“Fogo amigo”: A incorporação da pauta da mídia corporativa e a criminalização da esquerda pela esquerda

* Texto de Luana Sidi e Rafael Maul (professores de História).

Em outubro de 2013, jornal O Globo publica edição criminosa, remetendo a 1969

Em outubro de 2013, jornal O Globo publica edição criminosa, remetendo a 1969

Quando nos convidaram para refletir sobre a criminalização dos movimentos sociais no Brasil na imprensa atual, nos perguntamos como poderíamos contribuir para este debate. Dos pontos de vista acadêmico e jurídico existem diversas contribuições sobre as formas de perseguição e criminalização dos movimentos pelo Estado (stricto senso) e também por suas articulações com organizações privadas legais e ilegais. Na mídia corporativa são inúmeros os exemplos para ilustrar o processo de criminalização em curso. Desde a obsessão da imprensa com os Black Blocs, a capa histórica d’O Globo de 17 de outubro de 2013, que nos fez acordar em pleno 1969, a ridícula caracterização da personagem “Sininho”, dando um show de desrespeito e capacidade ficcional na imprensa, a cobertura sensacionalista e manipuladora da morte do cinegrafista Santiago e a condenação prévia de Fábio e Caio são alguns desses exemplos. Enfim, o processo em curso é bastante claro. Vozes dentro da esquerda, e às vezes, de forma muito localizada, de dentro dos meios de comunicação da mídia corporativa, estão a denunciá-lo.

Assim, pensamos que uma reflexão interessante, mesmo que aqui proposta de forma inacabada, seria sobre os reflexos do processo de criminalização dos movimentos e lutas sociais na própria esquerda e em sua mídia, com ênfase no desenrolar desse processo no Rio de Janeiro desde meados de 2013.

Entendemos aqui por esquerda um amplo leque de organizações e lutas que tem suas ações voltadas contra os interesses do capital e que se materializam no cotidiano dos trabalhadores e estudantes, de várias formas.

Este leque comporta estratégias e linhas ideológicas muito diversas, por vezes nem bem definidas, e muitas vezes divergentes. Não faz parte desse conjunto, portanto, nenhuma fração do PT, uma vez que este partido hoje não só é conivente, mas articulador e implementador de políticas de criminalização dos movimentos e lutas sociais1.

Utilização das Forças Armadas para patrulhamento urbano

Utilização das Forças Armadas para patrulhamento urbano

O processo de criminalização dos movimentos sociais no Brasil pode ser entendido como uma das principais formas encontradas pelo Estado para o controle das lutas sociais após a promulgação da Constituição de 1988. Movimentos e lutas, portanto, sempre foram perseguidos e criminalizados ao longo da história e também permaneceram sofrendo estes ataques, em parte remodelados, de 1988 até meados de 2013. Entretanto, uma ampla gama de análises aponta para um acirramento e uma diversificação das formas tradicionais de repressão e criminalização dos movimentos sociais a partir de 2013.

Nesse contexto de criminalização dentro da mídia burguesa existem muitas facetas. Logo no início dos protestos em 2013, quando havia uma apreensão em relação ao potencial conservador do movimento, quando as organizações mais tradicionais da esquerda marxista, “vermelha”, sofriam com os “sem bandeira, sem partido”, eram as organizações classistas o foco da criminalização midiática. Suas mobilizações eram cobertas com referências à corrupção e ao “aparelhamento dos sindicatos” e de suas “motivações políticas”.

Passado esse primeiro momento, ficou claro que as organizações da direita liberal ou fascista não tinham o lastro político necessário para a tomada das ruas, e essas foram ocupadas por manifestações da esquerda, que historicamente se manteve nesse espaço.

Nesse segundo momento da cobertura midiática corporativa, quando o caráter de classe e contestatório das manifestações ficou claro, o discurso de defesa da propriedade privada e da ordem burguesa, através da tipificação violenta dos “vândalos” e da condenação pública dos Black Blocs veio à tona. A cobertura midiática corporativa foi carregando nas tintas do nacionalismo ultraconservador, fazendo frente às crescentes contestações voltadas para a Copa do Mundo de 2014.

Assim, observamos as reações dentro do debate da esquerda. Ficou muito claro, ao longo do processo de criminalização, que os alvos preferenciais (aqueles que foram presos em suas casas, que sofriam a maior parte das revistas em atos e que tinham seus rostos e nomes estampados na imprensa corporativa) foram os militantes de grupos anarquistas e maoístas, ligados a movimentos de educação popular, ocupações urbanas, movimentos de mídia livre, pelo passe livre e grande parte organizados dentro da Frente Independente Popular. Alguns desses grupos que ficaram no centro do furacão midiático “antivandalismo” são forças que – com táticas diferenciadas, organizadamente ou não – se opunham à repressão do Estado e das classes dominantes, mas também questionavam as práticas tradicionalmente adotadas pelo movimento político-partidário da esquerda institucionalizada nos moldes “democráticos” pós-ditadura.

Black Blocs na greve dos professores das redes municipal e estadual do Rio de Janeiro

Black Blocs na greve dos professores das redes municipal e estadual do Rio de Janeiro

Tal característica desses grupos acabou por desnudar a profunda cisão e falta de diálogo dentro da esquerda. Desde o início dos protestos observamos a constituição de “dois lados” dentro da esquerda. A duríssima greve das redes estadual e municipal da educação em 2014 veio acirrar mais ainda essa cisão, uma vez que, um dos maiores e mais combativos sindicatos do estado do Rio de Janeiro existia em uma dicotomia, “Direção versus base radicalizada”.

Aqui é importante parar e trazer um posicionamento claro: não estamos fazendo um jogo de maniqueísmos, em que, para criticar determinados grupos, exaltamos o “outro”. Pelo contrário, trata-se de um esforço para entender esse processo e em que medida a imprensa, ou mesmo as próprias praticas, da esquerda podem estar reverberando certas visões e dicotomias pautadas na grande mídia, tanto por uma cisão histórica entre marxistas e anarquistas, mas também por dinâmicas próprias de disputa intraclasse.

Alguns exemplos podem ser observados na imprensa do PSTU. É certo que uma campanha contra a criminalização dos movimentos sociais tem sido um dos eixos centrais da imprensa deste partido, inclusive com solidariedade a ativistas Black Blocs presos. Acompanhando este discurso, contudo, temos também uma contínua necessidade de reforçar as diferenciações entre os movimentos da esquerda.

Existe, portanto um discurso que, apesar de indicar a violência e desproporcionalidade da repressão policial, acaba por responsabilizar alguns movimentos de esquerda pela mesma repressão, reverberando assim pautas colocadas pela imprensa corporativa (por exemplo, a contínua diferenciação entre manifestantes e vândalos), como se essa, combinada com o aparelho repressivo do estado, necessitasse de mais para justificar suas ações e criar suas (in)versões.

“um desserviço à luta: Infelizmente, mais uma vez após o encerramento do ato a Cinelândia virou uma praça de guerra, com PM’s atirando bombas de efeito moral e disparando tiros com armas letais e Black Blocs arremessando pedras e quebrando bancos, orelhões etc. […] E o pior é que esses governos, a mídia e o empresariado aproveitam disso para tentar desmoralizar e criminalizar a forte greve da educação.

Tal esforço de diferenciação se deu também no episódio da morte do cinegrafista Santiago, quando se considerou mais importante responder às acusações da grande mídia e reforçar a necessidade de apuração do financiamento “de ações violentas”, do que questionar, em qualquer medida, a veracidade do circo montado. Circo este que de fato destruiu a vida de dois jovens acusados de homicídio doloso triplamente qualificado em uma operação altamente questionável.

“O [PSTU] reafirma que não tem qualquer ligação com o Black Bloc ou quaisquer grupos de ideologias afins. Da mesma forma, não temos nenhuma relação com os rapazes acusados de acender o rojão que vitimou o cinegrafista da Bandeirantes, Santiago Andrade. […] Exigimos que se apure a denúncia de financiamento desses jovens. […] Não só quem financiou esses jovens, mas quem financia a defesa da dupla acusado-delator.”

A constante diferenciação entre o partido e a militância anarquista se dá também pelo questionamento da tática de luta utilizada por esses grupos e da sua capacidade em contribuir com o fim do capitalismo. Verdadeiramente uma falsa polêmica, pois, poucos devem considerar que tais táticas servem para destruir repentinamente um sistema mundial. Estes grupos, afinal, em que pese ou não equívocos, estão questionando as principais táticas colocadas pelos movimentos de esquerda até hoje e assumindo uma perspectiva de ruptura radical. Evidentemente, os avanços de direitos dos trabalhadores são obra de suas próprias lutas, contra os interesses do capital. Mas há também aspectos dessa luta, por exemplo, a participação no processo eleitoral, aparelhamento da maquina sindical e a valorização do caminho jurídico, que mais foram capturadas pelas relações burguesas do sistema capitalista do que ajudaram a destruí-lo.

O processo de isolamento se dá para além das reações às pautas da mídia corporativa, através de uma desqualificação teórica do pensamento e do movimento anarquista. Neste contexto geral de lutas e perseguições, por exemplo, o partido lança um livro que supostamente “apresenta um quadro completo da incapacidade do pensamento anarquista de responder à complexa e contraditória realidade da revolução proletária”.

Na mesma linha, a práxis anarquista é constantemente desqualificada, aproximando-os da direita (neofascistas e liberais). Tal aproximação é claramente indevida, tanto pelo claro caráter de direita nas ações hostis contra a esquerda partidária, quanto numa perspectiva histórica, uma vez que a base do pensamento anarquista é anti-Estado e contra a sociedade de classes.

Acompanha a desqualificação o silenciamento sobre momentos em que a atuação de organizações reunidas em torno da FIP foram fundamentais, como nos casos da Aldeia Maracanã e da Favela Metrô Mangueira (silenciamento que não ocorre quando se trata de outras organizações, até mesmo CUT e CTB).

Há um momento de culminância do “fogo amigo”, episódio em que essa organização de esquerda criminaliza outras organizações de esquerda, ao acusá-las, nominalmente, em um Boletim de Ocorrências na delegacia. Mais uma vez não se trata de julgar as ações cometidas naquele momento, o que se deve frisar aqui é que, mesmo que em função de questões legais pelo dano ter ocorrido em imóvel alugado, a nomeação, a priori, de organizações da esquerda, sem que se tenha nenhum tipo de prova que a ação se deu deliberadamente (e por deliberação) destas organizações, efetivamente criminaliza. Estamos falando de acusações criminais não a indivíduos, mas a organizações. Outro ponto que chama a atenção é a forma como estas organizações são colocadas ao lado da extrema direita, com o discurso que as equaliza com a repressão da ditadura. O vídeo do PSTU é montado com a trilha sonora de “Cálice” e “Apesar de você”, além de explicitamente dizer: “Justamente no dia em que relembrávamos todos os crimes cometidos pela ditadura militar e todos aqueles que tombaram para construir um mundo livre da opressão e exploração, fomos atacados pela FIP, que cumpriu o papel da polícia e do governo neste 1º de abril”. O partido chama ainda o ocorrido de “atentado”, fazendo jus à terminologia antiterrorista que está em voga nos grandes meios de comunicação e em políticas de Estado.

É necessário, contudo, considerar que existem contradições próprias do partido, uma vez que, ao manter o discurso contra a criminalização destes militantes por parte do Estado, procura se diferenciar também do PSOL, em especial de seu principal parlamentar hoje no Rio, Marcelo Freixo. Esta diferenciação se deu, por exemplo, na aberta crítica à aprovação da “CPI do Vandalismo”, com colaboração simbolicamente marcante ao movimento social do deputado do PSOL.

Acreditamos, de fato, que o deputado contribuiu incisivamente neste processo de isolamento e criminalização de algumas organizações. Quando atacado pela imprensa corporativa, respondeu dentro da pauta criada por esta mesma imprensa, com vistas a se eximir de culpa. Pelo risco de borrar sua imagem, não problematizou em momento algum o encarceramento de jovens após o circo montado pela imprensa. Está coerente, contudo, com o que já declarou sobre a necessidade de prisão daqueles que cometiam atos “violentos” em resposta à violência policial cotidiana, quando foi também objeto de crítica por parte do PSTU.

Marcelo Freixo (PSOL) e outras personalidades se manifestam sobre os protestos

Marcelo Freixo (PSOL) e outras personalidades se manifestam sobre os protestos

O “troco” de Freixo se deu, como noticiado em órgão do PSOL, com um amplo leque de alianças e apoios, como Lindberg. Naquele momento considerou representantes de um governo, que aumenta vertiginosamente as políticas de repressão, mais dignos de diálogos, alianças e compreensão de suas contradições, do que aqueles militantes atingidos pela mesma repressão. Seguiu-se uma campanha, quase publicitária, coalhada de figuras notórias e que adentrou o carnaval, em que todos poderiam ter “ligações com Freixo”.

Assim, nos parece fundamental a reflexão sobre como os paradigmas construídos pela mídia corporativa reverberam dentro da esquerda nos espaços de organização das lutas sociais. Ao fim, acreditamos que, aos grupos que foram apontadas as armas da repressão foram também apontadas as “culpabilizações” e “desconfianças” dessas esquerdas partidárias, garantindo que os espaços de atuação institucional continuem sendo dirigidos tal qual sua fórmula estabelecida há anos. Assim, sob a criminalização da mídia corporativa e do “fogo amigo”, os setores fora do quadro institucional foram tendo suas ligações nubladas, intimidadas, isoladas… criminalizadas na “opinião pública” e, em grande medida, dentro da própria esquerda.

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1 Como exemplo ver, especialmente capítulo IV, parágrafos 4.3 e 4.4. Sobre a repressão da Força Nacional de Segurança e do Exército contra movimentos sociais e comunidades pobres, são vários os exemplos expostos nas mídias de esquerda e corporativa, como nos casos da invasão do complexo do Alemão, da Maré, do leilão de Libra, dos protestos da Copa…

 

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