Orwell, stalinismo e totalitarismo

Grande Irmão e Wynston

A classe dominante

“In a peaceful age I might have written ornate or merely descriptive books, and might have remained almost unaware of my political loyalties. As it is I have been forced into becoming a sort of pamphleteer. ” [1]

O nome de George Orwell é constantemente utilizado como senha para uma invocação de um fantasma sinistro, aquele do totalitarismo. O escritor teria sido aquele que teria posto nos termos mais cruelmente precisos o que mais haveria de essencial no totalitarismo como realidade política, o cerne monstruoso que perpassa e explica todo sistema que organiza-se tendo como fim supremo a própria negação da liberdade. Orwell, assim, não teria somente produzido a análise definitiva de um fenômeno político, mas também escrito o libelo que, por meio do desespero que expõe, é a convocação mais determinada à resistência contra a tirania. Portanto, Orwell não seria uma figura meramente respeitada, mas invocada como a de um herói dedicado à causa da liberdade. Entretanto, devemos nos perguntar se a crítica de Orwell ao totalitarismo é mesmo um grande sucesso analítico ou se não há em seus escritos fundamentais sobre o tema uma projeção um tanto encoberta de lugares-comuns políticos ou concepções de base em última instância acríticas.

George Orwell, cujo verdadeiro nome era Eric Blair, foi um literato inglês que escreveu numerosos ensaios e romances, com especial atenção a temas sociais e políticos. Como muitos escritores de sua época, Orwell buscou basear sua literatura em suas experiências pessoais e buscou experimentar diretamente as situações que queria explorar. Com inclinações esquerdistas, a experiência que, segundo o próprio autor, iria servir de marco principal para a sua obra seria aquela a qual o autor presenciou e participou como combatente, a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Nesta, Orwell não somente conviveu com o heroísmo dos socialistas e anarquistas espanhóis, mas também com a luta fratricida entre as forças revolucionárias em meio à ofensiva fascista, com especial destaque para a atuação dos comunistas espanhóis alinhados ao PCUS, que reeditaram na Espanha a perseguição, a difamação e o terror dos expurgos promovidos pelo seu congênere soviético. Orwell, portanto, teve contato em primeira mão com a fratura interna que marcou o movimento comunista no século XX, em que os processos de emancipação social se ligaram em grande medida à ascensão de regimes políticos repressivos, quando não genocidas. A experiência do stalinismo e a reflexão sobre este se tornaram, portanto, o ponto central da produção de Orwell, e fomentaram as duas obras pelas quais o escritor é ainda hoje, mais de sessenta anos após sua primeira publicação, uma referência inescapável a respeito das representações políticas de nosso tempo: a novela Revolução dos Bichos e o romance 1984.

Ambos os livros foram escritos dentro do espaço de seis anos (Revolução… é de 1943-44, enquanto 1984 é publicado em 1949), num contexto marcado pelo esforço de guerra conjunto dos Aliados e pelo auge do prestígio internacional da URSS no imediato pós-guerra. Para Orwell, tal situação conduzia, no momento em que a ameaça fascista era derrotada, a uma contaminação geral da esquerda pelo stalinismo, indo na contramão da imprescindível denúncia dos crimes dessa tendência e do combate à sua expansão. Orwell, portanto, concentrará seus esforços em apresentar o comunismo soviético como uma tirania disfarçada e como algo que, longe de ser um regime diametralmente oposto e inimigo natural do fascismo convalescente, era na verdade a ele profundamente relacionado. Revolução dos Bichos (Animal Farm, no original) fará isto de maneira bastante direta, como uma fábula satírica que visa expor e explicar o processo de corrupção interna da Revolução Russa até sua culminação totalitária.

Deste modo, Orwell desejava enfraquecer a influência do stalinismo como modelo político para a esquerda socialista inglesa ao expor alegoricamente a barbárie vivida na URSS. Mas a Revolução… não se restringe de modo algum a uma crítica do stalinismo como fenômeno específico. Em sua versão alegórica da história da Revolução Russa, o stalinismo em nada depende de se constituir como uma tendência particular dentro do processo revolucionário. Pelo contrário, o stalinismo é só o momento final do processo ele mesmo, que se inicia com a revolução mesma. A revolução, como insurgência violenta, é o passo inicial de um processo cujo fecho lógico é a restituição das diferenças de classe (de espécie, na fantasia) e a mera alternância da classe no poder. Se trata, portanto, da história de uma tragédia, de como a bela tomada de consciência pelos bichos de sua exploração pelos humanos e de sua força se se unirem pôde se converter na conversão da sua própria vanguarda em uma nova humanidade, uma nova espécie de exploradores. A resposta, entretanto, não é nenhuma história acidental deste acontecimento traumático. O que explica o resultado do processo é o processo como um todo, o emergir das contradições internas do proletariado animal que assume a tarefa de se autodirigir. Para cumprirem suas necessidades vitais, os animais só podem se ater às suas aptidões já pré-estabelecidas, e aqueles cuja capacidade os põe na situação objetiva de dirigirem os demais não fazem senão conduzir esta divisão do trabalho até sua conclusão.

"Quatro pernas, bom. Duas pernas, ruim." O lema provisório da fazenda comunista.

“Quatro pernas, bom. Duas pernas, ruim.” O lema provisório da fazenda comunista.

De todo modo, em diferença marcante em relação ao 1984, o proletariado, mesmo dele excluído os porcos, é sempre parte do processo de sua própria submissão. As ilusões, a estupidez, a preguiça e outros vícios dos animais (como a própria resignação sábia do burro) cumprem seu papel na ascensão dos porcos a classe dominante. Da mesma forma, os porcos são um grupo composto de indivíduos concretos, de forma que a disputa entre Napoleão (Stálin) e Bola de Neve (Trótsky) é de fato uma luta real pelo poder, mas não pela forma do regime. Com esta representação, Orwell retira do trotskismo qualquer possibilidade deste ser considerado uma alternativa socialista não-tirânica ao stalinismo, retirando qualquer diferenciação substancial entre ambos. Neste ponto, Orwell não apresenta nenhuma concessão aos seus antigos companheiros de luta espanhola, pelos quais havia previamente sentido a necessidade ardente de defender da difamação stalinista. Tudo se passa como se a inocência, possível, dos trotskistas espanhóis (mas não do próprio Trótsky/Bola de Neve) seja exclusivamente objetiva, caracterizada pela derrota na disputa pelo topo do edifício social.

A obra, portanto, segue em esquema fatalista bastante tradicional. Todo poder corrompe na própria medida de sua grandeza, e toda tentativa de mudança radical conduz à manutenção do mesmo estado de coisas, só um pouco modificado. A conversão da história empírica em fábula tem como função justamente o apagamento de qualquer especificidade do processo real de formação da URSS que possa evitar que ela sirva como exemplo universal para esta lição moral. Com isto, Orwell parece recusar toda efetividade concreta a um projeto de socialismo como reforma radical da sociedade. Pode não ser este, entretanto, o caso. Em ensaio de 1941, Orwell defende a necessidade imprescindível de uma revolução inglesa que superasse o capitalismo. Esta revolução, entretanto, não precisaria ser conduzida de forma violenta, nem deveria se basear em teses que identificam a revolução com tarefa de uma classe especifica e que compreendem a sociedade na perspectiva de uma luta de classes. Levando estes dados em consideração, pode-se pensar que a lição da Revolução dos Bichos é menos fatalista que voltada diretamente contra o marxismo de forma geral, como alternativa política.

Pirâmide social da sociedade orwelliana

Pirâmide social da Oceânia.

De todo modo, nesta obra Orwell apresenta a revolução como um produto da ação do proletariado. Em 1984, porém, tanto o proletariado quanto o próprio fato da revolução desaparecem concretamente de vista. Se Revolução… anula o stalinismo como um fenômeno político específico ao se apresentar como uma fábula geral, 1984, escrito já após o fim da ameaça da Alemanha nazista, é uma reflexão propriamente sobre o stalinismo como uma força universal, representada imaginariamente como triunfante, como modo de existência global. O stalinismo, na forma mais genérica de totalitarismo, não é mais o fruto necessário da revolução violenta do proletariado, mas o fruto do desastre (social, econômico, militar), ou melhor, a exploração consciente do desastre. O totalitarismo seria a situação social em que uma dominação de classe, para se preservar a todo custo, converte-se em fim em si mesma e passa a ter como conteúdo essencial a pura dominação. Na fantasia de Orwell, governada pela paranóia, toda ação social (economia, linguagem, arte, pensamento, até o sexo) converte-se, por meio do orquestramento social do partido, em pura forma de dominação. A classe dominante, a intelligentsia na forma de Partido, instrumentaliza-se inteiramente para sustentar sua posição. Dessa forma, vê-se que a classe dominante não é, nesta obra, composta realmente de indivíduos. A individualidade é somente o resquício de um sentimento natural de autenticidade ou autodignidade que é o objeto fundamental do esmagamento promovido pelo Estado. Toda individualidade, ao menos na classe dominante, é esmagada com sucesso, de um jeito ou de outro. O sistema inclui suas próprias linhas de fuga ilusórias, pela qual a própria autenticidade que se luta para preservar se degrada e se repõe no sistema. Nota-se, dessa forma, que o tom dos dois livros aqui tratados é radicalmente distinto. Se a Revolução… é uma sátira, 1984 é a digestão de um medo que não respeita limites de proporção razoáveis.

O fio condutor da história é o desespero que se instala quando toda possibilidade de autenticidade é negada não como impossível, mas como ilusória. O ápice do livro, portanto, é justamente quando a paranóia que perpassa toda a obra aparece, dentro da representação fantástica da história, como a verdade ela mesma, diretamente, na figura do duplipensar (doublethink). Ao contrário do que poderia parecer, o duplipensar não é uma alegoria pela qual Orwell satiriza a dialética marxista, mas a expressão de uma enorme insegurança em relação a este pensamento. Na obra, ele aparece na figura de um fundamento de poderes fantásticos, capaz de contrariar todo o common sense que o protagonista tenta a todo momento sustentar como seu próprio núcleo de autenticidade, de interioridade inviolável. Ao mesmo tempo, o duplipensar também é perfeitamente efetivo, não somente em negar toda evidência sensível ou intelectual, mas também em conhecer, de alguma forma, toda a realidade, óbvia ou não-óbvia (o duplipensar chega a prever ou produzir todos os pensamentos daqueles que são por ele interpelados, e conhece com perfeição o inconsciente e os medos mais secretos de cada pessoa). O duplipensar, portanto, não é a denúncia de uma ideologia, de um modo de pensar falso, mas eficiente em convencer. O duplipensar é a expressão radicalmente paranoica do medo de que a dialética, ou sua versão stalinista, o DiaMat, seja de fato o pensamento em sua realidade, ou que a dialética represente adequadamente a realidade tal como é de fato, insustentável, autocontraditória e, ainda assim, plenamente real e inescapável.

Desse modo, podemos dizer que o papel de Orwell como crítico do totalitarismo esbarra em alguns limites radicais. Em relação à Revolução dos Bichos, este limite é o esquema simplista pelo qual o stalinismo se apaga como processo particular concreto. No caso de 1984, o limite está na própria concepção de Orwell, vocalizada pelo protagonista do romance, de que a realidade deve poder ser sustentada como óbvia, como inviolável em sua certeza imediata. Entretanto, é o abalo desta convicção que constitui o núcleo da obra, a expressão fantástica do medo de Orwell, quase confirmado, no limiar extremo do desespero, de que tudo aquilo em que ele acreditava pudesse ser negado por um real cujo núcleo é a própria devastação da autenticidade, figurado como o estado cujo conteúdo inteiro é “uma bota pisando um rosto humano”. Cabe, portanto, se perguntar o quanto uma tal concepção de totalitarismo não mira antes um fantasma no espelho do que designa o conceito adequado de uma realidade política cujo verdadeiro horror pode estar ainda por ser bem contemplado.

[1] “Em uma época pacífica, eu poderia ter escrito livros ornamentados ou meramente descritivos, e poderia ter permanecido quase inconsciente das minhas lealdades políticas. Da maneira que as coisas estão, fui forçado a me tornar uma espécie de panfletário”.

Posts relacionados:

[+] “2666: Perigo, fetiche e coragem”

Esse post foi publicado em Cultura, Literatura, Política, Teoria e marcado , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Orwell, stalinismo e totalitarismo

  1. Lendo o texto de Orwell, vc nota bem que ele é simpático ao trostsquismo e que a revolução dos bichos tem tudo a ver com A revolução traída.

  2. Ivan Dias Martins disse:

    Lúcio, essa simpatia não o impede de representar, na Revolução dos Bichos, o Trótsky como somente outro porco, em pleno processo de assujeitamento dos outros animais. Em 1984, por sua vez, os trotskistas são postos diretamente como agentes do sistema, do Big Brother, ou como os inocentes úteis rumando cegamente para o abate. A figura do Trótsky, por sua vez, é exatamente paralela à do Big Brother. É outro Mágico de Oz, outra figura vazia. Enfim, a questão não é como o trotskismo é representado pelo Orwell, mas como ele parece se esforçar por representar alternativas revolucionárias como falsas ou ilusórias.

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s