Nenhuma desculpa pelo transtorno (três palavras sobre greve)

556838_516446095108583_77117237_nNas reportagens sobre greves e manifestações, muitas vezes temos como principal destaque um prejuízo sofrido socialmente: o trânsito que engarrafa, a carta que não chega (greve dos correios), a conta que não dá para pagar (greve dos bancários) e por aí vai. No caso da educação, a mídia aciona muito prontamente imagens dos alunos sem aula, pretendendo demonstrar a inconseqüência do movimento dos professores. E há os sentidos que (geralmente) não saem literais das bocas dos repórteres, mas permeiam subjacentes todo o discurso: a greve é chantagista, oportunista e egoísta. Há o interessante de que esse tipo de questionamento vem também de setores bem intencionados ou simpáticos à luta dos professores. Cabe-nos então pensar se realmente todo o transtorno causado pelas greves deve estar na conta dos grevistas.

  Devemos ter em mente primeiramente que a greve não é um instrumento confortável de luta, algo como uma carta na manga que o professor põe sobre a mesa para depois assobiando aguardar algum ganho. Na realidade, ela é algo que envolve muita pressão e stress: há sempre o fantasma do corte de ponto; o atrito com as direções que resultam, como indizíveis represálias, em desfavorecimento na montagem dos horários, locações de turma e perdas de oportunidade de horas extras; a desorganização da sua própria vida (já que a reposição de aulas pode ter de ser feita em finais de semana ou nas férias de janeiro); o atrito com colegas não grevistas, o assédio moral e a ilegitimidade social fomentada pelos RJTVs da vida; a possibilidade de frustração de, ao final de todo esse investimento e sacrifício, ter a sua pauta de reivindicações avançada menos que minimamente e beneficiando da mesma forma os colegas que tranquilamente não foram para o embate; e para os que se engajam na construção da greve, ela é muito mais trabalhosa do que continuar trabalhando normalmente. Longe então de ser uma brecha de vagabundagem para os funcionários públicos, como tristemente ouvimos dizer por aí, a greve envolve riscos e fragilidades.

 Uma segunda coisa é que aquilo que uma greve como as atuais põe em jogo é muito maior materialmente (mas muito maior mesmo) do que seus efeitos colaterais, como já sabe o leitor que não está se informando através da mídia empresarial. (Quem ainda não acordou para vida pode começar dando uma olhada aqui, aqui e acolá).

No embate com o estado, a greve não é o lado mais forte, e sim o mais fraco. Como é óbvio (mas precisa ser dito), os professores não dominam os espaços formais de poder e decisão sobre os rumos da educação e, por tudo isso que já colocamos, sabemos que o 1383115_698586040168908_1283644256_ntempo sempre joga a favor dos governos que, ao menos no geral, sofrem bem menos as conseqüências da greve do que os próprios grevistas. É importante ter em mente também que a estrutura de controle do estado chega até às escolas, funcionando majoritariamente os diretores muito mais como representantes dos governos nas escolas do que como representantes das escolas junto aos governos (e tudo isso sob a velha lógica dos conchavos com boas doses de clientelismo). Ou seja, a possibilidade de construção política cotidiana e coletiva dos professores é muito pequena, sendo a greve uma delas, mas custosa e lenta: ela não é para os professores o que a Espada Olímpica é para o Jiraya nem o que o Megazord é para os Power Rangers. Nesse sentido, duas Muralhas da China recentes podem ser citadas aqui: os colossais desprezo e arrogância da Câmara do Vereadores do Rio e a crueldade da PM. (Porém (e esse “porém” é essencial), se o atual movimento ainda não fez reverter no plano institucional o PCCR e outras desgraças, a greve não deixa nunca, mesmo nos tempos de marasmo, de ser vista como ameaçadora pelo seu potencial de transformação.)

 Por fim, a greve não é uma exceção da normalidade democrática porque ela não é apenas uma arma para a conquista de coisas materiais. Ao contrário, a greve é uma chance de democracia para aqueles que não querem se limitar a votar e seguir trabalhando em silêncio. Ela é uma chance para fazer alargar os processos decisórios, um momento de empoderamento dos subalternos, o que não tem significado meramente corporativo mas ressonância em todo o conjunto social dos trabalhadores. Por isso, quando uma mãe de aluno, em uma reportagem de tv, pede encarecidamente o fim da greve para o bem da educação dos filhos, o que ela faz é jogar todo o peso dos esquemas de submissão sobre os ombros daqueles que, mais fracos, se dispõem a lutar por democracia e pelos filhos dela.

 Os professores estão em movimento. Já passou o tempo de se pensar com uma lógica de diretos do consumidor e passarmos todos a fazer política. Não vamos pedir nenhuma desculpa pelo transtorno.

Intervenção com fogos de artifício em resposta às bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia.

Intervenção com fogos de artifício em resposta às bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia.

Sobre Wesley Carvalho

Professor e historiador.
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4 respostas para Nenhuma desculpa pelo transtorno (três palavras sobre greve)

  1. Patrícia disse:

    Excelente texto. Sinto-me esclarecida para mim mesma, neste processo novo de greve sendo vivido de dentro, com todas as pressões muito bem colocadas. Obrigada.

  2. Pingback: Entendendo o plano de carreira proposto pela Prefeitura do Rio de Janeiro | Capitalismo em desencanto

  3. Nicilene disse:

    Ótimo texto.

  4. Pingback: Por que os professores do Rio de Janeiro estão em greve? | Capitalismo em desencanto

Comentários

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