Sinal Aberto: a música e política de Chico Buarque

“Eu hoje fiz um samba bem pra frente/
Dizendo realmente o que é que eu acho”
(versos da música “Corrente”)

 

Agradecimentos especiais para os amigos Wesley Rodrigues, Ivan Martins e Flávio Amieiro pela ajuda (e conversas) na confecção do texto

Hoje, dia 19 de Junho de 2014, Chico Buarque de Hollanda completa 70 anos de vida; e em 2014 também se comemoram 50 anos de carreira do cantor/compositor/escritor, caso tomemos como marco zero a primeira vez em que ele teve uma música gravada (“Marcha para um dia de sol” por Maricene Costa). E por isso decidimos no blog Capitalismo em Desencanto dedicar um post focado mais no caráter político da obra de um dos mais influentes nomes da cultura de nosso país nas últimas décadas.

Sinal Fechado - 1974

Já foi publicado neste blog o Dossiê Golpe e Ditadura visando lembrar com uma abordagem crítica os 50 anos desse marco que deixou tantas cicatrizes visíveis ainda hoje em nossa sociedade. E quando se trata de expor (ainda que brevemente) a veia política de Chico Buarque, é quase impossível não conectarmos essas duas datas: o aniversário do artista e o evento funesto. Pois durante o período de ditadura militar a música representou um foco de resistência, uma forma de denunciar e questionar o poder estabelecido e Chico Buarque foi uma das vozes mais atuantes e sonoras naquele período. Tendo conseguido juntar um cultivado prestígio perante os mais variados públicos (desde o sucesso popular até o reconhecimento das camadas mais “cultas” devido ao refinamento de suas músicas e letras) conjugado com uma postura de sempre manutenção de um olhar crítico para nossa sociedade.

Filho do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, ele era também filho de uma classe média que pretendia-se culta e refinada, filho dessa nova batida que incorporava novas influências ao samba, a Bossa Nova. E como bem diz a historiadora Virgínia Fontes em seu texto “Música popular e política no Brasil – Chico Buarque de Hollanda, poesia e política” (presente no livro Reflexões Im-pertinentes): de filhinho de papai, Chico Buarque tornou-se um jovem rebelde. De certa maneira sua tomada de posição acontece ao ser tragado pelas circunstâncias, e por isso mesmo que o artista sempre recusou o rótulo de “músico político”, além de nunca ter abandonado a ideia de também abordar canções românticas ou que falassem diretamente de seus sentimentos mais pessoais. Jamais participou de organizações políticas ainda que tenha se engajado em movimentos como o da redemocratização.

Mas o que seria uma música política? Provavelmente um dos grandes méritos de Chico Buarque tenha sido justamente a sua enorme sensibilidade para tratar não só da censura a suas músicas ou de questões políticas (movimentos sociais, luta por democracia, etc) e econômicas-sociais do país (a classe trabalhadora e suas mazelas), mas também de tratar da vida cotidiana no subúrbio, de tentar se pôr na pele das mulheres, de negros, crianças e marginais. Ele ao tratar da situação da classe trabalhadora ou da política do país não deixa essa abordagem mais engajada sobrepujar certas culturas e valores (o malandro enquanto nostalgia por exemplo).

 Num sentido amplo grande parte da obra do Chico Buarque pode ser entendida como “política”, sendo necessário portanto para a escolha das músicas aqui elencadas uma delimitação um pouco mais estrita dessa abordagem política. A lista que se segue pretende oferecer uma linha do tempo para a visão sobre a vida cotidiana coisificada dos trabalhadores, a situação de mazela dos camponeses, as críticas mais ou menos veladas a ditadura, com raiva em certos momentos e com humor em outros, bem como a profanação tendo em visto a distorção do sagrado visando a crítica política.

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