A fábula do macaco que se chamava Luciano Huck

Agradeço ao Rael Fizson e ao Artur Henriques pelos comentários durante a construção do texto.

Se você teve contato com os meios de comunicação nas últimas semanas, deve estar a par do episódio de racismo sofrido pelo jogador do Barcelona Daniel Alves, assim como de sua reação inusitada e da enorme repercussão causada por ambos.

Camiseta "Somos todos macacos" Huck

“Somos todos macacos”, só que não.

Não pretendo analisar o episódio em si ou tratar especificamente problema do racismo e outros tipos de discriminação no futebol (recomendo, sobre essas questões, o texto de Ana Maria Gonçalves sobre as bizarrices envolvidas na “campanha contra o racismo” na Copa de 2014). O que quero aqui é comentar o significado subjacente à frase #SomosTodosMacacos, que estampou a camiseta lançada pela empresa do Luciano Huck (que teria rendido ao empresário um lucro de 20 mil reais em apenas 3 dias).

A camiseta e os modelos brancos que a vestem no anúncio, para além da cretinice mercadológica, fizeram o favor de ilustrar da maneira mais clara possível (com trocadilho) como funciona certo tipo de “combate” ao racismo na sociedade brasileira, impregnada pelo discurso da democracia racial ainda em grande medida. Esse discurso trata o racismo como uma anomalia que acomete alguns indivíduos infelizes, e nesse sentido deve ser rechaçado. Sendo uma anomalia ocasional, ele não poderia ser o que de fato é: um elemento estruturante das relações sociais, produtor sistemático de desigualdade.

Na camiseta, acompanhando o #SomosTodosMacacos, há também os dizeres “respeito” e “somos iguais”. Estou quase agradecendo ao macaco Huck pela didática. A “igualdade” a que se refere esse tipo de discurso é a mesma do clássico discurso liberal que pauta a igualdade de oportunidades em uma sociedade de indivíduos, descartando toda a dinâmica social que configura relações sócio-históricas desiguais. Na corrida do liberalismo, os corredores são submetidos às mesmas regras, sendo que alguns deles são obrigados a começar bem atrás da linha de partida. E como diz a música do Criolo, “Usain Bolt se não correr, fica pra trás”.

Vejam bem: não estou dizendo que a raça biológica existe. Os cientistas do século XX comprovaram há muito a falácia da existência de raças biológicas diferentes na espécie humana. Tampouco estou condenando a postura daquelas pessoas negras que viram na banana jogada em Dani Alves uma oportunidade de ressignificar o ato racista, desqualificando-o para se empoderar.

Cabe aqui um longo parênteses sobre essa ressignificação, que foi rechaçada por muitos militantes negros e negras. A frase “eu não sou macaco!” também circulou nas redes sociais esses dias, porque se considerou que o xingamento “macaco” não abre espaço para ressignificação. Seria diferente de adotar “negro” como uma palavra positivada ou, em outro caso, adotar “vadia”, porque se ser vadia é ser livre, então é o que somos todas. “Macaco” remete ao racismo científico do século XIX, que coloca negros e negros em um nível de desenvolvimento pré-humano na escala evolutiva.

Mas mesmo para quem considera que a campanha tinha potencial de crítica ao racismo e de empoderamento de pessoas negras, é inegável que outro processo muito diferente acontece quando Luciano Huck, Angélica e os modelos brancos vestem a camisa de macacos. Não há em absoluto ressignificação ou empoderamento do povo negro aí. Mesmo porque Luciano não é macaco, nunca foi chamado de macaco e não faz ideia do que é experimentar subjetivamente o racismo. É como a certeira Camila Pavanelli de Lorenzi comentou: “de nada adianta segurar uma banana no instagram, amigos brancos, quando nenhuma banana, real ou metafórica, jamais nos foi atirada na cara”. E mais: “não somos todos macacos – mas alguns de nós somos tratados como se fôssemos. Esse é o drama.”

Ao afirmar-se macaco, e principalmente ao estampar esses benditos modelos brancos nessa bendita campanha publicitária, Huck apaga a experiência do racismo sofrida cotidianamente por quem é negro. É claro que uma pessoa não-negra pode – e deve – assumir uma postura antirracista, mas esse não é o caso aqui. Aqui trata-se de negação ali-kameliana mesmo.

Não somos racistas - Ali Kamel

“Não somos racistas”, de Ali Kamel: Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Então: a raça existe. Existe no sentido histórico e sociológico, porque no curso da história humana alguns grupos racializaram, hierarquizaram e inferiorizaram outros. Como diz Kabengele Munanga, o racista cria a raça, e se o racista existe, a raça também existe enquanto relação. Na sociedade brasileira, raça e racismo existem de uma maneira das mais cabreiras, fingindo-se inexistentes, já que somos o país da miscigenação. E como somos todos, por herança, um pouco negros (somos todos macacos), ninguém é realmente negro, ninguém é sociologicamente negro, ninguém experimenta racismo. Assim, na ausência sócio-histórica da raça, o racismo se desmancha no ar dessa idílica paisagem de democracia racial.

É por isso tudo que aderir à campanha #SomosTodosMacacos não é em absoluto incompatível com ser radicalmente contra as cotas raciais, por exemplo. Se essa história de racismo não só não tá com nada como nem existe, não tem nenhum motivo para “dar vantagem” para algumas pessoas na pista de corrida liberal.

Amanhã é 13 de maio e não é um dia de comemoração. Para o movimento negro brasileiro (gente que de fato combate racismo no Brasil), é um dia de denúncia, de apontar a “farsa da abolição” e a continuidade da discriminação sistemática da população negra no país durante todo período que se seguiu a ela. Não deixemos essa denúncia se diluir, não esqueçamos o que realmente significam todas as bananas que tem sido atiradas no povo negro.

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Sobre Bárbara Araújo

professora de história, feminista, anticapitalista, capoeirista e flamenguista.
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Uma resposta para A fábula do macaco que se chamava Luciano Huck

  1. gilberto disse:

    Ponto perfeito professora Bárbara, não poderia ter lido melhor.

Comentários

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