Ideologia – O que é isto?

O debate  acerca do conceito de Ideologia é um tema clássico dentro da tradição marxista, e que pode por vezes ser deveras complicado por enveredar em reflexões de caráter epistemológico e filosófico. A modesta intenção desse texto visando contribuir para essa reflexão é apresentar em linhas gerais a abordagem feita pelo filósofo e psicanalista Slavoj Žižek a respeito do conceito de Ideologia. Para tanto, utilizamos como base o texto Como Marx Inventou o Sintoma? presente no livro Um Mapa da Ideologia (Editora Contraponto, 1999).

Cartaz do filme "The Pervert's Guide to Ideology" (2012)

Cartaz do filme “The Pervert’s Guide to Ideology” (2012)

Segundo Slavoj Žižek, na tradição marxista a definição clássica de ideologia é “as pessoas não sabem o que estão realmente fazendo”; ou seja, uma diferença entre a atividade real das pessoas e o que elas pensam estar fazendo. Portanto, a ilusão ideológica residiria no saber. O exemplo clássico dessa definição de ideologia é o fetichismo da mercadoria: muito embora o dinheiro desempenhe a sua atividade de equivalente universal apenas devido a um arranjo específico de relações sociais, os indivíduos assumem que o dinheiro já possui em si as qualidades inatas da riqueza.

Mas para o pensador esloveno há um problema de incompletude na formulação marxista da ideologia, pois se essa primeira definição abarca a dimensão do “saber”, por outro lado deixa de contemplar a dimensão do “fazer”. Haveria então “uma ilusão, um erro, uma distorção que já está em funcionamento na própria realidade social, no nível daquilo que os indivíduos fazem, e não do que pensam ou sabem estar fazendo”. Para o pensador, os indivíduos sabem muito bem que por detrás do dinheiro utilizado a cada dia há toda uma rede de relações sociais, mas eles agem como se o dinheiro fosse a substancialização da riqueza. Ou seja, é a ação dos indivíduos que é guiada pela ilusão fetichista.

Žižek procura exemplificar essa questão fazendo referência à  inversão especulativa entre o Universal e o Particular: “quando somos vítimas do fetichismo da mercadoria, é como se o conteúdo concreto de uma mercadoria (seu valor de uso) fosse uma expressão de sua universalidade abstrata (seu valor de troca) – o Universal abstrato, o Valor, aparece como uma Substância real, que se encarna sucessivamente numa série de objetos concretos.” A questão para o pensador esloveno é justamente que (como já exposto anteriormente) na prática cotidiana, os indivíduos percebem que o valor em si (Universal abstrato) não existe; o que existe são coisas isoladas, que possuem entre suas propriedades valor. “O problema é que, na prática, em sua atividade real, ele [indivíduo burguês] age como se as coisas particulares (as mercadorias) fossem apenas um punhado de personificações do Valor universal.”

Portanto, o que as pessoas desconsideram não seria a realidade, mas a ilusão que estrutura sua realidade. A ilusão então “é dupla: consiste em passar por cima da ilusão que estrutura nossa relação real e efetiva com a realidade”. O pesador esloveno chama isso de fantasia ideológica.

A formulação do conceito de fantasia ideológica é importante para Žižek ao permitir uma crítica à noção de que vivemos numa sociedade pós-ideologia. Pois é inspirado pelo desafio proposto pelo pensador alemão Peter Sloterdijk no livro Crítica da Razão Cínica que Žižek parece querer requalificar o conceito de ideologia. Nessa obra, Sloterdijk defende que a ideologia predominante hoje em dia é cínica.

É da Crítica da Razão Cínica que o psicanalista esloveno retira a noção de que as pessoas “sabem muito bem o que estão fazendo mas mesmo assim o fazem” (o que, como já visto anteriormente por nós, acaba por ser um ponto fundamental para a redefinição de ideologia proposta por Žižek). Nas palavras do esloveno: “sabe-se muito bem da falsidade, tem-se plena ciência de um determinado interesse oculto por trás de uma universalidade ideológica, mas ainda assim, não se renuncia a ela”.

Ilustração retirada do livro "Entendendo Slavoj Žižek" por Christopher Kul-Want & Piero (Ediotra Leya, 2012)

Ilustração retirada do livro “Entendendo Slavoj Žižek” por Christopher Kul-Want & Piero (Ediotra Leya, 2012)

Mas vale ressaltar que Žižek procurar diferenciar esse cinismo (cynicism), apresentado até aqui, de outro tipo de cinismo (kynicism) também trabalhado por Sloterdijk; que se caracteriza por uma rejeição popular à cultura oficial. O kynicism “subverte a proposição oficial, confrontando-a com a situação de sua enunciação; procede ad hominem (por exemplo, quando um político prega o dever do sacrifício patriótico, o cinismo expõe o lucro pessoal que ele está retirando do sacrifício alheio)”. O cynicism por outro lado “leva em conta o interesse particular que está por trás da universalidade ideológica, a distância que há entre a máscara ideológica e a realidade, mas ainda encontra razões para conservar a máscara”.

Chegamos assim ao ponto já trabalhado por nós anteriormente: a crítica tradicional da ideologia não funciona para essa razão cínica. Portanto, segundo o autor, só mediante uma redefinição do conceito de ideologia como fantasia ideológica que nós podemos evitar cair na conclusão de que vivemos numa era pós-ideológica. É também por isso que o autor faz a distinção entre sintoma e fantasia.

O sintoma “é um elemento particular que subverte seu gênero”. É dessa maneira que devemos entender a afirmação de Lacan de que Marx “inventou o sintoma”. A crítica marxista da ideologia é, nesse sentido, “sintomática”: “consiste em detectar um ponto de ruptura heterogêneo para um dado campo ideológico, e ao mesmo tempo, necessário para que esse campo consiga seu fechamento, sua forma acabada”. Isso significa que todo Universal ideológico é “falso”, pois sempre carrega dentro de si a exceção transgressora que rompe com sua unidade. Como exemplificado por Žižek: “liberdade, por exemplo: é uma noção universal que abrange várias espécies (liberdade de fala e de imprensa, liberdade de consciência, liberdade de comércio, liberdade política etc), mas também, por uma necessidade estrutural, uma liberdade específica (a de o trabalhador vender livremente sua força de trabalho no mercado), que subverte essa noção universal”. Para o pensador esloveno, aqui reside uma diferença fundamental entre a perspectiva marxista e a perspectiva psicanalítica lacaniana: enquanto no marxismo “o olhar ideológico é um olhar parcial, que deixa escapar a totalidade das relações sociais”, “na perspectiva lacaniana, a ideologia designa, antes a totalidade empenhada em apagar os vestígios de sua própria impossibilidade”.

Mas como já foi apontado por nós anteriormente, o autor esloveno procura demonstrar que a crítica à ideologia, deve indicar a própria fantasia que sustenta a realidade; entendendo que “realidade”, em termos psicanalíticos, refere-se a “construção fantasiosa que nos permite mascarar o Real de nosso desejo”. Para exemplificar melhor essa noção de Real lacaniano Žižek lembra o exemplo presente no seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise de Jacques Lacan, onde um pai depois de ter acompanhado o calvário do filho vai deitar-se, mas mirando de seu quarto a cama onde o falecido estava sendo velado; ao dormir o pai sonha com o filho que em chamas exclama: “Pai, não vês que estou queimando?”. Ao acordar assustado, o pai percebe que o defunto do filho estava pegando fogo devido a uma vela acessa caída em cima dele. Em vez da leitura padrão de que o sonho do pai possuiria a função de prolongar o repouso e o despertar aconteceria quando a irritação externa se torna insuportável, a leitura lacaniana afirma que “a coisa com que depara no sonho, a realidade de seu desejo, o Real lacaniano – em nosso caso, a realidade da censura do filho ao pai, ‘Não vês que estou queimando?’, que implica a culpa fundamental do pai, – é mais aterrorizante do que a própria chamada realidade externa, e é por isso quer ele acorda: para escapar ao Real de seu desejo, que se anuncia no sonho apavorante. Ele foge para a chamada realidade para poder continuar a dormir, para manter a sua cegueira, para escapar de despertar para o Real de seu desejo”.

Para o autor, acontece com a ideologia a mesma coisa: “A ideologia não é uma ilusão de tipo onírico que consturamos para escapar à realidade insuportável; em sua dimensão básica, ela é uma construção de fantasia que serve de esteio à nossa própria ‘realidade’: uma ‘ilusão’ que estrutura nossas relações sociais reais e efetivas e que, com isso, mascara um insuportável núcleo real impossível (conceituado por Ernesto Laclau e Chantal Moufee como ‘antagonismo’; uma divisão social traumática que não pode ser simbolizada). A função da ideologia não é oferecer-nos uma via de escape de nossa realidade, mas oferecer-nos a própria realidade social como uma fuga de algum núcleo real traumático.”

Portanto a maneira de romper com nosso sonho ideológico, não é cair numa ilusão de observador objetivo, capaz de se livrar de seus preconceitos ideológicos e olhar a realidade “como ela é” (de uma maneira pós-ideológica portanto), mas antes “confrontar o Real de nosso desejo que se anuncia nesse sonho”. O exemplo clássico utilizado por Žižek é o do antissemitismo: quando uma ideologia logra pleno êxito, não será a exposição dos fatos que porá fim ao sonho ideológico. “A resposta adequada ao anti-semistismo, portanto, não é ‘os judeus não são realmente assim’, porém ‘a idéia anti-semita do judeu nada tem a ver com os judeus; a imagem ideológica do judeu é uma maneira de costurar a incoerência de nosso próprio sistema ideológico’.”

(“Theatrical Trailer” do documentário The Pervert’s Guide to Ideology)

O autor esloveno também apresenta outra importante diferença entre as concepções marxista e lacanina a respeito da ideologia. No marxismo “o método ideológico por excelência é o da ‘falsa’ eternização e/ou universalização: um estado que depende de uma conjuntura histórica concreta afigura-se um traço eterno e universal da condição humana; o interesse de uma classe particular disfarça-se como um interesse humana universal… e a meta da ‘crítica da ideologia’ é denunciar essa falsa universalidade”. Segundo Žižek, a perspectiva lacanina aponta para outro ardil ideológico: a historicização ultrarrápida. Um dos exemplos utilizados para ilustrar essa historicização ultrarrápida é o “fenômeno” dos campos de concentração; em vez de ligarmos esse fenômeno com experiências concretas (Holocausto, Gulag, etc.) e “reduzi-los a um produto de uma ordem social concreta (fascismo, stalinismo etc)”, devemos encarar esse “fenômeno como um ‘real’ de nossa civilização, que retorna como o mesmo núcleo traumático em todos os sistemas sociais”.

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Recomendo como leitura adicional para quem quiser começar a se aprofundar nessa linha de reflexão o texto Marx, inventor do sintoma de Fernando Fagundes Ribeiro (professor de Filosofia da Universidade Federal Fluminense).

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3 respostas para Ideologia – O que é isto?

  1. Fernando Ribeiro disse:

    “A função da ideologia não é oferecer-nos uma via de escape de nossa realidade, mas oferecer-nos a própria realidade social como uma fuga de algum núcleo real traumático.” Acerca de uma breve história da noção de ideologia, incluindo os momentos Althusseriano e Zizekiano, consultar o ótimo texto de Jenifer Belo, publicado nos anais do Niep 2013, intitulado “A materialidade da ideologia”

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