Breve histórico das manifestações populares no Brasil recente

 É razoavelmente comum atribuir ao fim da repressão política que acompanhou o final da ditadura empresarial-militar brasileira, somado (e também impulsionado por) ao desejo de ocupação dos lugares públicos até então vedados por esta mesma repressão a característica de motor das gigantescas marchas e passeatas que ocorreram nos anos 80. As Diretas Já seriam a grande referência de manifestação popular desta década, na qual a Rede Globo ainda deixava claro em que lado do muro se encontrava, despolitizando o movimento e dizendo que seria o público presente para comemorar o aniversário da cidade de São Paulo.

“Aniversário da cidade de São Paulo.”

“Aniversário da cidade de São Paulo.”

A Hisória, contudo, não é refém dos poderosos, mas construída pelas pessoas; não se pode negar a importância da participação e ação dos setores populares para o próprio relaxamento da ditadura. A partir de meados dos anos 1970, a pressão popular sobre o regime ditatorial então vigente no Brasil avançou em ritmo acelerado. As eleições de 1974 podem ser tomadas como um importante marco desse processo, na medida em que dos 21 senadores eleitos, 15 eram filiados ao MDB, o partido da oposição consentida. No final daquela década, estouraram as grandes greves do ABC paulista, que detonaram um ciclo de avanço da mobilização sindical em todo o país, constituindo o chamado Novo Sindicalismo, que enfatizava a completa independência política dos trabalhadores, principalmente em relação aos patrões e ao Estado. As organizações surgidas desse ciclo de lutas, com destaque para a CUT, o MST e o PT, tiveram papel crucial na construção das lutas que sacudiriam a década de 1980, passando pelo movimento das Diretas Já!, pela Constituinte encerrada em 1988 e culminando na derrota eleitoral do então ainda combativo Luis Inácio Lula da Silva, em 1989. Apesar do trágico desfecho simbolizado pela vitória de Collor, os anos 1980, longe de terem sido uma “década perdida”, testemunharam uma série de mudanças progressistas na anatomia do Brasil, como os ganhos salariais dos trabalhadores, a extensão de uma série de direitos aos trabalhadores ruais, a reconquista da democracia, a afirmação da necessidade de construção de sistemas públicos, gratuitos e universais de saúde e educação, além da própria organização política dos setores subalternos da sociedade em sindicatos, associações de moradores, fóruns de luta, etc.

A experiência e a organização acumuladas ao longo desses processos garantiram que os anos 90, a década do auge do neoliberalismo, também contasse com suas multidões. O movimento que aparece como maior no início da década é o dos “Caras Pintadas”, muito laureado pela mídia de mercado. Talvez os “Caras pintadas” sejam um ponto de virada da relação mídia-movimentos sociais, na medida em que ela representa uma capacidade de cooptação dos movimentos de rua.  Após o que teria sido um conflito inicado em função do corte de verbas publicitárias do governo à Globo, a parceria teria terminado. Sim, parceria. A relação não se limitava à famosa edição criminosa no crucial debate entre Collor e Lula em 1989 (inclusive confirmada pelo próprio Boni), afinal o irmão mais velho do primeiro, Leopoldo Collor, foi diretor da Globo Nordeste .

Com a relação azedada, a rede Globo inicialmente lançou uma avalanche de denúncias de corrupção (sendo a única comprovada o Fiat Elba), e utilizou imagens de um protesto de estudantes que reivindicavam passe-livre e meia-entrada (apenas utilizando sua carteirinha de estudantes, não sendo necessárias carteirinhas de UNE, por exemplo) em closes, e apresentando aquela manifestação como o pedido das massas pela renúncia do presidente. Nos dias seguintes a mesma empresa (sempre fundamental lembrar que os canais sao empresas ) deu destaque às falas de líderes Estudantis que convocavam as pessoas às ruas para pedir o impeachment do presidente, alterando a natureza inicial do movimento.

O líder que a globo deu voz é obviamente homem e branco.

O líder que a globo deu voz é obviamente homem e branco.

A década do neoliberalismo também foi uma década de resistência a ele. Com maior ou menor sucesso, houve grande manifestações contra a privatização das grandes empresas estatais e todas encontraram a resposta que os clamores populares do Brasil geralmente encontram: a polícia. Foram anos quase ininterruptos de greves, passeatas, atos, ocupações (ou tudo isso junto) organizados por vários setores da sociedade, provocados pela precarização dos serviços públicos (com objetivo último de privatizá-los por sua “ineficiência”, ainda que esta ineficiência tenha sido programada). Os movimentos nos grandes centros ainda eram fortes o suficiente para fechar avenidas principais (no caso do Rio, Radial Oeste, Rio Branco, Presidente Vargas). E em todos eles houve repressão, e estas foram desmedidas principalmente nas áreas periféricas, como o Massacre de Eldorado dos Carajás faz questão de nos lembrar. O monopólio da divulgação da informação fazia com que estes “exageros” (que os manifestantes de longa data sabem ser norma) não ganhassem a visibilidade que as formas atuais (principalmente as redes sociais) possuem.

eldorado

Os anos subsequentes à chegada do PT ao poder executivo foram palco de uma fissura na esquerda, que se dividiu entre os que apoiavam os mandatos petistas pelos avanços possíveis que enxergavam e aqueles que rapidamente neles identificaram pouco mais que uma reordenação da ordem capitalista sem margem para maiores conquistas efetivas dos subalternos. Os atos, passeatas e mesmo discussões foram esvaziados, e como militantes, podemos testemunhar a dificuldade de mobilizar pessoas não acostumadas a lidar com a política de modo mais auto-consciente, principalmente motivados pelo discurso de que “o poder corrompe” ou que qualquer outro partido de esquerda que suba ao poder tomará os (des)caminhos do PT, normalmente igualados à corrupção. No entanto, nós, militantes, fizemos o que sabemos, fizemos o que nos resta: resistir. Continuamos a ocupar as ruas, a apoiar da forma possível as lutas por educação, saúde e segurança. Continuamos, mesmo poucos, mesmo enfraquecidos, a denunciar os problemas das parcerias público-privadas, o caratér classista do Estado, a lutar desesperadamente pela concretização dos Direitos Humanos (saúde, educação e segurança são Direitos Humanos, não podemos nos esquecer disso!), mesmo para os agentes do Estado que são constantemente denunciados por viola-los (sim, policiais, estamos falando de vocês). Não éramos mais gigantes; éramos Davi montado em Rocinante lutando contra vampiros que vivem do sangue e do tempo dos trabalhadores.  Éramos esmagados: pela imprensa, pela população, pela polícia. Apontaram armas para nós. Fizemos o que sabemos fazer. Permanecemos.

Esta munição não é de borracha. Nem nós.

Esta munição não é de borracha. Nem nós.

Todos os movimentos até então tinham clareza nos objetivos e uma pauta razoavelmente unificada. Em poucas palavras: sabia-se bem o que queriam. Aquelas pessoas estavam ocupando aquele espaço por uma idéia ou um conjunto de ideias específicos, que as uniam. Quando o tal gigante acordou, passou por um momento de uma catarse histórica, um ressentimento mais do que justo. Mas era necessário o que sempre foi necessário: diálogo e clareza de objetivos.

Em outras palavras, um dos maiores desafios que as jornadas de junho (que já adentraram e ultrapassaram julho) deixam nao é novidade pra quem participa de movimentos sociais há algum tempo: a comunicação. O problema não é a possibilidade ou a velocidade – há bastante tempo o contato é baseado na velocidade do sinal eletrônico. Em algum momento, por algum motivo, a esquerda perdeu a sua capacidade de mobilização e de diálogo com as grandes massas, a qual é fundamental recuperar se desejamos um mundo socialmente mais justo.

Sobre Renato Silva

nao fica ninguem. Professor de Historia, Flamenguista e suburbano.
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