“Nomes aos bois”: sobre o livro “A miséria da historiografia: uma crítica ao revisionismo histórico”

Nesse quadro de vida acadêmica marcada por automatismos exigidos pela correria da produtividade e bastante conversa de comadres, o recém-lançado livro, organizado por Demian Bezerra de Melo, não pode ser lido sem impacto. Isso acontece em pelo menos dois sentidos. O primeiro é que se trata de um confronto intelectual aberto, onde os nomes são dados aos bois e a historiografia que se critica recebe, já no título da obra, o que lhe pode ser adjetivado: “miserável”. O marcante é que os alvos não são autores marginais, mas historiadores (brasileiros e estrangeiros) de reputação universitária e presença editorial e midiática. Os qualitativos que se somam ao longo dos artigos são importantes justamente para que se quebre os pudores da (falta de) discussão acadêmica, ou dos simulacros de discussão, que engessam o pensamento e acabam por estabilizar, para invocar termos de Bourdieu, a estrutura de poder e valorização simbólica dentro do campo científico e acadêmico.

capa livroO segundo sentido é relembrar que o conhecimento histórico tem projeção social e implicações políticas (o que independe da intenção de qualquer autor), e que sem a discussão explícita dessa dimensão estará incompleto o trabalho analítico do historiador e sua relação com o passado. É assim entendendo que o primeiro artigo, assinado pelo organizador, começa por observar como novas leituras sobre a Revolução Francesa tem o claro intento de anatemizar os processos revolucionários de inspiração igualitária, e normatizar a democracia liberal e a economia de mercado. Nota-se também uma querela historiográfica na Alemanha, onde se procurava normalizar a experiência do nazismo; e na Itália, em que, em um trabalho de repercussão, Mussolini era justificado por seu patriotismo e pelo seu sucesso em não permitir algum declínio nacional. O texto de Raquel Varela, que fecha o livro, também vai no sentido de criticar propostas de setores de investigação histórica sobre a Revolução dos Cravos, entre as quais a de considerar a Revolução Portuguesa “como uma doença que surge num momento em que já se estava a dar uma transição no país no sentido de democratização, ou seja, tende a dominar uma visão de que a revolução interrompeu, como que despropositadamente, uma transição/modernização que já estaria em curso e que permitiria assegurar a mudança e simultaneamente a estabilidade do Estado.” O livro passa por outros casos, apontando ofensivas apologéticas de ditadores, entre outras formulações, que mostram a intimidade que a historiografia pode ter com poderes instituídos ou contra os ideais de esquerda. O texto de Carla Luciana Silva, “Imprensa e construção social da ditabranda”, também será importante nesse sentido, ao abordar as visões históricas da mídia empresarial e suas intenções e atuações políticas.

A maior parte do livro é dedicada à historiografia brasileira contemporânea. O artigo de Marcelo Badaró Mattos aponta que a principal base teórica do revisionismo é o “culturalismo”, no qual a sobrevalorização de uma única dimensão da vida dos homens em sociedade (a cultura) termina quase sempre por traduzir-se em uma perspectiva determinista, e no bojo da valorização dos discursos acaba-se por obliterar os conflitos sociais. O uso da categoria de “cultura política”, derivada do culturalismo, também é ressaltada por Mattos como a base de visões acríticas da história brasileira cuja expressão mais aguda é Jorge Ferreira, autor que tem construído uma exaltação do período 1946-1964, onde não tem maior relevo temas como a ilegalidade do PCB, a estrutura sindical corporativista e a ação sistemática da polícia política.

As proposições de Jorge Ferreira serão discutidas ainda em outros artigos. No assinado por Carlos Zacarias Senna Júnior, são apontados problemas metodológicos de Ferreira, que constrói sua interpretação sobre o PCB e o comunismo no Brasil a partir de memórias de ex-militantes marcados pelo ressentimento. Senna Júnior também acusa alterações em citações trabalhadas por Ferreira, que acabam por influir na interpretação, além de sua estreita concepção “teórica” do comunismo como “religião” e “fanatismo”. No texto de Felipe Demier, na parte intitulada “Como era gostoso o nosso populismo: a corrente revisionista fluminense”, o historiador aponta a leitura deturpada de Ferreira sobre alguns teóricos do populismo, e a sua concepção desprovida de noções de conflito classista que o levam a promover uma identificação quase completa entre “Estado” e “trabalhadores” e uma consequente apologia do varguismo.

Em “O golpe de 1964 e meio século de controvérsias: o estado atual da questão”, Demian Melo advoga uma leitura que entenda o caráter classista de 1964 e se opõe às teses, “mais modernas”, que apontam as responsabilidades da esquerda na culminância da ditadura por ter caráter ofensivo e mesmo golpista. Melo comenta o texto de Ferreira (de novo!) que continuamente retrata a direita como “reagindo” à radicalização de esquerda e “assustada” com seu radicalismo. Um dos problemas que se aponta é o trato de fontes de diversos historiadores. Ainda no caso de Ferreira, há a apropriação acrítica de pesquisa de opinião realizada por Carlos Lacerda que foi citada em livro escrito por jornalistas hostis a Goulart. Melo também contesta Elio Gaspari que “afirma, como se fosse auto evidente” que havia em março de 64 dois golpes em marcha. “E quais as evidências para esta afirmação? A carta de um coronel, o livro comprometido com a ditadura de Glauco Carneiro (História das revoluções brasileiras) e a opinião do embaixador Lincoln Gordon. Mais um vez, nenhum tipo de evidência minimamente confiável” (p.166). Problemas sérios de argumentação também estariam na sustentação que Aarão procura para provar sua ideia de “apoio da sociedade brasileira à ditadura”, marcada por falta de problematização e redução do corpo documental. Melo ainda questiona com rigor e embasamento, teórico e empírico, outros tantos temas da historiografia como, por exemplo, a proposta de periodização de ditadura que teria seu fim em 79 (de Aarão Reis e Marco Antônio Vila), visões anacrônicas sobre a guerrilha e colocações sobre o Arena.

Os historiadores Demian Melo, Romulo Mattos e Felipe Demier

Os historiadores Demian Melo, Romulo Mattos e Felipe Demier

Comento por último o texto de Romulo Mattos, que versa sobre as tentativas de “reabilitação” da figura do Wilson Simonal na historiografia e também no cinema. Se mesmo para um não especialista salta aos olhos o terrível de “anistiar” alguém que comprovadamente foi mandante de tortura e de sua suposta “vitimização” por parte de uma esquerda “malvada” e “intolerante”, isso não impediu o autor de tratar com muito pormenor esses discursos desmontando vários dos supostos sobre a música brasileira, o quadro histórico da ditadura e suas (des) memórias mais recentemente construídas.

Vê-se então que os autores de “A miséria da historiografia” não tratam meramente de contrapor perspectivas teóricas pré-formuladas, mas discutem questões básicas, empíricas e metodológicas, em textos e concepções de repercussão. É dessa forma que vem sua contribuição de crítica historiográfica e a valorização da perspectiva marxista.

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Sobre Wesley Carvalho

Professor e historiador.
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