A ascensão de Marina Silva e as perspectivas para o pós-eleições

Marina Silva no velório de Eduardo Campos, de quem herdou a candidatura à presidência

Marina Silva no velório de Eduardo Campos, de quem herdou a candidatura à presidência

As semanas que antecederam imediatamente a eleição presidencial de 2010 foram marcadas pela rápida e significativa ascensão da candidatura de Marina Silva, então filiada ao PV, que alcançou mais de 19 milhões de votos (19,3% dos votos válidos), terminando a corrida em terceiro lugar. Em agosto de 2014, a queda do avião em que viajava o candidato do PSB, Eduardo Campos, tornou a fazer de Marina – que compunha a chapa na condição de candidata à vice-presidência – uma postulante a ocupar o mais alto cargo da república.

Diferentemente do cenário de quatro anos atrás, a primeira pesquisa do Datafolha com Marina na cabeça de chapa – realizada nos dois dias seguintes à morte de Campos – já apontava para um elevado percentual de intenções de voto. Nas semanas seguintes, essas intenções cresceram ainda mais, a ponto da nova candidata do PSB virtualmente condenar o pleiteante do PSDB, Aécio Neves, a observar o segundo turno da arquibancada. Em pesquisa realizada pelo mesmo Datafolha nos dias 17 e 18 de setembro, Marina polarizava o cenário com a presidenta Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, tendo ambas, respectivamente, 30% e 37% das intenções de voto, enquanto Aécio patinava nos 17%.

A confiar nos dados do instituto de pesquisa, uma questão que se coloca como de grande importância para a compreensão do atual cenário eleitoral refere-se aos milhões de votos que separam a Marina de 2010 de sua versão de 2014 (em que, computados apenas os votos válidos, alcança 34,4% das intenções). Comparando a enquete realizada pelo Datafolha nos dois dias imediatamente anteriores ao primeiro turno das eleições de 2010, com a já mencionada sondagem de 17 e 18 de setembro de 2014, é possível perceber que, entre os dois pleitos, Marina cresceu em todos os segmentos do eleitorado dividido por renda familiar. Entretanto, chama a atenção o fato de que seu crescimento foi tão mais significativo quanto menor é a renda dos eleitores, conforme demonstrado pela tabela abaixo:

Votos em 2010

Intenções de voto em 2014

Crescimento

Até 2 salários mínimos

12%

26%

116%

2 a 5 s.m.

19%

34%

79%

5 a 10 s.m.

22%

35%

59%

Mais de 10 s.m.

23%

32%

39%

Mais do que simples curiosidade estatística, se observados com a devida atenção, esses percentuais revelam que o mais forte crescimento de Marina Silva deu-se precisamente nos segmentos em que Dilma ostentou seus índices mais elevados, tanto em 2010, quanto agora. Para que se tenha uma impressão mais exata do significado desses números, pode-se lembrar que, se na pesquisa de 2010, Dilma só era superada pelo segundo colocado, José Serra (PSDB), entre os que possuíam renda familiar de “mais de 10 salários mínimos”, hoje, a presidenta só vence Marina em meio aos que se localizam na faixa de “até 2 salários mínimos”. Sendo assim, pode-se dizer que Marina vem consolidando sua posição junto ao eleitorado que há tempos tem adotado majoritariamente posições anti-petistas, enquanto, simultaneamente, avança sobre os principais bolsões de votos do PT.

Marina Silva assume posiçẽos abertamente conservadoras após pressões de Silas Malafaia

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Sem dúvida, esses números indicam uma importante mudança de cenário, a qual, entretanto, não pode ser explicada pelo recurso a qualquer estatística. Como os processos políticos ultrapassam em muito as cabines de votação e as pranchetas dos funcionários dos institutos de pesquisa, é na própria dinâmica política recente do país que tal explicação deve ser buscada. Para tal, muitos são os fatores que podem ser mencionados, como o desgaste experimentado pelo governo Dilma (em parte, resultante dos 12 anos de gestão petista), a transferência de votos decorrente da comoção causada pela morte de Campos e a clara assunção de determinadas posições abertamente conservadoras por Marina, as quais possuem uma audiência cativa bastante relevante. Entretanto, acredito que especial atenção deve ser conferida ao impacto das chamadas Jornadas de Junho de 2013, em que manifestações de massas convulsionaram as cidades brasileiras, gerando em algumas delas, com destaque para o Rio de Janeiro, um ciclo de mobilizações de rua que se espraiou pelos meses seguintes.

A despeito da pluralidade de setores sociais presentes àquelas manifestações e de projetos políticos em disputa em seu interior, já argumentei em outro texto, de caráter mais acadêmico, que seria possível sintetizar as linhas de força predominantes. Nesse sentido, defendo que as manifestações foram compostas majoritariamente por jovens trabalhadores, cujas principais posições políticas, apresentadas de forma bastante inorgânica nas ruas, poderiam ser agrupadas em dois eixos: de um lado, a reivindicação por melhores serviços coletivos de transporte, educação e saúde; de outro, a denúncia do fechamento do sistema político do país em si mesmo, embarreirando a efetiva participação da maior parte da população.

Os imensos congestionamentos exacerbam as dificuldades da vida cotidiana dos trabalhadores das grandes cidades

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Aprofundando essa análise, não é desimportante observar que, dentre os ocupantes das ruas em 2013, 54% possuíam renda familiar mensal de “2 a 5 salários mínimos”, justamente a faixa em que Dilma liderava em 2010 e que agora apresenta os mesmos percentuais de intenções de voto em Dilma e em Marina (34% X 34%). Diante desses dados, é possível sustentar a hipótese de que parcela significativa da classe trabalhadora (a qual a propaganda governamental e os economistas liberais tentam mistificar, qualificando como “nova classe média”, ou “classe C”), que apoiou e sufragou os governos petistas desde 2003 e experimentou certa elevação do padrão de vida nesse período, atualmente coloca em questão a capacidade do atual estado de coisas de continuar oferecendo melhorias em suas condições de vida (note-se que, embora o crescimento de Marina tenha sido ainda maior na faixa “até 2 salários mínimos”, nesse segmento, seu ponto de partida em 2010 era significativamente menor, além de ser esse um grupo que ainda sufraga majoritariamente a candidatura de Dilma). Uma situação que, em si mesma, não deveria causar espanto, caso consideremos alguns dos elementos que marcam o cotidiano desses trabalhadores, como a altíssima rotatividade do mercado de trabalho, a dificuldade de se obter ocupações que remunerem acima dos dois salários mínimos, a escalada da especulação imobiliária, a precariedade dos serviços públicos de saúde e educação – e, via de regra, de suas alternativas oferecidas pelo setor privado –, as horas gastas diariamente nos engarrafamentos, a truculência das polícias militares e a impossibilidade de influenciar diretamente o sistema político, dentre outros.

Aproximação de PT e PSDB na resposta às manifestações de 2013 abriu espaço para que Marina Silva se apresentasse como "novidade"

Aproximação de PT e PSDB na resposta às manifestações de 2013 abriu espaço para que Marina Silva se apresentasse como “novidade”

Dada a absoluta incapacidade dos ocupantes de cargos decisivos nos poderes Legislativo e Executivo (em esferas municipal, estadual e federal) de responderem de forma consistente às reivindicações levadas às ruas em 2013, parte desses trabalhadores passou, então, a identificar Marina Silva como distinta das figuras de proa do atual regime político e, por extensão, capaz de atender aos seus anseios. Entretanto, se, conforme argumentado, essa percepção tem sua origem nas mobilizações de massa, a migração de votos que ensejou e os possíveis cenários que se abrem a partir daí igualmente possuem consequências que ultrapassam o impacto eleitoral de curto prazo.

Junho de 2013: manifestações de massas são convocadas por fora dos canais petistas nos movimentos sociais

Junho de 2013: manifestações de massas são convocadas por fora dos canais petistas nos movimentos sociais

Com efeito, o grande trunfo petista nos últimos doze anos tem sido sua capacidade de, simultaneamente, atuar efetivamente em três frentes: (1) a garantia dos lucros exorbitantes das frações dirigentes da burguesia com negócios no Brasil (com destaque para os setores bancário, da construção civil e do agronegócio, entre outros); (2) a viabilização da melhoria das possibilidades de consumo de amplas parcelas da classe trabalhadora (via Bolsa Família, valorização do salário mínimo, criação de empregos formais, expansão do crédito); (3) a domesticação das instituições historicamente vinculadas à classe trabalhadora (com destaque para a CUT) e dos movimentos sociais de forma mais ampla. Entretanto, o mais leve abalo em qualquer um desses pilares pode fazer ruir essa arquitetura política em sua totalidade. E, sem dúvida, as Jornadas de Junho foram a evidência imediata de que, ao menos, dois desses pontos encontram-se em xeque, uma vez que amplas parcelas da classe trabalhadora parecem duvidar da capacidade do PT (e do atual regime político de forma mais ampla) de viabilizar as melhorias de vida que reivindicam e já começam a engrossar mobilizações convocadas de forma absolutamente independente dos canais dos movimentos sociais neutralizados pelo petismo (o que é potencializado pelo crescimento da atividade grevista dos trabalhadores das mais diversas categorias nos últimos anos).

Eduardo Gianetti da Fonseca, assessor econômico de Marina Silva, que defende cobrança de mensalidades em universidades públicas

Eduardo Gianetti da Fonseca, assessor econômico de Marina Silva, que defende cobrança de mensalidades em universidades públicas

Entretanto, se a estrutura montada pelo petismo parece enfrentar seu primeiro grande desafio, não há nenhuma indicação sólida de que um eventual governo de Marina Silva seria capaz de responder de forma satisfatória às pressões desses setores da classe trabalhadora e gerar um novo arranjo político que dispusesse de igual estabilidade a médio prazo. De um lado, seu programa econômico leva às últimas consequências os pilares do neoliberalismo, o que torna bastante difícil explicar como a situação dos trabalhadores poderia melhorar por meio de flexibilizações da legislação trabalhista, ou como serviços sociais de maior qualidade poderiam ser viabilizados por cortes no orçamento público. Para ficarmos em um único exemplo, não custa lembrar que o principal guru econômico de Marina vem defendendo a cobrança de mensalidades para o acesso às universidades públicas, justamente, um dos principais sonhos desse parcela da classe trabalhadora que vem demonstrando insatisfação e dificilmente poderia arcar com essa despesa sem vender a alma para instituições financeiras que concedem crédito educacional.

De outro lado, o carro-chefe de sua retórica, a proposta de uma “nova política”, também não apresenta qualquer consistência. Sem indicações efetivas de que pretende gestar mecanismos de mobilização e organização permanente desses setores sociais descontentes, Marina não disporia de qualquer instrumento efetivo para enfrentar o sistema político tradicional que diz rejeitar. Sendo assim, só duas alternativas parecem verossímeis: ou Marina sustenta, sem dispor de qualquer base articulada de apoio social, uma quixotesca cruzada contra esse sistema, provavelmente, terminando à frente de um governo incapaz de impor seus projetos; ou – o que parece mais provável em face das recentes declarações do candidato à vice-presidência de sua chapa –, se rende à lógica da negociação fisiológica no Congresso, o que significaria o abandono de seu principal trunfo político junto ao conjunto da população e, especificamente à mencionada parcela da classe trabalhadora: sua aura de “novidade”.

Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB). As duas candidaturas que provavelmente chegarão ao segundo turno não se comprometem com medidas efetivamente progressistas

Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB). As duas candidaturas que provavelmente chegarão ao segundo turno não se comprometem com medidas efetivamente progressistas

Colocada numa situação em que suas mais visíveis opções são um projeto político que se mostra cada vez menos disposto a romper seus compromissos com as classes dominantes para atender às reivindicações que ecoaram nas ruas e outro, cujos propagados objetivos (melhoria dos serviços públicos e mudança do fazer político) entram em flagrante contradição com os meios propostos (política econômica neoliberal e etérea “nova política”), a parcela da classe trabalhadora que vivenciou relativa melhoria nas condições de vida ao longo dos últimos anos pode decidir a corrida eleitoral. Qualquer que seja o resultado da disputa eleitoral, no entanto, as indicações que emergem desse novo cenário – marcado pela ascensão de Marina –, associadas aos prognósticos de aprofundamento das dificuldades econômicas, apontam para um próximo período em que a margem para concessões às classes subalternas se estreite ainda mais, o que poderá gerar uma redução da estabilidade política verificada nos últimos anos, especialmente desde o segundo mandato de Lula.

Entretanto, sendo a política um campo permanentemente marcado pela possibilidade de erupção de tendências não previstas por analistas, é possível que a candidatura vitoriosa, seja ela qual for, venha a ser capaz de produzir um novo amálgama político capaz de reafirmar a força da dominação burguesa experimentada nas últimas décadas. Por isso mesmo, qualquer política de esquerda que busque transformações radicais e efetivas da ordem econômica e do regime político precisa se pautar desde o primeiro momento do próximo governo pela incessante denúncia do consenso neoliberal que encontra eco, com matizes, nas três principais candidaturas à presidência e pelo contínuo estímulo à organização política independente das classes subalternas.

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Sobre Marco M. Pestana

Doutorando em História pela UFF. Professor do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Cinéfilo frustrado, flamenguista e visceralmente socialista.
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