Homofobia sem fronteiras: Rússia, a questão LGBT e as Olimpíadas de Inverno de 2014

As Olimpíadas formam um conjunto de expectativas, sonhos e brilhantismos forjados em um momento laureado como de ápice da atividade humana, no qual o domínio do corpo somado à talentos inacreditáveis moldam uma plástica e estética de rara beleza.  Frente a este espetáculo, convém lembrar o óbvio: O ESPORTE NÃO É NEUTRO. Sublinhado, em caixa alta, negritado e em itálico, para ficar bem nítido. Como qualquer outra dimensão e atividade humana, ele também é político, e tem sido usado desta forma pelos mais variados setores.

"Poeta do Silêncio" pede para focar no esporte e não  nos protestos.

“Poeta do Silêncio” pede foco no esporte e não nos protestos.

O caráter político do esporte, contudo, está longe de ser sempre explícito. O discurso normal é justamente o contrário: exaltar a festa, a união, a celebração. Mas em alguns momentos a tensão é grande demais para ser contida por estas formas discursivas. A forma que normalmente estes conflitos emergem de maneira cristalina é sob a forma de boicotes. Os mais famosos são o boicote de 1980, em Moscou (O presidente dos EUA fez um pronunciamento em 1979, alegado a não-participação como retaliação à invasão do Afeganistão pela URSS)  e o consequente (e esperado) boicote da URSS aos jogos seguintes, de 1984, em Los Angeles . Tratam-se de medidas consideradas extremas, dentro do limite imposto pelo esporte, tomadas em função de um contexto de grande tensão política.

Misha "chora" na abertura dos jogos de Moscou.

Misha “chora” na abertura dos jogos de Moscou.

O ano de 2014 é sempre associado pela população brasileira como o ano da Copa do Mundo, e com razão. Mais do que nunca esta é uma referência próxima a nós. Porém ele é também o ano das Olimpíadas de Inverno, um evento que não tem grande penetração no nosso país por razões um tanto quanto óbvias.

As próximas olimpíadas de inverno serão realizadas na cidade de Sóchi, na Rússia. E o debate sobre estes jogos estão esquentando cada vez mais. A questão que tem mobilizado a opinião internacional é o tratamento ostensivo dispensado pelo governo russo às questões LGBT, e que vem piorando. O primeiro passo foi a proibição da “propaganda” de “relações sexuais não tradicionais”, um termo amplo e genérico que pode ser usado de muitas formas, e que classificava a tal “propaganda” como “pornografia”. As associações LGBT do país afirmavam à época o quanto isto seccionava a liberdade de expressão assim como seria uma medida para, na prática impedir a(s) parada(s) de orgulho gay. A amplidão da lei é tamanha que mesmo a discussão da questão em escolas (segundo alguns até mesmo no seio familiar!) pode ser enquadrada nela, impondo suas sanções a qualquer pessoa que apresente um ponto de vista positivo (contra a vergonha, o bullying e a despotencialização das pessoas) sobre a sexualidade “não-tradicional”. Pesadas multas são cobradas em caso da violação da lei; se quem infringi-la não possuir naturalidade russa, além da multa haverá deportação imediata ou 15 dias de detenção administrativa, antecedendo a expulsão. A lei, sancionada em final de junho, também afeta quem lá trabalhará (referimo-nos ao contexto olímpico) na área de telecomunicações (desde quem aparece na televisão até invisíveis pessoas da área técnica), turistas e… atletas! Não estou apontando ou insinuando que atletas sejam pessoas mais ou menos importantes que outras, mas destacando a amplidão da lei e do quão invasiva e expansiva ela se propõe a ser.

A prisão das cores.

A prisão das cores.

No início de julho o premiê russo, ignorando o acordo bilateral com a França de 2011 sancionou a lei que proibe a adoção por casais homossexuais.  A mesma lei também proíbe a adoção por parte de quaisquer casais ou pai solteiro que vivam em países nos quais o casamento igualitário é legalizado. Alguns analitas e jornalistas dizem que há rumores de que o próximo passo é uma lei que promova a remoção de crianças cujos pais sejam gays ou suspeitos de serem, sendo os pais adotivos ou biológicos.

Lastreados por estas medidas e pela pressão do governo para direcionar a atenção à causa LGBT negativamente, grupos “anti-gays” (alguns auto-declarados neonazistas) tem perseguido aqueles que identificam como pertencendo a esta comunidade, chegando mesmo a usar as redes sociais no intuito de atrair, capturar e torturar adolescentes. Algumas vítimas tentaram suicídio. A resposta do governo a estes grupos é que este são “movimentos da sociedade civil que lutam contra os pecados da sociedade”. As cenas mais tranquilas do ataque frontal aos grupos que tentam protestar contra estas leis podem ser vistas, por quem tiver estomago, aqui. Outras mais fortes, aqui.

Agressão contra ativistas a favor da causa LGBT neste ano.

Agressão contra ativistas a favor da causa LGBT neste ano.

Este conjunto de acontecimentos foi resumido por Harvey Fierstein como “A Declaração de Guerra Anti-Gay da Rússia” (Russia’s Anti-Gay Crackdown)A comunidade internacional começou a se organizar contra estas medidas. Inicialmente houve um pedido de boicote às vodkas russas, e alguns ativistas  chegaram mesmo a despejar o conteúdo das garrafas no chão como forma de protesto. Alguns bares e boates norte-americanos (inicialmente em Nova Iorque, mas em outro lugares chegando a São Francisco, do outro lado do país) pararam de servi-la e também drinks que contam com ela entre os seus conteúdos.

Como protesto, vodka russa “na chón!”

Como protesto, vodka russa “na chón!”

Do boicote à vodka a questão passou rapidamente ao pedido de boicote aos jogos olímpicos do próximo ano. O endurecimento das leis tem levado grande temor às pessoas, e mais de uma pessoa pública já se manifestou pedindo o boicote e comparando a importância do momento e da questão com a Olimpíada de 1936. A associação é com a progressiva retirada de direitos que os judeus sofreram com a que os gays sofrem atualmente (muito embora isso também tenha ocorrido em 1936 com homossexuais e outros grupos). A comparação também passaria para a identificação de um bode expiatório para concentrar a atenção popular quando outras áreas entram em crise. Até mesmo Obama  já criticou publicamente o governo russo pelas medidas, embora tenha aproveitado a oportunidade reclamando da postura do país no caso Snowden.  É notório também que normalmente a mídia européia se refira à causa como “gay”, e não LGBT, invisibilizando outras formas, questões e reivindicações que pautam o movimento.

Judeu e gay, celebrado artista escreve carta direto ao Primeiro Ministro Britânico comparando os jogos de 2014 aos de 1936, na Alemanha.

Stephen Fry: judeu e gay, celebrado artista escreve carta direto ao Primeiro Ministro Britânico comparando os jogos de 2014 aos de 1936, na Alemanha.

impacto de um boicote generalizado certamente seria sentido pelo governo russo e poderia levá-lo a reconsiderar suas recentes pautas e medidas. Alguns membros da comunidade LGBT já fogem do país e das leis que objetivariam, segundo a parlamentar Yelena Mizulina, a solução da crise demográfica russa, apertando o cinto dos valores morais. Não obstante, não podemos romantizar a questão, achando que iniciativas individuais reverteriam o quadro político ou (pior ainda!) sustariam-no. O primeiro ministro britânico, que é visto como uma pessoa “pró-direitos gays” já afirmou que não apoiará o boicote, e mesmo que a campanha contra as leis “anti-gay” russas será mais produtiva caso eles participem dos Jogos.

Johnson, a esposa e o filho em 2004.

Magic Johnson, a esposa e o filho em 2004.

Se o esporte sozinho não é capaz de superar estas questões e problemas, ele certamente pode tomar partido em um direção muito interessante e produtiva. O ex-jogador de basquete Magic Johnson demonstra já há algum tempo sensibilidade aguçada para a questão LGBT, explicitando o problema da interseccionalidade (interação entre diferentes forma de opressão) ao pensá-la em relação ao racismo. Em entrevista ao Huffington Post, o astro declarou que ainda encarava a homofobia como um problema enorme, que cresce se você for parte da comunidade negra. Ao ser perguntado a respeito de seu filho que recentemente foi visto com o namorado, o jogador afirmou o amor da família pelo garoto, assim como o orgulho de tê-lo como filho.

“Olimpíadas fora da Rússia!”

“Olimpíadas fora da Rússia!”

Estes decretos foram aprovados em um momento no qual a troca de localidade dos jogos é grandemente dificultada, devido à sua proximidade. Alguns ativistas afirmam que isso pode constituir uma armadilha do governo russo. A execução dos jogos pode descambar para um projeto macabro: homofobia sem nacionalidade ou talvez homofobia sem fronteiras. Este é um debate que não pode ser ignorado no Brasil de forma alguma, pela proximidade cronológica dos jogos e eventos no Brasil e também pela semelhanca temática das leis aprovadas pela Duma (parlamento russo) e sancionadas por Putin com algumas recentes  propostas no nosso congresso

"Pare a homofobia na Russia!".. e no resto do mundo.

“Pare a homofobia na Russia!”.. e no resto do mundo.

Sobre Renato Silva

nao fica ninguem. Professor de Historia, Flamenguista e suburbano.
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