New Orleans é aqui

New Orleans depois do Katrina. A cidade que emergiu dessa tragédia, com todos desafios impostos pela devastação. O porto da música e da culinária da costa Leste com sua vida cultural e cenário alternativo, uma economia decadente e conflitos sociais. É esse o plot de Treme, série de TV americana que está agora em sua quarta temporada e que tem em seu currículo os mesmos realizadores de The Wire.

É uma pintura apaixonada de uma cidade com toda sua complexidade e contradições. Leitura certamente romantizada dessa realidade, o que contudo não cria uma interpretação simples ou superficial. A paixão dos realizadores pela cidade é explícita em cada cena desse relato etnográfico. Impossível não se envolver com o lugar depois de alguns episódios. E é essa paixão que faz querer penetrar todas as razões e desrazões da cidade que fez nascer o jazz. O drama passa bem longe da história piegas de uma cidade que luta para se reerguer diante de uma catástrofe inevitável.

Inevitável inclusive é o primeiro adjetivo que a produção afasta. Um dos personagens de maior destaque no início da série é um intelectual que milita pela responsabilização das autoridades que negligenciaram todas as medidas que poderiam ter minimizado os efeitos do furacão. A devastação foi resultado não somente do fenômeno natural, mas na enchente subsequente ao rompimento das barragens que deveriam proteger a cidade. O que veio à tona (com o perdão do trocadilho) após a enchente foi mais do que a destruição material e as mortes causadas diretamente por ela, foram todas as questões sociais e políticas de uma cidade prenhe de conflitos.

Um dos dramas mais importantes da primeira temporada é o de uma família que tenta descobrir o destino de um jovem desaparecido. As investigações apontam para um assassinato cometido por policiais numa conjuntura de quase nenhum controle possível sobre as ações das autoridades. Um momento de caos na criação e manutenção de registros de ocorrências perfeito para a invisibilização de crimes. Sobretudo daqueles crimes que já não são vistos, de jovens negros e pobres. Tema que se mantém central durante toda a série é a violência policial direcionada a essa parcela da população. Casos de abuso de poder, assassinatos e agressões. Aquilo que já pouco se percebia ou se fazia importar torna-se ainda mais invisível em meio à desordem.

A população negra e pobre não aparece como vitima somente da violência direta. A destruição da quase totalidade das habitações da cidade foi obviamente mais trágica para aqueles que não tinham recursos para se reerguer. Vários personagens vivem o drama de não conseguir indenizações por suas perdas de seguradoras que alegam não estar prevista em contrato a reparação naquele caso. Toda uma população desabrigada ao largo de moradias vazias. O projeto de demolição dos projects, os conjuntos habitacionais típicos das grandes cidades americanas, é outro conflito central para o desenvolvimento da série. Moradias populares estigmatizadas como antros de drogas e violência que poderiam resolver de imediato a situação habitacional de boa parte dos desabrigados.

Por trás dos tantos absurdos da situação das moradias, a falta de recursos de uma cidade em franca decadência econômica, a ausência de vontade e organização políticas, os desvios de verbas, além de autoridades e construtoras corruptas. O desenrolar da história vai deixando cada vez mais claros os jogos de poder que ditam o ritmo da (não)reconstrução, enquanto famílias seguem em condições precárias ou inexistentes de habitação.

O que faz pulsar porém, muito mais que as tramas politicas e sociais, é seu entrelaçamento constante com a música. A cidade parece ter seu ritmo sempre ditado ora por uma banda de jazz, ora por um desfile de carnaval. A música aparece como resistência diante do tempo que passa.

Em todas as tramas e características sociológicas se evidencia a proximidade entre os nossos distantes parentes do Norte e nós mesmos: o passado colono escravocrata, a cultura negra, o racismo que a acompanha, violência policial, má gestão do dinheiro público, deficit habitacional, pobreza e criminalidade. A irmandade bastaria como argumento para assistirmos New Orleans como se fora ao bairro ao lado. O move, porém, é a sonoridade desse pedaço de Sul que eles têm lá em cima. O batuque cria umas almas que não se encontra fácil assim pelo mundo, prerrogativa nossa africana.

E por lá a batucada negra encontrou nas populações originárias inspiração para uma tradição única. Eles têm chefes índios que guiam suas tribos em desfiles suntuosos pelas ruas, com suas cantorias e trajes magníficos.

No carnaval, nos funerais, desfila-se pelas ruas palcos e talvez só quem já tenha conhecido a sensação de percorrer em outro ritmo os caminhos de todo dia tenha dimensão da profundidade das raízes que se criam nesse percurso. Que seja um convite então. Que venha a nós a música e que nossos pés pisem também New Orleans quando por aqui andarmos.

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Sobre Mariana Bedran Lesche

Ex-historiadora de profissão e ainda de coração, ex-professora - mas eternamente explicadora -, ex-outbacker, tentativa de programadora e metida a designer por teimosia. Apaixonada por fotografia e lutas. Comunista por convicção e antes de tudo por amor.
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