Entrevista com Marcelo Dias Carcanholo

Marcelo Dias Carcanholo é professor de economia da Universidade Federal Fluminense e presidente da Sociedade de Economia Política Latino-americana (SEPLA). Nesta semana, ele concedeu uma entrevista ao site argentino Notas, onde analisa a atual conjuntura eleitoral e a situação política e econômica brasileira. Segue abaixo uma tradução do Tim Marx. 

– Como era a política econômica antes da chegada do PT ao poder e o que mudou?

-Nos anos classicamente chamados do neoliberalismo, o que ocorre é que, em um nível de abstração maior, se administrou uma estratégia de desenvolvimento neoliberal. Isto é, reformas liberalizantes, abertura comercial e financeira, privatizações. Ou seja, o pacote que em geral se implementou na América Latina. Em um nível de abstração menor, isto é, no manejo da política monetária, cambial e fiscal, houve fases.

Desde 1999 até o final do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso mudou-se um pouco a cara da política econômica. A política monetária, que antes era de combate à inflação, entra em um regime de metas inflacionárias. O tipo de câmbio, que não era fixo como na Argentina, mas de bandas cambiais, onde há um teto e um piso dentro do qual o mercado resolve, se manejava conforme a conjuntura. O que acontece depois da crise cambial do Brasil entre 1999 e 2001, é que se muda o manejo dessa política.

Isto é, o câmbio que se diz flutuante na verdade não o é, porque o Banco Central intervém para regular. Seguiu sendo o mesmo que antes, a diferença é que não se anuncia previamente quais são o teto e o piso, mas eles existem e o mercado sabe quais são. A política monetária passou a ser seguida de um regime de metas inflacionárias, ou seja, o Banco Central utilizava todos os instrumentos de política monetária para obter essa meta pré-fixada.

– O que mudou com o governo do PT?

– O governo Lula manteve a mesma política. Uma política fiscal de superávit primário para pagar a dívida pública, ou o pagamento de juros para a amortização da dívida. Inclusive, incrementou o superávit primário. Lula continuou o regime de metas inflacionárias que se mantém até hoje. O mesmo com o tipo de câmbio. Na estratégia de desenvolvimento, isto é, no marco estrutural neoliberal, se aprofundou a abertura dos mercados. Se privatizaram mais coisas. Quer dizer, não mudou nada.

Mas, ao comparar os períodos macroeconômicos, é evidente que o período 2002-2007 foi muito melhor. E também sobrou dinheiro ao Estado para que pudesse fazer políticas sociais compensatórias que nos anos 90 não foram feitas. Então o que se deu? Não se mudou a política econômica, não se mudou a estratégia de desenvolvimento, mas o que mudou foi o cenário externo. Lula teve uma sorte tremenda. A economia mundial voltou a crescer, impulsionada por economias como a Índia ou a China, que requerem para seu crescimento coisas que Brasil desde a década anterior se especializou em produzir e exportar.

Com esta reprimarização das exportações cresceu o saldo na balança comercial e também, quando havia dinheiro nos mercados de crédito internacional, chegavam empréstimos diretos para o setor público e privado e investimentos diretos estrangeiros com custos baixos. Por isso se teve um alívio conjuntural na balança comercial, na conta corrente e na conta de capitais. O Brasil pôde crescer sem problemas de restrição externa, sem pressão cambial e com inflação controlada. Nunca antes na história da América Latina o cenário externo foi mais favorável. A partir de 2007 isto se encerrou.

-Então não mudaria nada se ganhar Dilma ou Aécio Neves…

-Não, isso não é verdade. O que mudaria seria a relação do Brasil com o exterior. Aécio Neves já disse que deve mudar a relação do Brasil com os parceiros comerciais na América Latina, principalmente no Cone Sul. Por outro lado o apoio que houve por parte do Brasil aos processos do Equador, Bolívia ou Venezuela terminaria. Mas não deixaria de olhar para esses países.

“O PT não mudou o neoliberalismo. Mas não dá no mesmo que ganhe Dilma ou Aécio.”

Aécio pode entrar facilmente em acordo com os EUA e transformar-se geopoliticamente em outra Colômbia, com o peso de Brasil. Não obstante, também deve-se olhar para a relação do governo atual com esses países. Porque, se de um ponto de vista político há um apoio aos processos revolucionários, do ponto de vista da infraestrutura econômica o Brasil apoia em toda a América Latina os capitais que atuam a partir do seu território. Com subsídios comerciais e com apoio do financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ou seja, o sub-imperialismo brasileiro já vem atuando na região. E com o governo do PT apoiando.

Sempre se disse que para chamá-lo de sub-imperialismo faltaria o braço militar. Mas basta ver o que se passa no Haiti com a Minustah, a qual o Brasil está dirigindo. Mas não é o mesmo que ganhe Dilma ou Aécio. Se Aécio ganhar, vai piorar muito o contexto, porque o carácter sub-imperialista brasileiro vai atuar sem freio. Hoje existem ainda alguns em termos geopolíticos. Mas o Brasil começou a tratar a América Latina, em menor escala, como se fosse um país imperialista central. Vendia produtos com algum conteúdo tecnológico e importava matérias-primas. Replicando para baixo o que sofria para cima. Mas hoje em dia com a crise o papel do Brasil é muito mais sub que imperialismo.

-Quais são as repercussões sobre a vida cotidiana dos brasileiros?

A primeira coisa a se considerar é que as políticas sociais dos governos do PT desde 2002 até agora conseguiram diminuir os efeitos da pobreza e da desigualdade estrutural do Brasil. Mas o cenário externo que permitiu isto mudou. Acabou-se o elemento conjuntural favorável e voltou o estrutural problemático. A desigualdade e o grau de concentração de renda e também de propriedade voltaram a crescer.

De um ponto de vista menos crítico, concentração e desigualdade vão seguir crescendo. De um ponto de vista mais crítico, ganhe quem ganhar vem um processo de ajuste. E vai ser à europeia, isto é, se os trabalhadores não tem um poder de reivindicar algumas coisas, serão eles a pagar. Isto significa maior exploração do trabalho, reduções salariais, ainda que sejam disfarçadas. Na agenda estão, ainda que não seja dito, a reforma tributária, a favor do capital, e a reforma trabalhista, que é a tendência a nível internacional. O ministro da Fazenda de Neves, já indicado em caso de vitória, Armínio Fraga, já disse que vai fazer um ajuste estrutural. Disse isto de maneira técnica, para que as pessoas não entendam, mas o está dizendo. Mas Aécio não o vai dizer nunca.

-Antes do primeiro turno houve um debate muito mais amplo. Se viram ali alternativas a tudo isto?

-Ao olhar para as três candidaturas com mais robustez política, que são as duas que foram ao segundo turno e Marina Silva, não há nada distinto. O discurso do PT é que se não ganharem, irão cair todas as conquistas obtidas. E os outros dois diziam que iriam manter essas conquistas, mas melhorando-as. Havia candidaturas de esquerda com muitas propostas, mas sem repercussão.

A candidata da esquerda, Luciana Genro, do PSOL, teve pouco mais de 2% dos votos. Há um problema. A esquerda está perdendo a batalha das ideias já há um tempo. Não porque não nos escutam. Não é um problema da direita ou do capitalismo que não nos deixa aparecer. É um problema nosso. De não saber como dizer nossas propostas. Temos um projeto para um razoável longo prazo, que pode ser o socialismo ou o nome que se queira, mas temos que fazer coisas agora. Com que base, instrumento e que faríamos agora? Nisto estamos mal.

Os anos 90 foram muito piores. Algo melhorou. Mas ainda é insuficiente para gerar um projeto de esquerda que tenha possibilidade de ganhar eleições. E ganhar eleições não garante nada. Se algo nos ensinaram Venezuela, Bolívia ou Equador é que ganhar eleições é só o começo de algo que pode ser, e nada mais.

Sobre Tim Marx

Um espectro ronda a blogosfera – o espectro de um comunista barbudo com cabelo black power.
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2 respostas para Entrevista com Marcelo Dias Carcanholo

  1. Roberto Moll disse:

    Muita pretensão minha discordar do Carcanholo, que tem muito mais caixa do que eu. Mas, vou discordar em parte, correndo o risco de estar falando bobagens. Antes de começar, não sou entusiasta do PT/Dilma, que só se tornou uma opção como voto crítico no segundo turno. Como não sou economista, prefiro começar com uma análise das forças sociais que compõe e dão base aos projetos e seus representantes. A grosso modo, o capital aposta no preto e no vermelho. Mas, suspeito que o capital nacional de bens duráveis pende pro lado do PT e o capital internacional, sobretudo financeiro, e o agronegócio pendem pro lado do PSDB. Os trabalhadores organizados, claramente, são um ponto de sustentação do projeto e da representação do PT (lembro das lições do Thompson, a classe operária é o que ela é e não o que a gente quer que seja, sem “falsa consciência”). Mesmo, aqueles setores mais a esquerda e afinados com PSOL e PSTU tendem ao PT como segunda opção. Disso decorrem diferenças marcantes no projeto do PT daquele que foi e seria o projeto do PSDB. Em nenhum momento o Governo Lula/Dilma defendeu a contenção de gastos públicos e na, prática, não aplicou. Acho que uma análise orçamentária mostraria isso (embora vejamos crescimento de gastos em FHC também), principalmente, no setores de educação, saúde e infra-estrutura. Como você, tenho milhares de críticas e poréns ao REUNI, mas é inegável que houve aumento de gastos com educação no processo de expansão. O número e a qualidade dos hospitais federais aumentou, como a expansão da rede INCA e INTO. O investimento público em infra-estrutura é incomparável. Ademais, houve expansão do crédito (com todos os problemas que isso implica) e sucessiva redução da taxa de juros, que impulsiona a empregabilidade. Obviamente, não quero dizer que acredito que o projeto petista abandonou completamente o neoliberalismo e que está no caminho socialista ou coisa do tipo. A outra face da moeda (provavelmente mais importante) é o favorecimento a setores do capital como o mercado de varejo, a industria de automóveis, os bancos e as empresas de infra-estrutura. Por isso, concordo que, infelizmente, continua demasiadamente comprometido com o pagamento da dívida; com o desmantelamento do Estado através das “concessões” (que não passa de eufemismo para privatização light para setores articulados com o projeto político); e com uma política tributária quase regressiva que penaliza os mais pobres para aumentar a base de arrecadação. No plano internacional, as contradições desse projeto se repetem, porque os governos da América Latina estão calcados de forças políticas semelhantes. Então, por um lado, de fato, há uma atuação de centro-periferia, principalmente, no que tange a relação desigual de troca (primários x industrializados). Mas, por outro lado, há uma relação de parceria preferencial e cooperação política e econômica em setores importantes (inclusive defesa com UNASUL) que respondem, justamente, aos interesses transnacionais de setores dissociados do capital (difícil essa argumentação na internet e confesso o cansaço). Portanto, não creio que os pontos positivos (pra esquerda) do contraditório projeto PT/Dilma sejam possíveis apenas a um bom momento da economia internacional. Penso que são conquistas dos trabalhadores que mesmo não tendo a consciência de classe que queremos pressionam o governo. Não acredito que o PSDB abandonaria o tripé econômico, principalmente a política monetária, mesmo com uma economia internacional favorável. Por isso, em meio a crise, o governo PT/Dilma/Lula teve que manter o compromisso. Concordo que, agora, a crise pode ser pior e ameaçar ainda mais esse compromisso com os trabalhadores. Daí, pra esse segundo turno, a gente tem duas opções: ou votamos no PT acreditando que, ao menos, manterá o compromisso, principalmente, porque tem forças direitistas abandonando o barco (acho que é nisso que o PSOL deveria ter apostado e dado um apoio mais claro ao PT – e me parece que é nisso que alguns quadros apostam) e, se não der certo, continuamos na oposição; ou acreditamos que é tudo igual e pagamos pra ver. Como sou otimista da vontade e pessimista da razão, acho que ainda vale apostar. [Atenção: não estou dizendo que o PT enfrentará o capital ou coisa parecida, infelizmente]. Posso estar errado em tudo hehehehe

  2. Robert Moll disse:

    A entrevista é ótima. Seria muita pretensão minha discordar do Carcanholo, que tem muito mais caixa do que eu. Mas, vou discordar em parte, correndo o risco de estar falando bobagens. Antes de começar, não sou entusiasta do PT/Dilma, que só se tornou uma opção como voto crítico no segundo turno. Como não sou economista, prefiro começar com uma análise das forças sociais que compõe e dão base aos projetos e seus representantes. A grosso modo, o capital aposta no preto e no vermelho. Mas, suspeito que o capital nacional de bens duráveis pende pro lado do PT e o capital internacional, sobretudo financeiro, e o agronegócio pendem pro lado do PSDB. Os trabalhadores organizados, claramente, são um ponto de sustentação do projeto e da representação do PT (lembro das lições do Thompson, a classe operária é o que ela é e não o que a gente quer que seja, sem “falsa consciência”). Mesmo, aqueles setores mais a esquerda e afinados com PSOL e PSTU tendem ao PT como segunda opção. Disso decorrem diferenças marcantes no projeto do PT daquele que foi e seria o projeto do PSDB. Em nenhum momento o Governo Lula/Dilma defendeu a contenção de gastos públicos e na, prática, não aplicou. Acho que uma análise orçamentária mostraria isso (embora vejamos crescimento em FHC também), principalmente, no setores de educação, saúde e infra-estrutura. Tenho milhares de críticas e poréns ao REUNI, mas é inegável que houve aumento de gastos com educação no processo de expansão, sem falar no repasse do Fundeb. O número e a qualidade dos hospitais federais aumentou, como a expansão da rede INCA e INTO E o repasse aos estado e municípios também. O investimento público em infra-estrutura é incomparável. Ademais, houve expansão do crédito (com todos os problemas que isso implica) e sucessiva redução da taxa de juros, que impulsiona a empregabilidade. Obviamente, não quero dizer que acredito que o projeto petista abandonou completamente o neoliberalismo e que está no caminho socialista ou coisa do tipo. A outra face da moeda (provavelmente mais importante) é o favorecimento a setores do capital como o mercado de varejo, a industria de automóveis, os bancos e as empresas de infra-estrutura. Por isso, concordo que, infelizmente, continua demasiadamente comprometido com o pagamento da dívida; com o desmantelamento do Estado através das “concessões” (que não passa de eufemismo para privatização light para setores articulados com o projeto político); e com uma política tributária quase regressiva que penaliza os mais pobres para aumentar a base de arrecadação. No plano internacional, as contradições desse projeto se repetem, porque os governos da América Latina estão calcados de forças políticas semelhantes. Então, por um lado, de fato, há uma atuação de centro-periferia, principalmente, no que tange a relação desigual de troca (primários x industrializados). Mas, por outro lado, há uma relação de parceria preferencial e cooperação política e econômica em setores importantes (inclusive defesa com UNASUL) que respondem, justamente, aos interesses transnacionais de setores dissociados do capital (difícil essa argumentação no facebook e confesso o cansaço). Portanto, não creio que os pontos positivos (pra esquerda) do contraditório projeto PT/Dilma sejam possíveis apenas a um bom momento da economia internacional. Penso que são conquistas dos trabalhadores que mesmo não tendo a consciência de classe que queremos pressionam o governo. Não acredito que o PSDB abandonaria o tripé econômico, principalmente a política monetária, mesmo com uma economia internacional favorável. Por isso, em meio a crise, o governo PT/Dilma/Lula teve que manter o compromisso. Concordo que, agora, a crise pode ser pior e ameaçar ainda mais esse compromisso com os trabalhadores. Daí, pra esse segundo turno, a gente tem duas opções: ou votamos no PT acreditando que, ao menos, manterá o compromisso, principalmente, porque tem forças direitistas abandonando o barco (acho que é nisso que o PSOL deveria ter apostado e dado um apoio mais claro ao PT – e me parece que é nisso que alguns quadros apostam) e, se não der certo, continuamos na oposição; ou acreditamos que é tudo igual e pagamos pra ver. Como sou otimista da vontade e pessimista da razão, acho que ainda vale apostar. [Atenção: não estou dizendo que o PT enfrentará o capital ou coisa parecida, infelizmente]. Posso estar errado em tudo hehehehe.

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