Para a crítica de uma polêmica recente

“O partido comunista … se nega redondamente a tomar o caminho da luta pelo poder. A causa? “A situação não é revolucionária”. As milícias? O armamento dos operários? O controle operário? Um plano de estatizações? Impossível! “A situação não é revolucionária”. O que se pode fazer? (…) esperar. Até que a situação se torne revolucionária por si mesma. Os sábios médicos da Internacional Comunista têm um termômetro que colocam sob a axila dessa velha que é a História e desse modo, determinam infalivelmente a temperatura revolucionária(…) A situação é  tão revolucionária quanto pode ser com a política não-revolucionária dos partidos operários. O mais certo é dizer que a situação é pré-revolucionária. Para que ela amadureça, falta uma mobilização imediata, forte e incansável das massas em nome do socialismo. Esta é a única condição para a situação pré-revolucionária se torne revolucionária… A frase habitual sobre a “situação não-revolucionária” atualmente serve apenas para encher a cabeça dos operários, paralisar sua vontade e deixar o inimigo de classe com as mãos livres.”

(L. Trotsky, apud V. Arcary: http://www.cefetsp.br/edu/eso/valerio/)

pstu molotovEm texto anterior para este blog, tentei analisar como a reação do movimento pela redução do aumento das passagens em junho à tentativa por parte da mídia e dos governos (em todas as esferas) de enquadrá-lo como um conjunto de atos de vandalismo foi parte importante para o seu crescimento. Ao invés de assumir uma postura defensiva e buscar dar mostras explícitas do seu caráter pacífico, o movimento de maneira geral denunciou com veemência a repressão policial e a cumplicidade da mídia empresarial. O crescimento gigantesco que se seguiu às primeiras tentativas histéricas de condenar e esmagar o movimento mostrou que amplas parcelas da população brasileira, especialmente em seus grandes centros, não aceitaram a retórica de que as manifestações haviam perdido sua legitimidade por terem passados dos limites, mesmo com o bombardeamento incessante de imagens de atos de depredação, em geral mostrados fora de qualquer contexto que os explicasse. A meu ver, foi a postura dos militantes em manter o foco nas suas reivindicações que permitiu que tantos que não estavam ainda mobilizados passassem a assumir para si aquela luta. Este crescimento, assim, obrigou também que a retórica dos setores no poder tivesse que se modificar para uma em que tentava separar o lado bom do lado ruim das manifestações, enquadrando no último caso os “radicais” (tanto os participantes dos atos de depredação quanto a esquerda organizada). Com isso, buscaram um discurso que se adequasse à consciência daquelas parcelas (talvez majoritárias na sociedade) para a qual as manifestações foram uma novidade bem-vinda, mas que repudiavam o conflito aberto e a destruição de bens públicos e privados. Dessa forma, este discurso poderia continuar a justificar a mobilização em massa do aparelho repressivo, e o sentido das manifestações pôde ser disputado.

Outro lado da questão, todavia, foi a surpreendente e explosiva emergência da própria onda de violência performática e da disposição para o confronto por uma parte não desprezível dos manifestantes que foi tão incessantemente capturada pela mídia. Qualquer militante com alguns anos de experiência já teve contato com grupos defensores de ações de maior confrontamento, em moldes semelhantes ao que temos visto ocorrer. Mas a mera existência prévia de grupos com esse perfil não explica a dimensão que a onda tomou. De algum modo, iniciado ou não por grupos identificados com um tal método, a violência performática se tornou um elemento onipresente nos grandes atos (e nos pequenos também), e claramente atraiu para essa prática contingentes que excederam em muito os seus antigos praticantes.

Black Bloc bandeira anarquista

Black Bloc com bandeira anarquista

O porquê de um tal crescimento é algo que ainda precisa ser entendido, mas uma hipótese razoável é que deriva do fato de que os atos contra o aumento das passagens foram convocados ao menos em parte por fora dos espaços mais tradicionais do movimento organizado, nos quais impera um entendimento de que este método é mais danoso do que vantajoso para a mobilização das massas. Com um recrutamento por fora destes espaços, a tendência pode ter se desenvolvido em parte espontaneamente, em parte por proximidade de perspectivas algo autonomistas com a opção pela ação direta. Não pode ser desprezado também o papel do exemplo televisivo, que desde o início da crise econômica há cinco anos atrás vem equalizando, por bombardeio imagético, revolta social a confronto com as forças da repressão estatal (recentemente, com o caso grego e turco, além do próprio brasileiro).

De todo modo, esse fenômeno assumiu feição mais concreta com o surgimento dos chamados Black Blocs, grupos de manifestantes que têm se organizado em colunas, com máscaras e dispostos a serem a primeira linha de combate do movimento como um todo. Percebe-se que, de modo geral, os militantes dos Black Blocs são indivíduos bastante jovens, com pouca experiência e clareza política, mas têm protagonizado alguns dos momentos mais emblemáticos do ciclo de manifestações. A presença constante dos seus militantes coloca, por sua vez, questões para a esquerda organizada e mobilizada há mais tempo, que, em sua maioria, tende a repudiar ou negar eficácia a ações radicalizadas que partam de um grupo reduzido, e não de amplas massas bem organizadas.

Dentro desse contexto, uma das maiores organizações da esquerda revolucionária brasileira, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), lançou alguns documentos em que polemiza com a tática dos Black Blocs e grupos assemelhados. Inicialmente, o partido lançou textos, notas e fez declarações em que criticava o anarquismo, seja por suas ideias, seja pela participação de alguns grupos anarquistas, segundo o próprio PSTU, em ataques para expulsar as bandeiras dos partidos de esquerda. Mais recentemente, após admissão de que houveram generalizações indevidas, o foco da polêmica parece ter se deslocado para a crítica do radicalismo dos grupos como os Black Blocs, que estariam buscando abertamente o conflito com a repressão policial ou, pelo menos, dando margem para a atuação destes. Em recente texto sobre a infiltração de policiais nas manifestações, o partido trata destes policiais alternativamente como “infiltrados” e como “provocadores”. No final do texto, entretanto, ao analisar a lógica dos “provocadores” esta é identificada como sendo a de “ações tomadas em descompasso com o nível de consciência da classe trabalhadora” que terminariam por colocar a classe contra o movimento. Desse modo, toda ação que não respeitasse os limites desta dada consciência teria o mesmo resultado. Coerentemente com esta linha de argumentação, o texto que começa sobre a infiltração policial termina como crítica aos anarquistas e ultraesquerdistas, pois estes, ao apostar somente no conflito com as forças da repressão, bloqueariam a possibilidade de convocar a base destas forças e arriscariam “jogarmos a classe no colo da polícia e da burguesia, apoiada pela mídia burguesa.

Black Bloc

Grupo Black Bloc

Em texto voltado diretamente aos BlackBlocs, a crítica se estrutura em quatro eixos: 1) que o método desses grupos é ineficiente por ser limitado às próprias vanguardas que o realizam; 2) que os Black Blocs não tem definição política e sua radicalidade se limita à opção por seu método de se manifestar; 3) que as ações radicalizadas fornecem argumento para a repressão sem atrair apoio da maioria da população; 4) e que ações destes grupos não são deliberadas pelo conjunto das manifestações, mas são impostas a elas pela vontade dos próprios grupos. Estas críticas se acompanham da defesa de uma opção pela ação de massas, caracterizadas no texto por atos como greves e manifestações de rua (presume-se que estas últimas não devam incluir confrontos ou depredações).

Porém, num texto dedicado especificamente aos Black Blocs, é marcante a ausência de uma investigação do porquê do súbito crescimento destes grupos e de suas práticas correlacionadas, de como este método, ao qual só se atribui problemas, conseguiu atrair tantos novos praticantes. Os termos da polêmica se dão em torno de oposições (e opções) muito gerais (ação individual X ação de massa, organização X espontaneidade, etc.), sem uma análise de como o processo tem se desenrolado nos últimos meses. Não se admite, nem mesmo como hipótese, que a “propaganda pelos atos”, voluntária ou involuntariamente, possa ter desempenhado qualquer papel positivo (mesmo que um contraditório) no processo. A questão que a emergência dos Black Blocs traz para o movimento parece ser, portanto, somente a de saber porquê, de acordo com tais princípios, a prática desses grupos deve ser rejeitada.

O mais recente capítulo dessa polêmica é um vídeo de alguns minutos do reconhecido militante e dirigente do PSTU Valério Arcary, disponibilizado no site do partido, em que o intelectual critica a atuação de “jovens anarquizantes” em ações radicalizadas. Para Arcary, tais atos estão descolados não somente do nível de consciência das massas, mas também da própria dimensão dos manifestações. Como grande exemplo, elege o protesto do dia 30/06, na final da Copa das Confederações no Rio de Janeiro, onde, em sua leitura, houve uma tentativa de furar o gigantesco bloqueio policial e obstruir ou impedir a realização da partida. Para Arcary, esta ação não seria possível com a correlação de forças então presentes (dez mil manifestantes, contra também outros milhares de policiais). Para além da mera questão da possibilidade do ato ser bem-sucedido, Arcary levanta outros problemas, como o risco de isolamento político da vanguarda e o risco de desmoralização da mesma frente ao fracasso e à violência da repressão.

Manifestantes em confronto com a polícia

Manifestantes confrontam polícia em protesto

A posição de Arcary, porém, levanta duas ordens de problemas, que estão presentes nas demais intervenções do PSTU. Em primeiro lugar, é que a ações criticadas não são avaliadas dentro de uma análise geral do processo, ou pelo menos essa análise não é de fato explicitada. Dessa forma, ações radicalizadas são opostas ao nível de consciência das massas como se fossem pólos absolutamente apartados, ou participantes de uma relação unilateral, em que somente os atos é que se afastam ou se aproximam do nível de consciência dado, mas a consciência não se modifica por esses atos (apesar de termos tido indícios recentes deste movimento). A segunda ordem, talvez mais importante, é que tipo de posicionamento tático a polêmica posta pelo partido coloca. Frente à constante presença destas práticas e de grupos que as reivindicam como método, o que pode ou deve ser feito? Em seu vídeo, Arcary contrapõe diretamente à tentativa de furar o cerco do Maracanã, e dentro de uma perspectiva de atos que podem evitar os problemas associados a uma radicalização sem massas, a greve geral de 11/07. Os três milhões de trabalhadores em greve aparecem como oposição direta aos Black Blocs, talvez com suas centenas ou poucos milhares. A questão que fica, porém, é se realmente uma greve, que se organizou em face de protestos de massa (que tiveram enfrentamentos violentos com a polícia), por maior que possa ter sido, pode ser de fato pensada como uma alternativa aos protestos de rua. Claro está que para o avanço do processo no sentido de uma autêntica luta de classes é necessário mobilizar a classe trabalhadora a partir dos seus organismos de luta tradicionais, um processo de base e mais lento, mas esta mobilização não pode ser medida somente em números absolutos (e mesmo nesses, é preciso levar em conta que, somente no Rio de Janeiro, uma única tarde contou com um milhão de pessoas nas ruas, e nesta mesma cidade a greve geral pouco se materializou).

Se a contraposição ao ato em frente ao Maracanã, na qual o PSTU deliberou não participar, mas que contou com dez mil pessoas (no mínimo o dobro do ato do mesmo dia em que o partido participou), é a greve do dia 11 de julho, há de se perguntar se esta corresponde a uma opção partidária de apostar somente nos atos em que avalia que é menor o risco de serem tentados “tarefas que o movimento não pode cumprir” (ou que tem mais chances de se concluírem sem um término violento e potencialmente traumático). Se este é de fato o posicionamento adotado, deve-se assinalar o risco do partido, apostando em mobilizações de uma forma ou de outra paralelas ou alternativas, terminar por se isolar e impedir-se a si próprio de realizar o que o próprio Arcary coloca como tarefa: o convencimento dos setores mais avançados de que é preciso mobilizar as massas para se conduzir a luta. Outro elemento preocupante levantado por Arcary é o da orientação de que o partido tem como papel no atual contexto o de convencer os militantes de que é preciso esperar o amadurecimento da consciência das massas, não somente porque as massas são necessárias e não somente porque esse amadurecimento é possível, mas porque este desenvolvimento da subjetividade da classe trabalhadora é, ao fim e ao cabo, inevitável. Neste ponto, Arcary aproxima-se perigosamente de uma posição esperantista, animada pela confiança inabalável e passiva num futuro redentor.

Por fim, gostaria de ressaltar que as organizações da esquerda devem sempre se dedicar ao debate franco e ao trabalho de crítica implacável. Neste ponto, a disposição do PSTU em lançar esta polêmica e debater estas questões merece elogios. Uma análise crítica ao método de participação dos grupos como os Black Blocs não é somente desejável, mas também imprescindível no atual contexto. Mas é justamente neste papel que as críticas lançadas pelo PSTU não tem sido bem-sucedidas. Representaria um avanço para o processo como um todo se o debate se prolongasse futuramente em termos mais fecundos.

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