Por que o discurso dos homens vale mais do que o das mulheres?

 

Antes de tudo, é preciso esclarecer que esse texto parte de reflexões pessoais – portanto, não é baseado em estudos acadêmicos. Meu objetivo é debater um tipo de comportamento masculino que é recorrente nas relações entre homens e mulheres (para além das relações amorosas) e que acaba por reforçar a desigualdade entre esse dois gêneros. Não pretendo fazer uma generalização comportamental, como a que vem implícita naquelas expressões do senso comum, do tipo: “todos os homens são mentirosos” ou “mulher é tudo igual”. Meus argumentos não se baseiam nesse tipo de pensamento, mas sim na observação de algumas experiências pessoais e de outras mulheres com quem tive a oportunidade de conviver e de debater. Logo, não tenho a pretensão de chegar em maiores desdobramentos conceituais sobre o assunto; quero apenas destacar uma questão que merece ser analisada com mais cuidado.

A situação é muito comum e, provavelmente, já aconteceu mais vezes do que você já reparou. Você resolve questionar a conduta de algum homem de seu convívio e, para iniciar o diálogo, você faz uma pergunta para seu pai/irmão/companheiro/amigo/primo/vizinho/etc. Você já sabe a resposta, mas, ainda assim, faz a pergunta para que o outro possa expressar seu próprio ponto de vista. Você faz a pergunta e ele responde mentindo. Você insiste na pergunta e ele mente outra vez. Você levanta evidências sobre o que está dizendo e ele diz que você está maluca e que você está inventando. Daí por diante, o jogo se inverte e quem passa a ser questionada é você, por ser desconfiada demais, por ser controladora demais, por ser insegura demais, por ser neurótica etc.

Aqui vão alguns exemplos de situações como essa. A filha pergunta para o pai se aquela moça que está sempre saindo com ele é sua namorada, mas o pai diz que não; que ela é apenas uma amiga muito próxima; que uma criança não deveria reparar nesse tipo de coisa; que não tem necessidade de sair por aí inventando besteiras para o resto da família. Durante uma briga de irmãos, a menina diz que vai contar para os pais algo que o irmão tenha feito e ele dispara: “pode contar, porque eu vou dizer que você inventou tudo isso e eles vão acreditar mais em mim”. A mãe repreende o filho por conta de alguma desobediência, mas o filho, ao invés de admitir o erro, responde com um “tá maluca, mãe?!”. Tive um namorado que adorava dizer a seguinte frase: “pra me pegar [na mentira], eu tenho que estar pelado, porque se eu estiver de meia, eu explico”. Ou seja, ele dizia que optaria por qualquer outra alternativa antes de dizer a verdade. Em outro caso, o ex-namorado de uma conhecida negou uma traição, mesmo diante de uma foto que comprovava o ato. Ele afirmou que a pessoa da foto não era ele e disse que estava muito chateado com a acusação.

Quantas mulheres decidiram questionar o comportamento de alguns homens de seu convívio e viram que eles simplesmente mentiam sobre suas condutas, mesmo em situações em que suas versões claramente não se sustentavam? O pior é que, muitas vezes, a negação vem acompanhada de argumentos que reafirmam certo estereótipo de comportamento feminino e que apresentam a mulher como um indivíduo naturalmente neurótico, do tipo: “isso é coisa da sua cabeça”; “você inventou isso”; “você é maluca”; “você é insegura”; “você quer controlar minha vida” etc.

Como foi dito, esse comportamento e o uso desses argumentos contribuem para reforçar a desigualdade entre gêneros, pois vivemos em uma sociedade que, historicamente, confere maior legitimidade ao discurso masculino e que trata com desconfiança o discurso feminino. A deslegitimação do discurso feminino (que é facilmente aceita pela sociedade) pode ser usada como uma forma de dificultar ou de evitar o questionamento da conduta masculina. Isso cria uma situação em que os homens passam a desfrutar de uma posição mais confortável, dado que seus discursos possuem maiores chances de aceitação social. Com isso, qualquer desconforto que o outro polo da relação possa ter será tratado como uma questão patológica das mulheres, como se nós criássemos situações de conflito para atender a uma suposta necessidade psicológica. Resumidamente, como se as mulheres gostassem de criar problemas.

Até aqui, alguns devem ter pensado: “por que perguntar sobre aquilo que você já sabe a resposta?”. Quando uma mulher questiona o comportamento de algum homem, isso não significa, necessariamente, que ela o faça com o objetivo de controlar a vida do outro ou que ela fatalmente seja uma pessoa neurótica. Esse questionamento pode significar que ela se sente capacitada para discutir uma questão ou pode ser uma tentativa de resolver, de forma igualitária (ou seja, com o debate franco entre as duas partes), as questões que possam surgir no cotidiano. Não pretendo afirmar que os homens sejam mentirosos no geral. Contudo, não me parece arriscado afirmar que a opressão de gênero se reproduz quando esse tipo de comportamento é adotado. É claro que nem sempre isso é feito com consciência. Muitas vezes, alguns homens optam por esse caminho porque eles foram ensinados a agir dessa forma; porque eles aprenderam que eles não precisam aturar a situação desconfortável de serem questionados pelas mulheres sobre sua conduta; porque eles internalizaram (conscientemente ou não) o fato de que o discurso feminino sempre terá menos validade do que o seu.

Em alguns casos, esse tipo de comportamento pode se transformar numa forma de violência psicológica conhecida como gaslighting, que leva algumas mulheres a questionarem suas próprias verdades e sua capacidade mental de tomar decisões e de discernir o real do imaginário (que seria produzido, obviamente, por sua suposta neurose). Com isso, muitas mulheres se tornam, de fato, paranoicas, desconfiadas etc, o que não só contribui para confirmar esse estereótipo de comportamento feminino – já que passa a haver alguma base real para isso –, como também leva à reprodução do ciclo desconfiança-mentira-mais desconfiança que, muitas vezes, está presente nas relações entre homens e mulheres. E é claro que a indústria da cultura está pronta para lucrar com o reforço e com a difusão desses comportamentos. Para além das personagens de novela e do cinema, temos também livros de auto-ajuda e outras publicações – como revistas femininas – dedicados a ensinar métodos para que as mulheres possam descobrir uma mentira masculina, por exemplo.

Por fim, não pretendo afirmar que as mulheres não mentem. Nós mentimos, sim, nas mais diversas situações. Mas não é meu objetivo entrar naquela falsa polêmica sobre quem mente mais. Para mim, o que deve ser debatido é o uso que se faz dessa mentira e as condições sociais em que ela é produzida. Isso pode parecer uma questão sem importância, mas já pararam para pensar que a maior legitimidade que se dá ao discurso masculino é justamente o que permite a relativização da violência contra a mulher, como no caso de um abuso sexual ou de uma agressão física, por exemplo? É comum que agressores façam uso dessa posição de vantagem (do discurso) para convencer suas vítimas de que, na verdade, elas são as culpadas pelo ocorrido. Nesse sentido, é preciso que os homens (principalmente aqueles que são comprometidos com a luta pela igualdade entre gêneros) se conscientizem sobre a necessidade de abolir esse ciclo, pois esse comportamento dificulta a convivência. No fundo, isso é algo que também contribui para sua mutilação como sujeitos, já que essa prática representa uma fuga da tentativa resolução de conflitos. Quanto a nós, mulheres (cis ou trans), quando nos encontrarmos diante de uma situação dessas, precisamos saber evitar que essa conduta nos faça cair naquele estereótipo de mulher neurótica. E uma forma de fazer isso é lutar pela igualdade entre gêneros.

 

Sobre Juliana Lessa

Professora, doutoranda em História, flamenguista, feminista, socialista e apaixonada por arte (especialmente por música).
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3 respostas para Por que o discurso dos homens vale mais do que o das mulheres?

  1. gilberto disse:

    Não acredito que seja um conflito de gênero somente, é mais um desvio masculino, sou homem, e diferente da maioria, sou sincero demais (uma anomalia), percebo que o mundo masculino mente descaradamente pra tudo, tudo mesmo, não admite erros de maneira nenhuma, coisas simples como dizer “eu não sei” parecem ser extremamente dificeis pro macho comum, é um comportamento cansativo de se conviver mesmo.

    • Juliana Lessa disse:

      Gilberto, acho que o que você chama de “desvio” é, na verdade, algo construído social e historicamente, já que os homens são cobrados para que tenham sempre razão. E essa mesma sociedade costuma dar menos credibilidade para os discursos femininos. Juntando as duas coisas (a necessidade dos homens terem sempre razão com a menor credibilidade que se dá ao discurso feminino) temos uma situação de clara desigualdade.

  2. Vanessa disse:

    Muito boa a reflexão.

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