Gíria: tráfico linguístico

Um aluno da rede estadual sempre me cumprimenta com um soco leve na mão e diz “suave, professor, suave.” De todos, ele é o menos “suave” da turma de Educação de Jovens e Adultos. Nos conselhos de classe, seu nome é citado não sem algum estremecimento. Ameaça outros alunos, cola em todos os testes para conseguir passar e é implacável para derrubar moralmente outros alunos. No entanto, quando me cumprimenta, exibe um sorriso muito calmo, como se tudo estivesse em seu controle e, mais importante, como se tudo fosse dar certo. Para todos.

Certo dia chegou chateado na escola. Estava com uma marca roxa no braço. Perguntei o que havia acontecido, por que estava com aquela cara, e por que não tinha me cumprimentado. Ele respondeu, sem sorrir, “suave, professor, suave.” Estava claro para mim que havia naquela resposta muitas camadas de significação. Naquele momento, de marca roxa, de mal humor (talvez tristeza) e de total silêncio no restante da aula ressignificaram para mim todas as vezes em que esse aluno me cumprimentou com a palavra “suave”.

*

Ministrar aulas na rede pública nos coloca em contato diário com as gírias. É impossível estar de corpo inteiro na escola e não tomar a gíria como uma questão séria – consciente ou inconscientemente. Há colegas de profissão que a reprovam. Nos círculos bem comportados e nas mesas de jantar da oficialidade ela é escorraçada como a prima pobre da poesia, uma espécie de maledicência profana. Tais professores raramente conseguem se comunicar com os alunos, e têm muita dificuldade em conduzir as suas aulas. Para eles, entrar naquele espaço significa entrar em um espaço de guerra.

De fato, a língua é um espaço de guerra. E as convenções estão para a guerra aberta como os códigos estão para as conspirações. Se no território da fala normal, da fala cotidiana, dos discursos da ordem instalados na família, das instituições representativas do poder público, da burocracia e do mercado, estamos lidando com a tentativa de conservação das relações de poder – e, se se trata de um espaço de guerra, estamos lidando com a manutenção do bombardeio do Estado que promove a guerra –, quando adentramos o território das linguagens cifradas estamos lidando com todas as táticas de proteção e contra-ataque que uma guerra desigual gera como reação. Em outras palavras, todos os códigos que criamos – aí inclusas as gírias – funcionam como táticas de entrincheiramento, instalação de armadilhas, uso de máscaras de gás.

As palavras constituem um território. Um território, como lembra o geógrafo Marcelo de Souza, é constituído de relações de poder no espaço. O uso das palavras são relações de poder no espaço. A fala é o território habitual, tentativa de tornar o mundo uma casa reconhecível. O diferente precisa ser homogeneizado no processo de comunicação, tanto quanto no processo de nomeação.

A gíria, por sua vez, não é o oposto da fala. Não é possível estar “fora” desse território mais amplo que constitui o nosso campo comunicativo. Quando um estrangeiro aprende a nossa língua e entra em contato com uma gíria, é muito provável que ele não a compreenda de imediato, mas não é porque a gíria não participe da língua. Muitas vezes ele conhece as palavras; o que lhe falta são as novas coordenadas de sentido. A gíria é um deslocamento na relação de poder dada, cuja iniciação só é fornecida aos pares que conspiram contra a forma de comunicação do poder e da ordem. A gíria interfere no uso das palavras, e confunde os territórios, formando novos. A gíria tem qualquer coisa de semelhante com as fugas e com a construção de subterfúgios – ou, para reativar a nossa memória, com a construção de quilombos.

A gíria desterritorializa e reterritorializa. Destrói os jogos de poder antes estabelecidos para construir novos.[1] Um simples exercício intelectual torna isso claro: imagine um jovem dentre estes de escola pública e que aprendeu a se comunicar nas quebradas tentando conversar com William Bonner no Jornal Nacional; agora imagine William Bonner dando aula para alunos do primeiro ano em uma escola pública durante um ano.

A quem pertencem as gírias? Aos grupos que precisam se defender do poder violento da ordem. Jovens, negrxs, homossexuais, transexuais, travestis, faveladxs, boêmixs, pobres, e por ai afora. A gíria, junto com o humor, constituem as principais ferramentas de defesa imediata das populações oprimidas. Em tempos de guerra aberta contra estes grupos, a gíria se torna de fato um código.

Quando, no Rio de Janeiro, se diz “ralar”, lembra-se imediatamente da origem (verdadeira ou não, pouco importa) da gíria. A palavra, que em “bom português” quer dizer “ferir uma superfície enquanto a esfrega em outra”, em certos lugares onde viveu a malandragem quer dizer algo como “ir embora”. A origem desse uso, dizem, tem como contexto a construção de túneis que os prisioneiros faziam para fugir da prisão.

A gíria possui certa potência limitada: potência porque é transformadora, na medida em que desloca o poder; limitada porque, na medida em que ela pertence a um grupo, seu raio de ação é reduzido – quando ampliado, perde a sua função de construção de subterfúgios, é capturada pelo poder dominante.

Os grupos discriminados, minoritários ou sumariamente dominados, são os grupos que precisam produzir outros modos de dizer as coisas por uma questão de sobrevivência. Se a fala é o território do normal, da normatização, a gíria é o território de conspiração contra a própria língua.

Ao escrever sobre Hélio Oiticica, Waly Salomão dizia, na introdução de Qual é o parangolé?, que se utilizaria de

um estilo enviesado (…), uma conversa entrecortada igual ao labirinto das quebradas dos morros cariocas, ziguezague entre a escuridão e a claridade. Lama, foguete, saraivada de balas, ricochete de bala, vala a céu aberto, prazer, esplendor, miséria. Igual a um labirinto e a arte provera dos barracos das favelas do Rio de Janeiro. Variedade de elementos e, principalmente, ambiguidade de tratamento.

Poderíamos dizer que Waly penetra (e se deixa possuir por) o método – isto é, o modo de operar – da gíria. Como os penetráveis de Hélio Oiticica, a gíria é uma vereda em meio a território favelado. Ela é um labirinto. Como o parangolé, só possui significado com o uso vivo (o parangolé é uma língua morta quando exposto imóvel na parede de um museu, ou mesmo quando uma performance é projetada em um telão, o que é o mesmo). O rap possui a fluência de alguém que corre pelo labirinto sem medo de minotauros. A proliferação de gírias instaura um território inseguro, que o ouvinte só acompanha se fetichizar a letra (ao apreciá-la como bela e se esquecer das relações sociais que promoveram o seu aparecimento, relações tão pouco admiráveis, a menos que haja identificação com a história da opressão).

A origem da palavra gíria é dificilmente determinável. Segundo o dicionário Houaiss, alguns autores, como José Pedro Machado e António Geraldo da Cunha, consideram a sua origem obscura. Ela parece ter certo parentesco com o espanhol “jerga”: “linguagem especial, difícil de compreender, geringonça”. “Jerga”, por sua vez, parece vir do occitânico antigo “gergon”, que remete inicialmente ao gorjeio dos pássaros. A gíria guarda portanto suas semelhanças com o puro gorjeio, o puro balbucio, unido à geringonça, à coisa mal feita, tão utilizada como ferramenta improvisada por aquela figura social que denominamos um verdadeiro “faz-tudo”. Em todo caso, ainda estamos no território dos oprimidos. A palavra “germania”, por sua vez, vem do espanhol “germanía”, que a partir do século XVI passou a designar um conjunto de rufiões, ou ladroagem, e que, a partir do século XVII, passou a significar também “gíria de ladroagem”. Nessa perspectiva, a gíria pode ser compreendida como uma ação bandoleira com relação à própria língua: ações de saque e contrabando nas relações consolidadas do poder. Espécie de Robin Hood urbano, que redistribui a riqueza entre a comunidade dos falantes. A gíria é uma espécie de reforma agrária da fala.

*

O aluno que me cumprimenta com a palavra “suave” me é impenetrável. Ele possui diversos signos que muitos na escola tomam por avisos de um marginal em potencial. Não sou iniciado no seu código específico, como o são dois ou três de seus amigos que o cumprimentam com uma leveza muito particular. O que restou comigo, porém, foi essa qualidade suave da gíria. De certa forma, me fez pensar nela como uma tática de guerra tão límpida que é quase como se não o fosse. Como certas armadilhas vietnamitas, que dizem terem resistido ao tempo durante muitos anos, tamanha era a perícia dos vietcongues em camuflar o oficiado.

O poema “Saques” de Waly Salomão está em sintonia com essa qualidade da gíria:

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SAQUES

Ainda há focos de incêndio no pavilhão

E a laje ameaça desabar.

Um cruzado mané-ninguém surta em majestade

Rompe o encouraçado cordão de isolamento

Escalha a pilha de escombros

Alça os braços aos sete céus e clama:

– Assim me falou o Rei Invisível:

“Sois a alma do universo”.

Convoca falanges, coortes de legionários desembestados,

Uma gentinha que aplica lances e golpes e vive de expedientes,

Famílias famélicas

E sua prole prolífica

Gatinham no garimpo do galpão em chamas.

O homem do riquixá garante seu espólio:

Comidas, freezers, aparelhos de ar-condicionado,

Blusões e tênis enfarruscados.

Dois homens colocam outro freezer numa carroça

E saem em disparada no foco da fotografia.

Três mulheres de Tatuapé carregam sabonetes sem marcas,

Mesas e cadeiras de ferro.

Um Raimundo empurra um carrinho de pedreiro lotado de britas,

Pedaços de concreto, sacos de arroz, de feijão.

“Nunca comi esse tal de atum, agora vou experimentar” –

Testemunha a desempregada de nascença Josete Joselice, 56,

Mostrando para a câmera da TV uma latinha chamuscada.

Lá nas alturas do monte,

Uma moça banguela ergue no pódio seu troféu de pacotes de mozarelas.

Como valentes, finca teu estandarte

No meio do deserto.

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Nota:

[1] Exatamente por isso, a gíria é capaz de converter-se, como qualquer outra fala, em opressão. É neste momento que ela deixa de ser uma gíria para se tornar uma norma, em torno da qual o diferente se estrutura como anormal.

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Sobre Rafael Zacca

Poeta e crítico literário, cursou a graduação em História e o mestrado em Filosofia na Universidade Federal Fluminense. É membro do corpo editorial da Revista Chão, onde mantém a coluna Sucesso de Sebo. Integra, no Rio de Janeiro, a Oficina Experimental de Poesia.
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