Resistir em Gotham City

 Em 1986, saía uma das mais célebres histórias do Batman: a HQ Cavaleiro das Trevas , do Frank Miller. Gestada durante a crise americana da Era Reagan, ela é expressão de uma coesa e orientada visão política de seu autor. A criminalidade e a mídia foram os dois elementos que sobressaíram na sociologia do Miller e são os dois principais eixos da sua história. Somados estes ao contexto de uma profunda recessão, a Gotham City retratada pode ser um reflexo para qualquer metrópole. Entretanto, seus conflitos tomarão formas mais espetaculares e mesmo suas soluções se mostrarão mais sinistras.

O idoso Bruce Wayne associa-se a uma menina de 13 anos para combater o crime. Frank Miller, em prefácio de 2006: “O Cavaleiro das Trevas é, obviamente, uma história do Batman. Em grande parte, procurei usar a escalada da criminalidade no mundo ao meu redor para retratar um mundo que precisava de um gênio obsessivo, hercúleo e razoavelmente maníaco para por as coisas em ordem. Mas isso era apenas metade do serviço. Eu não guardei meu veneno mais poderoso pro Coringa ou pro Duas Caras, mas para as insípidas e apelativas figuras da mídia que cobriam de forma tão pobre os gigantescos conflitos daquela época. O que essas pessoas insignificantes fariam se os gigantes andassem sobre a Terra? Que tratamento elas dariam a um herói poderoso, exigente e inclemente?”

 Naquela cidade, há mais insegurança que oxigênio. Não apenas o assalto, mas o assassinato é uma possibilidade corriqueira e irrestrita a qualquer canto, e para manter sua loja um comerciante teve que matar várias vezes. Em uma crise econômica onde dívidas se amontoam e se morre por não se pagar planos de saúde, esse cenário de degradação urbana não é estranho à primeira vista: sua violência é típica. Mas em Gotham há uma peculiaridade: ela é comandado pelos Mutantes. Essa gangue de jovens tem como marca a pura brutalidade. Além de ataques a freiras, gatinhos e  velhinhas, uma de suas ações registradas foi colocar uma bomba na bolsa de uma mulher no metrô. Não para roubá-la mas apenas para, sorrindo, vê-la explodir do lado de fora. Os pronunciamentos televisivos da gangue anunciam um domínio vindouro sobre a cidade à base dos banhos de sangue. Os Mutantes não são, portanto, nem traficantes de drogas, nem assaltantes de banco profissionais, nem terroristas com causa, nem uma juventude pobre transviada, mas apenas agentes da maldade.

 Essa caracterização dos vilões destoa daquelas mais típicas sobre o crime organizado, a de serem grupos econômicos, e com isso retira sua racionalidade.  É claro que, por outro lado, também é ingênua a visão (difundida pela esquerda, diga-se de passagem) que toma esses agentes como fundamentalmente homi economicus (perdoem o latim tosco), cuja violência seria circunstancial ou uma muleta para aquele objetivo principal. Veja-se que não se entende, por exemplo, a reprodução do varejismo favelado brasileiro sem pensar no atrativo do militarismo como capital cultural e simbólico para a juventude; no México, também, a violência do tráfico, longe de ser funcionalidade capitalista, tem umas ritualidades macabras que devem render quilos de teses de antropologia por lá. Mas essas sutilezas de definição não se encontram em Gotham City contra a qual o odioso líder dos Mutantes declarou guerra. Ao se encontrar com o prefeito, que procurava negociar o domínio da cidade que estava prestes a sofrer um assalto coletivo, o líder da gangue o assassina mordendo-lhe a garganta. O que pode, então, salvar uma cidade ameaçada por esses personagens que propõem não outra coisa senão uma onda de estupros, explosões e mortes? Ou, como colocaria o camarada Lenin, o que fazer?

 A definição do problema, na verdade, torna tudo muito simples, uma vez que a ameaça sobre Gotham é o crime puro, cujas sociabilidade e compreensão são completamente achatadas. Tomando novamente o líder dos Mutantes, vemos que mesmo sua aparência física é simplesmente bestial. Ele é o inimigo ideal, ou melhor, a idealização do inimigo: o mal sem contradições, sem causa e sem efeito; um mal que não é um meio, mas um fim em si mesmo. Diante disso, o valoroso Comissário Gordon lembra-se que, depois do ataque a Pearl Harbor, o país inteiro estava apavorado e que foi apenas quando Roosevelt discursou na rádio com firmeza que se pode transformar o medo em espírito de luta: “Resultado da guerra: nós vencemos”. “Transformar o medo em espírito de luta” será o mote de toda a história e o sentido da ação do Batman é o revide e a iniciativa (ele é velho e estava aposentado há 10 anos) enquanto todos se retraem seja por covardia, seja por incompetência. A vontade de resistência e a coragem são a pulsão originária de qualquer super-herói, algo de uma atitude universal (com a diferença de que Batman as terão carregadas com ódio, também fomentado pelo seu trauma de vítima no passado quando seus pais foram assassinados). O que Miller fez até aqui, então, pode ser considerado como uma história comum de super-herói pretensamente despolitizada, mas há outros elementos que apontam uma direção justamente contrária e que tornam o seu caráter mais explícito.

 O segundo eixo de sua história é a mídia e a opinião pública, tomadas indiferenciadamente por Miller (diga-se de passagem que confundir mídia com opinião pública é o exercício e o grande sonho de poder do jornalismo que temos). Além da futilidade, uma das grandes características da opinião pública será uma renitente incompreensão para com a solução de força que o Batman representa para lidar com o problema da cidade. Quando ele volta a atuar depois de 10 anos em ostracismo, é recebido com os epítetos de “fascista” e “reacionário”. Apesar de jamais assassinar, atuar de forma tecnicamente perfeita e contribuir enormemente para o encarceramento de bandidos, Batman é tido como perigoso e fora de controle. Mobilizam-se contra ele algumas entidades como o Conselho de Mães Contra o Batman e o Movimento Pelos Direitos das Vítimas. É por motivos de popularidade que o prefeito nomeia uma comissária que tem como primeiro ato emitir uma ordem de prisão contra o herói. Sobre isso, Gotham City é diferente das cidades brasileiras onde o apelo ao militarismo é a resposta mais automática e comum. Lembremos, por exemplo, que durante a invasão ao Alemão brilhavam os olhos de jornalistas e comentadores, e ao vivo alguns quase atingiam orgasmos ao falar dos tiroteios enquanto celebrava-se a capacidade messiânica das armas de trazer paz à cidade. Gotham também não parece ser retrato da sociedade americana, que consome mais fuzis do que xícaras de café. O que então quer dizer a representação que Miller faz de Gotham? Antes de chegar lá, vejamos outro elemento da opinião pública, o discurso sobre direitos humanos. Ele é encarnado principalmente pelo Dr. Bartholomew Wolper, que é psiquiatra e  cientista social. Ele trata de pacientes como o Duas Caras e o Coringa e nas suas aparições na tv afirma peremptoriamente que eles, como os Mutantes, são vítimas da obsessão do Batman, que no fundo são pessoas amáveis e que estariam prontas a voltar ao convívio social pacífico. Os que outrora foram carrascos fazem junto ao Dr. e à opinião pública caras de coitados e são liberados pelo poder judiciário. Também aqui Gotham é diferente do Brasil, onde o discurso dos direitos humanos tem pouco prestígio: é diminuído (por exemplo, no Tropa de Elite 2, o portador dessa ideia, o deputado, a apresenta a partir de chavões meio dogmáticos e de forma um pouco histérica)  ou explicitamente ridicularizado (“tá com pena, leva pra casa”). Coringa e Duas Caras, é óbvio, estavam fingindo a contrição e aproveitam a paciência e o perdão social para cometerem novas atrocidades.

O Dr. Wolper representa o discurso dos direitos humanos e da análise social. na história, cumpre o papel de defender vilões e tem uma estranha semelhança fisionômica com Hitler.

 Miller então reduz à caricatura aquilo que é barreira ao modus operandi do Batman, isto é, ao modus operandi policialesco. Esse caricatural não é uma simples ou inocente expressão natural da linguagem dos quadrinhos primeiro porque o discurso e a representação pró-Batman não tomam essa forma e também porque é justamente o hiperbólico o que melhor revela o core do pensamento. Vemos então desenhada (literalmente) uma visão de mundo, mas à custa da inteligência e da complexidade. Ela converge politicamente para o fascismo, entendido não como regime totalitário mas como sua potencialidade a partir certas noções e práticas. Permanece assim a lacuna da necessidade de pensar e de resistir ao crime para além do medo, do ódio e da força.

 O Cavaleiro das Trevas termina da forma mais medonha e mais sintomática possível: Batman se torna o líder dos Mutantes, agora convertidos em Filhos do Batman, e passa a treinar esse exército de psicopatas para dar prosseguimento ao seu trabalho.

Sobre Wesley Carvalho

Professor e historiador.
Esse post foi publicado em Cidade, Dossiê quadrinhos, Ideologia, Seguranca Pública e marcado , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Resistir em Gotham City

  1. Pingback: A Direita, o Rolezinho e o Caviar | andarilhochico

  2. paulo disse:

    Gosto de quadrinhos, mas esse em especial é nefasto, Frank Miller é o autor mais reaça dessa industria, disso eu não tenho duvida.

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s