entender de que forma a vida em sociedade se encontra organizada. É aí que entra um conceito fundamental, que os setores mais conservadores tentam a todo custo afastar do debate público: o conceito de classe social.

A definição liberal das classes sociais

A definição liberal das classes sociais

Mas, cuidado! Se ao ler essa expressão você imediatamente a associou a uma grande sopa de letrinhas (classes A, B, C, D, E….W, X, Y, Z), não é disso que se trata. Essa divisão de classes por faixas de renda (em que a classe A compreende os que têm mais dinheiro que a B, a B mais que a C e assim sucessivamente), ao enfatizar uma abordagem quantitativa, constitui apenas uma forma de esconder as distinções qualitativas entre as classes sociais. Reduzidas as diferenças entre os segmentos sociais a questões de renda, permanecem ocultos os mecanismos que geram essas diferenças. Ademais, essa representação da organização social contribui para reforçar a narrativa da ascensão individual, uma vez que permite a associação entre aumento da dedicação ao trabalho e progressão no alfabeto das classes.

Longe, portanto, de se reduzirem a meras questões numéricas, as classes sociais decorrem das relações sociais que estruturam a vida humana. Há milênios as sociedades têm se repartido em diferentes classes sociais, as quais variaram bastante de acordo com os distintos períodos históricos. No caso de sociedades em que predomina o modo de produção capitalista, como definitivamente é o caso da nossa, existem duas classes sociais fundamentais: a burguesia (ou capitalistas) e a classe trabalhadora (ou proletariado). Grosso modo, a burguesia é composta pelos proprietários – diretamente ou por meio do controle de grandes quantidades de ações de empresas – dos meios de produção, ou seja, de tudo aquilo (como fábricas, escritórios, máquinas, etc) que é necessário para a produção e a circulação das mercadorias com as quais lidamos no nosso cotidiano, sejam elas objetos tangíveis ou serviços.

Evidentemente, não se busca, com essa afirmação, equalizar completamente as situações de um grande industrial como Antônio Ermírio de Moraes – presidente do grupo Votorantim – e o proprietário de dois ou três carrinhos de pipoca. Por mais que ambos possuam meios de produção, as distintas escalas em que operam os colocam em situações diferentes. O proprietário dos carrinhos de pipoca, ainda que empregue alguns poucos trabalhadores, tem a necessidade de envolver-se pessoalmente no trabalho realizado, ao passo que o grande industrial pode, caso deseje, afastar-se completamente do trabalho, contratando terceiros para realizarem todas as tarefas da produção. Além disso, os lucros – a diferença entre o capital que investem em determinado período para comprar os meios de produção e pagar os salários dos trabalhadores e o capital que recolhem ao final desse período, seja ele um ano, um mês, ou qualquer outro – obtidos por um e outro possuem ordens de grandeza radicalmente distintas, propiciando-lhes padrões de vida igualmente afastados. Para dar conta dessa diferença, é bastante útil o conceito de pequena burguesia, que designa precisamente esses proprietários de meios de produção em pequena escala. Seu correspondete no meio rural é o campesinato, composto pelos proprietários de pequenas porções de terra, cultivadas, quase sempre, pela força de trabalho familiar.

A classe trabalhadora, por sua vez, não dispõe dos meios de produção, nem do capital necessário para adquiri-los. O mecanismo que produz e reproduz continuamente essa situação de despossessão à qual a classe trabalhadora encontra-se submetida é denominado expropriação. A expropriação opera de diversas formas, mas sempre no sentido de subordinar o trabalhador ao mercado. Essa subordinação, por sua vez, tem duas faces, já que o trabalhador depende do mercado tanto como vendedor de sua força de trabalho (ou sua capacidade de trabalho, o que é o mesmo), quanto como comprador das mercadorias de que necessita para sobreviver. Evidência dessa afirmação é a concentração fundiária, que impede que milhões de trabalhadores tenham acesso à terra, obrigando-os, simultaneamente, a trabalhar nas degradantes condições impostas pelo latifúndio e pelo agronegócio, e a adquirir comercialmente os gêneros alimentares que poderiam estar produzindo para si mesmos e para terceiros. De forma complementar, a cada vez que um serviço público – como a saúde, digamos – passa a ser operado de forma privada, a expropriação dos trabalhadores avança um pouco mais, na medida em que o usufruto daquilo que constituía um direito universalmente acessível passa a ser mediado pelo dispêndio de somas de dinheiro nem sempre acessíveis a todos.

A fonte dos lucros da burguesia

A fonte dos lucros da burguesia

Tal dinheiro, evidentemente, só pode ser obtido pelos trabalhadores – sejam eles operários industriais, vendedores de lojas de roupas, professores, ou quaisquer outros – pela venda de sua força de trabalho em troca de um salário. Entretanto, como já visto, o proletariado não trabalha unicamente para produzir as mercadorias cujo valor equivale ao seu salário, mas também para gerar um montante de riquezas correspondente ao lucro dos burgueses. Esse segundo mecanismo de opressão do proletariado é chamado exploração e aparece na diferença entre o valor total dos produtos produzidos pelo trabalhador e aquilo que o próprio trabalhador recebe por esse trabalho. Quanto maior essa diferença, maior a exploração – em termos estritamente econômicos – a que está submetido o trabalhador. Da percepção desse mecanismo de exploração decorre a conclusão lógica de que, mantida inalterada a capacidade de produção de riqueza de determinada empresa, a melhora simultânea das situações econômicas de capitalistas e proletários é impossível. Afinal, a cada aumento do salário pago aos trabalhadores, corresponderia uma diminuição do lucro dos burgueses, e vice-versa.

As condições de moradia como uma expressão eloquente das distinções de classe na sociedade brasileira

As condições de moradia como uma expressão eloquente das distinções de classe na sociedade brasileira

Diante desse quadro, é possível afirmar que qualquer teoria acerca da sociedade que deixe de lado esse caráter fundamental das relações entre as classes sociais – em que os proletários são os responsáveis diretos pela produção da riqueza parcialmente apropriada pela burguesia – contribui para a perpetuação não só da desigualdade social, como também dos próprios mecanismos que (re)produzem essa desigualdade. Nesse sentido, é importante perceber que a existência das classes não se limita a condicionar os distintos pontos de partida das trajetórias pessoais. Pelo contrário, ao longo de todo o percurso correspondente a uma vida, o espaço ocupado pelo indivíduo na estrutura social estabelece uma série de limites às suas possibilidades de mobilidade e ascensão, expressa de forma mais evidente pela diferença qualitativa – e não unicamente quantitativa – entre burgueses e trabalhadores.

Sobre Marco M. Pestana

Doutorando em História pela UFF. Professor do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Cinéfilo frustrado, flamenguista e visceralmente socialista.
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12 respostas para As classes sociais ainda importam? (parte 1 de 2)

  1. Rafael disse:

    Bom texto didático. Parabéns! E penso que seria ainda mais nítido estabelecer a divisão de classes na sociedade capitalista como entre vendedores e compradores de força de trabalho ao invés de detentores ou não dos meios de produção. Esta última divisão pode deixar o leitor confuso com respeito ao papel do estado na sociedade capitalista. Há de se combater também a ideologia que apregoa a propriedade estatal como pública. Mas novamente parabéns pela iniciativa!

    • Ivan Dias Martins disse:

      Rafael, talvez a distinção entre compradores e vendedores de força de trabalho seja mesmo um pouco mais precisa, mas não entendi o motivo que você alegou para tanto. Poderia explicar? Digo isso porque o Estado, além de ser proprietário de meios de produção, também é comprador de força de trabalho, tanto para ter trabalho produtivo quanto improdutivo.

      • Rafael disse:

        Ivan, vc está certtíssimo. Meu comentário foi apenas no sentido de destacar que uma das ideologias dominantes mais difundidas é a de que aquilo que é do estado é do “povo”, público, dos trabalhadores. Esta é uma ideologia muito forte entre os pricipais grupos da esquerda … de onde tiram a conclusão de que a classe operária deve procurar se “representar” no estado ao invés de lutar e se organizar contra todas as frações da burguesia incluindo o capital estatal. Então se a distinção entre as classes fica estabelecida entre compradores e vendedores de força de trabalho, o estado fica automaticamente identificado como mais um grupo capitalista (que, claro, tem suas particularidades políticas especiais na luta entre as classes) cujos interesses dependem da continuidade do sistema do salariado. Em particular, como bônus, essa definição põe abaixo a falácia de que a URSS, Cuba, Coreia do Norte e outras aberrações políticas do gênero sejam vistas como exemplos de sociedades sem classes (o comunismo) só porque “todo mundo” é “empregado do estado”: embora tudo seja do estado persiste o sistema de compra e venda da força de trabalho e portanto também a alienação da classe operária.

  2. Mariana Bedran Lesche disse:

    Rafael, essa uma posição interessante por expor o papel de entidade capitalista do Estado, mas acaba justamente solapando a complexidade de relações que essa instituição envolve. Nem toda força de trabalho comprada pelo Estado é explorada, já que muitos (eu diria todos os mais estritamente públicos) serviços estatais são improdutivos, não geram mais-valia, não geram mercadorias vendidas e compradas para criar lucros.

    É evidente que o fato de o Estado não ser majoritariamente uma entidade capitalista do ponto de vista estritamente econômico não implica em que ele não seja capitalista, uma vez que representa muito mais as classes dominantes do que as subalternas. Porém ele não é uma empresa, há que se reconhecer certas garantias e conquistas da classe trabalhadora que passam pelo Estado. Não é a toa que o programa político burguês ataca constantemente setores dessa instituição.

    Compreender o Estado como entidade de classe implica em analisar como a burguesia hegemoniza esse aparelho e até onde ela é capaz de chegar dentro da sua estrutura. Se usarmos somente a distinção entre compradores/vendedores de força de trabalho para englobar o Estado como integrante da burguesia, acabariamos por apagar toda a dinâmica social de sua construção.

    • Rafael disse:

      Mariana, é um ponto mesmo importante e delicado este de compreender que as relações políticas e econômicas do estado são um tanto mais complexas do que o das empresas “privadas”. Mas o fato é que o capitalista a partir do momento que compra a força de trabalho está adquirindo o “direito” de usá-la como quiser, seja numa atividade produtiva ou improdutiva. Caso contrário não poderíamos tomar como capitalistas os grupos bancários, os grandes grupos varejistas, etc.

      E a necessidade constante de incrementar a porção de trabalho improdutivo empregada pelo estado nos nosssos dias é só uma mostra do fenômeno do parasitismo imperialista: uma evidência de que a produtividade do trabalho alcançou níveis tão elevados que suporta uma quantidade imensa de parasitas, os quais, formam uma caixa de resssonância das ideologias dominantes dado que o típico funcionário de escritório raramente “se sente um proletário”. Ou seja, o parasitismo é uma necessidade política da classe dominante de manter sua influência sobre os estratos do proletariado: dá capilaridade e ressonância à sua difusão ideológica.

      Por outro lado o mesmo parasitismo é também uma prova de que as forças produtivas da humanidade já estão prontas, há tempo, para o comunismo.

      Ainda, é interessante ver como as aparentes “conquistas” da classe operária são sempre temporárias sob o capitalismo: tome o exemplo da legislação trabalhista na europa que serviu como modelo ideológico para a esquerda de todo o mundo. O tal “bem estar social” hoje emperra o crescimento do capital em solo europeu e está, por isso, paulatinamente sendo minado.

      Enquanto o proletariado mantiver uma pauta de condicionar as ações do estado estaremos apenas tirando água do fundo da canoa. A verdadeira pauta de nossa classe é a revolucionária.

      Revolution Baby!

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  4. Sendo a economia moderna dita “do conhecimento”, podemos considerar que os trabalhadores do conhecimento são também burgueses? Estes trabalhadores investiram seu tempo e dinheiro no seu capital intelectual, e recebem altos salários por isto.

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