Leandro: marxismo, política, humor, poesia, autocrítica e universalidade em um desencantado com o capitalismo.

leandro_konder Os sonhos

Sempre conto aos meus alunos uma história anedótica. Eu, ainda nos primeiros semestres da faculdade de História, ouvia falar constantemente de dialética. Não fazia a menor ideia do que era aquilo e sempre ia ao dicionário Aurélio, que tinha em casa, em busca da definição. Não entendia ainda assim e, inexoravelmente, no outro dia esquecia o que tinha lido e, consequentemente, tinha que voltar várias vezes ao “pai dos burros” – pra me certificar que continuava não entendendo! Foi aí que descobri uma solução: comprei o livro O que é Dialética (daquela série princípios) e o li em um dia, ansioso para entender o que significava aquele conceito. Quando acabei o livrinho, continuava sem saber ao certo o que diabos era aquilo, mas estava convencido de que o autor era extremamente didático, eu que não estava suficientemente capaz pra entender aquela complicação toda.

Não era o primeiro texto daquele autor que eu tinha lido. Sabia que ele era um marxista muito famoso e que tinha sido professor dos meus professores, que o admiravam imensamente. Eu, querendo ser marxista, fui devorando aqueles seus textos bem didáticos. Quando surgiu a oportunidade, há quase dez anos atrás, de ver minha primeira palestra com ele, corri para reservar meu lugar no pequeno auditório do curso de História da UFRJ – que acabou lotado. Era uma mesa composta pelo Leandro Konder, seu amigo inseparável Carlos Nelson Coutinho e o filósofo Michel Löwy. Já debilitado pelo Alzheimer, Leandro Konder ouviu as exposições dos outros dois rabiscando um papel. Ao final, ele tinha escrito uma poesia e feito uma charge, que acabaram sendo sua intervenção no debate. Quando o evento se encerrou, corri com aquele mesmo livro O que é Dialética para ser assinado por ele, que carinhosamente me dedicou um abraço e assinou “Leandro”. Assim, sem sobrenome, só Leandro, despido dos sobrenomes e méritos acadêmicos.

Foi desta maneira que eu passei a me referir a ele desde então, Leandro. Como se fosse um amigo, que não tive o prazer de ter, mas que esteve constantemente presente na minha vida através de suas palavras. Ele mesmo disse em um de seus livros que “por meio da leitura os seres humanos podem se encontrar, podem assimilar algo das experiências dos outros”. Deste jeito encontrei o Leandro e aprendi com ele.

Ele se dizia um “caso típico de grafomania”, não conseguia viver sem escrever, deixando de seguir os ensinamentos de seu pai, que o aconselhava: “Diga bobagens, mas não as escreva”. Publicou mais de vinte livros, participou de outros trinta e tantos, sem contar seus trabalhos como tradutor e revisor. Escreveu… crônicas de jornal, poesias, romances (inclusive um policial recheado de figuras da literatura e da filosofia), crítica literária, análises históricas, filosofia marxista e outras coisas. De toda forma, mais do que isto, sempre valorizou o espaço da sala de aula, como troca de ideias, lecionando até quando sua saúde lhe permitiu e sendo sempre reconhecido pela qualidade e a diversão de suas aulas, que comumente se expandiam por conversas e chopes.

Filho de um militante comunista, filiou-se ao PCB com 15 anos e militou neste partido por cerca de 30. Neste período, atuou como advogado de outros militantes, foi perseguido, preso, torturado e exilado durante a ditadura. Neste mesmo período, foi responsável pela tradução e introdução do pensamento de Gramsci no Brasil, em conjunto com Carlos Nelson Coutinho. Além de seus livros introdutórios ao pensamento marxista, escreveu uma biografia de Marx supervisionou edições do trabalho marxiano no Brasil e traduziu outros autores fundamentais, como Lukács (com quem chegou a se corresponder e entrevistar). Sua aproximação com a crítica feita em especial pelo Partido Comunista Italiano ao endurecimento do regime soviético o levou a ser acusado de revisionista pelos companheiros do PCB. Na década de 1980, deixou o partido para trabalhar na fundação do PT, o qual, por sua vez, abandonou em 2003 junto com Carlos Nelson Coutinho para fundar o PSOL. Ambos costumavam dizer que tiveram, tanto no PCB quanto no PT, uma trajetória na qual iniciaram fazendo parte da direita dos partidos e terminaram sendo extrema esquerda, ressaltando sempre que o movimento era dos partidos, enquanto suas posições permaneciam semelhantes.

Em entrevista à Globo News, logo após o lançamento de seu livro de memórias, Leandro assumiu ser alguém nada otimista e até mesmo um comunista desiludido. Todavia, lembrou magistralmente, que a palavra desilusão não estava ligada à uma descrença no marxismo, mas sim a uma perspectiva sem qualquer ilusão, mesclando, como disse Francisco Alambert, o otimismo da vontade de Gramsci ao pessimismo melancólico da razão de Walter Benjamin. Foi, acima de tudo, um comunista e, como diz o poema de Brecht traduzido pelo próprio Leandro:

Aquele que luta pelo comunismo
tem, de todas as virtudes, uma:
a de lutar pelo comunismo.

A paixão do Leandro pela literatura e pela poesia é especialmente comovente para mim, já que atribuo a ele, entre outros, um papel de guia neste mundo. Em seu livro As artes da palavra, Leandro se questiona quanto ao porquê do desinteresse atual pela poesia e a defende como algo fundamental aos seres humanos. Aprendi com ele que “A poesia me proporciona a descoberta de alguns dos meus sentimentos possíveis. Ela pode ampliar para mim o campo da minha capacidade de sentir coisas novas”. A ampliação da sensibilidade, para ele, nunca era descolada da razão e neste sentido, “A poesia desempenha um papel fundamental nessa ajuda mútua da razão e da sensibilidade: como linguagem que é, contribui para o exercício da autodisciplina da razão; como intuição, inspiração, “iluminação”, ela promove o aguçamento da sensibilidade”.

Conhecido por seu senso de humor aguçado e sempre presente, Leandro chegou, em uma conferência que encerrava um evento dedicado à discussão de sua obra, a pedir desculpas pelo relato divertido sobre um roteiro de um possível filme surrealista no qual um espectro do comunismo com testículos, após várias desventuras, deveria acabar namorando a Liberdade, aquela retratada por Delacroix, e gerar bebês em seu útero fértil. Leandro terminou dizendo que o “o senso de humor, por mais desastrado que seja, não é crime”. Muito pelo contrário, ele sabia muito bem que o humor era ferramenta de diálogo, socialização e, especialmente de crítica. Nisto atuava seja nas charges, nas conversas, nos poemas satíricos ou no romance que descreve os feitos de Bartolomeu da Pagúncia, o maior anão do mundo.

A morte foi um tema que Leandro também invocava para executar a crítica. Neste caso, mais especificamente, a importância da autocrítica ao propor o conceito de curriculum mortis, no qual deveriam constar todos os fracassos que nos fazem humanos e que nos distanciam do triunfalismo que é valorizado pelo capitalismo e pela meritocracia. Segundo ele, “Querendo ou não, cada um de nós caminha inexoravelmente para a morte. Reconhecendo francamente nossos fracassos, elaborando nosso curriculum mortis, assumindo autocriticamente os momentos “noturnos” em que vamos morrendo aos poucos, aumentamos as nossas possibilidades de nos conhecermos e de nos aperfeiçoarmos espiritualmente; e, de certo modo, esse talvez seja o único caminho possível de preparação para o fim pessoal inevitável”.

A autocrítica era fundamental. Não a autocrítica que era imposta pelo endurecimento dos Partidos Comunistas, vinda de cima para baixo, mas aquela estabelecida com a sinceridade de nós para com nós mesmos. A crítica cotidiana sobre nosso conservadorismo. A constante revisão necessária ao nosso pensamento, tão distorcido por ideologias e outros elementos inconscientes. Leandro dizia que “Somos todos divididos, contraditórios. Por isso mesmo, precisamos promover discussões, examinar e reexaminar a função interna das nossas racionalizações. Quer dizer: precisamos realizar permanentemente um vigoroso esforço crítico e autocrítico. (…) A autocrítica é de uma importância decisiva. É por ela que passa o teste da superação do conservadorismo dentro de nós”.

Esta seria uma forma de buscar a universalidade, a superação do indivíduo. Seja pela autocrítica, pelo diálogo, pelo humor, pela literatura ou pela poesia, Leandro sempre insistiu na busca pelo universal. Creio que nisso – além de outras coisas – ele é um exemplo para todos nós do Capitalismo em Desencanto, já que aqui tentamos estabelecer diálogos que tem como objetivo a destruição de todas as opressões e a construção anticapitalista de um mundo igual para todos. Para isto, não nos furtamos a usar todas as armas apresentadas por Leandro, textos mais humorados, mais poéticos, mais políticos, mas literários, mas, sobretudo, críticos.

Em um capítulo que explica a importância da poesia na busca pela universalidade, Leandro cita o poeta espanhol Gustavo Adolfo Becquer, que escreveu “Que es poesia?/ Dices, mientras clavas/ em mi pupila tu pupila azul./ Que es poesia? Y tu me lo preguntas?/ Poesia – eres tu”. Agora, em seu momento de partida deste mundo, Leandro, fico feliz em dizer, alegre com a memória dos seus olhos azuis quando dedicavam aquele livrinho pra mim, que você é poesia. Obrigado por ser poesia, por ser revolução, por ser humano e universal.

Sobre Fábio Frizzo

Professor universitário, doutorando em História Social e guerrilheiro de Sierra Maestra.
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