Mais rápido que uma bala, mais fantástico que uma mercadoria – super-poderes e fetichismo

"Normal para mim", diz o Homem de Aço. (Desenho e texto de John Byrne)

“Normal para mim”, diz o Homem de Aço. (Desenho e texto de John Byrne)

Em 1938, uma revista em quadrinhos é publicada contendo a primeira aparição de um personagem que em pouquíssimo tempo se tornaria o pilar de um novo gênero. A revista era a antologia Action Comics n° 1 e o personagem era nada menos que Superman. A partir deste marco, o mercado norte-americano de revistas em quadrinhos é paulatinamente tomado por combatentes uniformizados do crime dotados de habilidades sobre-humanas. Hoje, mais de setenta anos após a estréia do gênero, há literalmente milhares de personagens facilmente reconhecíveis como super-heróis, não somente nos quadrinhos, mas também em animações, videogames, programas de TV e, especialmente, no cinema.

 Assim, pode-se dizer que o super-herói é uma figura fantástica tipicamente moderna, surgida em meio ao meio urbano e industrializado dos EUA já mundialmente predominantes, mas também em profunda recessão. Muito se fala sobre o teor escapista que inspira as suas primeiras histórias e sua relação com o contexto de extrema pobreza da Grande Depressão, mas pouca atenção é destinada para entender a especificidade desta figura em sua conexão com a modernidade capitalista. Vou tentar, ao longo deste texto, mostrar que esta conexão se deve principalmente àquilo que torna os super-heróis tão facilmente reconhecíveis: seus famosos super-poderes. Embora habilidades sobre-humanas sejam elementos de histórias fantásticas há milênios, as habilidades dos super-heróis distinguem-se de outras por refletirem e extrapolarem certos aspectos do nosso modo de vida contemporâneo. Esta forma de reflexão e extrapolação está conectada com o fenômeno social do fetichismo.

O que é fetiche?

Fetiche

Fetiche

“Fetiche” foi o nome europeu dado a pequenas estátuas de madeira de uso ritual produzidas na África Ocidental com o fim de representarem ou abrigarem espíritos. A partir deste exemplo, fetiche passou a designar de maneira geral toda representação objetificada de uma potência ou um agente que captura imaginariamente esta potência ou agente eles mesmos. Fetiches são, portanto, ídolos ou idolatrizações de objetos que de algum modo funcionam como representantes de algo que está além de sua materialidade imediata. Dessa forma, são intrinsecamente conectados a práticas religiosas ou mágicas, mas não se restringem a este domínio, podendo estar presentes nas mais diversas práticas numa infinidade de ritualizações e superstições.

O valor como um objeto vivo e reprodutivo

O valor como um objeto vivo e reprodutivo

Em nosso mundo pós-iluminista, entretanto, tendemos a ver a nossa sociedade como “desencantada”, isto é, um tanto blindada a grande parte das mistificações mais diretas (pelo menos as desconectadas com as grandes religiões monoteístas). Porém, Marx fez notar que, embora o advento do capitalismo atinja fortemente a vigência do fetichismo mágico-religioso, ele ao mesmo tempo traz consigo uma nova e poderosa forma de fetichização, que se tornará talvez ainda mais difundida. No capitalismo, produzem-se coisas para que sirvam como mercadorias, isto é, para que possam ser trocadas por outras mercadorias (ou pelo dinheiro, como representante de todas as mercadorias). Dessa maneira, cada mercadoria, tão logo é produzida, entra num conjunto de relações de troca potenciais com todas as demais mercadorias produzidas naquela sociedade. Conforme as trocas ocorrem, na medida das relações entre as mercadorias, se oculta o processo causal que possibilitou que estas trocas se dessem, isto é, as múltiplas etapas de trabalho e de comunicação entre os indivíduos que permitiram a estas mercadorias se comportarem como tal. Para Marx, tudo se passa como se as mercadorias, como fetiches, estivessem tomando para si a potência de agir e de socializar dos homens, enquanto priva destes esta potência, que só se torna novamente acessível por meio das mercadorias-fetiches. Por certo, Marx chama a este processo de fetichismo para ironizá-lo, mas a ironia é tanto mais válida por ser real (1). Se no fetiche mágico-religioso a magia passa a ter certa realidade por os homens se comportarem em relação aos objetos mágicos como se eles tivessem as propriedades que imaginam que tem, no fetichismo da mercadoria atribuir propriedades fantásticas às mercadorias é a única forma de realmente compreender a sua realidade.

Fetichismo, tecnologia e super-poderes

A x-men Tempestade

A x-men Tempestade

Tais como ídolos, super-heróis são detentores de propriedades fantásticas, embora os primeiros sejam objetos de uso enquanto os últimos são criados para funcionar exclusivamente num mundo fictício. As propriedades destes heróis são potências que tomam uma forma bem definida e são possuídas por cada super-ser quase como uma coisa (inclusive com uma representação visual fixa, o que ajuda a compor, com o uniforme e aparência, a identidade do personagem). O que diferencia estes seres dos humanos comuns é aquilo que só eles podem, mas essa diferença é concebida como um “poder” distinto, que pode ser entendido por si só sem referência ao personagem. Um personagem “pode” soltar raios pelos olhos, outro “pode” correr mais rápido que a velocidade da luz, mas esses poderes não significam que eles sejam representações ou avatares dessas forças. Os personagens detém certos poderes, mas não os personificam. Por exemplo, uma personagem como a Tempestade (da Marvel Comics) controla o clima, mas esse controle não significa nem que ela se confunda com o próprio clima, nem que tenha uma autoridade cósmica sobre ele, diferenciando-se, assim, de uma figura como o Zeus mitológico.

Zeus converte-se em chuva dourada para fecundar Danae

Zeus converte-se em chuva dourada para fecundar Danae

Essa independência do super-poder em relação ao personagem pode ser bem exemplificada pela evolução de como as capacidades do Super-Homem são entendidas em suas histórias. Originalmente pensado como um representante de uma raça de homens extremamente “evoluídos”, o Super-Homem era apresentado como um ser capaz de realizar prodígios físicos, como os exemplificados na sua introdução clássica: “Mais rápido que uma bala, mais poderoso que uma locomotiva, capaz de saltar por cima de um prédio com um único pulo”, etc. Paulatinamente, entretanto, essas proezas deixam de exemplificar o conceito de um ser extraordinário para serem descrições de super-poderes específicos (super-velocidade, super-força, super-salto). É como se, a partir de um momento, não fosse mais o conceito do personagem que explicasse suas capacidades, mas as capacidades que se definissem por si mesmas.

Dezenas de super-poderes para centenas de super-heróis

Dezenas de super-poderes para centenas de super-heróis

A independência dos super-poderes em relação aos seus detentores reflete a separação entre efeito e causa na relação que travamos no mundo contemporâneo com os objetos pelos quais manipulamos forças. Essa relação é próxima daquela do fetichismo, no qual potências são apropriadas, imaginária ou realmente, abstraídas das suas formas de existência materiais, e rematerializadas na forma de coisa, o fetiche. Fetiches podem ser utilizados como instrumentos para exercer uma força ou atingir um efeito sem a necessidade de reproduzir materialmente um processo causal para tanto (como usar um talismã para proteção ou usar dinheiro para trocar o produto do seu trabalho pelo de outro trabalhador). O fetiche, dessa maneira, mantém o efeito separado de sua causa, seja substituindo causas reais por causas simbólicas ou alegóricas.

Homem de Ferro, o herói tecnológico

Homem de Ferro, o herói tecnológico

A tecnologia também tende a separar os efeitos úteis das causas pelos quais ele vêem a acontecer. Enquanto no passado para se escutar música se necessitava fazer funcionar uma série de distintos instrumentos, cada um com um modo próprio de tocar, agora podemos escutar a mesma música em uma variedade de meios automáticos (vinil, cd, digital, etc.) com diferenças desprezíveis entre eles. Uma infinidade de processos causais se abrevia, se dissimula e se indiferencia na figura de uma mesma parte de instrumento, o botão (ou comando vocal, ou representação digital de um botão). No entanto, há uma diferença fundamental entre a abstração que a técnica opera e a aquela do fetichismo verdadeiro. O objeto técnico que serve de suporte para um efeito útil só funciona como tal enquanto opera um processo causal que produz materialmente o efeito desejado. O fetiche, por sua vez, se assenta na ausência mesma de tal processo (de forma que uma nota de papel que incorpora materialmente pouquíssimo tempo de trabalho passa a incorporar socialmente um tempo muito maior como seu valor). Portanto, podemos dizer que, embora nos relacionemos com objetos técnicos diariamente tais como se fossem fetiches, esta fetichização é superficial e, ao fim, falsa como processo mais que psicológico, uma vez que tem por base e limite o processo técnico real.

São músculos de aço que rompem as correntes?

São músculos de aço que rompem as correntes?

É desse modo que podemos também entender a lógica dos super-poderes. Ela tem por base a mesma de abstração do efeito em relação às causas que caracteriza o fetichismo. Porém, distintamente das narrativas míticas em que potências abstratas se encarnam em deuses ou objetos mágicos, nas histórias de super-heróis os poderes se tornam coisas, possuídas e usadas como instrumentos tão simplificados que se reduzem ao seu próprio efeito ou utilidade. Para se levantar um carro do chão, um super-herói precisa usar somente a sua super-força, não um guindaste ou alavanca. Os super-poderes representam ficticiamente a ânsia tecnológica de se apropriar de qualquer potência da forma mais simples e direta.

Uma palavra mágica e Billy Batson torna-se o mortal mais poderoso da Terra

Uma palavra mágica e Billy Batson torna-se o mortal mais poderoso da Terra

Esta ânsia de representar imaginariamente o desejo impossível de se apropriar de uma força diretamente, sem meios intermediários, se reflete na indiferença dos super-poderes em relação às “explicações” sobre como eles seriam possíveis. Só nas suas primeiras décadas, os poderes do Super-Homem tiveram nada menos que três diferentes explicações ou origens, sem que nenhuma delas representasse um limite real para o surgimento de novos poderes ou para restringir a modificação de antigos. De forma ainda mais sintomática, em 1963 Stan Lee criou uma única explicação para qualquer poder que aparecesse nas páginas de X-Men: algumas pessoas simplesmente nascem diferentes… Livrou a si e aos escritores subsequentes de ter que criar histórias e teorias pseudocientíficas para explicar cada novo personagem e habilidade. Reflete-se, assim, a indiferença do super-poder, como potência ou efeito, em relação a qualquer processo causal (ou sentido simbólico) que possa o efetuar. Pouco importa se é fruto de músculos super-desenvolvidos ou de telecinese, se é possuída por um extraterrestre ou um mutante, a super-força é a mesma.

Os X-Men em ação (arte de George Pérez e Terry Austin, texto de Chris Claremont).

Os X-Men em ação (arte de George Pérez e Terry Austin, texto de Chris Claremont).

Mostra-se, assim, a conexão destas representações tão vistosas e fantásticas com o fetichismo psicológico que reveste os objetos técnicos. Tudo se passa como se aquilo que não poderia ser suprimido no mundo real, a própria existência do objeto técnico, desaparecesse para deixar o próprio efeito útil, livre de amarras, na posse de alguns felizardos, encapsulados em seus universos de papel ou filme. É como se, nestas histórias, o mundo reinventasse um novo encantamento, à prova de balas e com espírito aventureiro.

Nota:

1. “Como os produtores somente entram em contato social mediante a troca de seus produtos de trabalho, as características especificamente sociais de seus trabalhos privados só aparecem dentro dessa troca. Em outras palavras, os trabalhos privados só atuam, de fato, como membros do trabalho social total por meio das relações que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio dos mesmos, entre os produtores. Por isso, aos últimos aparecem as relações sociais entre seus trabalhos privados como o que são, isto é, não como relações diretamente sociais entre pessoas em seus próprios trabalhos, senão como relações reificadas entre pessoas e relações sociais entre as coisas.” MARX, K. O Capital. São Paulo: Abril Cultural, 1983. L. 1, v. I, p. 71

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