O neoconservadorismo mauricinho

idiota

Felipe Moura Brasil, blogueiro da Veja e olavete.

Um dos produtos típicos da era lulista foi a emergência de um novo e curioso tipo de militante político, que não apresentava nenhum dos tradicionais símbolos de rebeldia aos quais nos acostumamos a associar a esta espécie de atividade. É impossível confundi-los por sua aparência e comportamento com o clichê habitual do militante. Suas roupas tendem a ser formais, seus cabelos e eventuais barbas são bem aparadas. Parecem, não por acidente, terem acabado de sair de um escritório. E dificilmente eles poderão ser achados em assembleias ou passeatas (ainda bem). Mais fácil encontrá-los em blogs e fóruns na internet – e, cada vez mais, em artigos e colunas nos principais veículos da mídia empresarial. Seus slogans costumam ser voltados contra a “bolchevização” ou a “cubanização” do Brasil que estaria sendo promovida por seus adversários fundamentais, os “petralhas”, “esquerdalhas” e outros tipos de gentalha.

Este tipo bem-comportado de militante, como se pode ver, não tem como alvo de crítica a ordem social existente, mas as próprias críticas a esta ordem. Se consideram liberais em uma terra em que a liberdade é tanto a única força eficiente quanto a mais frágil das bases, ameaçada não somente pela ação consciente dos estatólatras e socialistas, mas também pela falta de confiança dos que a estes se opõem. São, assim, sintoma interessante da crise pela qual a direita brasileira se viu na última década.

A crise da direita

Os bons velhos tempos do neoliberalismo na ofensiva.

Os bons velhos tempos do neoliberalismo na ofensiva.

Com os sucessos eleitorais do PT impondo para o conjunto das forças políticas nacionais um reposicionamento, e a aliança de grande parte das forças conservadoras tradicionais com o novo ocupante do centro do poder estatal, os partidos que outrora formavam o núcleo da direita nacional tiveram que tentar se rearticular em uma nova função, a de oposição. Para estes grupos organizados, buscar uma nova estratégia era uma necessidade para a sobrevivência enquanto alternativa política. Rompeu-se, dessa forma, o bloco que havia se unido sob a insígnia de um projeto que poderia ser descrito como “neoliberalismo pelo centro”, um programa de ajustes estruturais da economia nacional – desestatização, desregulamentação, etc. – com vistas a favorecer a livre circulação e acumulação de capital, operado por um partido que se apresentava como oriundo da centro-esquerda e portador de um projeto progressista-modernizador. Com a derrota eleitoral de 2002, tal projeto de Terceira Via à brasileira parece ter encontrado um limite histórico, substituído por uma versão mais à esquerda, conciliando parâmetros neoliberais com atuação desenvolvimentista, e com compromisso social mais claro. Frente a essa necessidade de reposicionamento, o PSDB, partido que antes liderava o bloco neoliberal, não fez nenhuma opção clara de reafirmar seu antigo projeto ou de articular um novo, preferindo se por como alternativa meramente gerencial, como grupo mais apto ou mais confiável para administrar o país (o que se acompanhou de uma tentativa de desqualificar o PT nestes mesmos termos). Outros grupos, em especial o PFL/DEM, porém, viram a necessidade de se representarem como alternativa ideológica ao PT. Inspiraram-se, para tanto, na discurso da direita norte-americana, advogando um certo conservadorismo moral com uma agenda econômica liberal. mas com sucesso bastante limitado, seja eleitoral, seja em se remodelarem efetivamente neste molde.

Basta PTEntretanto, o problema não se pôs somente para os partidos deslocados do Executivo Federal. Colocou-se também para todos aqueles que viam, por um motivo ou por outro, a presença do PT no poder como algo a ser combatido, o que se viu com especial clareza no sentido de missão que os principais grupos da mídia empresarial se imbuíram ao se converterem em principal força de oposição ao governo petista. Entretanto, embora flertando constantemente com a adoção de uma linha política mais clara, os grandes jornais e redes de televisão preferiram em geral manter o combate ao PT através de uma estratégia de desgaste incessante de sua imagem, especialmente com denúncias de corrupção. Embora tal estratégia não tenha resultado até então na queda do adversário, foi elemento fundamental (embora não único ou suficiente) para a constituição de um forte sentimento antipetista em largos, ainda que minoritários, setores da população brasileira, em especial na classe média. Tal fato deu gravidade social para a crise da direita, tomando dimensão de uma experiência de impotência frente à tarefa de extrair o grupo lulista do poder.

Não é surpreendente, portanto, que, alimentado por uma oposição a um inimigo alçado à posição de símbolo de tudo que está errado, a ausência de uma alternativa eficiente ao PT tenha sido diagnosticada com frequência como ausência de alternativa clara, explícita e ideológica a este partido, que assinalasse uma diferença e desse sentido a esta oposição. A direita, assim, busca sair de sua crise com o diagnóstico de que não há, nem nunca houve no Brasil uma direita verdadeira, e atribuindo para si a tarefa de formar então esta nova direita.

O partido da nova direita

O think tank da direita moderna.

O think tank da direita moderna.

No Brasil, a direita estaria acometida por uma vergonha em se assumir como tal, por conta da associação forte desta posição ao regime empresarial-militar de 1964. Assombrada por esta espécie de pecado original, as forças de direita esconderiam sua real filiação e conciliariam suas posições com aquelas oriundas da esquerda, se apresentando como como forças de centro. O déficit político atual, dessa maneira, seria devido a um déficit ideológico. A direita brasileira não conquistaria seguidores por não se assumir como direita, deixando de ocupar com suas ideias o debate público. Teria, portanto, medo do debate ideológico, quando o que deveria fazer é encará-lo abertamente. Somente dessa maneira seria possível combater o avanço de um consenso esquerdista para as questões públicas, que progrediria sempre de maneira sub-reptícia através do trabalho de convencimento executado por intelectuais e militantes.

Se um texto tiver "anta" ou "idiota" nele, boa chance de ser de um destes.

Em sentido anti-horário, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Rodrigo Constantino e Olavo de Carvalho.

Para que haja uma real direita, portanto, é necessário ideias de direita, e que elas sejam conhecidas e formem uma nova noção do que a direita é, uma nova imagem na qual seus partidários possam se reconhecer e possam sustentar com orgulho. É preciso, portanto, uma ideologia de direita, e de preferência uma ideologia que escape a associações imediatas com regimes autoritários. O elemento galvanizador dessa tentativa de rearticulação da direita tem sido a defesa aberta do liberalismo como pauta econômica e como base política. Essa defesa é, entretanto, um tanto diferente daquela dos tempos áureos do neoliberalismo desenfreado dos anos 90, em que se apresentava como ofensiva modernizadora a qualquer custo (social), cujo único argumento era um de força, o da inevitabilidade econômica de tais ajustes em um processo de globalização da competição mais feroz. Agora a ênfase é nos elementos políticos do mesmo discurso, recorrendo para tanto aos textos fundadores do neoliberalismo, os da Escola Austríaca de Economia, fortemente dedicados ao combate ao avanço do comunismo em meados do século XX. Nomes como F. Hayek e L. Mises se tornam os referenciais teóricos máximos, fonte de argumentos e a base ideológica para o qual se pode formar uma nova direita brasileira. Serão eles que ensinarão que a liberdade individual tem como única base a propriedade privada, que a única força econômica real é o empreendedorismo e que o Estado é o instrumento da perturbação da harmonia econômica e social. Dotam, portanto, a direita de sua missão: proteger a economia e a sociedade daqueles que a querem perturbar, resguardar a liberdade individual como valor que os socialistas querem sacrificar no altar da “sociedade” ou do “bem comum”.

Ação direta da direita. Menos Marx, mais Mises na Universidade Federal Fluminense.

Ação direta da direita. Menos Marx, mais Mises na Universidade Federal Fluminense.

Com isso, pode contar a direita com uma visão de mundo particular e unificadora, que articula um discurso, um programa prático e elege um inimigo a quem se opor. Não menos importante, permite a inflação deste inimigo à dimensão abstrata de um oponente eterno, o perigo permanente do socialismo ou coletivismo. A história, portanto, passa a ser a história de uma luta de princípios, liberdade versus socialismo, na qual Lula está do mesmo lado de Keynes, Chávez, Obama, Hitler e Stálin. Para evitar a expansão das ideias coletivistas, é necessário expor ao máximo as libertárias (como gostam de chamá-las). Isto explica porque a principal forma de atuação da nova direita tem sido a criação de uma miríade de institutos dedicados à divulgação de ideias e de textos clássicos, à formação de quadros e à criação de uma pauta liberal para as políticas públicas. Esses think tanks vão desde grandes entidades, como o I. Millenium (organizado principalmente pela Globo, Gerdau e Estado de S. Paulo e com orçamento anual de mais de um milhão de reais), até menores, restritos basicamente a atividades na internet, como I. Liberal e o I. Mises. Formam, assim, um espaço de aglutinação para a direita transversal às agremiações políticas existentes (embora com tentativas de criação de novos partidos eleitorais), reunindo figuras públicas conservadoras e fornecendo quadros para a ocupação de cargos públicos e, principalmente, de espaços na mídia empresarial. Julgam combater, dessa maneira, o “marxismo cultural”, armando-se para a Contra-Reforma.

O liberalismo mauricinho

Rafinha Bastos,

Rafinha Bastos.

A militância conservadora tem no discurso sua principal forma de atuação. Suas figuras de referência não são líderes políticos nem ativistas, mas blogueiros, colunistas de jornal, comediantes e, por vezes, acadêmicos (quando não amálgamas disso tudo), cujo forma fundamental de discurso é o comentário cotidiano. Discutem declarações de celebridades, fatos do dia, tendências do comportamento, de forma a submetê-los à pedra de toque de suas concepções liberais ou conservadoras, de revelar a poluição esquerdista embutida no senso comum e de oferecer perspectivas renovadas sobre qualquer coisa. Com isso, contribuem não somente para divulgar suas ideias, mas também para formar uma comunidade de opinião com a qual sua audiência possa se identificar e ser atraída. Não surpreende, portanto, que busquem incessantemente a polêmica, em geral sensacionalista, como forma de expressão. Se apresentam, assim, como rebeldes sui generis, como a vanguarda da nova crítica, aquela voltada contra a “hegemonia cultural” da esquerda, como representantes, portanto, da última novidade em termos de opinião político-social. Moderno é ser conservador. Cult é ser empreendedor. Polêmico é ser a favor da pena de morte.

Ricardo Salles, do Movimento Endireita Brasil.

Ricardo Salles, do Movimento Endireita Brasil, assessor de Geraldo Alckmin.

Assim, ser de direita pode e deve ser atraente para os jovens e aqueles que querem ser antenados. Findos estão os tempos do reaça de gravata borboleta. O novo conservador é descolado e seu discurso é que faz dele interessante, ao se destacar do senso comum vitimista, culpabilista, paternalista, moralizante. Sua insígnia é ser politicamente incorreto. Ele é terrível. Essa construção ativa e constante do ser de direita como alternativa viável no mercado das identidades e das consciências explica o frequente tom de auto-ajuda do seu discurso. O fundamental é construir o orgulho de ser de direita, e como passeata não é muito a praia deles, o jeito é polemizar até que todos se convençam da coragem do polemista em lutar contra o senso comum e mostrar que sua confiança no capitalismo é sua confiança no seu próprio valor individual no mundo da livre competição. Nada mais natural, portanto, que para luminares da nova direita como Pondé e Constantino a suposta dificuldade do militante liberal em “pegar mulher” seja um problema político central. A direita não pode deixar que a diversão seja monopólio da esquerda. O mercado sexual também tem que estar livre ao empreendedorismo da militância mauricinha.

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3 respostas para O neoconservadorismo mauricinho

  1. Wesley Carvalho disse:

    Tem uma dimensão interessante sobre esse pessoal que é o uso da comédia. A onda conservadora tem bastante protagonismo de comediantes e, além disso, as capas de vários livros puxam, se não propriamente pra comédia, para o desenho animado e afins. Reinaldo Azevedo e Vila, que posam de letrados, tem umas capas assim (os livros sobre petralhas e sobre o mensalão). E também aqueles guias incorretos do Pondé e do Nardone. É um quê de infantilizado em muitas abordagens, isso deve significar algumas coisas.

  2. Thieplo Bertola disse:

    Perfeito esse texto! Mostra a origem social da juventude coxinha brasileira, com seus anseios políticos.

  3. fritadordecoxinhas disse:

    Republicou isso em Fritando Coxinhas.

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