Os impactos da Copa no Nordeste

Um dos milhares de removidos da Copa.

Um dos milhares de removidos da Copa.

Eu tinha construído o meu futuro, que era a minha casa, com muito esforço. E, de repente, eles vêm e fazem uma derrota dessas com a gente. Derrubaram o que era nosso sem dar nosso direito.” (Jerônimo, 72 anos, “removido” pelas obras da Copa no Recife)

*Texto escrito por Janaína Sedova. Mestra em História (PPGH-UFF) e militante do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU).

Uma pesquisa feita pela Confederação Nacional dos Transportes em fevereiro de 2014 apontou que apenas 26,1% da população brasileira apoia a realização da Copa do Mundo no Brasil. A impopularidade do maior e mais importante torneio de futebol no país é daquelas viradas de roteiro dignas de uma história almodovariana. Afinal, o futebol é o esporte nacional e a Copa do Mundo seria o grande evento, uma espécie de apoteose comemorativa da hegemonia do projeto político do PT, projeto que nos levou a ser um país de classe média, de consumidores frequentadores de grandes shoppings. Além disso, teríamos nos tornado também uma potência mundial, um país soberano, forte e influente no cenário internacional, capaz até mesmo de mandar tropas de ocupação para outros países, como o Haiti. A Copa do Mundo seria a cerimônia de coroação desse projeto, unindo uma grande festa popular no plano interno com a demonstração internacional desse novo Brasil. Infelizmente para o PT, seus aliados e apoiadores, a História tem esse péssimo hábito de ser pouco sistemática e possui uma queda por reviravoltas.

O enorme rechaço que a maioria dos brasileiros desenvolveu à Copa não tem, ao contrário do que alguns setores governistas afirmam, nenhuma relação com algum “complexo de vira lata” tipicamente brasileiro, ou com algum sentimento de boicote e escracho a tudo que é nacional, muito pelo contrário, a crítica à Copa, à FIFA e a todos os envolvidos (sejam os agentes públicos ou privados) tem relação com a tomada de consciência sobre quem somos, o que queremos e o que podemos. Essa transformação da consciência política carrega consigo bases materiais muito claras: num país com péssimos serviços públicos (educação, saúde, transporte…) e profundas desigualdades foram gastos R$ 20 bilhões para realização da Copa do Mundo¹. Mais do que isso, além do dinheiro público que se tornou privado – seja por meio de isenções fiscais, empréstimos ou investimentos diretos – assistimos às remoções de comunidades inteiras, repressão aos movimentos sociais e privatização do espaço urbano a favor da FIFA e seus “colaboradores”.

Nacionalmente, esse foi o tom da preparação da Copa: transferência de recursos públicos para o setor privado e perseguições aos setores populares. Apesar das especificidades de cada cidade e das diferentes formas e intensidade da resistência em cada uma delas, a realidade foi bastante parecida no conjunto do país. Considerando isso, queremos agora ressaltar como, concretamente, essas circunstâncias se deram especificamente na região nordeste do Brasil.

O nordeste é formado por nove estados (a federação tem um total de vinte e seis), e corresponde a cerca de 30% da população do país. No que diz respeito à sua participação na Copa, a região é, isoladamente, a que concentra o maior número de Cidades-sede, tendo quatro – Salvador, Recife, Natal e Fortaleza – de um total de doze, ou seja, um terço. Um espaço tão significativo se explica pelo peso político e econômico da região, como também pelo seu apelo turístico, em especial, no tocante ao seu litoral.
Se por um lado a região recebeu uma parcela importante na divisão de jogos e Cidades-sede, o mesmo não aconteceu no que diz respeito ao montante de gastos e investimentos. Ilustrativos nesse sentido são os seguintes dados: as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo juntas foram responsáveis por 34% dos gastos com a Copa, enquanto isso, o investimento em todas as cidades do nordeste corresponde a 23%, uma diferença de mais de 10 pontos percentuais. E percebam que não estamos discutindo aqui o destino de tais gastos e o papel social que os mesmos cumpriram, mas somente demonstrando a desigualdade regional que se expressou nos gastos da Copa. Mas se quisermos discutir algum gasto específico, podemos escolher aquele que é o símbolo do descontentamento instaurado no país: os gastos com os estádios! Entre a previsão inicial e os custos efetivos, a reforma do Maracanã experimentou um aumento de 94%; do mesmo jeito, o Itaquerão em São Paulo teve um incremento de 276%; isso para não falarmos do Mané Garrincha no Distrito Federal, que custou, ao final, mais de R$ 1,4 bilhão. Enquanto isso, o estádio de Natal, a Arena das Dunas, teve um incremento de “apenas” 29,2% nos seus custos, e em Fortaleza, observamos um decréscimo de -16,8%. Novamente, os custos dos estádios nos parecem absurdos sob todos os pontos de vista, mesmo que seus planos iniciais fossem cumpridos, o que queremos demonstrar aqui é que, efetivamente, as construtoras, em todo o país, lucraram muito com essas grandes obras, no entanto, em alguns lugares, certos grupos lucraram ainda mais.

Obras prometidas.

Obras prometidas.

A desigualdade e concentração na distribuição dos recursos e gastos tem uma séria consequência: o impacto sobre os orçamentos dos estados e cidades nordestinas é mais duro. A cidade de Recife, por exemplo, gastou com a Copa o correspondente a 110% de sua DCL (Dívida Consolidada Líquida), o que significa dizer que, com esse dinheiro, a prefeitura poderia ter pago toda a sua dívida e ainda sobraria algum dinheiro; na cidade de Fortaleza, os recursos com a Copa dizem respeito a 44,5% da DCL. A cidade de Natal comprometeu 25,8% de sua RCL (Receita Corrente Líquida), o maior índice de comprometimento entre todas as Cidades-sede. As cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo apresentam comprometimentos em índices muito menores e se considerarmos os orçamentos estaduais essa tendência se repete. Na prática, isso significa que o legado de restrições orçamentárias que a Copa deixará nos estados e prefeituras será muito mais duro e restritivo nas cidades nordestinas do que nas cidades do sudeste. Não é difícil supor que os investimentos sociais serão os que mais sofrerão em consequência disso, afinal, quando o orçamento “aperta” é sempre o social a sofrer cortes.

O legado da Copa.

O legado da Copa.

No quesito remoções e deslocamentos de populações pobres, a previsão era de 60.000 (sessenta mil) remoções nas Cidades-sede nordestinas e embora o balanço final dos despejos ainda não tenha sido fechado, aparentemente, esse número inicial já foi em muito superado. Claro, nesse quesito a concorrência entre as cidades é dura, afinal, as façanhas do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, são realmente impressionantes – Paes “bateu” o recorde de remoções da cidade antes pertencente a Pereira Passos e a Carlos Lacerda. As remoções têm como objetivo/justificativa imediata a Copa, mas vão muito além disso, são parte de um processo de reordenamento do espaço das cidades para o capital, em especial para a especulação imobiliária. Algumas obras, como a do terminal de Camaragibe no Recife, nem sequer ficarão prontas para o Mundial, e ainda não tem data de entrega, embora seus moradores já tenham sido há tempos retirados, e hoje tenhamos um grande campo de barro onde já existiu uma comunidade.

baiana-de-acarajeAlém de remoções de moradias, muitas denúncias de expulsão de moradores de rua, em especial em Fortaleza e Salvador, surgiram ao longo da preparação para a Copa. As atuações de higienização dos governos municipais e estaduais foram tão escandalosas que suscitaram visitas e relatórios do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Direito à Moradia Adequada. E seguindo o caminho de privatização das cidades, garantido pela criação de zonas especiais sobre o controle da FIFA, uma série de conflitos com costumes e tradições regionais aconteceram. A disputa entre a FIFA e a associação de vendedoras de acarajé de Salvador e a polêmica sobre a realização de festas juninas foram alguns deles.

Durante os últimos anos muito se discutiu sobre a Copa do Mundo no Brasil, desde junho de 2013 muitas pessoas foram às ruas questionar esse modelo que reafirma a estrutura de dominação e desigualdades histórica, mas o legado da Copa ainda está longe de ser completamente compreendido. Esse texto é só uma tentativa de contribuir com esse debate. As dívidas, os estádios, as obras, tudo isso permanecerá, e serão questões a serem resolvidas. Mas, independente de como esses problemas se desenrolarão, ou dos resultados esportivos que a seleção alcançará, uma coisa é certa. A Copa no Brasil de fato será a “Copa das Copas”, afinal, nunca na história desse país se viu tanta luta durante um torneio.

Nota:

1. A Copa do Brasil já é a mais cara da história! Os gastos com as últimas Copas foram respectivamente: África do Sul (2010) US$ 3,5 bilhões; Alemanha (2006) 3,7 bilhões de Euros; Japão e Coreia do Sul (2002) US$ 4,5 bilhões.

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