A esquerda sem futuro

Tem-se a impressão de que a esquerda está imobilizada, no nível da teoria e por conseguinte no da prática, pela ideia de que deve ficar o tempo todo revolvendo as entranhas do presente em busca de sinais de catástrofe e salvação. É melhor olhar para o pescrai e o maruflicchio com ironia infinita – uma ironia camponesa, com seu justificado desdém pelo futuro – do que apostar em uma política fundada, mais uma vez, em uma multidão de terracota que espera a hora de sair marchando do túmulo do imperador.” (T. J. Clark, Por uma esquerda sem futuro, pp. 18-19)

A multidão de terracota prestes a ressurgir.

A multidão de terracota prestes a ressurgir.

No começo de 2012, logo após, portanto, um ano em que viu-se reaparecer movimentos de massa em várias partes do mundo, um artigo escrito por um veterano crítico de arte ventilou polêmica nos meios da esquerda, especialmente a europeia e americana, mas sem deixar de alcançar nossas paragens (traduzido em tempo recorde para o português e lançado em livro pela Editora 34). Não era pra menos, uma vez que o artigo era, de fato, uma peça de polêmica aberta, um ensaio-manifesto cujo objetivo era propor uma reorientação estratégica de como a esquerda deveria se pensar e se apresentar na arena política mundial. E justamente por se dedicar à consideração e crítica de um elemento fundamentalmente cultural da tradição da esquerda, não poderia deixar de ser fonte de algum escândalo. A tese de T. J. Clark, o autor de tal artigo, era de que, para que pudesse se reinventar e se por novamente à altura dos desafios do nosso tempo, a esquerda deveria romper uma antiga aliança, entre ela e o futuro.

A esquerda e o futuro

Progresso

Quando entrar para o partido era caminhar para o progresso

Por uma esquerda sem futuro” é tanto um diagnóstico quanto uma proposta. Visa atacar o que identifica como um bloqueio da capacidade da esquerda atual em pensar a si mesma e a sua situação, em que, mesmo no contexto de um aumento no descontentamento popular com a crise econômica e com as políticas estatais, a esquerda parece incapaz de propor alternativas convincentes para as populações. Para Clark, essa paralisia se deve à antiga disposição, não abandonada mesmo após um sem-número de eventos desmoralizadores, da esquerda olhar para frente e alimentar a expectativa de que o futuro possa apresentar uma imagem que oriente ou justifique as ações no presente. Esse velho hábito – que se exprimia antigamente como confiança de que a história teria um sentido, e que esse sentido era o de uma emancipação social – se poria, assim, no caminho de uma reavaliação das possibilidades de ação que o presente apresenta, bloqueada, por um lado, pela insistência em medir os atos pela contribuição possível para o futuro esperado, e, por outro, na procura infinita de pistas que assinalariam por onde os problemas do presente se resolveriam mais adiante. Clark identifica na persistência dessa orientação para o futuro na retórica da esquerda menos a confiança sincera nestes prognósticos do que a resistência por parte dos seus defensores em encarar a profunda crise e falência da tradição da esquerda.

Tanques soviéticos esmagam as esperanças de "Socialismo com rosto humano"

Tanques soviéticos esmagam as esperanças de “Socialismo com rosto humano”

Olhar para o futuro esconderia não somente o presente da crise, mas também o seu passado traumático. Enquanto sinceramente “futurista”, na era das grandes revoluções, a esquerda podia se dar ao luxo de não avaliar detidamente sua participação na violência e na miséria humana que marcaram o século XX, e no limite justificar atrocidades como passos necessários do processo de produção de um futuro emancipado. Agora, que tal confiança foi erodida não somente por tal acúmulo de desastres, mas principalmente pelo desaparecimento ou encolhimento dramático dos principais agentes nos quais esta confiança era depositada (os Estados e partidos socialistas, as grandes organizações sindicais, etc.), continuar olhando para o futuro evita ter que lidar com todo o peso de uma tradição cuja verdade parece estar de fato no seu passado. Qual esta verdade, cujo núcleo traumático a retórica tradicional da esquerda encobre? Para Clark, esta retórica impede que a esquerda veja a sua própria história como a de uma Catástrofe, fracasso não somente em realizar aquelas expectativas que prometia, mas também em evitar a conversão do potencial libertário de um século de lutas em experiências de horror político e social, uma série de pesadelos em sequência (coletivização forçada stalinista, a revolução cultural maoísta, etc.).

Revolução cultural

Revolução cultural

Só uma esquerda sem futuro seria de fato capaz de conduzir até o fim uma “Experiência da Derrota”, extraindo consequências do que se viveu para repensar em profundidade a tradição da esquerda em face dos desastres que são seu legado, tão indesejável quanto inegável. Como continuar a reivindicar uma tradição política cuja participação na usina de horrores do século XX não foi um acidente isolado? Antes de tudo, é preciso não fugir a este acerto de contas e buscar as formas pelas quais tais acontecimentos puderam acontecer no interior ainda da mesma tradição. O “futuro” aparece assim como espécie de solução de compromisso, em que opressão e libertação puderam conviver sem se excluírem decididamente no presente. É necessário, portanto, abdicar do futuro como fundamento para a política do presente, não para fins de um sacrifício simbólico, mas para desarmar um dispositivo de mobilização de paixão cujo extremo dogmático tem potencial assassino confirmado.

PM

O presente a ser combatido sem auxílio do futuro.

Clark pensa este trabalho de luto como um ajuste de tonalidade política, que permite a adoção de uma nova perspectiva. Ao tom tradicional de grandiloquência e inflamação proféticas, é preciso substituir pela moderação desencantada de si mesma e de suas promessas. Um tom adequado a quem não mais se enxerga como repositório único e inquestionável da virtude, mas que nem por isso deixa de reconhecer na situação social vivida um quadro de sofrimento, injustiça e perigo insustentável e insuportável. Portanto, não se trata de uma adequação à ordem do mundo, mas de um rebaixamento de expectativas que deve se dirigir tanto ao entendimento da sociedade quanto de si mesmo (ou seja, da tradição da esquerda). O que é necessário aceitar não é que não há alternativa ao atual status quo, mas sim que qualquer alternativa não abolirá o sofrimento enquanto tal, nem seus componentes antagônicos fundamentais: “guerras, pobreza, pânico malthusiano, tiranias, crueldade, classes, horas improdutivas e todos males que constituem a natural herança da carne”. Esta aceitação, isto é, a adoção de uma perspectiva trágica, permite que se pense em uma nova luz os terríveis fatos passados, mas ao custo de uma não menos terrível redução em nossas esperanças. A perspectiva trágica envolve, portanto, uma escolha propriamente trágica.

A lição trágica: o homem destinado a sofrer, mas não a ser pequeno.

A lição trágica: o homem destinado a sofrer, mas não a ser pequeno.

Mas ao que visa em termos práticos uma política em chave trágica? Não muito em termos de realização. Em grande medida, a proposta de Clark se resume a um ajuste subjetivo para quebrar um impasse ou uma dicotomia que para ele se apresentaria como falsa, a da moderação que é indistinguível de uma capitulação à ordem das coisas ou da radicalidade que se divorcia da responsaibilidade por seus próprios atos ou pela própria eficiência de sua ação. Em um tempo em que tanto Reforma como Revolução teriam se desmoralizado, reinventar a esquerda é inventar uma resistência convicta e orgulhosa ao poder, mas que tem no pragmatismo seu metro fundamental. Uma política, portanto, de “redução de danos”, que se dedica a dificultar ao máximo a ofensiva avassaladora de um poder dedicador a expandir a desigualdade social e econômica. Restaria, entretanto, perguntar que tipo de estratégia seria possível de pensar dentro desta proposta, uma vez que toda estratégia necessita projetar um futuro, senão de realizações, ao menos de tarefas.

Porém, as grandes questões a serem postas em relação à proposta de Clark não podem ser postas senão de uma certa distância de sua construção. Um problema que Clark não discute é se é possível viver estritamente nos marcos de um presente sem sacralizar estes próprios marcos e projetá-los indefinidamente. Outro é sobre qual é de fato o poder mobilizador de uma estratégia de pura resistência, isto é, se é possível que uma tal estratégia chegue a alguma eficácia sem apelar para a convocação a realizar um futuro qualquer. A maior das questões, entretanto, é a respeito de sua discernibilidade enquanto proposta em relação ao antigo reformismo convertido em gestor da austeridade neoliberal permanente. Sem se pôr sobre a base de um projeto político articulado (ou de um agente social determinado), e tendo por baliza fundamental o pragmatismo que busca reduzir o dano, não é difícil pensar o compromisso tácito da esquerda sem futuro com o gestores sociais da crise, que se vendem como mal menor num mundo de predadores. A grande tarefa e dificuldade do ajuste de contas com a tradição de esquerda pode, assim, culminar num resultado por demais acanhado, ou mesmo na má-consciência de uma cumplicidade prática com aquilo mesmo que deveria exorcizar, o cinismo e a desmoralização de uma esquerda em capitulação. Sob este aspecto, uma esquerda sem futuro, mas comprometida sinceramente – subjetivamente – com os ideais fundamentais da esquerda clássica, não se diferenciaria de uma versão “ética” – concreta ou mítica – de um mesmo projeto político em que resistência ao capitalismo e gestão do mesmo se confundem livremente. Do mesmo modo, devemos nos perguntar sobre a possibilidade dessa fórmula de consciência política trágica, orgulhosa em seu equilíbrio de compromisso e moderação, não pode se deslocar da própria tradição da esquerda e do horizonte de resistência permanente para alçar vôo independente – pergunta muito concreta em tempos de Marina Silva e capitalismo sustentável.

Anúncios
Esse post foi publicado em Política e marcado , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para A esquerda sem futuro

  1. Pingback: Olá, Senhor Comunismo! | GAVETA DOS GUARDADOS

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s