O poder do ‘Fora Cabral, vá com Paes!’

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Ato do dia 20 de junho – Av. Presidente Vargas

Quando rebentaram as manifestações de 2013, o Rio de Janeiro sonhava. Era um sonho nostálgico, da bela capital de outrora, que via nos atuais governos a grande saída. Mas, então, o Rio acordou abruptamente para a dura realidade: afastado do poder central, com graves tensões sociais, crise de identidade, alternância de governos medíocres, mas esmerados no assalto ao Estado, não havia saída. Junto com a popularidade de Cabral e Paes, caía a máscara de maquiagem – a política de pacificação e grandes eventos – e a onda que varreu as ruas do Rio se tornou a maior e mais longa do país, desdobrando-se na forte greve de professores, inspirando outras regiões. Abalava o poder arraigado no Rio, heranças do passado de ditaduras e mais: a rede de interesses políticos e econômicos que ora se manifestam no PMDB, na Rede Globo e na Polícia Militar.

Por que os protestos no Rio ganharam tamanha magnitude? Como explicar a súbita morte política de Sérgio Cabral? Talvez se possa estranhar essa questão, afinal protestos no Rio sempre ocorreram, o Rio sempre foi o centro, é referência para o país, capital cultural etc. Só que não é assim. Já há muito tempo…

Quando a capital federal deixou o Rio, em 1960, a cidade era o centro político e cultural do país, políticos e intelectuais de todas as regiões estavam no circuito do Rio. Nutriu-se por um tempo a imagem da cidade-estado para a recém-criada Guanabara, a ideia de uma idade de ouro, que vira e mexe é relembrada. A cidade cosmopolita, que teve jornais com nomes tais como Jornal do Brasil, O Globo, O Paíz, ainda brilhava no cenário, em contraste com as demais capitais, e seus jornais Folhas e Estados quais.

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Aterro do Flamengo, um dos símbolos do Estado da Guanabara, inaugurado por Lacerda

Com o golpe de 1964 e a ditadura, o Rio não foi abandonado; dentre os articuladores do golpe havia a participação direta de grupos políticos e econômicos cariocas. Mas, por consequência do golpe, e da reação de setores da sociedade, considerável parcela de instituições e lideranças foi perseguida ou simplesmente eliminada. Ao longo dos mais de 20 anos da ditadura, grandes jornais da cidade foram sumindo, mesmo aqueles que tinham apoiado o golpe, como o Correio da Manhã, um dos maiores. Não se pode dizer que o Rio tenha sofrido mais do que outras regiões, mas tendo deixado de ser a capital, sofreu um empobrecimento econômico, político e cultural, agravado pela ditadura. Seja pela eliminação de quadros experientes ou diversificados ideologicamente na dita ‘classe política’; seja pelo impacto na organização dos movimentos políticos e sociais (que continuaram com força no Rio, em especial no fim da ditadura e na década de 1980, mas já sem o papel de liderança a nível nacional – haja vista a formação do PT em São Paulo). Seja na limitação da imprensa, pela hegemonia quase total de um único grande grupo, a Rede Globo, uma vez que a Rede Manchete e o Jornal do Brasil também fecharam. A concentração da mídia também ocorreu em outros locais, mas no Rio o resultado foi mais radical; diferente de São Paulo e de grandes cidades do mundo, a antiga capital do Brasil agora tem apenas uma grande rede como referência política.

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Chagas Freitas, banhando-se no Paraíba do Sul para atestar a boa qualidade da água

Todos esses processos estão ligados à relação do Rio com a ditadura, que foi ambígua e desastrosa. Por um lado, o estado da Guanabara logo sinalizou que seria um foco de resistência; foi o único que elegeu um governador da aliança PSD/PTB, de oposição, nas eleições de 1965. Com a redução dos partidos, em 1966, o MDB (partido criado pela ditadura para ser minoritário e manter a máscara de democracia) da Guanabara e do Estado do Rio ficaram fortes devido às forças articuladas por Getúlio décadas antes nos dois estados (o próprio Vargas, no Rio, e Roberto Silveira e Amaral Peixoto no Estado do Rio). No entanto, pela pressão da ditadura, ocorreu uma ‘limpeza’ ideológica no MDB – o partido conseguiu se manter no governo da Guanabara e depois do unificado estado do Rio de Janeiro por quase todo o período, mas à custa de afastar setores mais críticos ou ligados a grupos mais radicais, tornados clandestinos. A política empobreceu em quadros e por perder seu caráter nacional; emergiu a figura de Chagas Freitas, governador e liderança do MDB, e com ele o chaguismo, tecido de uma rede de apoios com lideranças locais, focada em troca de favores, em diálogo com o poder econômico, mas também com a contravenção, jogo do bicho, escolas de samba…

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Charge de 1975, data da fusão dos dois estados. Vale a pena ler a crônica de Carlos Eduardo Novaes, ilustrada por esta charge, em http://memoria.bn.br/DocReader/cache/479705628473/I0119579-02PX=000000PY=000000.JPG

A ditadura conviveu com o MDB no Rio, mas os governos militares impuseram condições: a fusão dos dois estados, e consequente perda de poder no Congresso, a nível nacional. Além disso, a fusão foi tensa, e relegou muitos problemas, tendo o atual estado, cuja capital antes sempre gozara das verbas federais e dispusera de considerável estrutura de poder público (especialmente depois dos primeiros governos da Guanabara), se tornado exemplo de precariedade em seus serviços públicos.

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Roberto Marinho de braços dados com o general Figueiredo, último ‘presidente’ da ditadura

Mas isso não significou abandono do Rio pelo poder central, e aí vem o outro lado da moeda. Nas bases ideológicas e no projeto político da ditadura, o Rio cumpriu um papel importante; na exaltação da brasilidade, na busca da integração nacional, a imagem do ‘país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza’ era a imagem do Rio, mostrada pela recém-instaurada rede de televisão carioca, a Rede Globo, enaltecendo a própria ditadura. Assim como o rádio e a ‘voz do Brasil’ na Era Vargas, agora a integração era projetada em imagens pelo ‘Jornal Nacional’. O carnaval do Rio era a cara do Brasil, a cidade que tinha o maior estádio do mundo, a maior ponte, conquista da engenharia nacional, o time do Flamengo, com a maior torcida do Brasil… Todo brasileiro, gostando ou não, tinha referências do Rio – e os cariocas, por sua vez, não desenvolveram, até hoje, uma identidade regional.

Nessa imagem, é claro, também figurava a defesa da repressão aos subversivos, da necessidade do controle social, ofuscando as críticas à ditadura, em especial nos seus momentos finais, com a tentativa de abafar os atos pelas Diretas Já, que já levavam mais de um milhão às ruas de São Paulo. A Globo foi o maior sustentáculo ideológico da ditadura, alimentando-se de verbas e devolvendo em propaganda, espalhando seus tentáculos políticos e econômicos com suas retransmissoras por todos os estados.

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Crise dos anos 1980: Revolta de desempregados, iniciada em SP, em abril de 1983, se espalha para o Rio, onde ocorre uma grande onda de saques a supermercados, em setembro deste mesmo ano.

Com o fim da ditadura, o Rio já padecia de muitos problemas; como resultado das políticas econômicas do período, São Paulo se estabeleceu definitivamente como centro econômico, industrializado e dinâmico, mas tanto a capital paulista quanto a fluminense sofreram com o processo de inchamento urbano. As tensões sociais se acirraram com a crise dos anos 1980, o estado não garantiu infraestrutura para a maioria da população, e regiões da antiga capital foram sendo literalmente esquecidas pelo poder público, abrindo espaço para o crescimento do tráfico. A cidade maravilhosa, nos anos 80 e 90, se tornou sinônimo de cidade violenta e de crise social. A Polícia Militar prosseguiu em seu papel de conter a tensão social, tendo na Rede Globo um parceiro na legitimação e no próprio clamor pela violência.

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Anos 1990 – a “cidade partida” – arrastões durante o segundo governo Brizola.

Ao nível político, o Rio também deixou o centro do plano nacional, tanto pela sua política interna provinciana, quanto pelo fato do eixo político nacional ter se firmado em São Paulo. Ao longo das três últimas décadas, a política brasileira se configurou em uma polarização entre PT e PSDB, ambos partidos com projetos nacionais, e ambos paulistas. Curiosamente, esses dois partidos ficaram muito fracos no Rio de Janeiro. Por outro lado, ocorreu um processo de consolidação do PMDB no Rio – com amplo domínio do interior e, finalmente, na capital – um partido sem projeto nacional, uma federação de oligarquias. Não é surpresa entender que essa consolidação começou com o próprio MDB e o chaguismo; mesmo criticado pelos governos seguintes, todos, até Brizola, mantiveram essa política fisiológica, em contato com setores à margem da lei, como agora, com as milícias. Os partidos se revezaram nos governos, mas o chaguismo prevaleceu. Junto a ele, vingou uma profunda descrença com a política estadual, certeza de corrupção, da precariedade dos serviços públicos e sensação de falta de opção para as eleições. Aliás, o Rio deu força para candidaturas presidenciais que pretenderam romper com a dualidade PT x PSDB – Garotinho, Heloisa Helena e Marina Silva tiveram votações expressivas no Rio, o que aponta um afastamento do plano nacional.

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Eleições presidenciais – o Rio em contraste com o Brasil
(Fonte TSE e TRE/RJ)

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Aliança das três esferas de poder

Mas o Rio não se descolou de todo da política nacional, ainda que sua atual relação não esteja no nível da Política, mas sim da barganha. Ao passo que Cabral foi eleito governador, em 2006, e Paes, prefeito, em 2008, o PT nacional firmava sua aliança com o PMDB, assumindo abrir largos flancos ao fisiologismo em troca de seu projeto nacional. Cabral se tornou forte aliado do PT, e depois de décadas, os três níveis de governo – federal, estadual e municipal – se reuniram em torno de um projeto em comum para o Rio – e em íntima parceria com a própria Rede Globo. Se a cidade e o estado do Rio já tinham penado ao longo dos anos 80 e 90, a situação econômica voltou a melhorar, especialmente pelo dinamismo e renda da produção de petróleo; agora, com a união das três esferas, o dinheiro público passou a fluir ainda mais. Articulou-se, junto a interesses econômicos, um grande projeto, coroado pela escolha como sede das Olimpíadas, de tornar o Rio uma cidade-espetáculo – afeita aos grandes eventos, sofisticada, ou seja, cara – mas com muitas oportunidades de ganhar dinheiro.

Paralelamente, estabelecia-se a política de ocupação das favelas pelas UPPs, com imenso apoio das classes médias e da elite, amplamente defendida pela Globo, e que se tornou o grande consenso estabelecido em torno da aprovação de Cabral. A Polícia Militar assumiu papel de destaque nesse arranjo, fazendo o que sempre fez, oprimir a pobreza e garantir a propriedade, com as práticas herdadas das ditaduras, mas agora em nova escala e com maior legitimidade. Com o discurso de que estavam tomando a ofensiva contra os traficantes, o governo empurrou o problema para outras regiões do estado, legando apenas uma sensação de segurança – à custa de toda sorte de problemas que uma ocupação militar causa à população local –, abrindo, grandes oportunidades para um mercado imobiliário que já se inflava com as expectativas de lucro com a cidade-espetáculo. Sobre os crimes praticados por PMs nas UPPs, quase nada era veiculado nos jornais. Falou-se pouco que o problema tinha origem na ausência do próprio Estado, e que uma ocupação realmente transformadora deveria levar, primeiro, serviços públicos às favelas, tendo a segurança papel secundário, e não o papel exclusivo que tem nas UPPs.

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Projeto do Maracanã – desconfiguração do caráter social do estádio, elitização do público, demolição de bens tombados, da escola Friedenreich e da Aldeia Maracanã

E, assim, o projeto seguiu. Obras foram anunciadas e iniciadas, algumas importantes, como nos transportes, outras questionáveis, para dizer o mínimo, como a privatização do Maracanã, mas, junto com a imagem das UPPs, emergiu o consenso estranho, reunindo o PMDB (e, por extensão, o PT), a Rede Globo e a Polícia Militar, junto ao poder econômico. E esse projeto poderia estar ainda a pleno vapor, mas, pelas ironias da História, algo aconteceu.

Uns revoltados em Porto Alegre, e depois em São Paulo, começaram a ir pra rua contra mais um aumento de passagens – fato, aliás, que já ocorria nos últimos anos. Os cariocas também reclamaram do aumento, e alguns também foram pra rua. A polícia sentou o cassetete e balas de borracha, pegou pesado em São Paulo e, de repente a coisa esquentou no Brasil inteiro. No Rio, dia 13/6, dez mil na rua; dia 17/6, cem mil na rua e tentativa de invasão da Alerj; dia 20/6, talvez um milhão de pessoas na rua, e a ação pesada da Polícia Militar ultrapassando todos os limites das últimas décadas do pós-ditadura em plena Avenida Presidente Vargas e por toda a região central do Rio.

amarildo-fone-1No Brasil inteiro, transbordaram-se os limites: a vida urbana ficando cara, serviços de baixa qualidade, descrença com o sistema político, a tão falada nova classe C encontrando os limites de seu próprio crescimento. No Rio, além das motivações nacionais, o projeto articulado em torno de Cabral e Paes começou a cobrar suas contas: aumento ainda maior do custo de vida, bolha imobiliária, política de remoções, privatização do poder público e, agora, a violenta repressão da PM aos atos traz à tona os crimes ocorridos nas UPPs – casos como o de Amarildo, começam a aparecer.

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Farra de empresários e secretários de governo de Cabral e Paes em Paris – explicitando laços com o grande Capital. Revelada mais de um ano antes das manifestações, foi amplamente relembrada neste ano.

Com a crítica à política de segurança, o alicerce do consenso é abalado; deficiências nos transportes, na saúde e educação, antes ofuscadas pelos sucessos da política de segurança, voltam à tona. A relação de Cabral e Paes com grandes nomes do poder econômico reacende a velha certeza da corrupção, e, elevada ao nível nacional, com certo antipetismo crescente – fomentado pela Globo e suas congêneres – exacerbou-se a crítica ao poder instituído. O ‘Fora Cabral’, as bandeiras do Brasil e o cantar do hino nacional, o ‘Não vai ter Copa’, o ‘Sem partido’, são junções dessas infindas causas sociais e particulares, e que no Rio tiveram os agravantes de sua atual situação social, política e econômica. O que parecia um grande projeto, a redenção da Bela Capital, se revelava uma máquina de fazer dinheiro, mal alicerçada em políticas precárias.

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Assembleia dos professores do município, com mais de 5 mil presentes, ao lado do Paço – tradicional praça do carnaval tomada pelos grevistas

Só para falar da educação municipal e estadual como parte desse projeto: implantaram-se sistemas baseados na lógica de mercado, se destinaram grossas verbas a instituições privadas (dentre elas, vejam só, a Fundação Roberto Marinho), mas no fundo os problemas básicos continuavam. Criava-se uma máquina de produzir índices, fazendo da profissão de educador uma preparação para provas de avaliação. A pressão sobre profissionais do ensino chegou ao ponto crítico e, embalados pelos atos de junho, rebentaram com a maior greve da categoria em décadas. A revolta era tamanha que esta categoria, inicialmente crítica aos métodos mais combativos de manifestantes, foi paulatinamente simpatizando com os famigerados black blocs – afinal sofriam juntos da estratégia dos governos do PMDB, baseada na desinformação fornecida pela Rede Globo e na repressão pura e simples pela Polícia Militar.

Enfim, a trinca herdada pelo nosso passado ressurge na questão da educação, mas poderia ser mostrada nas políticas de remoção, na especulação imobiliária, na deformação e roubo do Maracanã… As classes médias e as elites, política e econômica, os chamados formadores de opinião, quase todos se centraram nesse consenso, pois na ânsia de resolver uma crise já antiga, confundiam precariedade do Estado com necessidade de privatização; crise de segurança com necessidade de reprimir a pobreza.

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Manifestantes acuados diante da 9º DP – policiais civis e militares quase chegam às vias de fato; a PM faz rondas de carro em volta da delegacia da Civil em clara demonstração de força
http://oglobo.globo.com/rio/policia-civil-vai-instaurar-inquerito-para-apurar-se-houve-abuso-ou-excessos-da-pm-em-confronto-em-frente-9dp-9537895

Agora, essa articulação não é unitária, é claro que há tensões internas. A mais óbvia é a constrangedora relação de Cabral com o PT, mas nem isso impediu a Globo de se aliar ao PMDB no Rio. Na sua defesa da violência do Estado, por outro lado, a Globo têm os seus limites; quando a coisa fica feia, quando a PM, fazendo o que sempre faz, aparece mais do que deveria, a Globo tira o time de campo e muda seu discurso para a defesa dos direitos humanos. E parte do público antipetista que ela fomenta, a parte mais radical, que não vê problemas na atuação das polícias nas favelas, e os próprios policiais, acusam ambiguidade, vendo, ironicamente, certo grau de petismo na Globo. A Polícia Militar do Rio, por sua vez, tampouco está livre de tensões. Há diversas divisões na PM, com diferenças salariais, política de bônus, o que motivam tensões. Ademais, a maioria dos policiais tem origem na classe trabalhadora, e por mais que sejam formados na ideologia militarista, a cegueira tem limites. Mesmo que reprimam – e alguns com requintes de sadismo –, nos momentos de deflagração das tensões sociais eles estão sujeitos às pressões físicas e psicológicas, também podem explodir. A tensão de Cabral em junho, visível em seus discursos, em que trocara sua arrogância por uma fala meio apatetada, muito provavelmente via todas essas tensões – não apenas seus votos simplesmente sumiam sob os gritos de ‘Ei, Cabral, vai tomar no cu!’, como seu próprio aparato militar e suas relações perigosas à margem da lei deviam estar esquentando, já com algumas rusgas explícitas entre a PM e a Polícia Civil.

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Entusiasmo com o início das operações da OGX, empresa cujo fracasso iniciaria a queda de Eike.

E, a prova mais cabal de que as mudanças na História podem ocorrer em rupturas, de que esse projeto pode ser amplamente denunciado e derrotado – e o será se essas tensões internas entre PMDB, Globo e PM se esgarçarem – é a queda fenomenal de Eike Batista. Símbolo dos vínculos da aliança PT/PMDB com o grande capital e com o discurso gerencial privatista, explicitou as incompetências e riscos do próprio modo privado de agir e gerenciar. Pois não foram conjunções astrais que levaram à sua queda, e sim a expansão de seu capital para diversos ramos sem ter a capacidade gerencial para todos, revelando diversos fracassos, em especial na prospecção de petróleo. A queda de Cabral, alinhada à queda de Eike, também é prova das possíveis mudanças; o Maracanã foi perdido, não aguentou até junho deste ano, mas o tombamento da escola Friedenreich e mudanças com relação ao antigo Museu do Índio, ambos no entorno do projeto do Maracanã, foram vitória do grito das ruas, assim como a redução a nível nacional das passagens e a ampliação de diversos debates como a política de transportes, de educação e a desmilitarização das polícias.

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Plenária histórica do dia 25 de junho no IFCS. Apesar das falhas de condução e futura fragmentação, as cerca de três mil pessoas presentes mostram o potencial de uma alternativa de esquerda radical no Rio.

Existe muito poder por trás do ‘Fora Cabral, vá com Paes’. Se a crise pode ruir com esse projeto? Não há ainda como saber, são acontecimentos ainda em trama. Cabral já anunciou sua saída, com sua mais baixa aprovação, mas o projeto pode continuar sem ele. Nosso papel, agora, é denunciar a amplitude desse projeto de assalto à cidade e ao estado, e a necessidade do Rio buscar seu próprio rumo – e não será com esses três encostos no comando que as coisas vão mudar. É claro que esse Rio é, também, dividido, não haverá um projeto alternativo de consenso, mas é preciso que surjam as alternativas – e o campo da esquerda radical deve também se ver em termos mais amplos, de construção, não apenas de sua prática nas ruas e assembleias, mas sim da criação dos nossos projetos sociais, pois se temos tantas vertentes, não temos nenhum projeto social, amplo de fato, e que seja revolucionário.

Há muito poder – em potencial, e já atuante nas ruas –, mudanças maiores são possíveis – mesmo que nada esteja certo, por ora. Mas o ano que vem é, também, potencialmente explosivo. Que tenhamos força e senso crítico suficientes para atravessar esses mares tormentosos.

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4 respostas para O poder do ‘Fora Cabral, vá com Paes!’

  1. Paulo disse:

    texto brilhante, estou gostando muito do site.

  2. AMAURI HENRIQUE DA SILVA disse:

    SEU TEXTO E MARAVILHOSO , SO ESQUECEU DE ESTERNAR A CUMPLICIDADE DO JUDICIARIO COM ESTE ESQUEMA SEM ESSA PARCERIA NADA DISSO ESTARIA ACONTECENDO .

    • lucashippolito disse:

      Valeu, Amauri. Concordo com a ressalva. Penso que, no fundo, por trás de tudo, estão os interesses do poder econômico, laços familiares ou empresariais, que tomam conta da máquina do Estado em seus três poderes. Chamar atenção para o PMDB, a Globo e a PM foi uma forma de mostrar mais onde se expressam esses interesses, como se articularam para tocar o projeto da cidade espetáculo. Mas, enfim, concordo com as ressalvas.

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