Quem não é capaz de se opor à violência?

A história universal não é o palco da felicidade.
(Georg Wilhelm Friedrich Hegel)

Mais uma vez a História tratou de passar por cima de opiniões formadas e crenças enraizadas, e como ao que pareceu um relâmpago num céu azul, vimos as ruas de várias cidades brasileiras tomadas por manifestantes. Os significados dessas manifestações (em suas demandas mais claras e nas suas aspirações mais difusas) já foram várias vezes debatidos, inclusive no presente blog, mas o que as jornadas de junho trouxeram além de um antídoto para os politicamente céticos foi um retorno do debate acerca dos limites da violência, seja praticada pela polícia seja pelos manifestantes. Este texto não tem a intenção de fazer uma análise da política de segurança do Estado do Rio de Janeiro ou de fazer uma radiografia dos “atos de vandalismo” presenciados durante esse período; pretende antes sugerir uma breve reflexão teórica sobre esse tema candente: a violência. Para tanto farei uso de algumas das reflexões presentes no livro “Violência” do filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Žižek.

13 de junho de 2013: manifestação no Rio de Janeiro contra o aumento da passagem de ônibus na região da Candelária (Centro da cidade) acaba em violência após repressão da polícia

13 de junho de 2013: manifestação no Rio de Janeiro contra o aumento da passagem de ônibus na região da Candelária (Centro da cidade) acaba em violência após repressão da polícia

Os tipos de violências

Agências de bancos depredadas, carros incendiados, lojas de departamento saqueadas e conflitos armados são exemplos do que o filósofo classifica como “violência subjetiva”; interrupções violentas de nossas vidas cotidianas, atos que em geral possuem agentes responsáveis por eles claramente identificáveis. Pulando qualquer papo furado, podemos indicar de antemão qual é a perspectiva perseguida pelo filósofo (e por nós) aqui: a violência subjetiva faz parte de uma tríade da violência que é completada pela violência simbólica (linguagem) e a violência sistêmica; essas duas últimas são os tipos de violência objetiva.  Aviões colidindo contra arranha-céus, intifadas, guerras civis e entre nações, insurgências populares e crises humanitárias são exemplos de acontecimentos que por razões óbvias chocam a maioria de nós, e justamente por isso mesmo são deveras hipnóticos, cumprindo o dever ideológico de nos fazer esquecer da violência sistêmica a que todos nós estamos submetidos: essa máquina de moer corpos e espíritos que é o mercado, a unidimensionalização da vida humana enquanto trabalho, a alienação como aspecto incontornável para produção de tudo que tem valor, etc. Como diria o filósofo Alain Badiou,  tudo “o que circula cai em uma unidade de conta e, inversamente, somente circula o que se deixa assim contar”; livre circulação para as mercadorias e restrições arbitrárias para as vidas humanas imensuráveis. O capital em seu movimento de auto reprodução conduz um espetáculo que, no entanto, não possui um diretor, não há uma figura central que poderia mudar o destino de nossas vidas concretas. É nesse aspecto impessoal que reside o caráter de violência sistêmica do capitalismo; em oposição às formas de dominações concretas (pessoais) nas sociedades pré-capitalistas.

Quem é o opressor no caso da violência sistêmica?

Quem é o opressor no caso da violência sistêmica?

São pontos de vista distintos que nos permitem olhar a violência subjetiva e a violência sistêmica. As coerções cotidianas a que estamos submetidos são percebidas pela maioria como normais ou até mesmo naturais enquanto as erupções de violência subjetiva são comumente percebidas como perturbações da paz estabelecida, um elemento intruso no funcionamento natural das coisas. Não obstante, é só observando a violência sistêmica que poderemos procurar explicar melhor fenômenos de violência subjetiva que de outra forma podem aparecer para nós como enigmas indecifráveis (aqui basta ver a reação de grande parte dos setores da chamada grande mídia como exemplo dessa estupefação ou mesmo de análise grosseira).

Como já foi mencionado acima, haveria também, segundo Žižek, uma violência simbólica ligada à linguagem que é inerente a ela. O filósofo alemão Georg W. F. Hegel já trazia consigo a noção de que a “linguagem simplifica a coisa designada, reduzindo-a a um simples traço” (Žižek), negando a coisa em seu processo de simbolização. Assim, quando falamos “ouro”, estamos tratando de algo que difere da coisa ouro, estilhaçando a sua unidade orgânica em propriedades autônomas (peso, cor, maleabilidade, valor, etc.); inserindo a coisa num campo de significação que lhe é exterior. “Quando chamamos ‘ouro’ ao ouro, extraímos violentamente um metal da sua textura natural, investindo nele os nossos sonhos de riqueza, poder, pureza espiritual e assim por diante, ao mesmo tempo que nada disso tem relação com a realidade imediata do ouro.” (Žižek) Essa abordagem procura dessa forma, problematizar uma certa perspectiva de que a linguagem (comunicação) e a ordem simbólica podem ser trabalhadas para funcionarem como mediação e reconciliação entre os agentes sociais, evitando assim um meio violento de confrontação.

São as palavras de ordem e cartazes que sustentam os atos das multidões furiosas. Eis a importância da linguagem, da simbolização.

São as palavras de ordem e cartazes que sustentam os atos das multidões furiosas. Eis a importância da linguagem, da simbolização.

A ideia é a de que a linguagem formata nosso universo simbólico, direcionando a nossa maneira de sentir e exprimir nosso mundo, distorcendo-o e dando um tom geral para ele. Para usar um exemplo fornecido pelo próprio filósofo esloveno: para “um cristão medieval, a ‘essência’ do ouro reside na sua incorruptibilidade e brilho divino que dele fazem um ‘divino’ metal. Para nós, o ouro é ou um recurso maleável que pode ser usado com fins industriais ou um material adequado para fins estéticos.” É da compreensão do filósofo esloveno que essa transformação na maneira de sentir as coisas (como o ouro) é sustentada pela própria linguagem. O mesmo poderia ser dito de movimentos políticos ou mobilizações de massas; não haveria nada de mecânico entre as condições concretas em que vivem os agentes sociais e determinados tipos de ações. Seria a linguagem que daria a base para tornar uma determinada existência concreta como algo insuportável.

Violência divina?

O violento Gandhi

O violento Gandhi

Esse texto de pretensões modestas não poderia dar conta de todos os caminhos seguidos por Žižek ao longo de seu livro, mas não poderíamos deixar de vislumbrar possíveis reações escandalizadas sobre o ponto levantado aqui por nós. Então quer dizer que o foco na violência subjetiva é uma forma ideológica de desviar o foco da violência objetiva? Então devemos fechar os olhos para os atos sanguinários e destrutivos?!?! Uma resposta mais curta seria: devemos ter a coragem e a responsabilidade de analisar os casos de violência subjetiva da forma mais fria e séria possível sem desrespeitar vítimas e todos aqueles afetados por esses tipos de acontecimentos, mas sem ceder a abordagens sentimentaloides que são desviantes (propositalmente ou não) de uma compreensão mais completa e profunda. Mas vale ressaltar que ser violento (agir de forma que perturbe os parâmetros fundamentais da vida social) muitas vezes pode significar abandonar a atividade de reprodução do sistema, não fazer nada; a recusa e abstenção como um verdadeiro ato político. É dessa maneira que devemos entender quando o filósofo esloveno cita Mahatma Gandhi como exemplo de violência.

Outro ângulo para trabalharmos essa delicada questão da avaliação da violência subjetiva aparece no debate presente no livro “Violência” referente ao conceito de “violência divina” do Walter Benjamin. Resumidamente, a ideia de violência divina seria “as intrusões brutais de uma justiça para além da lei” (Žižek). A maneira como isso é interpretado pelo filósofo esloveno é a de não entender esse conceito por qualquer viés obscurantista, mas interpretá-lo como uma descrição da natureza das explosões de violência perpetradas seja pelas massas seja pelo terror revolucionário organizado: “a oposição entre a violência mítica e a violência divina é a que existe entre o meio e o signo – ou seja, a violência mítica é um meio de estabelecer o governo da Lei (a ordem social legal), enquanto a violência divina não serve como meio, nem tampouco para a punição dos culpados em vista do reestabelecimento do equilíbrio da justiça. É simplesmente o signo da injustiça do mundo, de um mundo eticamente ‘desarticulado’. O que, todavia, não implica que a justiça divina tenha um sentido: antes, é um signo sem sentido, (…).”

Em divergência com a noção de violência mítica (da ordem do ser, e que portanto busca significados mais profundos para os atos de violência) a violência divina (da ordem do Acontecimento) não possui critérios objetivos, não há nada (nenhum Grande Outro para colocarmos em termos psicanalíticos) que garanta a natureza divina de um ato de violência. Logo, segundo Žižek, cabe ao próprio sujeito ler e interpretar a natureza de um ato de violência como divina. Essa é a importância do sujeito enunciador: “o mesmo ato que, para um observador externo, é meramente uma explosão de violência pode ser um ato de violência divina para os que nele estão envolvidos” (Žižek). Ou seja, não é uma questão de análise imparcial, mas de engajamento dos indivíduos nos atos de violência. Esse enfoque na responsabilidade da decisão acaba por também evitar qualquer confusão da violência divina com justificações totalitárias para matar (por exemplo, a necessidade histórica).

Conclusão

A nossa reflexão pode ser resumida então que sem nos atentarmos para a violência objetiva acabamos por mistificar as causas da violência subjetiva. E de que estigmatizar qualquer forma de violência como má é uma forma ideológica para tornar invisíveis as formas fundamentais de violência social.

(Authors@Google: Slavoj Žižek. Vídeo tratando do livro “Violence”)

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