Liberdade, Folia e Luta: contradições e desafios do carnaval do Rio de Janeiro

*Por Diogo Eduardo e Hugo Duarte.

“O carnaval é e sempre será um ato político. É a incorporação da arte no cotidiano. Lutar para preservar sua potência é lutar por uma rua que nos é sempre tirada. Avancemos foliões! Viva o carnaval, viva o Zé Pereira e o Saci Pererê. Viva o sorriso doce dos que desobedecem. Em tempos de tanques nas ruas, não retrocedamos, com a certeza de que um dia o exército de palhaços vencerá!” (Manifesto do Carnaval de Rua da Desliga dos Blocos do Rio de Janeiro)

A maior festa popular do país está prestes a começar. Confetes, serpentinas, fantasias e desfiles vão preencher o Sambódromo e as ruas da cidade que é hoje a grande vitrine mundial da folia. Os números retratam um pouco as dimensões desse evento: em 2013, segundo os dados da Secretaria de Turismo do Rio de Janeiro, o carnaval atraiu mais de 5,3 milhões de foliões, dos quais mais de 1 milhão e 200 mil eram turistas, gerando uma renda estimada em 848 milhões de dólares. Além dos tradicionais desfiles das Escolas de Samba, a cidade reuniu 492 blocos autorizados pela prefeitura, em cortejos pelos mais diversos bairros da capital.

Cordão do Boitatá. Foto: Juliana Lessa.

Cordão do Boitatá. Foto: Juliana Lessa.

O carnaval carioca atrai corações e mentes não apenas de Pierrôs e Colombinas, mas principalmente do poder público e da iniciativa privada que, a cada ano, vem demonstrando mais afinidade na transformação da folia em um produto, cujo retorno financeiro não para de crescer. Os patrocínios e as parcerias entre o Estado e as empresas privadas estão assumindo a marcação e ditando o compasso da festa. As Escolas de Samba são exemplos concretos desse horizonte nebuloso. No último ano, a Vila Isabel foi campeã com o samba-enredo “A Vila canta o celeiro do mundo”, patrocinada pela Basf, empresa química multinacional. O vice-campeonato ficou com a Beija-Flor, responsável por trazer para a avenida a história de uma raça de cavalo, financiada em cerca de R$ 6 milhões pela Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Mangalarga Marchador.

A Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) não proíbe o financiamento privado, restringe somente a apresentação de marcas ou de qualquer tipo de merchandising, implícito ou explícito, na passarela, com o objetivo único de proteger os parceiros comerciais da Rede Globo, que detém os direitos de transmissão dos desfiles. Além dos patrocínios e dos repasses realizados pela maior empresa de telecomunicações do país, as Escolas contam ainda com contribuições dos governos estadual e municipal. A renda das agremiações é complementada também, em menor escala, por shows, ensaios, bailes e eventos, ao longo do ano.

A falta de autonomia e de liberdade criativa das Escolas de Samba na escolha dos sambas-enredo é apenas a ponta do iceberg do processo de mercantilização e profissionalização da festa, que ganhou novos contornos a partir da década de 1980 e que, mais recentemente, atinge também os blocos de rua da cidade. Em 2009, a Prefeitura do Rio de Janeiro lançou um edital para firmar uma parceria público-privada para atuar na organização do carnaval de rua da cidade. Desde 2010, a Ambev assumiu a concessão, investindo em infraestrutura e ganhando direitos de propaganda e de comercialização da cerveja Antártica.

Carnaval monocromático, patrocinado pela Ambev.

Carnaval monocromático, patrocinado pela Ambev.

A parceria ganhou o apoio da Sebastiana, liga formada pelos maiores blocos da Zona Sul, de Santa Teresa e do Centro e que atualmente é a principal afilhada do poder municipal. Outros blocos estão surgindo e novos grupos já estão sendo formados para representá-los, como é o caso da Liga Carnavalesca Amigos do Zé Pereira, que defende a profissionalização como um caminho sem volta. Grande parte dos novos foliões que despontam no cenário acena para pegar carona no percurso que já vinha sendo percorrido por alguns blocos tradicionais da cidade nos últimos anos. Captar recursos públicos e privados e garantir a apresentação em casas de shows da cidade e do país passou a ser a primeira meta na pauta desses foliões.

Os desdobramentos do gigantismo e da rentabilidade do carnaval carioca estão diretamente ligados às demandas da sociedade capitalista, que procura mercantilizar a vida em todas as esferas das relações sociais. A folia, portanto, se insere na lógica da indústria cultural, que transforma as formas de expressão e de representação da realidade em um produto a ser comercializado.

Vale lembrar que o Rio de Janeiro não está isolado e que essa apropriação da cultura pelo capital poder ser também percebida em outros carnavais pelo país, com as particularidades históricas e os elementos artísticos específicos de cada evento. As cordas e os abadás presentes de forma ostensiva no carnaval de Salvador, por exemplo, demonstram a dimensão desse processo de mercantilização e servem inclusive como alerta para os riscos cada vez maiores de expansão da privatização da folia.

Esse cenário desolador pode levar a sedimentação de generalizações equivocadas sobre o carnaval, relacionadas principalmente à romantização das origens ou à idealização dos significados políticos da festa. Não são raros os argumentos daqueles que defendem um retorno ao passado distante da folia, como se o carnaval tivesse sido constituído por uma essência de harmonia, liberdade e igualdade plena. Também é recorrente o entendimento do carnaval como uma mera válvula de escape das tensões sociais, destinada somente à manutenção da ordem. Essa tese conservadora parte do pressuposto que a folia teria apenas o papel político de controle social, o que de certa forma acaba por desconsiderar as contradições e as formas de resistências construídas ao longo do tempo.

Experiências concretas de resistência: Cordão do Boi Tolo e Desliga dos Blocos

No Rio de Janeiro, há um fenômeno que podemos considerar a faísca e uma das saídas para os impasses impostos pelo capital ao carnaval. Em 2006, vários foliões comparecerem à Praça XV para o desfile do Cordão do Boitatá. Ao não encontrarem o bloco, que havia mudado a data de seu desfile para evitar multidões, surgiu de forma espontânea um dos grupos que levanta de maneira mais forte a bandeira contra a mercantilização do carnaval e da defesa da liberdade criativa das manifestações culturais populares, o Cordão do Boi Tolo. Desde seu surgimento, o Boi Tolo se notabilizou por fazer uma folia que percorre a cidade, sem trajetos definidos, sem cordas e sem limites para a expressão libertária da festa.

Estandarte do Cordão do Boi Tolo. Foto: Pedro Esteban.

Estandarte do Cordão do Boi Tolo. Foto: Pedro Esteban.

Já em 2009, o governo de Eduardo Paes lança os primeiros decretos para regulamentar o carnaval. O poder municipal passa a exigir que os blocos peçam autorização para desfilar, preenchendo um requerimento que deve incluir dados do desfile como o público estimado, o local de início e término, se há patrocinador, carro de som, etc. A falta de diálogo tem sido a marca dessa normatização, pois os canais de comunicação ficam restritos ao cumprimento das regras burocráticas, cabendo à Prefeitura a tutela para definir quais blocos desfilarão. A falta de debate e de critérios claros representa o cerceamento da liberdade de organização dos blocos, através da imposição de medidas arbitrárias que têm por objetivo de favorecer os interesses privados dos patrocinadores e das empresas vencedoras das licitações.

Esse processo foi acompanhado pelo surgimento da Desliga dos Blocos do Rio Janeiro, reunindo o Boi Tolo e outros blocos para amplificar a resistência à mercantilização do carnaval e defender a liberdade criativa das manifestações populares. A Desliga passou a atuar na organização de atos irreverentes e questionadores, através das Bloqueatas e das Aberturas do Carnaval Não Oficial. Nos últimos eventos, passaram a ecoar não somente as bandeiras relacionadas diretamente ao carnaval, mas também às pautas de outras lutas sociais, como as críticas à Copa do Mundo de Futebol e os questionamentos aos governos municipal e estadual.

O potencial transformador do carnaval

 A recente experiência histórica do Cordão do Boi Tolo e da Desliga dos Blocos demonstra a existência de reais possibilidades de resistência e de construção de uma autonomia popular frente à mercantilização e à domesticação da folia pela indústria cultural. Se é inegável a instrumentalização do carnaval como meio para o exercício do controle social, é também fundamental o reconhecimento do potencial transformador dessa festa popular. Longe de ser um espaço homogêneo, harmônico e distante das disputas políticas, ele é terreno da luta de classes e de conflitos sociais, sendo marcado, portanto, pela dialética relação entre dominação e resistência.

"Vai ter Carnaval, mas não vai ter Copa".

“Vai ter Carnaval, mas não vai ter Copa”.

O carnaval não é somente uma inversão dualista e temporária do social, representada pelo caráter simbólico das máscaras e das fantasias que, por fim, estariam fadadas a justificar de maneira conservadora o mundo. Ele é um instrumento de ação que pode fazer uso da quebra das hierarquias e da crítica irreverente e satírica da realidade para a transformação social. É por isso que deve ser ampliada a tarefa de incorporação de pautas políticas e sociais nos dias de folia.

Os desafios são gigantescos e os meios de resistências certamente não estão restritos à atuação do Boi Tolo e da Desliga. Novos canais de atuação devem ser criados, sem perder de vista a formação da necessária unidade. É preciso fazer com que a criatividade da festa seja também o combustível para a construção de uma sociedade justa e igualitária para além da quarta-feira e do Rio de Janeiro.

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