A Copa das Críticas

Texto enviado ao blog pelo colaborador Alexander Englander

No início da tarde de hoje fui pedalar em Copacabana, como fiz algumas vezes durante essa Copa. Torcedores de diversos países perambulavam pelo calçadão. Pensando retrospectivamente acho que esse foi um modo que eu encontrei de participar da maior festa popular do futebol sem prestar nenhum tipo de apoio à Fifa, instituição que eu repudio de todo.  Pouco depois do Copacabana Palace um grupo de uns 50 argentinos cantava gritos de torcida e aglomerava brasileiros em sua volta. Saltei da bicicleta e fiquei ali observando uma animação que eu me acostumei a compartilhar em um Maracanã que já não existe mais. Logo em seguida ainda tive a honra de ser cumprimentado pelo inusitado Papa Don Diego de la gente. Foi a cereja do bolo, decidi ficar pela praia mesmo e assistir a final no telão do Fifa Fan Fest. Mas do lado de fora.

Ao contrário da falta de criatividade da embranquecida torcida brasileira que esteve nos estádios, a empolgação da torcida argentina na praia estava contagiante. Copacabana estava tomada pelos seus belos cantos quando Higuaín perdeu aquele gol feito eu me vi reclamando e torcendo junto com os hermanos. Eles eram a grande maioria na praia, mas também haviam mexicanos, colombianos, chilenos, noruegueses e brasileiros apoiando os nossos chamados “arquirrivais”. Se torcida ganhasse jogo, eu garanto, certamente eles seriam os campeões e a taça teria ficado nos solos de nuestra querida América Latina. Mas prevaleceram a competência tática e a evolução técnica do futebol coletivo da Alemanha. O craque do time alemão não é o atacante Müller nem o goleiro Neuer, é o espírito coletivo, é o time como um todo. E além de jogarem o futebol mais dinâmico da contemporaneidade eles ainda contaram com a sorte própria dos campeões. Que sirva de lição para o futebol brasileiro, porque nós podemos unir aplicação tática coletiva com habilidades individuais muito mais refinadas do que a dos alemães.

A festa popular estava linda, sobretudo para quem ama futebol, como eu (e, principalmente, o futebol bem jogado, como assistimos hoje). Mas nem tudo eram flores. Durante o jogo vi jovens pobres sendo presos na praia, por tentativas de furto; bombas genocidas continuavam explodindo na Palestina e bombas de gás e de efeito moral estouravam na Praça Saens Peña, na inaceitável repressão pela PM ao ato em memória de Amarildo, morador da favela da Rocinha assassinado por policias militares do Rio de Janeiro. E a Fifa não fez sequer um apelo, ou uma menção pelo cessar fogo na região da faixa de Gaza, não esboçou nenhuma autocrítica dos “efeitos colaterais” provocados na sociedade brasileira por suas exigências organizacionais para o megaevento consumista que é a Copa do Mundo. A Fifa demonstrou a soberba e o descaso que a elite do mundo globalizado tem perante aos não incluídos na sociedade de consumo. Por isso ela está para o futebol como a Polícia Militar está para a sociedade do Rio de Janeiro: criminaliza os pobres, reprime os ativistas e protege os bem estabelecidos da sociedade de consumo globalizada. Ambas as instituições precisam acabar. O futebol precisa ver-se livre das regras de controle neoliberal impostas pela Fifa e a sociedade carioca necessita extinguir a criminalização da pobreza e promover políticas públicas nas áreas da educação, da saúde e do fomento da renda dos mais pobres.

Essa não foi a “Copa das Copas”, como querem os exaltados governistas no Brasil. Foi sim uma ótima Copa dentro das quatro linhas e, sobretudo, dentro das quatro linhas. Em campo, com a bola rolando, assistimos à revolução que futebol coletivo promoveu no mundo da bola, com sua aplicação tática e seu espírito de equipe. A Alemanha campeã é o maior exemplo disso. Fora de campo não prosperou esse mesmo princípio coletivo. Longe das quatro linhas essa foi a Copa das Críticas ao individualismo exacerbado ainda existente na sociedade brasileira, a Copa das Críticas à precariedade das políticas públicas em nosso país, a Copa das Críticas ao mau uso das verbas públicas. Ironicamente nossa seleção foi o reflexo de nossa falta de espírito coletivo. Ainda não vivemos nossa revolução tática no futebol. Deu no que deu. O maior responsável pelo vexame canarinho foi o conservadorismo dos cartolas da CBF. Por isso torço para que a vitória da coletividade que presenciamos no mundo da bola sirva de exemplo para nossa arena política, ainda tão egoísta, ainda tão elitista e conservadora.

E, em tempo, foi-se a Copa, será que agora o preço do meu aluguel pode abaixar? Por fim, o mais importante: liberdade imediata para os nossos presos políticos!

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