Imprensa nanica em perspectiva: ditadura e alternativa editorial

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Ex- foi o único jornal a questionar abertamente a tese do suicídio de Wladimir Herzog, em 1975. O título desse periódico referia-se a tentativas anteriores e efêmeras de sua equipe em Realidade, Bondinho, Grilo etc.

* Texto de autoria de Hugo Bellucco, doutorando em História pela UFF.

Na história da imprensa no Brasil, há dois momentos especialmente marcantes quanto à existência de circuitos de jornais voltados para o questionamento prático das formas dominantes do jornalismo e da ordem social: a imprensa operária da Primeira República e a chamada “imprensa alternativa” dos anos 1970. Nesses dois exemplos, registra-se uma quantidade incomum de iniciativas simultâneas, em contraste com o caráter frequentemente disperso das tentativas de exercer a função que o escritor João Antônio atribuiu, em 1975, aos periódicos batizados por ele de nanicos: “indagar, questionar, duvidar, abrir para o diálogo e para o debate”[1].

Diferente da imprensa operária, o grupo de jornais da década de 1970 posteriormente consagrados pela categoria “imprensa alternativa” não corresponde a uma posição de classe específica. Sua emergência ocorre, antes, a partir de uma grande diversidade de grupos identificados com movimentos de contestação política e de renovação estética e cultural. Essa marca lhe confere o sentido histórico de uma frente editorial e também revela a imprecisão do rótulo, que sugere uma unidade de perspectivas que não existiu. Da mesma forma, experiências importantes não entraram na definição historiográfica consagrada, como a imprensa clandestina, os jornais do movimento sindical, das associações de bairro e outras inúmeras formas de comunicação que também escapam ao modelo hegemônico. Lembre-se também das experiências pontuais de inovação no interior da própria imprensa liberal, como no suplemento cultural do JB nos anos 1950, na fase áurea da revista Realidade entre 1964 e 1969,no projeto da Folha de São Paulo do final dos anos 1970 (sob a liderança do memorável Cláudio Abramo) e outros. No âmbito da própria “imprensa alternativa” não faltaram conflitos internos, como nas polêmicas da época em torno das ambiguidades do discurso d’ O Pasquim, nas dissidências e rachas de Movimento, Em Tempo e O Beijo, nas mudanças de rota com a prática do entrismo de grupos como o PC do B em Opinião e a Convergência Socialista em Versus e tantos outros episódios turbulentos que marcam a crônica da imprensa oposicionista sob a ditadura.

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Opinião foi idealizado pelo empresário nacionalista e editor Fernando Gasparian e dirigido pelo jornalista Raimundo Pereira. Esse semanário foi o primeiro jornal a apontar as fragilidades e problemas do chamado “milagre econômico” e serviu como plataforma de divulgação do grupo dos “autênticos” do MDB. Também abriu espaço, em suas páginas, para o trabalho de ilustradores e chargistas como Elifas Andreatto, Luis Trimano e Cassio Loredano, além de trazer as análises de conjuntura produzidas por sociólogos universitários como Francisco de Oliveira, Paul Singer e Francisco Weffort. A seção de cultura de Opinião trazia resenhas, polêmicas e artigos de diferentes gerações de críticos de música, artes plásticas e literatura, elevando o nível do jornalismo brasileiro na década de 1970 e demonstrando na prática a superioridade da produção cultural dos grupos de diversas áreas situados na oposição ao regime.

A maioria daqueles periódicos teve tiragem reduzida e duração efêmera. O maior sucesso de vendas foi, sem dúvida, O Pasquim, que chegou a vender 200.000 exemplares em 1970. Em suas fases iniciais, os outros dois grandes semanários “alternativos” – Opinião e Movimento -, possuíam uma tiragem média de 20.000 a 25.000 exemplares. Em Movimento(1975-1981), a propriedade do jornal era coletiva e o sistema militante de distribuição e venda conferiu àquele periódico uma expressão nacional. Chico Mendes, por exemplo, foi seu representante e divulgador no Acre. Movimento foi a expressão mais completa da proposta frentista inaugurada com Opinião (1972-1977), divulgando e discutindo as grandes campanhas e movimentos da segunda metade da década de 1970: a campanha pela anistia, o debate em torno das grandes greves e do novo sindicalismo, o Movimento contra o Custo de Vida, a discussão sobre a Constituinte, a criação dos novos partidos, os congressos da SBPC, a cobertura dos motins populares contra as condições do sistema de transportes, as revoluções antiimperialistas na América Latina e na África, os novos movimentos sociais, etc.

Em carta de 1970, Torquato Neto manifestava a Hélio Oiticica sua percepção da relevância estratégica do espaço do jornalismo naquele momento: “Aqui no Brasil, agora e de repente, essas transas de jornais assumiram uma importância estratégica das mais fantásticas e eu acredito que todos nós, de qualquer jeito metidos na transa, devemos arriscar.[2]. Os anos seguintes confirmariam a intuição do poeta, que não viveria para assistir à multiplicação impressionante dos nanicos. A posição de Torquato era mais próxima do grupo tropicalista, da estética da Marginália, das experiências de Oiticica, Rogério Duarte e Wally Salomão e das intervenções concentradas na revista Navilouca. Mas a sua percepção da importância estratégica dos jornais era comum a grupos e autores de diferentes procedências, perfis e gerações. Ela ressoaria, por exemplo, na apresentação que Florestan Fernandes escreveu em 1980 para uma coletânea de seus “compactos críticos”, artigos e entrevistas de sua autoria:

DSCN2688Os pequenos jornais da ‘imprensa alternativa’(ou nanica) e os jornalistas rebeldes avançaram a ponto de serem o meio necessário – e por vezes único – da frente mais avançada de contestação e de luta. O ‘compacto crítico’ era, de fato, um trabalho de cooperação, que tirava o intelectual do isolamento e delimitava as fronteiras da história viva[3].

A importância daqueles espaços editoriais como espaço de atuação também se revela na frequência sistemática da colaboração de poetas como Cacaso e Ana Cristina César em Opinião e O Beijo, nas resenhas e artigos de intelectuais como Celso Furtado, Nelson Werneck Sodré, Clóvis Moura, Francisco Weffort, Carlos Nelson Coutinho e Francisco de Oliveira em Opinião e Movimento, nas crônicas, charges e entrevistas de Millôr Fernandes, Fortuna, Jaguar e Henfil em PIF_PAF (fundado em junho de 1964, três meses após o golpe) e no Pasquim, nas reportagens literárias de João Antônio, Julio Cortázar, Marcos Faerman e Mário Pedrosa em Versus, nas denúncias bombásticas e quadrinhos políticos de EX-, nas ilustrações de Elifas Andreatto, Luis Gê, Cássio Loredano e Rubem Grillo e em muitos outros exemplos que fizeram do conjunto daqueles periódicos um exercício de jornalismo integral, para usar a expressão de Antonio Gramsci em relação ao projeto de um tipo de imprensa que pudesse ir além da estreiteza informativa e cultural dos jornais burgueses.

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Capa da revista Mulherio.

Assim, apesar das inúmeras ressalvas em torno da ideia de “imprensa alternativa” para designar a efervescência criativa e política no jornalismo de oposição da década de 1970, pode-se admitir a existência de uma frente formada por uma concentração conjuntural de inciativas que influenciaram umas às outras e dialogaram entre si, movendo-se numa faixa opositora composta por jornalistas, estudantes, militantes socialistas, movimentos sociais, intelectuais universitários, escritores, desenhistas, fotógrafos e críticos. Opinião, Movimento, Coojornal, Em Tempo, Versus, De Fato, Politika e outros fizeram parte de uma linha editorial oposicionista e explicitamente política, em geral identificados à esquerda socialista, enquanto jornais de inspiração contracultural como Flor do Mal, Navilouca, Bondinho e O Beijo se dirigiam, sobretudo, para questões de caráter comportamental e estético. Os jornais feministas como Brasil Mulher, Mulherio e Maria Quitéria, os representantes da causa gay como Lampião de Esquina, anarquistas como Inimigos do Rei e porta-vozes do movimento negro como Tição e Sinba, atestam a diversidade dos grupos e causas que integraram aquele ciclo formidável de inovação política e de retomada do associativismo popular.

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Versus – Idealizado pelo jornalista comunista e ex-membro da POLOP e do POC, Marcos Faerman, Versus nasceu sob a inspiração da abertura ao diálogo com esquerda latino-americana, do jornal uruguaio Marcha e da revista argentina Crisis, cujas matérias também publicava. Seu projeto gráfico primoroso e sua temática internacionalista fizeram de Versus um projeto singular, cujas páginas também traziam membros uma nova geração de quadrinistas brasileiros como Angeli, Glauco, Laerte e Luis Gê. No final da década torna-se um jornal dominado pela Convergência Socialista e a Liga Operária, convertendo-se em órgão de um projeto partidário, o Partido Socialista dos Trabalhadores-PST.

O florescimento da imprensa nanica ocorre num contexto de desenvolvimento acelerado do jornalismo de grande empresa, ao qual os periódicos em questão se opunham. A modernização dos parques gráficos e a divisão do trabalho cada vez mais rígida na elaboração das reportagens e notícias, junto com a construção de uma estrutura de propriedade monopolizada, refletiu-se no cotidiano de muitos jornalistas, repórteres, editores e fotógrafos, cuja inconformidade com o regime aliava-se à insatisfação com as condições de trabalho e o empobrecimento do trabalho criativo do jornalista. A autocensura e a padronização da opinião e da linguagem foram elementos decisivos para que uma parte significativa desses jornalistas se entregassem a tentativas mais radicais, tanto do ponto de vista do exercício da linguagem quanto da oposição aberta ao regime. Por outro lado, inovações técnicas como a impressão em offset e o fax permitiam rapidez e barateamento dos custos na produção de jornais e revistas. Nesse momento, também há uma massa crítica de sujeitos inconformados com o ambiente restritivo das grandes redações e uma faixa de leitores de formação universitária ávidos por notícias e interpretações da realidade que escapassem ao padrão complacente da grande imprensa e à ideologia da objetividade jornalística.

A trajetória da maioria dos jornalistas que lideraram os periódicos nanicos remete à frustração com o trabalho na grande imprensa e ao desejo de se verem livres das limitações de conteúdo e linguagem ali impostas. A autocensura, a acomodação ao regime e a limitação dos temas e da forma colidiam frontalmente com suas visões de mundo de esquerda e sua concepção do jornalismo. Figuras como Raimundo Pereira, Marcos Faerman, Henfil, Sergio de Souza, Narciso Kalili, Mylton Severiano e muitos outros já possuíam uma passagem reconhecida na grande imprensa, quando realizaram projetos jornalísticos mais ousados- do ponto de vista gráfico, formal e político-, e construíram uma caixa de ressonância jornalística que conseguiu reunir criadores de todas as faixas da produção cultural mais crítica e inovadora e abrigou militantes das diversas agremiações da esquerda revolucionária.

A maioria dos jornais nanicos adquire mais visibilidade em meados da década de 1970, quando a derrocada do “milagre” econômico e a pressão por participação política formava um complexo de problemas debatidos em intensidade crescente. Aquele fluxo de intervenções nas páginas dos jornais nanicos ocorre, principalmente, a partir de 1972, ano de criação de Opinião, momento marcante da retomada do fôlego da militância cultural e política duplamente restringida com o AI-5.

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Movimento- Dissidência de Opinião liderada por Raimundo Pereira, Movimento funcionou como propriedade coletiva e foi dirigido pelos próprios jornalistas. Tinha como objetivo popularizar a proposta inicial de Opinião e foi o exemplo mais acabado do modelo de jornal de frente. A pauta desse jornal reflete um momento mais avançado das organizações oposicionistas. Principalmente em seus últimos anos, Movimento foi dominado pela aliança PC do B/AP.

A repressão aos jornais identificados explicitamente à oposição ao regime foi feroz: o regime de censura prévia imposto durante quase toda a década (até 1978, quando se encerra a censura a Movimento) exigia que a edição inicial fosse enviada para a sede da Polícia Federal em Brasília, quando não instalava o agente censório no próprio espaço das redações. As edições eram retalhadas e precisavam ser refeitas, o que atrasava enormemente a cobertura e exigia um trabalho extra descomunal. Os boicotes e pressões sobre anunciantes e apoiadores também eram frequentes, sem falar nas bombas, apreensões, prisões e atentados contra redações e bancas de jornal. Alguns episódios foram emblemáticos: a prisão de toda a equipe d’O Pasquim em 1970; a cobertura do caso Herzog em 1975, cujo “suicídio” foi questionado no jornal EX-, ocasionando a apreensão dos exemplares e a proibição do jornal; e o atentado a bomba contra a sede de Opinião, em 1974.

Hoje, frente à indigência formal e de conteúdo da maioria dos jornais e revistas impressos de circulação nacional, aquela experiência parece distante. Mas sua lição não se refere somente à brava resistência política contra a ditadura empresarial-militar. A imprensa nanica ainda permanece como fonte surpreendente de inspiração para quem atua em diferentes meios pela superação de monopólios e arbítrios mais sutis, “democráticos” e insidiosos. DSCN2710

[1] ANTONIO, João. “Aviso aos Nanicos”, Pasquim, n. 318, 08/1975.

[2] NETO, Torquato. Torquatália. Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p. 256.

[3]FERNANDES, Florestan. In: Brasil em Compasso de Espera. São Paulo: Hucitec, 1980.

Referências bibliográficas:

AGUIAR, Flávio. “Imprensa Alternativa: Opinião, Movimento e Em Tempo”. In: MARTINS, Ana Luiza & DE LUCCA, Tânia Regina. História da Imprensa no Brasil. São Paulo: Contexto, 2008. pp. 233-249.

KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa. São Paulo: Edusp, 2003. 

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