Os impactos da Copa do Mundo de 2014 na cidade de São Paulo

* Texto escrito por Uiran Gebara da Silva e Lucas Tadeu Marchezin

A escolha do Brasil para sediar a Copa de 2014 foi cercada de muitas expectativas, tanto por parte das autoridades públicas quanto do empresariado brasileiro e da população em geral. Desde 2007, ano em que o país foi anunciado como sede do evento, falou-se muito sobre o legado que a Copa deixaria para o Brasil, sobre o impacto deste evento na economia nacional e as possibilidades que a realização de tal evento criaria para a população brasileira, em especial nas cidades sedes. Sete anos depois este tom de expectativa foi completamente abandonado, ao menos no que diz respeito à população brasileira.

Em São Paulo o que se coloca hoje não é a questão do suposto legado que tal evento deixaria para a cidade, mas sim os impactos dele para a cidade: de que maneira as intervenções feitas na cidade para a realização deste evento mudou, ou poderá mudar, a vida daqueles que nela vivem. Uma das questões principais que levou a tal mudança de perspectiva é a absoluta falta de informação sobre tudo que não se relaciona com as partidas de futebol. Houve muitas intervenções na cidade, intervenções que vão desde a construção do estádio em Itaquera, passando pela criação de rotas exclusivas para ônibus no ano passado e muitas mudanças na orientação do trânsito pela cidade. Mas não há qualquer fonte confiável de informações a respeito de tais transformações e seus impactos na cidade.

O planejamento dos três níveis do poder público (federal, estadual e municipal) era na verdade bem ambicioso e prometia muito mais transformações na cidade. Contudo, a realidade não correspondeu ao que fora anunciado nos anos anteriores. Não houve expansão do metrô, nenhuma conexão deste com os aeroportos, e também não houve a construção do trem-bala ligando São Paulo ao Rio de Janeiro, assim como nenhuma melhora nas políticas de turismo e cultura na cidade.

A maior parte dos impactos, no entanto, é invisível aos olhos do público, principalmente porque mostrar tais mudanças não interessa aos agentes que operam a “opinião publicada”.  Entre essas mudanças que não foram transformadas em notícia, as remoções de favelas merecem um lugar de destaque. Há por outro lado, uma série de mudanças derivadas do crescimento do aparato de repressão que são muito bem noticiadas pela grande mídia. O problema aqui é que essas transformações são apresentadas como um impacto positivo da Copa, exatamente o contrário do que elas são de fato.

Remoções em São Paulo

Remoções em São Paulo

Remoções

O histórico recente das remoções feitas pelo poder público em São Paulo é o das epidemias de incêndios em favelas, e o uso desses acontecimentos como pretexto para liberar as áreas atingidas para a especulação imobiliária durante a gestão Kassab. Assim, a expectativa dos movimentos populares sempre foi a de que as remoções para a Copa não fossem apresentadas como remoções para a Copa. Desde 2011 havia a expectativa da realização de despejos de cerca de 5 mil famílias habitantes das favelas nos arredores do estádio em Itaquera: Cidade AE Carvalho, Vila Progresso, Favela Caititu, Favela da Paz e Favela dos Cocos.

Apenas com a formação do Movimento Nossa Itaquera e a pressão junto com a Defensoria Pública é que a Prefeitura se manifestou, negando qualquer conexão das obras para a Copa com remoções na região. Contudo, os boatos sobre remoções continuaram, agora concentrados na favela da Paz com a possível construção de um parque na área. Apenas em 2013, já na gestão Haddad, a prefeitura formou uma comissão permanente disposta a dialogar com os movimentos sociais da região. Mas a essa altura, os boatos da construção do assim chamado Parque Linear já tinham se mostrado verdadeiros, e quando a comunidade propôs um plano alternativo (pensado e escrito já em 2012) de reassentamento na região em terrenos com dívidas milionárias de IPTU, só teve respostas evasivas da prefeitura.

A insistência da prefeitura de SP em apresentar os impactos nas comunidades como algo desvinculado da Copa levou, no final das contas, ao rompimento dos diálogos. O último ato dessa história foi a grande manifestação do MTST nos arredores do Estádio em Itaquera que finalmente pressionou a prefeitura a transformar um dos terrenos na região em ZEIS[1] (via mudança no plano diretor) para a sua destinação ao reassentamento das famílias afetadas. Por causa da sua capacidade de organização e resistência, o caso da Favela da Paz é o exemplo mais visível das tensões entre o direito de moradia e a influência do capital imobiliário no poder público. Tensões que também explicam a visibilidade que o MTST acabou conquistando atualmente.

O aparato policial

A segurança em eventos como a Copa do mundo é, sem sombra de dúvida, uma das questões centrais para o país-sede e para o comitê organizador. Em geral trabalha-se dentro da lógica de garantir a ordem dentro das áreas em torno dos estádios e eventos ligados aos jogos, evitar conflitos entre torcidas e prevenir-se contra atentados terroristas. Contudo, no caso do Brasil e, em especial São Paulo, a maior preocupação parece ser com as manifestações.

Desde as chamadas Jornadas de Junho, como ficaram conhecidas as manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo em 2013, o governo do Estado vem investindo sistematicamente no aparato policial para reprimir qualquer tipo de manifestação. Houve inúmeras ações tomadas ao longo do último ano que expressam essa política repressiva por parte do governo estadual (com o apoio tácito da prefeitura e explícito do governo federal na figura de seu Ministro da Justiça). Entre as principais medidas temos o aumento dos estoques das chamadas armas não letais, o incremento do aparato de proteção da tropa de choque e cavalaria, assim como a criação de tropas especializadas para atuar contra manifestações como a chamada Tropa do braçoe o Comando de Policiamento para a Copa do Mundo.

Desde o início de 2014, manifestações de diversos grupos foram sendo realizadas na cidade de São Paulo, com alguns grupos defendendo a recusa total à copa (Não vai ter Copa), outros aproveitando a realização do evento para questionar sua lógica elitista em nome de projetos alternativos (Copa para quem?). Do ponto de vista do poder público tais nuances não importam. Em nome da ordem, do bom funcionamento do evento, tomando como pretexto a ação de violência contra a propriedade privada (real ou infiltrada) dos assim chamados black blocs, temos um processo acentuado de criminalização dos movimentos populares e de repressão às manifestações que estes realizam. A desarticulação violenta da manifestação do MPL no dia 19 de junho foi o caso mais recente do emprego desse esforço de criminalização.

A grande mídia tem divulgado as informações sobre os investimentos feitos em segurança, apresentando estes como uma política de proteção dos cidadãos paulistanos. O problema é que alógica resultante das políticas de segurança dos três níveis de governo em São Paulo tem como alvo as manifestações legítimas de uma parte dos cidadãos paulistanos, aqueles que querem melhores serviços públicos, aqueles que exigem o direito de greve, aqueles que exigem direito de moradia e revela uma postura cada vez menos democrática do Estado e da polícia em relação aos movimentos populares.

Parafraseando o capitão Nascimento, personagem do filme Tropa de Elite, “põe na conta da Copa”.

[1] Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) são áreas demarcadas no território de uma cidade, previstas no Plano Diretor e na lei de Zoneamento, para assentamentos habitacionais de população de baixa renda.

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