Quando o provador não é um lugar Delícia

Já há alguns meses está sendo veiculada na televisão uma propaganda de margarina muito “interessante”. Você pode ver a propaganda aqui, mas vai um resumo: Fernanda Lima, ícone da moda e da beleza brasileira, percebe que a calça que ela está experimentando na loja não cabe. Por isso, ela pede um número maior às vendedoras. E elas se deliciam ao ver que “Não tá fácil pra ninguém. Nem pra Fernanda Lima”.

Foto do comercial da margarina Delícia

Foto do comercial da margarina Delícia

A questão simples é que a Fernanda Lima, assim como qualquer garota na forma dita “ideal”, pode pedir às vendedoras um tamanho maior; pode achar que o corte da peça não caiu bem, independente de entrar no corpo ou não; pode, só de olhar a roupa pensar que não agradou por causa da estampa, desenhos, apliques, etc, etc, e resolver ir à outra loja encontrar aquilo que ela está querendo. Garotas magras têm essa opção. Mas e as “gordinhas”, as “cheinhas”, as “grandes”, as “rechonchudas”, as “fortinhas”, as “fofinhas”? Para elas não existe espaço, não existe roupa que fique bonita, não existe quem pense em roupas bonitas. Para elas não resta nada além de se contentar com o que cabe e torcer fervorosamente pelo o dia em que aquela dieta vai dar certo e ela vai virar, magicamente, uma magra.

gorda jeansAté aqui, mais do mesmo, quem amarga ou não a vida de uma gorda sabe em algum nível de tudo isso. E, se não sabe por ser, sabe por ver tantas e tantas propagandas, mitos e preconceitos em relação à gordura. Agora, vamos pensar numa coisa simples: quem aqui, em algum momento da sua vida, não foi a uma loja que sempre ia, experimentou aquele número que sempre coube, e, qual foi a surpresa quando a roupa simplesmente não coube? A primeira pergunta: Caramba, eu engordei e nem vi? A verdadeira resposta – em vários casos: Não, a roupa que encolheu. Sério… Não é de hoje e nem de ontem que ouvimos várias mulheres reclamando que a roupa não coube, que teve que comprar um número maior, ou que, simplesmente, o número que antes existia, como num passe de mágica, deixou de ser comprado/feito pela loja.

A questão é: as roupas também são produzidas dentro de uma estética burguesa. O padrão de beleza das classes dominantes é cada vez mais magro, as modelos são cada vez mais magras, as roupas, consequentemente, são também cada vez menores. Mais a frente vocês vão ver porque é importante frisar que as classes dominantes tem um padrão de beleza magro, ao contrário das classes dominadas, que têm padrões de beleza mais abrangentes. De qualquer forma, as pessoas não podem simplesmente descartar seus corpos como modelos são descartadas quando engordam, como apresentadoras/atrizes perdem trabalhos quando estão fora dos novos padrões. Nossos corpos são nossos, quer queiramos eles ou não. E aí, a culpa do tamanho maior, acaba caindo sobre nossos corpos fora dos padrões das lojas, e não sobre as lojas, fora dos padrões dos nossos corpos.

Isso é uma questão bastante pertinente: embora, a partir de maio de 1995 exista um empenho da ABNT em padronizar as medidas das roupas, a última norma feita nesse sentido é sobre o vestuário masculino – que certamente sofre bem menos pressão do que o vestuário feminino – dividido em “corpo tipo normal, atlético e especial”, de 2012. As pesquisas em relação ao vestuário feminino iriam começar apenas depois de terminadas as do vestuário masculino. De qualquer forma, mesmo com todo esse esforço em fazer uma padronização das medidas brasileiras, não existe qualquer lei que imponha ou fiscalize as padronizações. (Sobre isso, tem alguns sites aqui e aqui.) Eles servem apenas como referencial para as confecções, que ainda terão autonomia para decidir como trabalhar em cima das medidas pesquisadas. Essa padronização – tornou-se mais importante, não pelo mercado tradicional – das lojas físicas, mas por causa do ascendente comércio virtual e pela facilitação nas exportações. Ou seja, o objetivo não está em facilitar a vida das pessoas em busca de roupas, mas sim em ajudar as confecções em vender mais e mais!

rosaO ponto central deste artigo é mostrar que, mesmo numa situação que parece muito banal e cotidiana, existe um padrão de beleza impossível, que causa em uma grande parcela da população a sensação de exclusão do sistema. Além de todas as informações contra os corpos fora dos padrões (passarelas, piadas em programas de humor, propagandas, novelas e tudo o mais), a simples tarefa de comprar uma roupa se torna uma verdadeira aventura contra a autoestima dessas pessoas. Afinal, se elas não conseguem comprar roupas, é porque estão fora dos padrões, estão erradas. É melhor correr atrás da roupa que não entrou e consumir toda essa gama de produtos, shakes, plásticas, margarinas para que os seus corpos se encaixem! O lugar dessas pessoas não é numa loja de roupas descoladas, bonitas, estilosas, – geralmente – de marca. O lugar delas é na academia, na reunião do Vigilantes do Peso, na sessão diet do mercado. Num sistema onde um indivíduo é o que ele consome, ser impedido de consumir algo é muito danoso para sua existência enquanto indivíduo.

O mais perto que a gorda pode chegar de uma roupa é no plus size, a cota para as excluídas do mundo da moda. Que fique claro uma coisa: de fato, modelos “plus size” estão realmente ganhando cada vez mais espaço, cortes maiores também, isso é inegável e merece reconhecimento. Mas, porque será que os únicos lugares que têm manequins plus size, que mostram para todos do shopping que as gordinhas são bem vindas, são as lojas de departamento e as lojas especializadas? Por que lojas de marca, lojas jovens, lojas para mulheres “elegantes”, até podem ter os modelos maiores no estoque, mas os deixam escondidos? Se perguntarem eles mostram, senão, que não fique escancarado na vitrine! Lembram-se da diferença do padrão de beleza existente conforme a classe social que foi comentado alguns parágrafos atrás? Então, voltamos a ele: roupas grandes, plus sizes, só não são má vistas numa determinada parcela da população, justamente aquela que vai às lojas de departamento e não nas lojas de marca. Numa loja de marca “pegaria mal” roupas grandes, tira o status, a exclusividade, a beleza!

foto: Cosmo. Capa muito polêmica da Cosmopolitan. Essa modelo parece assim tão plus size?

foto: Cosmo. Capa muito polêmica da Cosmopolitan. Essa modelo parece assim tão plus size?

Foto: Flúvia. A Flúvia é uma modelo plus size brasileira conhecida internacionalmente. Suas medidas são: 109-88-121 cm.

Foto: Flúvia. A Flúvia é uma modelo plus size brasileira conhecida internacionalmente. Suas medidas são: 109-88-121 cm.

Mas, afinal, o que é o plus size? Segundo esse artigo, plus size é o tamanho acima do 44, o que, na Revista Manequim significa 98cm. de busto, 82cm. de cintura e 104cm. de quadril. O plus size é aquela grande parcela da população que não veste P. Mas, ao invés daquela parcela da população que não veste P poder simplesmente pedir um modelo 46, 48, 50, etc, ela tem que lembrar que está indo comprar um modelo plus size. PLUS size. Pesa, né? É isso mesmo! Feito pra pesar, feito pra culpar, feito pra mostrar que aquela pessoa devia mesmo era agradecer aos deuses da moda por ter o privilégio de usar mais do que um saco de batatas, de ter um modelo PLUS.

Por isso, para muitas pessoas, os modelos plus size devem ser apenas uma condição temporária, por causa de um período em que engordou, ou que ainda não conseguiu emagrecer. Por isso, para muitas, ser gorda é um fardo, é algo que pesa mais do que todo o conteúdo feminista que se pode adquirir ao longo da vida, é algo que deve ser cotidianamente reafirmado enquanto outra forma de beleza. Por isso, não é fácil simplesmente se aceitar, e mais difícil ainda é se achar bonita. Existe toda uma cotidianidade, todo um sistema excludente que diz que a gorda não é bonita.

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Falando em feministas, em pessoas alternativas, e por que não, cults, como sei que a maior parcela dos leitores desse blog fazem parte do métier meio intelectual-meio de esquerda, vocês já pararam para pensar no quanto esse mundo cult/ hipster também está inserido no sistema? Mulheres gordas ainda se sentem mal, mesmo frequentando os lugares “inclusivos”, a moda ainda é feita pensando num corpo magro. É triste a forma como o sistema pode entrar nas cabeças mais protegidas, não?! Um bom passo para chegarmos no mundo transformado e transformador que buscamos é justamente reconhecer os vários preconceitos que ainda existe – e aí, falo em todos os tipos de preconceitos do mundo alternativo, não apenas o do tamanho – e tentar resolver esses preconceitos, mas não negar sua existência.

Para fechar o artigo, mas não a discussão, gostaria de sugerir um filme que vi na televisão dia desses, meio que sem querer, muito legal! É um filme francês sobre mulheres gordas num spa. Sim, eu também fiquei surpresa: existem mulheres gordas na França, e imaginem só o preconceito que elas não sofrem?  (Aqui tem um artigo sobre o filme, e o link para baixar tá aqui!)  E gostaria de saber também das opiniões/observações de vocês. Como deu pra ver, esse artigo é ainda uma impressão pessoal, por isso ainda falta uma perspectiva sociológica analítica mais distanciada. Mas pode ser um bom início na conversa sobre muitas coisas que ficaram de fora, mas que vemos por aí nesse mundo capitalista e excludente de meu Deus.

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Sobre Giovanna Antonaci

Foliã, historiadora, professora e italiana quando CANNOT KEEP CALM.
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2 respostas para Quando o provador não é um lugar Delícia

  1. xNx disse:

    excelente texto! vc acertou em cheio, sou daquelas meio-cult meio-esquerda hehehe… e realmente, o esteriótipo magro e a gordofobia ainda estão nos meios “alternativos”, muitas vezes travestidos de “preocupação com a saúde” alheia…

  2. Flávia Belo disse:

    Nossa!! Amei o texto!! Sempre fui “plus size”, mas magra em uns dois períodos da minha vida de 30 anos. É muito sofrimento, mesmo tendo uma visão um pouco mais crítica sobre isso. Afinal de contas, por mais que se tente mostrar que a beleza está na diversidade, em nosso cotidiano somos bombardeadas com informações que nos mostram o quanto estamos fora dos padrões. E não falo apenas da mídia com suas propagandas a exibir corpos magros ou sarados como os da panicats, mas do desprezo dos rapazes que preferem as magras ou as gostosas e das críticas que recebemos de colegas e familiares: “Vc tem um rosto tão bonito”, “Tá bem gordinha, hein!”, “Ah, ela não pula porque é gorda” (isso ouvi quando era goleira da equipe de handbol) etc.

    Enfim… mas vc falou de algo que venho reparando há anos: de fato o padrão de beleza da classe dominante é bem diferente da classe dominada. Vc vê, Giovanna: o corpo magrelo, tipo de modelo é apreciado pelos primeiros. Veja as atrizes americanas, inglesas como são… até pouco tempo atrás eu tinha o hábito de ver tv portuguesa e as mulheres lá são assim magrelinhas. Poucas são “normais”. Já aqui no Brasil, a gente vê essa magreza chegando no meio das artistas e das mulheres da elite, enquanto entre as pessoas comuns o que predomina no gosto das pessoas é a gordinha gostosa ou sarada, tipo panicat (sendo que este último modelo vem se popularizando). Posso estar errada, e ter viajado. Mas enfim… Gostei muito do seu texto. Tá de parabéns.

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