Nos Ritmos dos Punhos Cerrados

*Agradeço às sugestões e correções de Camila Pinheiro, Gabriel Neiva e Larissa Costard

A música nos acompanha nos momentos de raiva, alegria, tristeza que enchem nosso cotidiano. Todo dia eu e milhares de outros vamos trabalhar escutando música e me pareceu importante pensar na relação entre essas duas coisas na nossa vida.

O trabalho e a arte são atividades humanas por natureza. Hoje em dia, no entanto, elas podem aparecer em pólos opostos: enquanto o trabalho aliena, massacra e desumaniza, a arte tem o poder de revigorar, informar e libertar. Neste sentido, a música pode servir aos trabalhadores e trabalhadoras tanto como uma representação crítica das suas realidades, auxiliando na criação de consciência, quanto como hino de batalha nas suas lutas por um mundo novo.

Foi pensando nisto – e na minha setlist para mais um dia de trabalho – que eu resolvi fazer uma seleção de 20 músicas para todos os gostos, que mostram as opressões, as esperanças e as lutas de trabalhadores e trabalhadoras de vários povos. Porque, no fim, somo um!

Restam dois esclarecimentos prévios: 1) as traduções são ruins mas são minhas e da Larissa Costard; 2) não é um Top 20, acho que nem conseguiria hierarquizá-las. Foi só um esforço de memória. E você, leitor, qual seu hino de luta? Comente e ajude a completar essa lista!

20 – Workers Song – Dropkick Murphys

Essa banda de rock dos EUA incorpora toda a tradição irlandesa nas suas músicas, seja nas gaitas e gritos das músicas ou na escolha do tema do trabalhador, refletindo a vida dura dos trabalhadores imigrantes irlandeses nos EUA, como no trecho: We’re the first ones to starve, we’re the first ones to die/The first ones in line for that pie-in-the-sky/
And we’re always the last when the cream is shared out/For the worker is working when the fat cat’s about.

“Somos os primeiros a passar fome, os primeiros a morrer / Os primeiros da fila na do céu prometido / E somos sempre os últimos quando o bolo é repartido, porque o trabalhador está labutando enquanto os gatunos circulam”

19 – Rotina – Inocentes

Formada em 1981, o Inocentes é uma das bandas mais importantes do punk nacional, movimento que retratou bem os conflitos da juventude trabalhadora (em especial de São Paulo) na década de 1980.

“Acorda cedo para ir trabalhar/O relógio de ponto a lhe observar/
No lar esposa e filhos a lhe esperar/Sua cabeça dói, um dia vai estourar, com essa/Rotina/(…)/Até quando ele vai aguentar?”

18 – Get Up, Stand Up – Bob Marley

Reza a lenda que o pai do reggae teria escrito essa música durante uma viagem ao Haiti, frente a toda pobreza do país, e que ela teria sido a última tocada por Bob num palco. A letra mostra um pouco do pensamento rasta, pregado pelo cantor, e sua ligação com luta de cada ser humano por seus direitos nesta terra. Um dos mais famosos hinos pelo empoderamento da música popular.

“Most people think,/Great God will come from the skies,/Take away everything
And make everybody feel high./But if you know what life is worth,/You will look for yours on earth:/And now you see the light,/You stand up for your rights./Get up, stand up! /Stand up for your rights!”.

[A maioria das pessoas acha/Que o Grande Deus surgirá dos céus/Vai nos livrar de tudo/E Nos fazer sentir elevados/Mas se você sabe o quanto vale a vida/Você vai buscar o que é seu na terra/Agora você vê a luz/e luta pelos seus direitos./Levante-se, resista!/Lute pelos seus direitos!]

17 – Periferia é Periferia – Racionais MCs

Durante a década de 1990 o rap paulista (e os Racionais como seu maior representante) despontaram para retratar a vida na periferia de uma metrópole brasileira. No meio da violência, das drogas, do abandono das políticas de Estado estavam os cotidianos de milhões de trabalhadores:

“Porque chefe da casa trabalha e nunca está/Ninguém vê sair, ninguém escuta chegar/O trabalho ocupa todo o seu tempo/Hora extra é necessário pro alimento/Uns reais a mais no salário/Esmola de patrão cuzão milionário/Ser escravo do dinheiro é isso, fulano/Trezentos e sessenta e cinco dias por ano sem plano/Se a escravidão acabar pra você/Vai viver de quem? Vai viver de quê?”.

16 – Rap do Silva – Bob Rum

Enquanto o rap despontava em São Paulo, nosso representante do funk carioca mostrava o trabalhador sofrendo com a violência enquanto buscava alívio para sua rotina desumanizadora. Detalhe para a consciência do papel da música: “O funk não é modismo/É uma necessidade/É pra calar os gemidos que existem nessa cidade”

15 – Até Quando – Gabriel Pensador

É como um tapa na cara de um desacordado: “Não adianta olhar pro céu/Com muita fé e pouca luta/Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer/E muita greve, você pode, você deve, pode crer (…) Até quando você vai ficar usando rédea?!/Rindo da própria tragédia? (…) Até quando você vai levar cascudo mudo?/Muda, muda essa postura/Até quando você vai ficando mudo?/muda que o medo é um modo de fazer censura”

14 – Hermano Dame Tu Mano – Mercedes Sosa

A dama que embalou as lutas latinoamericanas desde a década de 1960 nos convoca: “Hermano dame tu sangre, dame tu frío y tu pan/dame tu mano hecha puño que no necesito más,/esta es la hora primera este es el justo lugar/con tu mano y mi mano hermano empecemos ya./Mira adelante hermano en esta hora primera/y apretar bien tu bandera cerrando fuerte la mano/y apretando a tu bandera en esta hora primera/con el puño americano le marque el rostro al tirano y el dolor se quede afuera”.

[Irmão, dá-me teu sangue/dá-me teu frio e teu pão/dá-me sua mão feita punho que não necessito de mais/esta é a hora primeira e este é o lugar certo/com tua mão e minha mão irmão comecemos já./Olha adiante, irmão nesta hora primeira/e aperta bem tua bandeira fechando forte a mão/e apertando tua bandeira nesta hora primeira/com o punho americano marca o rosto do tirano e a dor ficará de fora.]

13 – Workingman Blues – Bob Dylan

A voz mais marcante – e estranha! – do folk canta, no seu álbum de 2006, o destino de um trabalhador: “The buyin’ power of the proletariat’s gone down/Money’s gettin’ shallow and weak (…) Well, they burned my barn, and they stole my horse/I can’t save a dime/I got to be careful, I don’t want to be forced/Into a life of continual crime”.

[O poder de compra do proletariado está caindo/O dinheiro está ficando raso e fraco (…) Bem, eles queimaram meu celeiro e roubaram meu cavalo/Eu não consigo guardar um tostão/Tenho que tomar cuidado, não quero ser forçado/A uma vida de crime]

12 – Vientos del Pueblos – Victor Jara

Diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, músico, militante, professor… Enfim, trabalhador. O chileno Víctor Jara foi um dos grandes nomes da arte latinoamericana, esteve ao lado do governo de Salvador Allende e ambos acabaram assassinados pelo golpe de Pinochet. Víctor foi preso, torturado, executado e teve o corpo abandonado nas ruas de uma favela. Mesmo toda essa violência não calou sua voz e sua esperança no destino da luta dos trabalhadores.

“De nuevo quieren manchar/mi tierra con sangre obrera/los que hablan de libertad/y tienen las manos negras. (…) No me asusta la amenaza,/patrones de la miseria,/la estrella de la esperanza/continuará siendo nuestra”

[De novo querem manchar/minha terra com sangue operário/os que falam de liberdade/e tem as mãos negras/não me assusta a ameaça,/patrões da miséria,/a estrela da esperança/continuará sendo nossa].

11 – Cidadão Padrão – Dead Fish

A energia do hardcore ficou representada nessa lista pelos capixabas do “Peixe Morto”, que estão na cena independente do rock brasileiro há mais de 20 anos e sempre mantendo uma posição política de esquerda, como fica claro aqui:

“Assinar o ponto,/Seu transporte esta lotado!/Não há companheiros,/Ninguém está ao seu lado!/Só a fome a miséria,/O circo e o pão./Você acha arriscado fazer a revolução, então/Deve aceitar o seu patrão./Seria demais dividir as coisas que você já tem,/ cerveja, um par de tênis e um caos”.

10 – Career Opportunities – The Clash

“The offered me the office, offered me the/shop/They said I’d better take anything they’d got/Do you wanna make tea at the BBC?/Do you wanna be, do you really wanna be a cop?/Career opportunities are the ones that never knock (as que nunca acabam)/Every job they offer you is to keep you out the dock (tiram você do circuito)”.

[Eles me ofereceram o cargo, me ofereceram a/loja/Eles disseram que era melhor pegar qualquer coisa que eles oferecessem/Você quer fazer chá na BBC?/Você quer ser, você realmente quer ser um policial?/Oportunidades de carreira nunca acabam/Cada trabalho que que eles oferecem são pra tirar você do mercado]

9 – Greve – Dicró

Um dos “três malandros” mostra que a malandragem sabe muito bem o que é ser trabalhador e quais são suas maneiras de lutar: “Será que foi algum vírus/Que veio do exterior/Pra causar tanto transtorno/Num país tão promissor/Será que ninguém tem pena/Desse povo tão sofrido/Essas aves de rapina/É pior do que bandido/Mas agora o povo unido/Nunca mais será vencido…/É greve em cima de greve/Que que há, todo mundo quer aumento/Quem tem não quer dar…”.

8 – Know your Enemy – Rage Against the Machine

A “Raiva Contra a Máquina” explodiu na Los Angeles nos anos 90 e foi a voz mais alta do rock de protesto daquela década, misturando vocais de rap e uma guitarra totalmente peculiar com as tradições latina e negra da música. O Rage levantou seus punhos e estourou suas bombtracks mostrando uma realidade de opressão dos trabalhadores que se repete até hoje pelo mundo, nos guetos de LA, nas periferias de Paris e nas favelas do Rio de Janeiro:

“Now something must be done/About vengeance, a badge and a gun/(…)/I was born to rage against ‘em/Now action must be taken/We don’t need the key/We’ll break in/(…)/Yes I know my enemies/They’re the teachers who taught me to fight me/Compromise/conformity/assimilation/submission/ignorance/hypocrisy/brutality/the elite/All of which are American dreams”.

[Agora algo tem que ser feito/Sobre vingança, um distintivo e uma arma/(…)/Eu nasci para raiva contra eles/Agora uma atitude tem que ser tomada/Nós não precisamos da chave/A gente quebra (a porta)/(…)/Sim, eu conheço meus inimigos/São os professores que me ensinam a lutar contra mim/conceder/conformar/assimilação/submissão/ignorância/hipocrisia/brutalidade/a elite/Cada um dos Sonhos Americanos]

7 – Working Class Hero – John Lennon

Nascido e criado em uma cidade inglesa marcada pela tradição operária, este beatle dedicou boa parte dos esforços da sua carreira solo na militância, fosse contra a Guerra do Vietnã ou pelos direitos dos trabalhadores.

“When they’ve tortured and scared you for twenty odd years/Then they expect you to pick a career/When you can’t really function you’re so full of fear/(…)/Keep you doped with religion and sex and TV/And you think you’re so clever and classless and free/But you’re still fucking peasants as far as I can see/A working class hero is something to be”.

[Eles te torturam e assustam por vinte anos estranhos/Então esperam que você escolha uma carreira/Quando você não consegue funcionar, está tão cheio de medo/(…)/Mantêm você dopado com religião, sexo e TV/E você pensa que é muito esperto e livre das classes/Mas você continua um plebeu até onde posso ver/O herói da classe trabalhadora para ser.]

6 – Construção – Chico Buarque

Poucas pessoas não devem conhecer esta obra prima poética do cotidiano de um trabalhador. Por isso escolhi essa versão fantástica, misturada com “Deus lhe pague”, orquestrada pelo músico argentino Fito Páez, que afirma que “Construção” mudou a história da música na América e no mundo. É difícil selecionar um trecho, mas fiquem com esse:

“Subiu a construção como se fosse máquina/Ergueu no patamar quatro paredes sólidas/Tijolo com tijolo num desenho mágico/Seus olhos embotados de cimento e lágrima/Sentou pra descansar como se fosse sábado/Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe/Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago/Dançou e gargalhou como se ouvisse música/E tropeçou no céu como se fosse um bêbado/E flutuou no ar como se fosse um pássaro/E se acabou no chão feito um pacote flácido/Agonizou no meio do passeio público/Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.

5 – Union Town – The Nightwatchman

The Nightwatchman (O Vigilante Noturno) é o projeto solo do ex-guitarrista do Rage Against the Machine, Tom Morello, que decidiu colocar sua música na tradição das músicas de protestos dos trabalhadores dos EUA. Morello é um militante político da Workers of the World (Trabalhadores do Mundo) e do Sindicato dos Músicos de Los Angeles, preocupado, portanto, em apoiar as lutas dos trabalhadores, como fica claro nessa canção feita a partir da influência das lutas dos trabalhadores do Wisconsin em 2011 contra o ataque estatal ao direito de organização sindical e a benefícios como aposentadoria e planos de saúde, resultando em uma centena de milhares nas ruas e na ocupação da Câmara Legislativa do estado.

“Today the policeman’s a union man/Brother firefighter’s my friend/And the kids locked in the Capitol/Are fighting ‘til the end/And we’re not gonna break tonight/And we’re not gonna bend/Some say the union’s down/But I asked around/And everybody said/This is a union town, a union town/All down the line/(…)/And if they come to strip our rights away/We’ll give ‘em hell every time”.

[Hoje o policial é um homem sindicalizado/Irmão bombeiro meu amigo/E a garotada ocupando o Capitólio/Vai lutar até o fim/E nós não vamos desistir estar noite/Nós não vamos ceder/Alguns dizem que os sindicatos estão desaparecendo/Mas eu pergunto por aí/e todo mundo diz/Isso é uma cidade sindicalizada, uma cidade sindicalizada/Todos às ruas/(…)/E se eles vierem para tirar nossos direitos/Vamos transformar isso num inferno todas as vezes.]

4 – Canto das Três Raças – Clara Nunes

A beleza da letra e música que representam a tradição de resistência de todos os explorados que construíram o Brasil em um samba que arrepia, ainda mais com a voz emocionante da Clara Nunes.

“E ecoa noite e dia/É ensurdecedor/Ai, mas que agonia/O canto do trabalhador/Esse canto que devia/Ser um canto de alegria/Soa apenas/Como um soluçar de dor”.

3 – Bandiera Rossa

O mais famoso hino dos trabalhadores italianos, composto em 1908, foi usado em toda sorte de movimentos de resistência popular e é, ainda hoje, cantado até mesmo por torcidas de futebol politizadas no campeonato italiano (em especial pelos torcedores do Livorno em jogos contra o Lazio, torcidas que reivindicam, respectivamente, as tradições políticas comunista e fascista).

“Dai campi al mare, alla miniera,/All’officina, chi soffre e spera,/Sia pronto, è l’ora della riscossa./Bandiera rossa trionferà.(x4)/Soltanto il comunismo è vera libertà”.

[Dos campos ao mar, às minas/À oficina, que sofre e espera/Esteja pronto, é hora do resgate/Bandeira vermelha triunfará/Só o comunismo é a verdadeira liberdade.]

2 – Solidarity Forever – Ralph Chaplin

Composta em 1915 a partir de uma greve dos mineiros de carvão, “Solidariedade Pra Sempre” é o hino sindical mais famoso dos EUA. Entre as várias versões desta música para adequá-la a novas bandeiras de luta (há uma versão canadense, com estrofes dedicadas à luta local, por exemplo) destacam-se os versos adicionais compostos na década de 1970 pelas trabalhadoras, incorporando demandas feministas (que não estão na versão do link – feita com vídeos da greve dos professores de Chicago em 2012, mas que achei importante incorporar no texto que segue).

“They have taken untold millions that they never toiled to earn,/But without our brain and muscle not a single wheel can turn./We can break their haughty power, gain our freedom when we learn/That the union makes us strong./(…)/It is we who wash dishes, scrub the floors and clean the dirt,/Feed the kids and send them off to school – and then we go to work,/Where we work for half men’s wages for a boss who likes to flirt./But the union makes us strong!”

[Eles tiraram incontáveis milhões que nunca labutaram para merecer/Mas sem nossos cérebros e músculos nem uma engrenagem pode girar/Podemos quebrar seu poder arrogante, ganhar nossa liberdade quando aprendermos/Que o sindicato (a união) nos faz fortes/(…)/Somos nós que lavamos a louça, esfregamos o chão e limpamos a sujeira/Alimentamos as crianças e as mandamos para a escola – e depois vamos trabalhar,/Onde trabalhamos pela metade do salário de um homem e para um chefe que gosta de flertar/mas o sindicato (a união) nos faz fortes.]

1 – A Internacional

A primeira da lista não poderia ser diferente. Este é o hino internacional dos trabalhadores, composto originalmente em francês, em 1871, tem versões em vários idiomas, sendo que a russa foi, entre 1917 e 1941, o hino da URSS. Escolher só um trecho é difícil, mas aí vai:

“O crime de rico, a lei o cobre/O Estado esmaga o oprimido/Não há direitos para o pobre/Ao rico tudo é permitido/À opressão não mais sujeitos/Somos iguais todos os seres/Não mais deveres sem direitos/Não mais direitos sem deveres/Bem unidos façamos/Nesta luta final/Uma terra sem amos/A Internacional”.

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Sobre Fábio Frizzo

Professor universitário, doutorando em História Social e guerrilheiro de Sierra Maestra.
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Uma resposta para Nos Ritmos dos Punhos Cerrados

  1. Juliana Lessa disse:

    Tirando Dead Fish,, só música boa.

Comentários

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