Bom Senso F.C. e a alegria do povo

Texto por Artur Henriques (graduado em História pela Universidade Federal Fluminense)

O Brasil é historicamente marcado por uma omissão dos jogadores de futebol em relação às questões políticas e também pela desunião dessa classe de trabalhadores com vista à reinvindicações de direitos (à imagem e semelhança da grande maioria dos dirigentes dos clubes profissionais). Houve casos como a luta do Afonsinho pelo “passe livre” ou a Democracia Corinthiana, mas nunca algo da proporção de uma greve de jogadores como já visto algumas vezes na Argentina. Mas isso parece estar mudando; atualmente vemos um contingente grande (e crescente) de jogadores se mobilizando para exigir mudanças no futebol brasileiro. Este texto pretende apresentar em linhas gerais as origens e principais características desse momento inédito vivido pelo futebol brasileiro. 

Paulo André (Corinthians), Dida (Grêmio), Juninho Pernambucano (Vasco), Cris (Vasco) e Seedorf (Botafogo) estão entre as lideranças desse movimento dos jogadores por mudanças no futebol brasileiro

Paulo André (Corinthians), Dida (Grêmio), Juninho Pernambucano (Vasco), Cris (Vasco) e Seedorf (Botafogo) estão entre as lideranças desse movimento dos jogadores por mudanças no futebol brasileiro. Fonte da imagem: Jovem Pan

Numa sexta-feira, dia 20/09/2013, a CBF divulgou o calendário do futebol brasileiro para o ano de 2014; nesse novo calendário velhos problemas apareceram agravados devido ao fato de ser um ano de Copa do Mundo. Nessa proposta inicial as atividades do futebol profissional brasileiro começariam a partir do dia 12 de janeiro, com os campeonatos estaduais e a Copa do Nordeste, parando em 4 de junho para o Mundial, que inicia oito dias depois; em relação aos amistosos da seleção brasileira antes da Copa do Mundo esse calendário continua não respeitando as datas FIFA sem prever paralisação das competições, levando os jogadores convocados que atuam no Brasil a desfalcarem os seus clubes.

 Já que os estaduais terão seu encerramento antecipado para o dia 13 de abril, com 21 datas disponíveis para organizarem seus jogos (duas a menos do que a última temporada) a Copa do Nordeste e os campeonatos Paulista, Carioca, Gaúcho, Pernambucano, Baiano, Catarinense, Paranaense e Goiano seriam antecipados em uma semana. Como a atual edição do Brasileirão está prevista para terminar no início de dezembro isso significaria que os clubes participantes dessas competições praticamente não teriam qualquer pré-temporada digna desse nome.

Eis uma listagem com os campeonatos e datas (fonte: Globo Esporte) para 2014 nessa proposta inicial da CBF:

a.         Estaduais 12/01 a 13/04

b.         Copa do Nordeste 12/01 a 23/02

c.         Libertadores 29/01 a 13/08

d.         Sul-Americana 27/08 a 10/12

e.         Copa do Brasil 12/03 a 26/11

f.         Série A 20/04 a 07/12

g.         Série B 19/04 a 29/11

h.         Série C 27/04 a 16/11

i.          Série D  27/07 a 16/11

j.          Mundial de Clubes 10/12 a 20/12

k.         Copa do Mundo 12/06 a 13/07

Primeiro calendário para 2014 apresentado pela CBF. Fonte: Trivela

Primeiro calendário para 2014 apresentado pela CBF. Fonte: Trivela

Isso levou à criação do movimento Bom Senso F.C. Trata-se de uma articulação entre jogadores tendo em vista a defesa de um calendário que seja melhor para jogadores e clubes, além de outras reinvindicações. Mas antes de abordarmos as demandas e argumentos do Bom Senso F.C. consideramos importante lembrar que as reclamações com o calendário e as condições de trabalho que isso acarreta já vinham incomodando.

No dia 19/08/2013os treinadores da primeira divisão do futebol brasileiro se juntaram para formar a Federação Brasileira dos Treinadores de Futebol; num primeiro momento o foco de descontentamento dos treinadores era dirigido a enorme rotatividade de técnicos entre os clubes ao longo do campeonato, mas com o decorrer do tempo ficou claro pelas declarações do Dorival Jr (atual presidente da FBTF) que existia um forte empecilho para o trabalho dos técnicos no campeonato brasileiro: o calendário. Com um calendário que exige durante quase toda a temporada jogos no meio e no final de semana é quase como enganar o torcedor ficar fazendo análises muito rigorosas do trabalho dos técnicos. É praticamente um axioma em conversas de bar e em rodas de amigos reclamar de uma defasagem entre a maioria dos técnicos brasileiros e os técnicos estrangeiros (em especial os que atuam na Europa), e longe de querermos propor que todo e qualquer trabalho deva ser isentado de avaliação vale perceber que o tempo realmente de treino que sobra depois de tantos jogos e tempo na estrada se resume a muitas vezes apenas a 1 dia ou 2 durante a semana no máximo. Isso é importante de se destacar, pois quando se fala dos problemas do calendário do futebol brasileiro bate-se muito na tecla (com razão) no desgaste dos jogadores, sem se notar que não é só a saúde e rendimento dos jogadores que é posta em risco, mas também o trabalho dos treinadores sempre impiedosamente avaliados.

Fonte: Folha de S. Paulo

Fonte: Folha de S. Paulo

O coro dos técnicos descontentes já tinha encontrado adeptos entre os jogadores, tais como Juninho Pernambucano, Alexsandro de Souza (mais conhecido como Alex) e Paulo André. E a divulgação do calendário brasileiro para 2014 gerou uma nova onda de indignação entre jogadores, treinadores e até de presidentes de algumas federações estaduais (mas não podemos perder de vista que no caso desses últimos há motivações políticas contra a dupla José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, presidente da CBF e vice-presidente da CBF/ presidente da Federação Paulista de Futebol respectivamente).

(Vídeo do Paulo André e Raí questionando José Maria Marin  em debate em São Paulo)

Esse fato, ao que parece, fez atingir o ponto de fervura necessário para conflagrar um movimento por mudanças: em 24/09/2013 a Folha de S. Paulo noticiou a mobilização de 75 jogadores (nesse momento em sua maioria da Série A do campeonato brasileiro) pedindo por mudanças do calendário. Os principais pontos são: três propostas diferentes de mudança no calendário (uma prevê a adequação ao modelo europeu e outras duas tentam mexer no esquema atual, diminuindo o número de datas), estabelecimento de um número máximo de sete partidas a cada 30 dias, tempo para a pré-temporada e férias e a exigência de um “fair-play financeiro”, com punições para os clubes que não arcarem com os compromissos assumidos. Logo o movimento adotou o nome de Bom Senso F. C., passariam a ter mais 100 assinaturas, depois mais de 600 assinaturas, e atingindo mais de 1000 assinaturas. O movimento dos jogadores brasileiros também causou interesse na imprensa internacional, com sites como Bloomberg e BBC publicando artigos sobre o movimento. Mais tarde foi noticiado que o Bom Senso estava trabalhando com o grupo Futebol do Futuro para a confecção de quatro propostas distintas para a reformulação do calendário brasileiro. Vale ressaltar que uma característica importante na mudança de calendário proposta pelo Bom Senso é a dispersão dos jogos das competições ao longo da temporada, em vez de compartimenta-las em alguns meses.

Bom Senso F. C.

Uma das questões sempre levantada ao se discutir mudanças para o calendário brasileiro são os estaduais; levados pelo tradicionalismo ou uma pretensa defesa dos clubes pequenos muitas são as pessoas que acabam por se oporem a extinção dessas competições a despeito do baixíssimo nível técnico e de comparecimento nos estádios. O fato é que no modelo atual além de inchar o número de jogos para os grandes clubes que participam das séries nacionais, Copa do Brasil e de competições continentais, deixa a grande maioria dos clubes brasileiros (portanto de seus jogadores) sem um calendário para jogar profissionalmente na maior parte do ano, apenas 15% das equipes do país têm compromissos ao longo de toda a temporada. Se quisermos manter os campeonatos estaduais é preciso admitir que eles terão que ser radicalmente alterados. Existem também ponderações de ordem financeira a respeito da proposta de  redução do número de jogos defendida pelo Bom Senso; o advogado do movimento dos jogadores, João Chiminazzo, afirma que os jogadores estariam dispostos a discutir uma redução dos grandes salários que alguns deles possuem em prol do fair play financeiro, mas que isso não possui qualquer relação com a diminuição do número de jogos, pois a arrecadação dos clubes estaria mais vinculada com a qualidade das jogos apresentada para os torcedores. 

A questão dos estaduais esbarra também no problema da relação da CBF e das federações estaduais com a televisão, nomeadamente as organizações Globo que já informou ao Bom Senso que além de não ser favorável ao fim dos estaduais também não concorda com o limite de 7 jogos por mês.

Bom Senso F. C. usa de argumentos de melhora do "produto" para justificar mudanças. Aqui, uma tabela divulgada pelo movimento para apontar uma estagnação do futebol profissional brasileiro

Bom Senso F. C. usa de argumentos de melhora do “produto” para justificar mudanças. Aqui, uma tabela divulgada pelo movimento para apontar uma estagnação do futebol profissional brasileiro

É importante destacar que o Bom Senso é um movimento de jogadores que não se propõe a mudar o status quo do futebol brasileiro, com um enfoque na questão da saúde dos atletas e também com um discurso de que as mudanças propostas pelo movimento são benéficas para clubes e federação por, em última instância, melhorar o “produto” vendido aos torcedores (a qualidade dos jogos). Alex, um dos líderes do movimento, projeta para um futuro mais distante mudanças na estrutura do futebol brasileiro com uma maior participação de dos atletas nas decisões.

Pode ser dito que a primeira vitória do Bom Senso F.C. foi conseguir adiar em uma semana o início da temporada 2014 do futebol brasileiro. Outra demonstração de força do movimento foi dada quando, em sinal de protesto com a tentativa dos dirigentes da CBF excluírem o Bom Senso dos debates a respeito do calendário, os jogadores em todas as partidas válidas pela 30ª rodada do Campeonato Brasileiro se abraçaram e fizeram uma roda no centro do gramado, respeitando um minuto de silêncio.

Fonte: perfil do Bom Senso F.C. no Facebook

Fonte: perfil do Bom Senso F.C. no Facebook

O Bom Senso acabou sendo convidado para a reunião com a CBF na segunda-feira, dia 28/10/2013, mesma data que o deputado federal Romário tinha marcado para uma audiência dos jogadores com a comissão de Turismo e Desporto da Câmara dos Deputados. Como resultado disso, o deputado decidiu adiar a audiência (ainda sem data remarcada). A essa reunião marcada pela CBF também estiveram presentes os representantes de clubes, árbitros e a TV Globo (na condição de parceira da CBF na transmissão dos jogos da série A e B do campeonato brasileiro). Com o calendário de 2014 podendo ser apenas remendado (dependendo ainda da decisão das federações estaduais para um prolongamento da pré-temporada) e o de 2015 ainda em aberto, é provável que o movimento Bom Senso FC continue mobilizando a categoria dos jogadores de futebol em busca de mudanças.

Clique na imagem para ver o vídeo do Juca Kfouri criticando defensores do calendário brasileiro

Clique na imagem para ver o vídeo do Juca Kfouri criticando defensores do calendário brasileiro

 

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