Fifa, go home! E deixa o futebol para nós!

* Esse texto inaugura o Dossiê Copa no Brasil, que será publicado ao longo do mês de Junho de 2014.

**Texto de Fernanda Ribeiro Haag, mestre em História pela Universidade Federal Fluminense e autora da dissertação “‘Nascido para jogar futebol’: Futebol e Identidade Nacional na publicidade televisiva brasileira(1982-2012)”.

A frase “Copa pra quem?” tem se tornado cada vez mais popular por razões bem simples: as arbitrariedades da FIFA e seus parceiros para realização do Mundial foram aparecendo mais e mais. A mobilização dos movimentos sociais e as manifestações de junho de 2013 deixaram claro que para a Copa acontecer muita gente teria seus direitos violados. Poucos lucrariam à custa de muitos e de maneira triste grande parte da população não participaria da festa. A começar pelo preço dos ingressos, pela criação das “Áreas FIFA” em torno dos estádios e, pior, pelas famílias removidas por causa de obras relacionadas ao evento, ou pela especulação imobiliária e ainda pelas mortes de operários ocorridas durante a construção dos estádios.

Imagem retirada do álbum #PinteSuaRua no Facebook.

Imagem retirada do álbum #PinteSuaRua no Facebook.

A FIFA  usa verbas públicas para fazer a Copa, ou seja, precisa – e, na real, exige – auxílio financeiro do Estado. É aí que entra todo o caos sobre a Copa no Brasil que vemos pipocar a todo o instante. Ou seja, a principal entidade do futebol faz o que é público trabalhar em prol do que é privado para seu próprio benefício. E a estimativa de lucros para a entidade – que “teoricamente” é sem fins lucrativos – nessa Copa beira os R$10 bilhões. Quem também entra nessa brincadeira, são seus parceiros comerciais, como a Coca, a Adidas, McDonalds, pois terão o monopólio das vendas nos estádios e arredores.

Quando foi feita a escolha do Brasil para ser a sede do Mundial, uma das promessas era de que seria a “Copa Privada”. A frase de Ricardo Teixeira esta aí para provar: “Faço questão absoluta de garantir que a de 2014 será uma Copa em que o poder público nada gastará em atividades desportivas.” Lula também estava em Zurique e garantiu que as obras subsidiadas pelo Estado seriam de infraestrutura. Só o fato do presidente estar lá e todo o empenho para trazer a Copa já mostram o interesse do governo no evento.

Então o Brasil não entrou de gaiato na história – ou pelo menos não seus governantes, já que a população pouca opinião pôde dar na época –, mostrando que o Estado se candidata e faz o possível para atrair a FIFA e a Copa porque alguém(ns) vai lucrar. Ficou clara uma aliança com o grande capital, bastando pensar o quanto empreiteiras como Andrade Gutierrez, Odebrecht, AO e Camargo Correia (algumas das maiores doadoras de campanhas eleitorais) lucraram com o evento, não apenas com as construções, mas também com o aumento da especulação imobiliária, principalmente nas cidades-sede e através das remoções. Direta ou indiretamente, tais eventos esportivos são catalisadores desse processo. A mídia também enche os bolsos com tudo isso. A Globo que o diga, pois ainda que pague (e muito!) pelos direitos de transmissão, consegue um retorno absurdo com a grana que os patrocinadores pagam a ela.

Infográfico publicado na Folha de S. Paulo.

Infográfico publicado na Folha de S. Paulo.

Sobre o bafafá dos gastos públicos, a última versão da Matriz de Responsabilidade da Copa, feita em setembro de 2013, estimou que os gastos totais girariam em torno de R$25 bilhões (bem mais que as copas da África do Sul e Alemanha), contando com os investimentos públicos e privados.

Mesmo que a iniciativa privada tenha investido na Copa, é bem claro que a maior parte dos gastos veio do dinheiro público (através do governo federal, do BNDES e outros bancos estatais, prefeituras ou governos estaduais). É daí que vem o papo “Da Copa eu abro mão, eu quero mais dinheiro pra saúde e educação”, grito que teve muito eco. Sabemos que diretamente nenhuma verba da educação ou saúde foi “desviada” para a Copa e que o orçamento para essas áreas é bem maior que o da Copa (o que é o mínimo, peloamor!), mas não deixa de ser estranho, dada a conjuntura do país e desses setores, que se gaste tanto com um evento privado no qual alguns poucos empresários vão lucrar. Ainda mais quando as promessas eram de um legado lindo e maravilhoso em várias áreas que infelizmente não veio.

Outro ponto bem tenso da relação FIFA e Estado brasileiro diz respeito a duas leis. A primeira é a 12.350/2010, que concede isenção fiscal à entidade máxima do futebol, às associações estrangeiras membros da FIFA, à emissora fonte da FIFA e a prestadores de serviços da entidade. A isenção foi um compromisso firmado durante a candidatura do Brasil. O Ministério Público Federal chegou a entrar com uma ação no STF para tentar barrar a lei por considerá-la inconstitucional, porém não deu em muita coisa e, de acordo com o Tribunal de Contas, nessa brincadeira a União pode deixar de arrecadar em torno de R$1 bilhão (mais um na conta dos cofres públicos).

A outra e bem mais espinhosa lei é a famosa Lei Geral da Copa. Para começar, temos as ditas “áreas FIFA”, que abrangem um raio de 2 km ao redor dos estádios em dias de jogos. Esses espaços foram criados para proteger única e exclusivamente os interesses dos patrocinadores da Copa e são delimitados por linhas imaginárias e governadas pelas regras da FIFA (soberania nacional para quê?). A intenção é dar para FIFA o controle das atividades comerciais dessas áreas, pois elas concentram muitos torcedores e dão exposição para a TV garantindo às empresas patrocinadoras exclusividade comercial e publicitária.

Trabalhadores ambulantes protestam em Recife.

Trabalhadores ambulantes protestam em Recife.

As tais “áreas FIFA” atingiram diretamente milhares de ambulantes que viviam do comércio em áreas próximas aos estádios. Muitos deles vem sofrendo com a repressão, falta de diálogo, apreensão das suas mercadorias e claro falta de opção sobre o que fazer, já que foram expulsos das suas atividades. Essa situação também traz outra questão: acaba transferindo para a FIFA o papel de gestão de um espaço urbano, ou seja, subordina a gestão de um espaço público a interesses privados.

Outro ponto problemático é o fato de estar previsto nessa lei que a União deve assumir a responsabilidade civil em caso de danos por incidentes, além de arcar com as consequências financeiras, inclusive em prol da FIFA. Ou seja, se der “fatal error”, bota na conta do Estado. O Ministério Público também tentou vetar o ponto, mas deu em pizza. A flexibilização na concessão de vistos estrangeiros para turistas ou envolvidos com o evento, com o aval da entidade presidida por Blatter, também causou estranhamento.

Outra polêmica foi o do “pagode da FIFA”. De acordo com a Lei Geral, a instituição futebolística tem direito à tramitação acelerada dos pedidos de registro de marcas no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Intelectual). Assim, todas as marcas registradas pela FIFA – e aqui o pagode entrou na dança porque é o nome da fonte tipográfica da marca Mundial 2014 (aquela mais redondinha) – pertencem a ela e não podem ser utilizadas em nenhuma atividade comercial, pois poderá haver sanções. Tudo isso de novo visando atender aos interesses e exclusividade de seus patrocinadores e dela própria.

Não bastando todas essas vantagens voltadas para grupos privados, ainda temos as mazelas causadas à classe trabalhadora. Jorge Luiz Souto Maior, em texto publicado no blog do Juca Kfouri, escancara bem as violações que os trabalhadores vem passando em decorrência da Copa. Como ele coloca claramente: “é certo que para José Afonso de Oliveira Rodrigues, Raimundo Nonato Lima Costa, Fábio Luiz Pereira, Ronaldo Oliveira dos Santos, Marcleudo de Melo Ferreira, José Antônio do Nascimento, Antônio José Pitta Martins e Fabio Hamilton da Cruz, mortos nas obras dos estádios, já não vai ter Copa! Aliás, a Copa já não tem o menor valor para mais de 8.350 famílias que foram removidas de suas casas no Rio de Janeiro”.

Além da morte dos operários, ainda houve a descoberta de trabalho escravo nas obras do aeroporto de São Paulo, péssimas condições de trabalho nas mais diversas obras para o Mundial (o que gerou muitas greves), a institucionalização do trabalho voluntário (afinal a FIFA não deve ter grana pra pagar essa galera não é mesmo?), uma intensificação do processo de acumulação de riqueza através da exploração do trabalho alheio… ou seja, os benefícios econômicos gerados não serão revertidos para a classe trabalhadora, mas ficarão concentrados nas mãos de poucos.

E podendo ser a cereja do bolo, temos o Estado reforçando seu aparato jurídico e policial para atender aos interesses privados. Com o eco das jornadas de junho e o momento efervescente atual das mobilizações da classe trabalhadora, manifestações na época da Copa já estão na porta. Com isso o mente, o governo não pensou duas vezes em gastar R$2 bilhões em segurança pública (R$54 milhões só em armamentos) e já mobilizou também as Forças Armadas, visando a repressão e criminalização de movimentos sociais e protestos.

Baianas protestam em Salvador (Foto: Mídia Ninja).

Baianas protestam em Salvador (Foto: Mídia Ninja).

Porém, nem tudo é amargo. O texto “Legado pra quem?” traz cinco histórias de vitórias populares contra violações aos direitos à cidade, à moradia, ao trabalho, à cultura e ao esporte durante os preparativos da Copa. Por exemplo, houve a conquista das baianas de Salvador, que mantiveram o seu direito de vender o típico acarajé perto do estádio, o que representou um recuo significativo da FIFA frente à resistência popular.

Além disso, precisamos lembrar das manifestações e das diversas greves que estão pipocando por agora para fortalecer a crítica à esquerda de todos esses problemas. Não devemos esquecer também das raízes populares do próprio futebol, que por si mesmo não tem culpa nenhuma no cartório. Pelo contrário, é por querermos também um esporte do povo e para o povo, e por sermos contra a mercantilização da cultura e de qualquer instância da realidade social, que devemos nos revoltar contra os desmandos do “Fifascismo” (termo inventado nos protestos da Copa das Confederações em 2013). Já foi o tempo da crítica banal “futebol, ópio do povZzzZzzZ”, né? Todo mundo sabe que dá pra lutar e torcer.

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4 respostas para Fifa, go home! E deixa o futebol para nós!

  1. LPP disse:

    O texto é muito bom, mas eu queria por 2 poréns para ser pensados. Queria começar dizendo que concordo com as críticas e sou, desde a candidatura do Brasil, majoritariamente contra a Copa aqui. Mas não sou revoltado contra a competição.

    1 – O primeiro ponto é a questão da verba do BNDES. Isso não é alocação de dinheiro público, mas um mero empréstimo. Deve ser pago e para uma análise mais correta entrar como custo privado (se foi empréstimo a empresas) ou de gov. estadual ou municipal se foram eles quem pegaram. É o mesmo caso por exemplo que temos com o Porto de Cuba, q muitos críticos desconhecidos no assunto acham que o Gov Brasileiro está pagando pelo porto de lá. Não é verdade em ambos os casos. O BNDES existe justamente pra financiar obras como essas. E trazendo e exigindo as garantias necessárias, é normal, e até benéfico o investimento destas verbas.

    2 – O texto embora esteja corretíssimo em TODAS as críticas. Nunca fez um contraponto dos benefícios. Eles existem, ainda que não sejam suficientes para justificar os erros. Mas a verdade é que o turismo do Brasil vem crescendo e o país está em evidência desde o anuncio da Copa e Olimpiadas (e não só durante isso). Tivemos empregos diretos e indiretos nas obras e serviços de infra e turismo. Há ainda empresas estrangeiras que investiram no país na onda do crescimento gerado pelas grandes competições. Isso sem falar na entrada direta de capital na competição, através de milhares de pessoas que virão ao país para a competição. Com certeza isso impactou positivamente milhares de familias e deve ser levado em consideração. Ainda que no final, se pondere e veja que o balanço ainda é negativo pro nosso lado, o que eu acredito que seja.

  2. Deixando meu abraço para a Fer porque eu gosto muito dela. =)

    Comentando:

    Frescura retórica da minha parte, tenho certeza, mas comentarei mesmo assim. Fer, o texto é interessante. Concordo, de maneira geral, com o que foi dito. Mantenho algumas reservas. Mas, em termos de artifícios retóricos, o texto é fraco. Não entenda retórica por sua conotação negativa, mas pela definição atribuída por Aristóteles ao termo: buscar em um dado caso os melhores meios de persuasão disponíveis (adaptado: preguiça de procurar pelas palavras exatas na Rhetorica). 1) O texto não possui uma tese. Revolve em torno do eixo de “a copa não é o que deveria”, mas em nenhum momento fica claro onde é que você quer chegar com o argumento. 2) Como apontou o colega do comentário acima (deixando meu “opa!” pra ele), é sempre de bom tom reconhecer os argumentos contrários a ideia que estamos defendendo e apontar porque discordamos deles. 3) O texto não possui conclusão. Terminar um texto iniciando o último parágrafo com “além disso” é começar a jogar novas informações quando o que foi dito antes devia estar sendo amarrado. E, finalmente, como último comentário retórico, 4) é preciso tomar mais cuidado com seus parágrafos. Uma única ideia principal por parágrafo. De preferência explícita, bem definida, clara. E o desenvolvimento da ideia. Nova ideia, novo parágrafo. Como exemplo, parágrafo que faz uma crítica aos recursos retóricos desenvolvido com a justificativa da crítica.

    Anyway… Beijo, Fer. =)

  3. Quanta coisa acontecendo. Vai Brasil.

  4. Wesley Carvalho disse:

    LPP, acho importante não considerar dinheiro emprestado como mero dinheiro não dado. Dinheiro emprestado é capital, é investimento. Nesse mundo capitalista onde o dinheiro tem uma capacidade vertiginosa de valorização não se pode considerá-lo como um saldo do qual se pode abrir mão temporariamente.
    Além disso, tem aquilo que é simples: por exemplo, os 190 milhões do BNDES que foram para um único hotel do Eike poderiam ter sido um empréstimo para uma prefeitura construir um hospital ou asfaltar ruas, etc.. Mesmo que alguém considere que esse dinheiro do BNDES deva sempre ir para a iniciativa privada (ao que sou contra), ele poderia ir para serviços mais essenciais que estádios ou aeroportos.
    Não acredito também que os benefícios sejam relevantes o suficiente para servirem de contraponto na argumentação. Não acho que seja preciso ir atrás de dados para se saber (e até as pedras da rua o sabem) que os empregos de camareiras, pedreiros e taxistas ou o maior conforto de um aeroporto são migalhas diante do tanto de apropriação e concentração de capital que essas investimentos produziram.

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