2666: perigo, fetiche e coragem

2666” é o último romance escrito pelo chileno Roberto Bolaño (1953-2003). Sintetizando os dados biográficos do autor, ele passou sua juventude no México onde participou de círculos politizados de poetas. Em 1973, viajou ao Chile para participar do projeto socialista. Depois do golpe contra Allende, fez parte da resistência e acabou preso. Anos depois, ele se instalou definitivamente na Espanha onde teve várias ocupações (vigia de camping, garçom, lixeiro, etc.). Sua literatura também esteve em função da subsistência de sua família (tem dois filhos) e, principalmente nos seus últimos anos, escreveu e publicou bastante. Em 1996, teve seu primeiro romance de maior repercussão, “La Literatura Nazi en America”, onde biografa autores e analisa seus livros inventados. No mesmo ano saiu outro texto de destaque, “Estrela distante”, onde também aborda temas que se tornariam bem comuns ao longo de sua obra: fascismo, violência e literatura. Em 1998, lança um retrato sobre sua geração de poetas mexicanos – “Os Detetives Selvagens” – que ocupa status de obra seminal. “2666” foi escrito enquanto o autor esperava por um transplante de fígado e acabou sendo lançado póstumo. O livro se tornou um best-seller internacional, tem sido aclamado de forma retumbante também no mainstream (como a Time e outras revistas americanas que o elegeram “livro do ano”), e fortalecido auras, cultos e marketing diversos em torno do seu autor. Segue uma curta apresentação da obra. 

Bolaño se inspirou em fatos reais ocrridos em Ciudad Juarez. Na foto, protesto contra o feminicídio.

A maior parte das dezenas de personagens e situações que compõe “2666” não tem conexão direta, ou nenhum tipo de conexão factual, com o que é mais central no enredo, apresentado apenas no penúltimo capítulo: na década de 1990, na fronteiriça cidade mexicana de Santa Teresa, mulheres são misteriosa e brutalmente assassinadas. Em “A parte dos crimes”, vamos tendo, ano após ano, a descoberta dos cadáveres. Para cada corpo, um relato que envolve informações possíveis sobre a vítima (bairro, trabalho, família, última vez em que foi vista, etc), como foi encontrado, o estado de decomposição e a constatação, na maioria dos casos, de que as mulheres foram estupradas pelo ânus e pela vagina, e que foram vestidas antes de terem seus corpos abandonados em algum canto. “A parte dos crimes” vai, em meio a outras tramas, trazendo esses relatos que, muito longe de estetizados para algum tipo de fruição literária, são feitos com a secura e a frieza de um boletim policial ou legista. A recorrência das informações são registros contra o esquecimento. Algo entre o marginalizado e o banalizado, o estranho e o corriqueiro, esses assassinatos guardam o “segredo do mundo” (como apontou um dos seus personagens). Trabalhando com personagens da mídia, da polícia e da política de Santa Teresa, Bolaño tem uma sociologia sem tons sociológicos na qual faz o que é subterrâneo emergir, o horror ocupar o primeiro plano e mostra que “um homem só tem uma escolha a fazer na vida: ser assassino ou ser detetive”. A solução do mistério de Santa Teresa, magistral tanto em seu conteúdo quanto em sua apresentação, significará uma aguda percepção sobre o poder e sua grandeza.

E saindo desse penúltimo capítulo para conhecermos as personagens principais, vemos então que a trama é planetária, histórica, total. Há o interessante de que todos eles são intelectuais: quatro acadêmicos europeus (“A parte dos críticos”), um professor de filosofia chileno (“A parte de Amalfitano”), um jornalista estado-unidense (“A parte de Fate”) e um romancista alemão (“A parte de Archimboldi”). No capítulo um, sobre os professores universitários de literatura, Bolaño viaja trazendo suas elucubrações estéticas e artísticas e o academicismo: eles formam uma corrente de interpretação sobre Archimboldi, participam de congressos, escrevem artigos, etc.. No segundo capítulo, diferente da pulsante e prolífica atividade dos europeus, a intelectualidade do professor chileno está em uma espiral depressiva, beirando a loucura e cheirando a tragédia: Amalfitano inconscientemente desenha hexágonos onde escreve nomes de pensadores e depois se põe a pensar sobre isso. Conclui sua parte com um sonho onde conhece o último filósofo do comunismo. Oscar Fate, do terceiro capítulo, é um jornalista de uma revista voltada para os negros. Passa por uma condição, também comum a outros personagens de Bolaño, que é uma certa errância geográfica e afetiva. Depois de entrevistas com boxeadores e um antigo Pantera Negra, Fate se verá no redemoinho de Santa Teresa. O capítulo derradeiro é dedicado a Archimboldi, romancista importante no cenário literário mas recluso a ponto de não se conhecer nenhuma informação, física ou biográfica, sobre sua pessoa. Ao lado do mistério dos assassinatos, Bolaño vai sustentando o mistério de Archimboldi da primeira página até a última, onde tudo é finalmente concluído. Em todos eles, a intelectualidade é abordada mas não menos a vida sexual: Bolaño tem vários personagens que transam muito, por horas, tendo vários orgasmos, especialmente as mulheres. Como tudo isso se movimenta no mundo? Como todos esses personagens se ligam ao México na década de 1990?

O notável trabalho criativo de Bolaño é, então, a conjugação dos múltiplos elementos na totalidade de 2666. Alguém pode buscar o fundamento do conjunto na epígrafe do livro, tirada de Baudelaire: “Um oásis de horror em meio a um deserto de tédio”. Entretanto há algo fundamental: as tramas de 2666 não estão condensadas nessa linha: nem tudo (que é principalmente literatura) vai confluir para o centro, ou seja, nem sempre vão figurar diante de Santa Teresa. Além do mais, Bolaño é muito delicado e generoso de forma que nem o fetichismo (literário) nem a deriva (afetiva, sexual) dos seus personagens podem ser resumidos à figura de um deserto, muito menos de tédio. À medida em que as trajetórias, miseráveis e erráticas, são imbuídas de beleza e de amor (de família, da paixão dos carentes, do companheirismo), a totalidade de 2666 é aberta e não fechada.

Aberta aos homens, e aqui cabe um último comentário sobre uma dimensão ética e política que. tomando outras obras de Bolaño (como “Os detetives selvagens” e “Amuleto”), podemos situar como um drama latino-americano do século XX. Entendendo que sua geração fez da “solidariedade uma prática de aventura”, constantemente Bolaño a observará  deslocada historicamente pelo rolo-compressor das ditaduras. A generosidade dos jovens, entretanto, não estará dissipada e mesmo frágil se expressará em atos de coragem, que, nesse mundo extremo de poder, é o necessário fundamento da resistência.

Sobre Wesley Carvalho

Professor e historiador.
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