Rio-verão-2014: quando extinguir o Comando Vermelho passa a ser a novíssima solução para a questão da violência urbana carioca (2ª parte)

Texto escrito por Eduardo Rodrigues (professor, autor da dissertação “Um “Campo de Pacificação”? Algumas considerações sobre o programa das Unidades de Polícia Pacificadora no Rio de Janeiro” e militante do Grupo de Educação Popular (GEP) do Morro da Providência/RJ)

Há algumas semanas, publicamos aqui a 1ª parte do nosso artigo que discutia alguns elementos do atual quadro de crise na “segurança pública” carioca. Nesta 2ª parte, centraremos nossas atenções inicialmente nos impactos do programa das UPPs para os conflitos territoriais ligados ao varejo da droga no Rio. Em seguida, nosso esforço será levar a discussão até um campo ainda carente de atenções, que diz respeito aos indícios de uma novo problema inerente à “pacificação”: a possível sinergia entre as UPPs e a territorialidade das milícias.

I- Os desdobramentos da “pacificação” na geopolítica urbana em curto prazo

Ao longo dos últimos cinco anos (2009-2013), pudemos identificar mais claramente três AISPs que sofreram os maiores aumentos no tocante à dinâmica da criminalidade violenta.¹ Analisamos séries históricas de dados dos últimos sete anos (2007-2013), que apontam para possíveis novas tendências do crime no cenário carioca². Digo possíveis, pois elas devem ser acompanhadas com maior atenção nos próximos anos, dado o curto período de vigência do programa da “pacificação” até aqui. Além dos dados, conversamos também com dezenas de moradores das referidas áreas, que reforçaram a tese de aumento da violência no período pós-UPP. Reproduzimos abaixo o mapa publicado na 1ª parte do artigo, só que agora com as áreas que mais sofreram os “efeitos colaterais” das UPPs em destaque:

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O mosaico de diferentes cores encontrado fora das áreas “pacificadas” possui em si uma forte carga explicativa. Bairros da cidade que há poucos anos estavam fora dos principais eixos de conflito passaram por um aumento significativo de alguns crimes – sejam eles ligados direta ou indiretamente ao tráfico. Podemos dizer que os desdobramentos do programa de “pacificação” atingem seletivamente diferentes dimensões da violência urbana. Em curto prazo, houve um relativo enfraquecimento do comércio da droga nos territórios descontínuos do tráfico na capital, acompanhado pela periferização dos conflitos entre os diferentes “comandos”. Falar em periferização significa dizer que as “zonas quentes” foram deslocadas para fora do “arco da pacificação” dos “megaeventos”, ou seja, para as áreas de fronteira entre os domínios de cada quadrilha na “Zona Norte” e “Oeste” da cidade. De modo geral, as UPPs redefiniram a geopolítica da droga no Rio ao enfraquecer a maior facção do varejo carioca. Sobretudo o Comando Vermelho se viu obrigado a abrir novas frentes de expansão em outras áreas, em especial a partir de 2010, quando a “pacificação” atinge seus últimos territórios nos bairros mais próximos ao “Centro”:

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No entanto, abrir novas frentes de expansão não significa necessariamente disputar com outras quadrilhas o monopólio da venda de tóxicos. Alguns estudos apontam a íntima relação existente entre o comércio de drogas e outros tipos de crime. Quando a repressão ao tráfico aumenta, parte dos seus homens “migra” para outras atividades criminosas como os “crimes contra o patrimônio”, ou seja: assalto a mão armada, a estabelecimentos comerciais, meios de transporte, roubos de carga, etc. Muitas vezes, mesmo sem aumento da repressão, as duas atividades tornam-se complementares para uma parcela considerável dos pequenos traficantes. Nos últimos três anos, percebemos a ocorrência deste processo na cidade, notadamente pela desterritorialização parcial dos traficantes das favelas já “pacificadas”. Com base nos dados e em relatos de pessoas que moram nas referidas AISPs, os traficantes que “migram” de outras favelas são levados, em princípio, a diversificar suas atividades de geração de renda nos seus respectivos novos destinos, uma vez que a força de trabalho do tráfico nessas áreas já encontra-se “saturada”. Cada respectiva facção fornece apoio logístico ao traficante desterritorializado, para que, a partir daí, ele tente restabelecer suas redes do comércio de entorpecentes, ou ainda realizar uma série de outras atividades para auferir renda. De 2010 até 2013, percebemos um maior aumento dos “crimes contra o patrimônio” nessas três áreas do que no restante da metrópole carioca. O CV, é importante ressaltar, não foi o único responsável por isso, uma vez que outras quadrilhas (como o ADA) também perderam territórios importantíssimos para o comércio de drogas. Todavia, a maior perda do CV levou a uma reação mais violenta desta facção contra o Estado, já que a retomada de sua expansão territorial tornou-se condição fundamental para alocar seu crescente “exército de reserva” de traficantes. Dentro desta lógica, favelas até então esquecidas nas mãos de milicianos da Praça Seca passaram a despertar enorme interesse do tráfico. As regiões da Pavuna e de Madureira também sofrem com este novo cenário, uma vez que houve não só o aumento nas disputas pelas favelas encravadas nos bairros da região, como também de outros crimes. O próprio enfraquecimento relativo do CV encorajou outras facções a tentarem tomar seus territórios restantes – a exemplo das disputas recentes pelo controle da Vila Kennedy entre o CV e o TCP em Bangu/Senador Camará. A própria posição geográfica das CdPs nos parece bastante pedagógica, pois só torna ainda mais claro o rastro da “migração” do tráfico pela cidade (e o leitor não duvide que em breve haja uma solução semelhante “via CdP” para as favelas de Madureira). Neste sentido, todos os indícios apontados até aqui nos levam a construir a seguinte hipótese: se, como veremos a seguir, o tráfico de varejo já apresentava sinais de desgaste antes da “pacificação”, a desterritorialização parcial das quadrilhas obrigou os traficantes a diversificarem ainda mais suas atividades de geração de renda. Podemos estar sendo testemunhas da passagem de um tipo de dinâmica da violência antes pautado pela letalidade (seja ela policial ou dos “comandos”), para uma dinâmica da violência ligada a outras atividades criminosas (além do tráfico sem armas “pesadas” das áreas com UPP). Falo não só dos “comandos” – que apostam momentaneamente nos “crimes contra o patrimônio”, mas também pelo aprofundamento do modelo organizativo mais sofisticado das milícias, que há décadas se capitalizam preferencialmente sem o comércio de tóxicos. Nunca é demais lembrar que a posição do Rio nos processos de acumulação de capital no Brasil e no mundo mudou. Hoje, há uma circulação muito mais intensa de dinheiro e investimentos na cidade, e este novo cenário é incompatível com as externalidades negativas geradas pelas disputas da droga. O tráfico pode continuar, mas ele deve ser operado num formato mais sofisticado do que antes. Um tráfico “discreto”, ou seja, sem grande alarde, com menos mortes, balas traçantes no céu e “bondes” de varejistas fortemente armados nas ruas e favelas. Nossa hipótese, é importante ressaltar, ainda é preliminar e carece de maior aprofundamento, dado o curto tempo do projeto da “pacificação” e de nossos parcos recursos. Entretanto, a complexificação da criminalidade carioca nos parece passar necessariamente pela atuação dos criminosos em redes logísticas mais difusas, como o de algumas quadrilhas do tráfico e principalmente das milícias. E é justamente a atuação dos paramilitares que parece (preocupantemente) entrar em sinergia com o atual cenário político-econômico vivido pela cidade do Rio de Janeiro.

II- A desarticulação do tráfico articula novos problemas?

Antes do Estado pensar em “pacificar” qualquer favela, já era observado um relativo enfraquecimento do poderio dos traficantes de varejo no Rio de Janeiro. Inúmeros motivos explicam o quadro de crise. Entre os principais, vale a pena mencionar: o decrescimento constante do preço da cocaína no mercado internacional desde os anos 90; o aparecimento de outras drogas sintéticas que se popularizaram no mercado brasileiro – como o ecstasy e o LSD, cujo comércio é feito majoritariamente fora das favelas entre a classe média e a elite; as crescentes disputas territoriais entre as facções e o crescimento das milícias (que obrigaram os traficantes a investirem grande parte dos lucros numa “corrida armamentista” sem fim e no “arrêgo” policial); a queda dos salários pagos aos jovens empregados no tráfico – consequência direta de todos os fatores acima.

eduardo4A grande questão, entretanto, não diz respeito somente ao enfraquecimento do varejo da droga em si. A maior vulnerabilidade do tráfico abriu caminho para uma expansão mais agressiva das milícias na última década, expansão esta consentida (e muitas vezes estimulada) pelo próprio Estado como uma solução “alternativa” para o problema dos tóxicos. Para se ter uma ideia, o ex-prefeito César Maia chegou a afirmar, em 2004, que o fenômeno das milícias era uma reação “natural” dos habitantes dessas áreas ao tráfico, criando inclusive o infeliz slogan de “autodefesas comunitárias” para os criminosos – nome este semelhante à maior organização paramilitar colombiana: as Autodefensas Unidas de Colômbia (AUC). Já o atual prefeito do Rio – Eduardo Paes, enumerou durante sua candidatura para o governo do estado, em 2006, os “benefícios” que os milicianos traziam para seus territórios em Jacarepaguá (http://www.youtube.com/watch?v=DXY7DRa2PXA). A lista de políticos envolvidos com milicianos é extensa, e pode ser pesquisada por qualquer pessoa interessada no tema.

Sem dúvida, os paramilitares se enfraqueceram relativamente a partir da chamada “CPI das Milícias” em 2008. Através dela, foram identificadas as principais áreas de atuação dos criminosos, suas estratégias para manutenção do território e auferimento de lucros, além da acusação formal e mesmo cassação de inúmeros agentes públicos de segurança e políticos envolvidos com as quadrilhas. O problema é que assim como o posicionamento do Estado para com as milícias mudou em certo sentido, a forma de atuação dos milicianos acabou por adaptar-se rapidamente ao “novo” contexto. Agora, as milícias parecem ter passado a atuar de maneira mais “discreta” em comparação ao período anterior a 2008. Se antes os milicianos faziam questão de explicitar seu envolvimento direto com as forças públicas de “segurança” (além de portarem armamento ostensivo nos mesmos moldes do tráfico), agora a atuação é quase imperceptível, embora sua territorialidade continue a ser exercida. Até as próprias demonstrações de “força” dos milicianos, pautadas antes em espancamentos e assassinatos públicos, não figuram mais entre suas práticas correntes. Estudos recentes mostram inclusive que a maior incidência de “pessoas desaparecidas” em alguns bairros podem indicar uma possível maior discrição dos criminosos. Ao invés de matar e simplesmente “desovar” os corpos, os paramilitares estariam agora desaparecendo com suas vítimas para chamar menos atenção da mídia e do Poder Público. Em outras palavras, houve uma espécie de salto qualitativo na macabra “economia da morte” carioca nos últimos anos.

Mesmo operando algumas iniciativas importantes para a desarticulação das milícias, o Poder Público ainda assim centra seus esforços na repressão ao tráfico em detrimento de outros crimes. O programa das UPPs segue esta mesma lógica, que toma o traficante como o “inimigo interno” a ser combatido pela polícia. Ao “pacificar” quase exclusivamente áreas anteriormente sob a hegemonia do tráfico, o Estado não só acelerou um processo de já latente decadência dos “comandos”, como, indiretamente, fortaleceu as milícias, uma vez que seu território foi pouco alterado desde o início do programa de “pacificação”. Em termos quantitativos, enquanto as três facções do tráfico controlam hoje aproximadamente 40,6% das favelas cariocas em conjunto, só as milícias são responsáveis por 42,5% do controle. Em termos qualitativos, a situação é ainda mais favorável para os milicianos, uma vez que as áreas ainda sob forte hegemonia do tráfico são os mercados consumidores menos dinâmicos da cidade, localizados em bairros de poder aquisitivo relativamente baixo. Como os milicianos em geral não usam o tráfico como principal fonte de lucro, os ganhos das quadrilhas mantiveram-se estáveis mesmo com a “pacificação” – não obstante a significativa queda sofrida pela repressão do Estado desde a CPI em 2008.

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Diferentes faces de uma mesma milícia: 1- símbolo da “Liga da Justiça” atrelado ao serviço de Mototaxi apoiado pelos milicianos “Jerominho” e “Natalino” em favela da Zona Oeste (2008). 2, 3, 4- novamente o símbolo da “Liga da Justiça”, só que agora no Morro do Cantagalo, na Zona Sul carioca (2014)

Além disso, o que mais nos parece precupante é a possível sinergia entre as estratégias de territorialização dos milicianos e os interesses em jogo no campo da “pacificação”. Os crimes praticados pela milícias estão dentro de uma outra lógica organizacional, muito mais elaborada do que a do tráfico de drogas. As UPPs, pelo que o programa mostrou até agora, não possuem objetivos e mesmo mecanismos claros para coibir formas mais sofisticadas de criminalidade. Muito pelo contrário: formas mais fluidas e difusas de organização são até toleradas, dado o uso diferenciado de armamento e controle territorial ostensivo dos milicianos em seus territórios. A opção por coibir determinado padrão organizacional do crime – que justamente por ser menos sofisticado é mais facilmente percebido como “problema”, pode trazer males ainda mais perversos sobre uma população carioca amedrontada, que enxerga a militarização das favelas (do tráfico) como solução para seus problemas de “segurança”. Chamo atenção do leitor aqui para três exemplos recentes do que estamos falando. Em primeiro lugar, foi divulgada em matéria do jornal “A Nova Democracia” uma grave denúncia da atuação da milícia “Liga da Justiça” na favela do Cantagalo. A milícia – que tradicionalmente atua em bairros da periferia carioca, parece estar ampliando sua área de influência rumo a um tradicional reduto do CV na “Zona Sul” da cidade. Um segundo exemplo foi mostrado em matéria do jornal “O Dia”. Segundo o periódico, a casa do policial militar Ronald César Força no Morro da Chacrinha (na Praça Seca), foi pintada nas cores da PMERJ, além de, ironicamente, contar com a inscrição “UPP” em suas paredes. A casa, segundo a reportagem, é utilizada pelos paramilitares como paiol de armas. Mas o que mais nos chama atenção é o caráter símbólico em construir uma espécie de “UPP informal” como forma de embarreirar o avanço do CV na Praça Seca. O Estado, mais uma vez, irá enfrentar os traficantes oficialmente pela instalação de uma CdP na região, sendo apoiado, em seus flancos, pelos paramilitares lotados na “UPP informal” da Chacrinha. Por fim, um terceiro exemplo vem da ocupação do Complexo da Maré. Em matéria do portal de notícias “R7”, o jornal denuncia a falta de policiamento ostensivo nas favelas controladas por grupos de milícia na Maré: a Praia de Ramos e a favela Roquette Pinto. Ao ser questionado pela “curiosa” estratégia da PMERJ, o tenente-coronel Paulo Henrique de Moraes – chefe do Estado Maior da polícia, explicou: “O patrulhamento é mais reduzido nas áreas de milícia porque não faz parte do modo de atuação desses grupos resistir à ocupação policial. De qualquer forma continuamos à procura de foragidos ligados ao tráfico e à milícia.” Os exemplos são apenas três em meio a inúmeros outros casos deste tipo surgidos nos últimos cinco anos.

Nunca podemos esquecer que o grau de complexidade do quadro acima foi e continua sendo desenhado por linhas que ligam a todo o momento o legal ao ilegal, o formal ao informal, a ordem à desordem, o Estado ao tráfico e às milícias. Seja como for, o que parece urgente é saber quando a comunidade finalmente pertencerá àqueles que, desde o final do século XIX, resistem para manter o traço da favela na paisagem urbana carioca: os seus próprios moradores. Passo abaixo algumas sugestões de leitura que aprofundam pontos expostos neste artigo de divulgação científica sobre tráfico de drogas e milícias:

Tráfico de drogas:

BARBOSA, Antônio Rafael (1998): Um Abraço para todos os amigos: algumas considerações sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Niterói: EDUFF.

LIMA, William Silva (1991): Quatrocentos contra um: uma história do Comando Vermelho. Rio de Janeiro: ISER.

MISSE, Michel (2011): Crime organizado e crime comum no Rio de Janeiro: diferenças e afinidades. In: Rev. Sociologia Política, Curitiba, v.19, n.40, pp. 13-25, out.

OBSERVATÓRIO DE FAVELAS (2006): Caminhada de crianças, adolescentes e jovens na rede do tráfico de drogas no varejo do Rio de Janeiro, 2004-2006.

SUMÁRIO EXECUTIVO. Rio de Janeiro: Observatório de Favelas. Mimeo.

SOUZA, Marcelo Lopes de. (2000): O desafio metropolitano: um estudo sobre a problemática sócio-espacial das metrópoles brasileiras. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

________. (2008): Fobópole: medo generalizado e a militarização da questão urbana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

ZALUAR, Alba (2012): Juventude Violenta: Processos, Retrocessos e Novos Percursos. In: DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, vol. 55, n 2, pp. 327 – 365.

Milícias:

ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (2008): Relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar a ação de milícias no âmbito do estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Disponível em: www.marcelofreixo.com.br/site/upload/relatoriofinalportugues.pdf.

CANO, Ignácio. (2008): Seis por meia dúzia? Um estudo exploratório do fenômeno das chamadas ‘milícias’ no Rio de Janeiro, In: Segurança, Tráfico e Milícia no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Fundação Heinrich Böll. Disponível em: http://br.boell.org/downloads/Relatorio_Milicias_completo.pdf‎

CANO, Ignácio & DUARTE, Thaís (orgs.) (2012): “No sapatinho”: a evolução das milícias no Rio de Janeiro [2008 – 2011]. Rio de Janeiro: Fundação Heinrich Böll.

ZALUAR, Alba; CONCEIÇÃO, I. S. (2007): Favelas sob o controle das milícias no Rio de Janeiro: que paz? São Paulo em Perspectiva, São Paulo, Fundação Seade, v. 21, n. 2, p. 89-101, jul./dez. Disponível em: <http://www.seade.gov.br>; <www.scielo.br>. Acesso em 22/12/2012.

Notas:

1. As Áreas Integradas de Segurança Pùblica (AISP) são a divisão político-administrativa proposta pelo governo para, entre outras funções, servir como base dos dados de criminalidade no Rio de Janeiro. Para a relação completa das AISPs ver http://arquivos.proderj.rj.gov.br/isp_imagens/Uploads/RelacaoAISP.pdf

2.

Taxa de criminalidade

Taxa de criminalidade

Disponilizamos aqui o arquivo com os dados que usamos. Os dados brutos foram convertidos em taxas por 100 mil habitantes, para que fosse possível compará-los tanto com o comportamento geral da criminalidade na cidade do Rio de Janeiro, quanto com outras AISPs da capital fluminense. Selecionamos um período maior que o do implemento das UPPs, justamente para captar o comportamento da violência nos anos anteriores ao início do projeto.

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11 respostas para Rio-verão-2014: quando extinguir o Comando Vermelho passa a ser a novíssima solução para a questão da violência urbana carioca (2ª parte)

  1. Sandro disse:

    Artigo(“s” pela divisão) de fundamental importância para compreender o processo de mudança do panorama da segurança no Rio de Janeiro. Só questiono o autor no seguinte sentido:

    Informações da área de inteligência das polícias e da SESEG cruzam o surgimento da inscrições “pró milícia” nas favelas do Cantagalo e recentemente, no Pavão Pavãozinho, ao retorno de chefes locais do narcotráfico, que, com sua atuação, têm sido responsáveis pelo enfraquecimento das Unidades de Polícia Pacificadora presentes.
    É forçoso, no meu ver, pelo tipo de atuação que os grupos paramilitares do Rio de Janeiro, que estes criariam “ilhas” ou “cabeças de praia” (na linguagem militar) na Zona Sul da cidade, visto que seu padrão é sempre manter um território contíguo, ao contrário dos traficantes, que possuem domínios “pontilhando” a geografia da cidade, a Baixada Fluminense, São Gonçalo e Niterói.
    Enxergo o surgimento de tais inscrições como utilização (hábil) de ferramentas de propaganda psicológica, visto o terror inspirado às populações pelos paramilitares na Zona Oeste, como forma de recuperar laços com a população local ou mesmo reforçá-los, impelindo-a a exigir o fim da UPP. Mesmo porque, com a chegada de diversos públicos, ainda que de maneira precária, criam uma pressão grande na população local. Como exemplo a cobrança de diversos impostos e serviços privados, como TV por assinatura e internet, que já foram inclusive casos de revolta em favelas.

    Eu agradeço e mais uma vez parabenizo o autor pelo artigo, e tenho grande interesse em ler a sua dissertação.

    • Eduardo disse:

      Olá Sandro. Fico feliz que tenha gostado do artigo. Em resposta à pergunta, concordo contigo que as milícias tendem a ter territórios contíguos diferentemente do tráfico. Além disso, os paramilitares tendem a não disputar entre si a hegemonia do controle territorial como acontece com os diferentes “comandos”. Eles parecem estabelecer “acordos”, dividir os territórios entre os grupos, ou ainda, segundo alguns estudos do professor Ignácio Cano (que estuda os paramilitares desde 2007), existe uma tendência recente de que as quadrilhas maiores (como a “Liga da Justiça”) estejam incorporando grupos de paramilitares menores.

      No entanto, a ideia de uma “ilha” de milicianos numa área de controle majoritário do tráfico me parece relativa, pois as favelas próximas ao Cantagalo-Pavão estão ocupadas pela polícia. Embora o tráfico continue lá, ele é obrigado a agir de maneira diferente, sem ter o controle territorial hegemônico de antes. Imaginar um cenário de traficantes rivais invadindo uma favela “pacificada” para expulsar uma milícia local que tem ligações próximas com a UPP me parece improvável… pelo menos por agora. A conjuntura para o varejista está muito complicada atualmente.

      Me parece que o fracasso das UPPs passa muito mais pelo próprio comportamento dos quadros do projeto – ainda reféns das velhas práticas policiais da PMERJ, do que por uma “guerra psicológica” que o tráfico faz com os moradores. Obviamente, uma coisa não exclui a outra. Mas minhas conversas com pessoas que moram, trabalham, estudam e militam em áreas “pacificadas” me levam a crer na 1ª opção. As revoltas que estão pipocando por toda a cidade me parecem um repúdio ao nível de militarização que se chegou nas favelas. O tráfico pode até aproveitar tais manifestações para atacar as UPPs – já que ele é um agente político importantíssimo nessas áreas. Mas para além do Estado, para além do tráfico e para além das milícias, o povo tá “puto” mesmo.

      Como tentei mostrar no artigo, minhas conclusões são parciais pelo curto tempo do fenômeno que discuto e pelos meus limitados recursos como professor de geografia e recém egresso do mestrado. Entretanto, a grande questão da possível relação “milícia-UPP” é que não é um caso isolado. Mesmo que a pichação no Cantagalo seja falsa – como vc argumenta, como explicar então os casos da UPP informal da Praça Seca ou do comportamento diferenciado no policiamento ostensivo entre as favelas de milícia e tráfico na Maré? Ou ainda, como explicar as dezenas de denúncias de práticas de milicianos cometidas pelos policias das UPPs, como cobrança de ágio sobre o gás, extorsão de mototaxistas e motoristas de kombis para que eles continuem a trabalhar, etc? O problema da “miliciação” das UPPs me parece real e muito preocupante. Mas só o tempo vai conseguir nos dar maior clareza sobre ele (em especial após 2016, quando os recursos destinados às UPPs podem ser reduzidos significativamente).

      Fico feliz também que vc queira ler a dissertação. Posso enviar pra vc sem problemas. Me passe seu email ou entre em contato com o pessoal do blog pelo Facebook. Um abraço!

      • Sandro disse:

        Caro Eduardo,

        A guerra psicológica só funciona em uma população predisposta a aceitá-la. E a população das comunidades está disposta por uma série de fatores – legais e ilegais – que em na visão destes, piora a vida. Sei como a população com raiva é. Vi isto no Alemão. Só que a raiva tanto pode vir pelo ilegal, como o abuso policial, como pelo legal, ou seja, chegar a cobrança de luz ou do IPTU.

        Quanto a diferença do policiamento ostensivo, é realmente difícil argumentar porque apesar das diretrizes fixadas pelo Estado-Maior Operacional, a atividade é regulada ao gosto de cada comandante de batalhão, diferindo em muito. Uma coisa era o 14º BPM comandado pelo implacável Cel Lopes, atacando tráfico, milícias e caça-níqueis, punindo policiais militares. Outra coisa é o mesmo 14º BPM comandado pelo Cel Beltrami, ou pelo Cel Fontenelle (agora comandante do Comando de Operações Especiais). Fica realmente complicado.

        Não acredito na UPP tornando-se braço da milícia. Tanto pela formação dos policiais, quanto pela lógica das milícias. A “UPP informal” da Praça Seca é uma releitura forçosa de um miliciano de um programa que apesar de suas falhas, tem méritos. Ao apropriar-se da sigla, o miliciano usa o simbólico para tentar revestir seu pretenso poder de uma “autoridade”. Só que não vejo um apoio governamental nem ao menos velado como ocorreu em administrações anteriores.
        Quanto as práticas ilegais, gostaria que você me dissesse em que comunidades ocorrem, seria importante observar, isso.

        Fraternal abraço.

  2. Eduardo disse:

    Olá Sandro!

    Na própria comunidade onde dou aulas (Providência) ocorrem casos de extorsão sistemáticas aos trabalhadores das kombis e mototaxis. No Fallet ocorreram denúncias de pagamento de ágio sobre a venda de gás…. e por aí vai.

    Bom, se as milícias e as UPPs vão aprofundar uma possível sinergia só o tempo vai dizer. Espero sinceramente que você esteja certo e eu errado.

    abraço.

  3. Tomás Mendonça disse:

    Olá Eduardo, me chamo Tomás Mendonça e estou fazendo uma pesquisa acerca das UPPs a partir de uma olhar crítico em torno dessa política que expressa a dialética entre segurança pública e garantia de direitos humanos e principalmente o direito à cidade. Seria possível vc me passar a dissertação para colaborar com minha pesquisa ?

  4. Emiliano disse:

    Olá Eduardo.
    Parabéns pelo trabalho. A tese que estou escrevendo refere-se aos efeitos que as UPPs tem gerado. Algums dos dados que vejo na tua pesquisa são muito interesantes e uteis, particularmente os que identificam a facçao criminal que esta no poder em cada Morro. Gostaria de entrar em contato com você para receber tua ajuda nesse sentido, jà que preciso construir uma base de dados similares.
    Emiliano

  5. alex araujo disse:

    isso ai e a colheita do presente de decadas de escravidao e injustiça e so o começo
    vcs vai ver como vai ta alguns ans que viram ja pode começa a reza

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