A “desejável” visita de Mafalda à aula de História: breves reflexões

* Texto de Carlos Eduardo Rebuá Oliveirai

Mafalda

Mafalda

Mafalda é, sobretudo, uma personagem crítica, que não aceita o mundo que “recebeu”, que o questiona constantemente a partir de seus referenciais, num movimento híbrido, que ora compreende atitudes de uma criança “típica” (que tem medo, que depende dos pais, que é ingênua…) com atitudes de uma criança excepcional (não no sentido de ser uma superdotada), que constrói belas metáforas (“saindo” da dimensão do concreto, que caracteriza a criança em seus anos iniciais), lúcida, crítica, que consegue discutir a Guerra do Vietnã, por exemplo, e muitas vezes colocar os adultos em situações embaraçosas.

A criticidade na aula de História é requisito fundamental, bem como a associação entre processos históricos, a identificação de rupturas e permanências ao longo do tempo. Mafalda faz isso a todo instante, analisando criticamente a realidade da qual faz parte sem buscar uma pretensa neutralidade, outro requisito importante nos debates realizados numa aula de História, ou seja, tomar partido!

Na dissertação que deu origem a este texto, Mafalda foi analisada buscando investigar como é possível, a partir da baixinha argentina, “tocar” em elementos basilares do tipo de sociedade da qual fazemos parte, grosso modo, há mais de duzentos, tais como: o individualismo, a democracia (burguesa), o estímulo ao consumo, a valorização do lucro, a propriedade privada, o progresso, o livre-comércio, a naturalização das diferenças, a desumanização e a competição. Neste breve texto, será discutida uma tira apenas: a propriedade privada (a seguir).

Obviamente, não se trata de um manual de como analisar Mafalda. O que está em jogo é o exercício crítico de se pensar uma (s) possibilidade (s), em meio a tantas outras, de se analisar política e criticamente as histórias em quadrinhos – fruto de inúmeras análises descontextualizadas, acríticas, despolitizadas – tendo como lastro fundamental diferentes fatos/processos históricos estudados nesta disciplina escolar, tantas vezes considerada “menor” que a Matemática e/ou a Língua Portuguesa, por exemplo.

Creio que os elementos acima destacados provocam discussões profícuas na aula de História, mas é claro que muitos outros podem ser trabalhados, como a memória, o feminismo, os regimes civil-militares, etc. A preocupação, aqui, foi abordar alicerces da sociedade de tipo burguês. Fica a “lacuna” a ser preenchida por outras abordagens, preocupadas com outros aspectos da obra de Quino.

Massera, Videla e Agosti: os líderes da primeira Junta Militar que comandou a Argentina em sua última ditadura

Massera, Videla e Agosti: os líderes da primeira Junta Militar que comandou a Argentina em sua última ditadura

Mafalda, que é a personagem de histórias em quadrinhos (hq’s) mais popular da Argentina e uma das mais conhecidas no mundo, teve uma curta trajetória (1964 a 1973). Ao contrário do que muitos acham, Mafalda não foi contemporânea da ditadura do triunvirato Videla, Massera e Agosti, conhecida como Proceso de Reorganización Nacional (1976-1983), um dos seis golpes civil-militares pelo qual aquele país passou no século XX e que deixou um saldo de cerca de trinta mil mortos/desaparecidos .

A personagem de Quino “nasceu” numa década bastante conturbada, a de 1960, e viu começar a seguinte, também turbulenta. “Surgiu” durante o governo de Arturo Umberto Illia (1963-1966), derrubado em 28 de junho de 1966 por outro golpe, menos conhecido aqui no Brasil e cujo saldo de mortos/desaparecidos foi menor que no período do Proceso (ainda que tenha sido a segunda ditadura mais sangrenta da Argentina no século passado). Era a chamada Revolução Argentina, que colocou no poder os generais Onganía, Levingston e Lanusse.

Desta forma, é possível estabelecer vínculos entre o período histórico argentino, retratado em Mafalda e a realidade brasileira no mesmo momento (Quino começa com Mafalda no mesmo ano em que no Brasil é deflagrado o Golpe que “duraria” vinte e um anos), com ressalvas no sentido de que a Argentina presenciou muito mais momentos de “exceção”, de repressão, que o Brasil. Somente o período do Proceso matou quase trinta vezes mais que a ditadura brasileira, sendo que a ditadura “deles” durou sete anos, um terço do tempo da “nossa”!

O imprescindível Quino

Quino e sua ‘obra-prima’ no bairro portenho de San Telmo, onde residiu

Quino e sua ‘obra-prima’ no bairro portenho de San Telmo, onde residiu

Sem dúvida, Quino é um dos artistas mais completos que surgiram em nuestra America, na medida em que Mafalda (que só “existe” nas relações que constrói com seus pais, com Manolito, Miguelito, Susanita, Felipe, Libertad e Guile, seu irmão), que não representou uma série de hq’s na forma de gibi (como a Turma da Mônica, por exemplo), que é bastante “datada” (trata da Guerra Fria, das ditaduras na América Latina, etc.) e que “durou” apenas sete anos, conseguiu ser traduzida em países como Japão, Noruega, Austrália, sociedades bastante distintas das existentes em nosso continente, e a despeito disso, fez e ainda faz bastante sucesso.

O enorme alcance da obra de Quino (cuja genialidade de forma alguma se refere apenas a Mafalda – existe um “outro” Quino extremamente rico para além dela) se deve ao fato de que o artista argentino construiu críticas, abordou questões “permanentes”, “tocou” os sentidos das pessoas de uma maneira que não está limitada a um tempo/espaço definidos, como a questão da liberdade ou do que é a soberania de um povo, por exemplo. Talvez esta seja a marca mais fundamental de um gênio, seja ele Beethoven, Dostoiévski ou Quino.

Após ser perguntado se é possível modificar algo através do humor, Quino afirmou certa vez: “Não. Acho que não. Mas ajuda. É aquele pequeno grão de areia com o qual contribuímos para que as coisas mudem”.ii Não tenho dúvidas de que Mafalda e sua turma representam importantes “grãos de areia” na construção de outras leituras/interpretações de nossa realidade, e logo, no limite, na construção de um outro mundo possível e necessário.

A crítica Mafaldiana aos elementos característicos da sociedade burguesa

Tira : A propriedade privadaiii

Tira: A propriedade privada

Tira: A propriedade privada

A tira acima aborda o tema da propriedade privada de uma maneira extremamente divertida e crítica. Através de Mafalda, Libertad e Susanita, Quino mostra com clareza, em apenas três quadros, o panorama sócio-político da Guerra Fria, quando o mundo estava dividido entre os blocos capitalista e socialista e o medo do espectro vermelho assombrava a classe média de vários países, inclusive na América Latina. O receio de que os comunistas, caso tomassem o poder, se apropriassem das residências e a dividissem entre cinco, seis ou mais famílias tirou o sono de muita gente em nuestra America.

Na casa de Susanita, as três meninas brincam de construir casas, castelos, com um jogo de peças de montar, que pertence à burguesinha da turma. De repente, Libertad, a pequena radical da turma, pergunta à Mafalda (enquanto Susanita está distraída) se ela já percebeu que é comum nas reportagens de tevê, políticos serem perguntados se defendem ou não a propriedade privada. Após Mafalda responder que já havia notado, Libertad se dirige à Susanita e pergunta se ela é a favor ou contra a propriedade privada. Então, eis que Susanita rapidamente junta todas as peças de seu jogo, e encolhida no canto da sala, com expressão de temor, pergunta: “Depende… propriedade privada de quem?” Mafalda e Libertad, como de praxe, ficam sem palavras, diante do egoísmo gigantesco da amiga aristocrata.

A propriedade privada, que para Marx era sinônimo de divisão social do trabalhoiv, talvez seja o ponto mais polêmico ao se discutir os elementos característicos da sociedade burguesa. Propor sua abolição então é quase uma heresia. Segundo Marx e Engels, defender o fim da propriedade privada não é exclusividade dos comunistas (a Revolução Francesa aboliu a propriedade feudal, instituindo a propriedade burguesa). Para os pensadores alemães,

“O que caracteriza o comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Mas a moderna propriedade privada burguesa é a última e mais perfeita expressão do modo de produção e de apropriação baseado nos antagonismos de classes, na exploração de uns pelos outros. Nesse sentido, os comunistas podem resumir sua teoria numa única expressão: supressão da propriedade privada”v.

Na segunda parte do Manifesto (Proletários e Comunistas), Marx e Engels respondem a seus críticos, explicando porque defendem o fim da propriedade privada, da família burguesa, da pátria, da nacionalidade. Ao falar da supressão da propriedade privada, afirmam:

“Horrorizai-vos porque queremos suprimir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está suprimida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Censurai-nos, portanto, por querermos abolir uma forma de propriedade que pressupõe como condição necessária que a imensa maioria da sociedade não possua propriedade. Numa palavra, censurai-nos por querermos abolir a vossa propriedade. De fato, é isso que queremos”vi.

Na ideologia liberal, a propriedade privada representa elemento central, estando profundamente vinculada à concepção de indivíduo e de liberdade. O indivíduo é um indivíduo uma vez que é proprietário, assim como sem propriedade não pode existir liberdade, não se pode existir como cidadão, como sujeito de direitos políticos. Além disso, indivíduo, propriedade, organização política, liberdade, são todos compreendidos, na concepção liberal, como fenômenos naturaisvii.

A perspicácia de Quino mais uma vez surpreende, ao utilizar sua “interlocutora para assuntos burgueses”, Susanita, para tocar numa questão extremamente delicada, quase um tabu entre a grande maioria dos indivíduos. Através do traço genial e, principalmente, da riqueza do texto, o cartunista argentino, sem a pretensão de mostrar o que acha da questão, indica que a grande dificuldade em relação à propriedade privada, à discussão sobre sua natureza, é justamente superar a perspectiva individualizante, egoística, que refuta vigorosamente qualquer projeto sintonizado com a construção de uma sociedade justa, plural, livre, na qual, como afirmaram Marx e Engels, o livre desenvolvimento de cada pessoa é a condição primeira para o livre desenvolvimento de todos.

Para concluir…

A baixinha Mafalda pensa e age a partir “de baixo”, em seu duplo (múltiplos?) sentido (s). Defender outra educação possível, outra escola, é defender outra sociedade, e a crítica Mafaldiana sobre os problemas da sociedade contemporânea, onde todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outrosviii, sem dúvida pode ajudar bastante o professor que “enxerga” o mundo a partir de uma perspectiva contra-hegemônica.

Madres de Plaza de Mayo: o principal movimento social na luta pela memória dos 30.000 desaparecidos da ditadura argentina

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Neste breve texto, foram provocadas discussões que permitam aos alunos fazer outras leituras e colocar as suas, na roda da polêmica, como exposto aqui. Não queremos construir um discurso único, um caminho num só sentido, mas exercitar a crítica na aula de História, problematizando o mundo de hoje a partir dos olhares de Mafalda e seus amigos, que continuam atuais, dentre outros motivos, porque não “vivem” num mundo fictício, não interpelam uma realidade fantástica, mas sim um mundo real, concreto, definido no tempo/espaço (décadas de 1960 e 1970, na América Latina), com todos os seus conflitos (Guerra Fria, embates entre regimes civil-militares e grupos de esquerda, movimentos de independência/libertação, etc.) e contradições.

A enorme criatividade de Quino e a envergadura de sua obra permitiriam inúmeras interpretações, leituras e outras tantas análises críticas, que podem ou não concordar com sua perspectiva. A tira aqui analisada e “rotulada” pode se somar a inúmeras outras, assim como podem ser reinterpretadas, coletivamente, no espaço diverso e contraditório da aula de História, inconcebível sem a crítica do real, sem a polêmica, sem o diálogo constante com o mundo de “fora” da escola; um mundo “doente” – segundo Mafalda – que merece, na sala de aula, a mesma importância dedicada pela baixinha argentina, cuja imagem ao lado do globo terrestre já se imortalizou.

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i Doutorando em Educação da UFF (PPGE); mestre em Educação pela UERJ (ProPEd); bacharel e licenciado em História pela UFF; professor de Ensino Superior e da Educação Básica. Bolsista CAPES. Email: eduardorebua@yahoo.com.br. Este texto é fruto da dissertação de mestrado em Educação apresentada em 2011, no ProPEd/UERJ: REBUÁ, Eduardo. Mafalda na aula de História: a crítica aos elementos característicos da sociedade burguesa e a construção coletiva de sentidos contra-hegemônicos. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – ProPEd/UERJ. Rio de Janeiro, 2011.

ii Em entrevista traduzida para o português pelo site http://www.mafalda.net/ (sem data).

iii QUINO, 2002, p. 388 e p. 368, respectivamente.

iv “Divisão do trabalho e propriedade privada são expressões idênticas; o que uma diz sobre a atividade é o que a outra diz sobre o produto da atividade” (MARX apud KONDER, Leandro. A questão da ideologia. São Paulo: Cia das Letras, 2002, p. 41).

v Op. cit., p. 52.

vi Ibidem, p. 54.

vii ACANDA, Jorge Luis. Sociedade civil e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006, pp. 80-81.

viii Parafraseando George Orwell, em “A Revolução dos Bichos”: ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. São Paulo: Círculo do Livro, 1974.

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2 respostas para A “desejável” visita de Mafalda à aula de História: breves reflexões

  1. paulo disse:

    ótimo texto, muito bom mesmo, parece não haver liberdade nem de se discutir o assunto, que as pessoas ficam em pânico e lhe desqualificam na hora.

Comentários

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