A festa dos piratas do futebol

Agradeço a Bárbara Araújo Machado por ajudar com o texto

 

O escudo do St. Pauli e a bandeira “skull and crossbones” (“caveira e ossos cruzados”) adotada pelo seus torcedores

O escudo do St. Pauli e a bandeira “skull and crossbones” (“caveira e ossos cruzados”) adotada pelo seus torcedores

Nesses meses de Junho e Julho de 2014 estamos presenciando uma “festa” de escala mundial, tendo o Brasil como palco. Trata-se da encenação de mais um capítulo desse esporte que “é passional porque é jogado pelo pobre ser humano”, como disse Nelson Rodrigues. E se é observável a atração de grande parte da população brasileira desde o início do torneio e de um certo sentimento de cosmopolitismo com o afluxo de estrangeiros, apenas peço aos leitores que não se deixem hipnotizar, ainda que se permitam (com todo o direito) desfrutar da emoção esportiva.

Pois essa festa possui traços muito específicos que não passam despercebidos à maioria dos observadores; batendo recordes de audiência e lucro a Copa do Mundo da FIFA é a imagem e semelhança da sociedade (capitalista) que tem-se construído, o que significa toda uma série de problemas (alguns deles abordados no Dossiê Copa do Brasil). É por isso que agora é um bom momento para pensarmos que assim como tantas outras esferas de nossas vidas, o futebol é também um ponto de disputa e de que há aqueles que procuram nele algo que não se reduz a frieza nos cálculos de conta dos lucros da FIFA; é uma boa hora para olharmos o Fußball-Club Sankt Pauli von 1910: “os piratas da Bundesliga”.

Homenagem da banda italiana de Ska/Folk Talco ao St. Pauli

Mais conhecido somente como St. Pauli, o clube tem se tornado bastante famoso pelas peculiaridades de sua torcida. Mas nem sempre foi assim, tendo surgido em 1899 na cidade de Hamburgo (Alemanha) devido a um grupo informal de entusiastas do futebol dentro do clube Hamburg-St.Pauli Turn-Verein 1862, só em 1910 é oficialmente estabelecido como St. Pauli TV. Depois, em 1924, passa a ser designado pelo seu nome atual; tendo durante grande parte de sua existência um status bastante humilde.

É a partir do final da década de 1980 que o clube começa a adquirir a aura de “Kult”, em parte por ele estar localizado em Reeperbahn, um “red-light district”; ou seja, uma área de vida noturna, boêmia e prostituição. Não é de se estranhar, portanto, que no início dos anos 90 a imprensa alemã tenha dado ao clube apelidos como “Corsários da Liga” e “Bordel da Liga” e que ele tenha ganho ao longo do tempo a reputação do clube mais rock ‘n’ roll do mundo. Essa identidade cult, boêmia e rock ‘n’ roll do clube e da sua torcida manifesta-se em tradições mais recentemente criadas tal como a entrada em campo ao som de Hell Bells, do AC/DC, e a celebração dos gols da equipe sempre ao som da Song 2, do Blur, bem como músicas que procuram homenagear St. Pauli. A forte presença na torcida de punks e headbangers também explica o fato do Ballroom (o bar de Heavy Metal mais famoso de Hamburgo) ter um espaço nas dependências do clube, bem como a existência de uma parceria com o Wacken Open Air, maior festival de Heavy Metal do mundo que ocorre todo verão na cidade de Wacken (a poucas horas de Hamburgo), onde, além de ter seus produtos vendidos por lá, volta e meia o St. Pauli faz amistosos com outros times antes da música começar[i].

"Fãs do St. Pauli contra a direita"

“Fãs do St. Pauli contra a direita”

A associação da imagem do clube com a cultura Punk e outras subculturas não se reflete apenas na trilha sonora do time, mas também nas posturas políticas de esquerda assumidas por seus torcedores: a maioria dos fãs do St. Pauli se consideram anti-racistas, anti-fascistas, anti-homofóbicos e anti-sexistas, e isso colocou algumas vezes a torcida em conflito com neonazistas e hooligans em jogos fora de casa (ainda dentro desse tópico, vale destacar que Corny Littman, que foi presidente do St. Pauli por quase uma década, é assumidamente gay). Em 2013, a diretoria do St. Pauli anunciou que deixaria a bandeira do arco-íris tremulando sempre no estádio.

"Fãs do St. Pauli contra homofobia e sexismo"

“Fãs do St. Pauli contra homofobia e sexismo”

A intervenção política ativa contra comentários sexistas ou racistas no estádio do St. Pauli é uma prioridade, fazendo dele o primeiro clube a criar regulamentos do estádio referentes a isso; atualmente isso se tornou comum nos estádios e regulamentos dos clubes da Bundesliga (liga alemã de futebol profissional). Há inclusive o caso de um patrocinador, a revista masculina Maxim, que foi obrigado a tirar sua publicidade do estádio após protestos, por ter sido considerado pelos fãs machista e misógina.

Bandeira arco-íris no estádio do St. Pauli

Bandeira arco-íris no estádio do St. Pauli

St. Pauli foi o primeiro clube na Alemanha a integrar um conjunto de princípios fundamentais para ditar como o clube é gerido indo além das questões apenas esportivas, colocando a preocupação social em primeiro plano. Os princípios fundamentais foram aprovadas por esmagadora maioria no Congresso do St Pauli em 2009, sendo os cinco primeiros pontos fundamentais os seguintes:

– “Em sua totalidade, composto por membros, funcionários, torcedores e dirigentes honorários, o FC St. Pauli é uma parte da sociedade, que é cercado e por isso é afetado direta ou indiretamente pelas mudanças sociais nas esferas política, cultural e social”.

– “FC St. Pauli está consciente da responsabilidade social que implica, e representa os interesses dos seus membros, funcionários, torcedores e dirigentes honorários em matéria não apenas restritos à esfera de esporte.”

– “FC St. Pauli é o clube de um determinado bairro da cidade, e é a isso que deve a sua identidade. Isto dá-lhe uma responsabilidade social e política em relação ao bairro e as pessoas que vivem lá.”.

– “FC St. Pauli pretende fazer passar um certo sentimento pela vida e simboliza autenticidade esportiva. Isto torna possível para as pessoas se identifiquem com o clube independentemente de quaisquer sucessos esportivos que ele possa atingir. Características essenciais do clube que incentivam esse tipo de identificação devem ser honrados, promovidos e preservados. “

– “A tolerância e o respeito nas relações humanas mútuas são importantes pilares da filosofia St. Pauli.”

Já nos anos 90 a torcida se engajou contra um projeto de um novo estádio que combinaria instalações esportivas com shopping center e hotel, por considerar que ele não atendia nem aos interesses dos torcedores nem dos moradores da região. Através de várias manifestações nos jogos em casa, com mais de um minuto de silêncio em protesto esse projeto foi finalmente derrubado. Anos depois, as reformas do estádio do clube foram iniciadas por Littman e estão previstas para se encerrar esse ano.

Banda: Art Brut Música: St Pauli
Logotipo do fã clube Deaf St. Pauli, que combina a "caveira e ossos cruzados" com o sinal I L Y, que é internacionalmente conhecido em língua de sinais e significa "Eu te amo".  http://deaf-fcstpauli.jimdo.com/

Logotipo do fã clube Deaf St. Pauli, que combina a “caveira e ossos cruzados” com o sinal I L Y, que é internacionalmente conhecido em língua de sinais e significa “Eu te amo”. http://deaf-fcstpauli.jimdo.com/

Esse engajamento político de esquerda e a preocupação com causas sociais também aparece no torneio antirracista organizado de dois em dois anos pelos seus torcedores realizado nos campos de treinamento do clube. O próprio St. Pauli sediou em 2006 a FIFI Wild Cup (organizada pela Federação Internacional de Futebol Independente, uma organização constituída pelos países que não são reconhecidos pela FIFA). Também vale mencionar a participação do clube no projeto “Viva con Agua de Sankt Pauli”, cujo objetivo é melhorar o abastecimento de água potável em “países em desenvolvimento”. Além do time, também o fã clube 18auf12 ajuda no projeto, gravado muitas músicas (Come Back to St. Pauli e One Hundred Beers por exemplo) e destinando uma percentagem das vendas (20%) a “Viva con Agua de Sankt Pauli”.

Fã clube nova-iorquino do St. Pauli

Fã clube nova-iorquino do St. Pauli

Curiosamente essa postura do clube que poderia ser vista como excêntrica ou radical vem demonstrando, ao contrário, atrair um grande número de apoiadores, obtendo (segundo a empresa de marketing esportivo UFA Sports) cerca de onze milhões de simpatizantes ao redor do mundo e vendendo cerca de 8,6 milhões de euros em merchandising por ano. O financiamento via venda de produtos relacionados ao clube é a forma encontrada pela diretoria de tornar o clube sustentável já que os torcedores do St. Pauli não aceitam que o clube venda o nome do estádio, bem como a diretoria decidiu não adotar a prática de compra de jogadores estrangeiros por preços baratos e revende-los por preços mais caros, preferindo por contratar e desenvolver jovens talentos nacionais (isto é, alemães).  O clube pode ser gabar de ter uma média de público de 35 mil pessoas por jogo mesmo estando na segundo divisão; inclusive já tendo conseguindo superar no passado alguns clubes da primeira divisão na média de público.

Versão da música I Got Erection da banda Turbonegro homenageando o St. Pauli

O St. Pauli pode ser visto como um expoente mais à esquerda da própria Bundesliga, que pratica preços populares, bate recordes de público e que incentiva o desenvolvimento de talentos locais. Segue, assim, um rumo que difere bastante do que vem sendo implementado na Inglaterra pela Premier League, de elitização das torcidas e altos gastos financeiros por parte dos clubes. Modelo de elitização que vem sendo implementado aqui no Brasil, e ao qual a Copa do Mundo está diretamente relacionada.

Os fãs do St. Pauli parecem se divertir demais nos jogos do clube, um espaço onde eles podem se sentir em casa, e não parecem querer colocar a subida (e manutenção) do time na primeira divisão como principal foco de interesse, pelo menos se isso significar que o clube precisa ceder às pressões do mercado. A festa dos piratas do futebol gira em torno daquilo que eles querem para si e para a sociedade que idealizam: sem opressões, respeitando as diversidades étnicas e sexuais e mantendo um clube esportivo como representante de uma comunidade.

Hino do fã clube catalão do St. Pauli

 

[i] Roadie Crew nº 185, Junho de 2014.

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2 respostas para A festa dos piratas do futebol

  1. Poxa Artur, muito bom mesmo, classificaria como um registro histórico, parabéns!

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