Massas em movimento: a “perigosa desordem”

Tem gente dormindo pouco. Um terror profundo, intestino, como de assombração mantem os olhos abertos. Seus fantasmas, porém, não são obra do sobrenatural. Edificados com engenharia no “cimento das notícias diárias” de televisão e dos principais jornais, o temor é alimentado de carne humana: corpos organizados e em movimento formam o cardápio do medo. É medo da “desordem social”.

Com os olhos voltados para Junho de 2013, colunistas esparramam seus assombros aos ventos, alertando à Sociedade Adestrada sobre perigos iminentes. É o que sugere declaração de Armando Castelar Pinheiro, sobre a possibilidade de “menor crescimento do consumo” em 2015, consequência “impopular”, capaz de “gerar turbulências sociais”. Fica a profecia prudente: “saber administrar esse processo será essencial para garantir uma transição menos custosa” (Armando Castelar em “A nova inflexão da economia”).

O professor Luiz Gonzaga Belluzzo em entrevista, por seu turno, comenta a estratégia de combater a inflação defendida pela direita e produz a mesmíssima neblina horrorizante. Da opinião de que a vida de muitas pessoas melhorou pela obra dos governos petistas, diagnostica o desmonte da “ascensão” como veneno conhecido em seus efeitos: tornar “complicado suportar” suas “consequências sociais”. Talvez “consequências sociais” situe o mal humanitário da deterioração das condições de vida dos trabalhadores (resultado comum da música regida por maestros das novas formas do velho pensamento liberal), ou então, sugere que o funcionamento do todo social fugiu à “boa ordem”.

Coisa antiga. Coisa nossa?

Belo Monte, segundo as lentes de Flávio de Barros, nos dias finais do arraial de Canudos.

Belo Monte, segundo as lentes de Flávio de Barros, nos dias finais do arraial de Canudos.

Novembro de 1889, um golpe de Estado abriu caminho para transformar o Governo Monárquico numa República descolada dos interesses da maioria da população. Nos primeiros anos do governo republicano, claros foram a incapacidade e o desinteresse em transformar profundamente a vida das pessoas. Diante da fome e do controle exercido pelos fazendeiros, alguns se organizaram para trilhar caminho autônomo, fixando moradia nas proximidades do rio Vaza Barris, no estado da Bahia.

Povo altivo, miserável e espremido pela realidade da seca conveniente aos coronéis se juntou ao líder Antônio Conselheiro, guia de promessas de salvação da alma e dos tormentos da vida. Enquanto fazia crescer o número de fieis de sua palavra católica e, por isso, contrária aos governos não católicos (como se espera das repúblicas laicas), também se avolumavam os boatos alimentados por jornais, religiosos e gente incomodada com o arraial de Canudos, batizado Belo Monte. Que se argumente pela estranheza dos sermões da liderança da comunidade aos ideais republicanos e religiosos, nada apaga triste realidade: o “foco monarquista” (como jornais e políticos crocitaram), de seguidores de cristianismo desautorizado pela Igreja (auspiciosa, logo se pôs a convencer habitantes do povoado a se dispersarem) não oferecia qualquer risco concreto e imediato.

Mulheres e crianças prisioneiras de guerra. A população de Belo Monte chegou, em tempos tranquilos, a 25 mil pessoas.

Mulheres e crianças prisioneiras de guerra. A população de Belo Monte chegou, em tempos tranquilos, a 25 mil pessoas.

Sua sina veio da decisão de viver em comunidade que proibia bebidas alcoólicas, prostíbulos, direitos de herança e de propriedade da terra, apenas? A Belo Monte de Canudos desordenava o contexto propondo um novo texto e, mesmo que restrito à imaginação das pessoas, desafiava o equilíbrio das forças que davam sentido àquele mundo de desigualdade, de mandonismo local etc. O preço da ousadia e da guerra genocida são estimados: 25 mil mortos, muito mais de um lado que de doutro (adivinhe quem venceu, leitor sagaz…).

Cem anos depois, altivos trabalhadores e trabalhadoras experimentados na luta pela reforma agrária viveram experiência semelhante, arrepiante na correlação de forças e truculência. O “Massacre de Eldorado dos Carajás” perpetrado em 1997, no Pará, opunha mil e quinhentos militantes do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra contra dezenas de soldados da Polícia Militar do Pará, mais dezenas de berros e milhares de cabeças de chumbo. Com o objetivo de retirar manifestantes que interrompiam o trânsito de estrada, desafiando o sacrossanto direito de “ir e vir”, as forças da ordem tinham uma arma suprema:  carta branca do governador Almir Gabriel (PSDB) para agir com a força necessária.

http://www.youtube.com/watch?v=7q3Tkm_GF5Q

Documentário com abordagem reacionária. Os comentários pauperizam a vida humana e igualam pedras, insultos e balas de chumbo, assim como crianças, velhos e soldados.

http://www.youtube.com/watch?v=5igyvOcQB84

Documentário com outra visão.

 

Os trabalhadores assassinados, dezenas de mutilados, feridos, órfãos e demais sobreviventes participaram de um tático sacrifício de direito civil, parte da estratégia de forçar a realização de direitos sociais (constitucionais!) de acesso aos meios de sobrevivência (usufruto seguro e assistido da terra). Corpos em movimento e organizados, na verdade, superavam a qualidade de pessoas dotadas de força vital. Aqueles camponeses se percebiam como força social e produziam uma força política em luta por objetivos. Desafiavam a ordem.

Para além do espelho d’água, da turbulência superficial, breve e escorada em foices, paus e alguns revólveres, os trabalhadores, ali, desafiavam o direito de “propriedade-tudo-pode” e provocavam a reação brutal dos que se sentiam ameaçados pela “desordem”. Em cem anos, episódios distintos dum mesmo drama violento. O medo arranca fantasmas do conjunto dos mais pobres (maioria no reino do falso fausto) e deles se serve.

A fonte das angústias e temores é a alternativa de quem luta por transformações: desfazimento tático e estratégico da ordem ou desordem. Enquanto inimigo abstrato assim é de mais difícil digestão, tenra é a carne humana. E só ela gira a roda.

Atualíssimo: olhos em Junho

Desde 2013, altivos trabalhadores e estudantes marcham nas ruas de várias cidades, numa intensidade nova para o Brasil da Idade Mídia. Enquanto durou a corrida eleitoral, os recados tinham olhos em Junho. Eles vieram, por exemplo, em coluna de jornal do bi-presidente Benjamin Steinbruch, da estatal privatizada CSN (a indústria de aço, Companhia Siderúrgica Nacional) e da FIESP (Federação de Indústrias do Estado de São Paulo), que sentenciou a estagnação econômica e se felicitou por não haver “convulsões sociais” no país.

O crescimento do desemprego preocupa porque “desagrega famílias” e, também, porque acarreta “perigosas perturbações”, expôs o empresário de sucesso. Temores parecidos atirados ao ventilador serviram para legitimar a longa ditadura iniciada em 1964, assim como serviu para angariar o apoio da FIESP à Repressão, em tempos passados. A instituição que representa o empresariado industrial de São Paulo se contenta em dar avisos, em público e por enquanto.

Muitos tergiversam, nublando a visão e dificultando que se chegue ao âmago do problema, mas é possível encontrar flores de sinceridade e falas quase diretas. Concluído o primeiro turno das eleições com PT e PSDB, na opinião do sr. Vinicius Mota, venceu uma resposta séria às Jornadas de Junho. Pois as manifestações do ano passado se desenrolaram numa “visão maniqueísta” e, caracteriza, “perigosa”. Até aí, fumaça pura: ideias desafiadoras da ordem podem viver entre poucos, como papos sonháticos de mesa de bar e sem poder de transformação real.

O fogo não queima apenas na natureza das ideias, que tatuaram naquele Junho cores progressistas moderadas, revolucionárias, conservadoras, reacionárias e fascistas. Ao contrário, a sensação de perigo vem da certeza de que a “política” (processo no qual os sujeitos históricos criam meios de fazer valer seus interesses) “ganhou as ruas”. A espacialidade do fenômeno que instaurou a desordem é desmistificador: “as ruas”, cenário privilegiado das maiorias (classistas, de grupos sociais racializados e de grupos sociais de identidade de gênero).

Espaço popular e alternativo à ordem institucional, caminho menos restrito à participação das pessoas nas decisões que afetam suas vidas diretamente, “as ruas” são palcos das maiores condições de vitórias e trampolim para ganhos de trabalhadores e estudantes. Há conquistas bem concretas que emergiram das ruas, como aumentos salariais, direitos trabalhistas e outras, frutificadas da tomada de territórios e da pressão popular sobre políticos e patrões. A politização dos interessados em mudar a ordem estabelecida e sua experiência no conflito direto de interesses, todavia, são os ganhos mais profundos.

As Jornadas se esparramam por 2014. Caso contrário, que significa o manifesto dos acadêmicos da ordem, “Pelo Direito de Manifestação, Pelo Direito de Ir e Vir”? Ou então, qual o teor da “mudança segura” proposta pela direita aglutinada na candidatura derrotada de Aécio Neves (PSDB)? Sínteses do medo das ruas turbulentas com opções políticas e policiais para acalmá-las.

Montagem do perfil de Facebook Foucault Futucou

Montagem do perfil “Foucault Futucou”, do Facebook.

As Jornadas lançam seus fantasmas em 2015. Para o sr. Rubens Ricupero, resultou das eleições uma República que perdeu “a unidade”, “a concórdia civil”. Politicamente inviável pelas  alianças e variedade dos partidos, o colunista crê, ainda, numa “sociedade rachada”, “polarizada e”, acrescenta, “radicalizada”,  lembrando o clima de “paralisia” anterior ao “golpe militar”. O sr. Geraldo Costa Neto, indignado herdeiro do jornal Estado de Minas, escreve sob o manto do patriotismo que os petistas “não terão governabilidade, caso vençam, e isso não é uma ameaça, é uma premunição [sic]”, preparando espíritos fracos para emoções fortes.

Diversos episódios demonstram que, na mão grande, a ordem foi recomposta segundo as conveniências dos donos do poder. Tem sido assim nas ruas do longo Junho inacabado, de Canudos, de Eldorado dos Carajás etc., quando forças do Estado praticaram desvio estratégico (com atos ilegais, injustos, imorais) para proteger a “Velha Ordem”. Nessa perspectiva, já repleta de prospectivas, é fundamental se posicionar, tomar partido.

A reação dos atemorizados, às vezes, extrapola.

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