Entrevista com Marcelo Badaró Mattos

Marcelo Badaró Mattos é professor de História da Universidade Federal Fluminense. Dedica-se a estudos sobre a classe trabalhadora, entre outros assuntos, e publicou diversos livros como “Novos e velhos sindicalismos no Rio de Janeiro” e “Trabalhadores e sindicatos no Brasil”. Em uma conversa com Tim Marx, Mattos falou sobre algumas questões da esquerda e da atual conjuntura.

TIM MARX: A onda de protestos ocorrida a partir de junho de 2013 teve como uma de suas expressões mais visíveis a desconfiança a partidos e organizações de esquerda. Essa falta de identificação não indicaria alguma incapacidade por parte das organizações tradicionais dos trabalhadores críticas à ordem social?

MATTOS: A resposta a esta pergunta comporta uma outra pergunta: de que organizações tradicionais se está falando? Há uma dimensão da crítica aos partidos envolvida nos protestos de junho que não diz respeito especificamente à esquerda. Trata-se de uma crítica ao sistema político/partidário brasileiro em geral, baseado na dinâmica da “pequena política”, do clientelismo, da troca de apoios políticos por cargos e benesses, da corrupção, etc.

 Esse tipo de crise de legitimidade do sistema partidário atinge as organizações de esquerda especialmente porque, após 11 anos de governos federais dirigidos pelo PT, este que sempre se apresentou como organização de esquerda e dos trabalhadores, demonstrou para grandes parcelas da população que governa como todos os demais partidos da ordem, ou seja, faz a pequena política do toma-lá-dá-cá. Parcelas mais politizadas pela esquerda acrescentam a essa avaliação a percepção de que o PT governa assim porque se transformou em mais um partido a serviço dos interesses da classe dominante.

 Por isso mesmo, para as organizações políticas que mantém coerência com o horizonte estratégico de superação do capitalismo, as dificuldades para construir alguma base social mais sólida para as propostas socialistas hoje são múltiplas. De um lado, porque se trata de reorganizar a classe trabalhadora após duas décadas de ofensiva do capital (das fábricas às urnas) e refluxo considerável das lutas sindicais e dos movimentos sociais de base trabalhadora em geral, agravados pela chegada ao poder dos governos do PT que consolidaram o processo de incorporação à ordem das organizações construídas em meio às lutas dos anos 1970 e 80, como no caso da CUT, transformando-as em braços da política do Estado (e, portanto, da ordem burguesa) e diques de contenção das lutas da classe. De outro lado, porque no imaginário dominante entre os que foram às ruas protestar, se o PT agiu assim, todas as outras bandeiras vermelhas são igualmente suspeitas.

 Por certo que não ajuda se, em meio a condições tão difíceis, as organizações da esquerda socialista dão sinais de que ainda não superaram o modo petista de fazer política (privilegiando as urnas ao invés das ruas; procurando construir-se através de mandatos mais que de inserção nos movimentos; preocupando-se em inserir-se nos movimentos priorizando construir maiorias em aparelhos minoritários, em detrimento de construir organizações mais amplas em que a disputa de direção se dê de forma democrática, etc.). Um desafio da esquerda socialista é superar tais práticas para se diferenciar mais claramente do PT aos olhos dos setores mais mobilizados das massas trabalhadoras.

TIM MARX: No governo, o PT promoveu um amplo processo de cooptação das lideranças e movimentos de esquerda. A quantas anda esse processo atualmente? Que peso ele teve na crise política expressa com as jornadas de junho?

MATTOS: Não acredito que a coisa seja tão simples. No que diz respeito ao movimento sindical, por exemplo, a incorporação à gica do capital de dirigentes antes identificados com a luta classista e a transformação de entidades antes combativas em instrumentos de contenção de lutas – como no caso da CUT e de alguns dos seus principais sindicatos filiados – vem de muito antes, pelo menos do início dos anos 1990. Por certo que os governos petistas aprofundaram significativamente tal processo e, em seus marcos gerais, ele permanece em curso hoje, basta ver o comportamento abertamente pró-candidaturas do governo das entidades desse campo no atual contexto eleitoral. Como eu disse na resposta anterior, essa incorporação à ordem das entidades (partidárias e sindicais) antes identificadas como de esquerda e combativas é um elemento central para explicar a reação dos manifestantes de junho ao conjunto dos partidos de esquerda e suas bandeiras vermelhas.

TIM MARX: Como em eleições recentes, os principais partidos da esquerda socialista (PSOL, PSTU e PCB) lançaram campanhas presidenciais separadas e têm profundas dificuldades em fazer alianças eleitorais em vários lugares. Por que isso acontece continuamente?

MATTOS: Há uma série de fatores a explicar a não concretização da Frente de Esquerda no plano nacional e em vários estados nesta campanha eleitoral. Algumas das razões podem ser buscadas nos problemas enfrentados pela Frente na única vez em que ela funcionou no plano nacional (as eleições de 2006) e nas várias experiências em eleições municipais e estaduais desde então. Também deve ser levado em conta que, em diferentes momentos e situações, os partidos privilegiam a matemática eleitoral das possibilidades de seus candidatos nas eleições proporcionais, em detrimento da potencialidade educativa de apresentar candidaturas majoritárias únicas. As consequências desse fracasso da proposta da frente são desastrosas. Basta ver como no horário eleitoral gratuito muitas vezes os candidatos da esquerda socialista usam os seus minguados minutos, num mesmo dia, para tratar do mesmo tema, cada um falando duas ou três frases – quase sempre palavras de ordem – muito semelhantes, quando uma candidatura única poderia explorar com mais profundidade as questões, exercendo o papel conscientizador que me parece deveria ser o principal objetivo de partidos que participam de processos eleitorais sem alimentarem a ilusão de que nesse espaço se decidirá a luta de classes. Para os que como eu defendem a necessidade da Frente de Esquerda, é certo que não basta construí-la nos momentos eleitorais, sua força terá que vir de uma prática de frente única nas lutas concretas dos movimentos sociais da classe trabalhadora. Mesmo assim, é muito negativo que os trabalhadores observem a esquerda socialista dividida nas eleições e concluam que essas forças são incapazes de se unirem, mesmo em momentos em que tal unidade poderia ajudar a alterar a correlação de forças. Não tenho dúvidas de que a Frente de Esquerda hoje poderia se apresentar, nos limites colocados pela forma restrita do regime democrático atual, como um canal de potencialização do conjunto de lutas que se seguiu às jornadas de junho, sinalizando no horizonte a possibilidade de um novo ciclo de mobilizações da classe trabalhadora.

TIM MARX: A política posta em prática pelos governos federais encabeçados pelo PT, que alguns nomeiam “lulismo”, consiste em um projeto de conciliação de classes onde são satisfeitas demandas da alta burguesia e de camadas mais pobres da classe trabalhadora. Quais são os prognósticos de curto prazo para esse arranjo político?

MATTOS: Não tenho acordo com essa caracterização do “lulismo”. Seria necessária uma análise mais detida de como as diferentes frações do capital são atendidas por determinadas políticas dos governos dirigidos pelo PT e de como o conjunto da classe dominante é atendida por suas ações para conter as lutas da classe trabalhadora. Da mesma forma, seria necessário perceber porque há uma base de apoio ao PT tanto entre os setores mais precarizados e pauperizados da classe trabalhadora, como entre alguns de seus segmentos mais organizados e melhor remunerados. Uma análise desse tipo demandaria mais tempo. De qualquer forma, me parece que, do ponto de vista eleitoral, o arranjo político a que se refere a pergunta continua sustentando as candidaturas governistas. Resta saber se, confirmado o quadro de agravamento da crise econômica que se delineia no horizonte e o duro “ajuste” que todos os candidatos presidenciais estão anunciados, haverá margem de manobra para manter o arranjo nos termos atuais.

Sobre Tim Marx

Um espectro ronda a blogosfera – o espectro de um comunista barbudo com cabelo black power.
Esse post foi publicado em Dossiê Democracia e Eleições, Política e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s